FAMÍLIA OFICINA

 

"A HISTÓRIA DO RISO" compilado de Georges Minois in, "A HISTÓRIA DO RISO E DO ESCÁRNIO"

I - A GRÉCIA

"Tendo rido Deus, nasceram os sete deuses que governam o mundo...

Quando Ele gargalhou, fez-se a luz...Ele gargalhou pela segunda vez, tudo era água. Na terceira gargalhada apareceu Hermes; na quarta, a geração; na quinta, o destino; na sexta o tempo. Depois, pouco antes do sétimo riso, Deus inspira profundamente, mas ele ri tanto que chora, e de suas lágrimas nasce a alma."

Quando o mundo ocidental se solta ele se volta inevitavelmente para a Grécia . Onde encontra uma constatação: os deuses riem;

Nietsche dizia que só acreditava num deus que dançasse. Osho , num deus que ri, Na Grécia os deuses riam e dançavam.

O cômico reside tanto, ou mais, nas interpretações do que no episódio original;

II - RISO SARDÔNICO -

O riso sardônico é o riso que vem do sofrimento. Quando uma pessoa morre queimada o calor e o sofrimento fazem que sua boca se abra num ricto de dor, com os dentes cerrados lembrando um riso. Sem alegria. A mesma coisa quando se é atingido e  ainda se consegue debochar dizendo: não doeu...não doeu!!! enquanto a dor toma conta da gente.

III - O RISO NAS FESTAS GREGAS DA ANTIGUIDADE

O riso é essencial nestas festas, exceto nas mais solenes. Nestas festas o símbolo de contato com o divino é o riso.

Risos e lágrimas, comportamentos irracionais, são símbolos de possessão dos homens pelo divino.

A antiga mascarada grega tem também o caráter de alteridade, ou seja, ser outro para se ver melhor. Assim, homens se travestiam de mulheres, representavam as mulheres, para se tornarem mais homens após a festa.

As festas “para rir” estabeleciam o caos, a desordem, tudo virava de cabeça para baixo, para que ao final delas a ordem fosse restabelecida. Este era e é até hoje (o carnaval) o sentido ritualístico destas festas. Portanto as festas nada teriam a ver com a necessidade de diversão, como afirmam os moralistas, mas com algo muito mais transcendental.

Em “As Bacantes” de Eurípedes, Penteu se recusa a participar da festa em honra de Dioniso a quem agride e humilha, exige a manutenção do “sério” e a festa acaba em tragédia com as mulheres da bacanal atacando-o mortalmente julgando ver nele uma fera que precisava ser abatida.

O riso é uma ritualização do instinto de agressão, uma válvula de escape que nos permite viver em sociedade.

Em “As feiticeiras de Salem”, Tituba a escrava negra, de costumes antigos leva as meninas brancas para a floresta e lá cantam , dançam e riem em louvor aos deuses.  Esta festa “sacrílega”, esta “desordem social”, termina com um dos mais absurdos e estúpidos processos que a humanidade já assistiu, e com a punição de Tituba com a morte, por parte da sociedade puritana do lugar – Nova Inglaterra, EEUU, século XIX. A ordem voltava a reinar.

IV - A COMEDIA GREGA – SEC V AC

Dioniso, deus do vinho e da embriaguez, por conseqüência é o deus do riso, das ilusões, das fantasias que a embriaguez traz. Mas a embriaguez também traz a agressividade animal contida em nós. O riso agressivo, que encobre desejos homicidas.

Dioniso ao embaralhar continuamente as fronteiras  entre o ilusório e  o real acaba sendo também o deus do teatro.

Por ser agressivo e risonho e misturar tudo é que o teatro grego traz tanto a tragédia , quanto a comédia, sendo que os autores da época escreviam nos dois gêneros.

O riso da loucura é necessário à saúde da cidade, da sociedade, porque ele se contrapõe à lógica racional de Atenas e Apolo, este último, o deus da Harmonia, da Beleza, o deus matemático e racional. Lógico.

Nas dionísicas rurais – festas rurais em louvor a Dioniso, na colheita da uva  – os camponeses mascarados e pintados saíam em procissão carregando um falo imenso e cantando refrões e canções zombeteiras e obscenas. Terminava com uma saída:  o Kômos, quando os camponeses desfaziam a procissão  e cantavam , riam e interpelavam os passantes. Era a Komôdia, e eles os Kômodoi – comédia e comediantes. Era o riso com a agressão verbal, com a subversão. Como no Carnaval .

Disto , surge o autor cômico Aristófanes, estamos falando de 500 anos antes de Cristo. Entre muitos de sua época Aristófanes destaca-se. E que traz nas suas comédias a agressão verbal das dionísicas.  A Paz; A Greve do Sexo; Assembléia de Mulheres; e muitas outras comédias, com humor bruto e sobretudo criticando os políticos e a sociedade política da época.

Logo depois a democracia grega entra em crise com a Guerra do Peloponeso, e a censura ao humor político e bruto se instaura. Processos, agressões, etc .etc.  Podia se fazer comédias, mas que não tocassem na questão democrática, nem política. Que se falasse de costumes em geral, de forma alusiva e superficial.  Muito semelhante à comédia neo-liberal e pequeno burguesa de hoje: fala-se do trivial, mas nunca do sério. Critica-se o óbvio privado e pessoal, inofensivo ás instituições e ao sistema. Surge a nova comédia grega com Menandro.

V - O GRUPO E O RISO

 

O grupo reforça sua solidariedade pelo riso e manifesta sua rejeição do elemento estranho pelo mesmo riso. Riso impiedoso e agressivo.

O riso é em primeiro lugar uma maneira de afirmar o triunfo sobre o inimigo do qual se escarnece. Em Sófocles o riso dos inimigos é a expressão de uma perpétua ameaça Que pesa sobre a honra de cada um.

O riso é antes de tudo um cálculo, é uma arma, uma vontade deliberada de unir excluindo.

O riso humilhante também pode ser usado no seio de um grupo  para reforçar os vínculos.  A exclusa de um membro do grupo pelo uso da brincadeira.

O elo entre o riso e a agressão pode ser encontrado na cidade guerreira de Esparta, onde as pessoas são treinadas, desde a mais tenra idade,a suportar a zombaria sem se alterar.

Com a decadência da economia grega e sua civilização, ajudados por Platão e Sócrates que faziam, a apologia da ciência da lógica e da razão, entra em cena a decadência da Tragédia grega, e consequentemente da Comédia . Esta passa a ser mais leve. O riso deve ser controlado, o riso de Dioniso é destruidor. O riso na nova economia deve servir para confirmar a moral  e manter o estabelecido.

A nova comédia, a néa dirige-se a um público mais refinado, que paga ingressos para assisti-la e não quer se ver ameaçado ou achincalhado nos seus valores sociais e políticos.  Os domínios gêmeos da política e da obscenidade cedem lugar aos assuntos domésticos, às relações sentimentais, , conjugais e familiares em que a moral sempre se salva. E a História sempre se repete. Podemos ver isto nestes últimos vinte anos de neo-liberalismo no Brasil. A distância que vai entre “O Rei da vela  e “A Partilha “ por exemplo.

Na Grécia, Menandro é o mais novo representante desta nova comédia. Onde  a moral  convencional é sempre preservada. É o riso de bom-tom.Quem seria no Brasil?

VI - O PÚBLICO PODE LIBERAR PELOO RISO AQUILO QUE LHE PROVIOCA MEDO

Há uma verdadeira inversão: o riso não é mais utilizado pela comédia para amedrontar, mas para vencer o medo. O tratamento da velhice, neste sentido é significativo. Em vez da imagem trágica da velhice, enviada pelos deuses: a idade que é triste e que mata, surge a caricatura grotesca. A velhice dá medo, a velhice odiosa, inabordável, sem amigos e que se resume nela todos os males: o riso pode aliviar esse medo, e na comédia os velhos são grotescos já que não são mais capazes de desfrutar os prazeres da vida, e que a proximidade da morte torna vão todos os seus projetos. O único velho não risível é aquele que não faz nada, que não bebe mais e que não se deita com mulheres. Se ele procura “viver”  é repugnante ou ridículo. Nele, os vícios ou as simples paixões tornam-se automaticamente cômicos: o velho lúbrico, o velho avaro, o velho bêbado,o velho avaro, o velho amoroso, a velha intrometida certamente fazem rir.

Para Aristófanes, e para seus contemporâneos, o  velho já passou da idade do amor físico, até porque sua feiúra torna revoltante  qualquer idéia de relação sexual; a velhice é oposta ao erotismo e a simples idéia de que um velho ainda possa ter desejo é suficiente para torná-lo repugnante no espírito de um grego, para quem , beleza e juventude e amor são indissociáveis.

Também os velhos que trapaceiam sua idade são um dos assuntos prediletos da comédia. As mulheres velhas são ainda mais desfavorecidas, porque envelhecem mais rápido que os homens.”As mulheres (está em Lisístrata) tem um período muito curto; se ela não o aproveita, ninguém mais quer desposá-la e ela fica lá, consultando o futuro”.

Em Menandro o velho é sobretudo uma vítima a lamentar: “Aquele que vive muito tempo morre desgostoso, a sua velhice é penosa, ele passa necessidades. Aqui e ali encontra inimigos. Tudo conspira contra ele. Não se foi na ocasião propícia, não teve uma bela morte”.

“Velhice, tu és inimiga do gênero humano; és tu que deterioras toda a beleza das formas, transformas  a beleza dos membros em peso, a rapidez em lentidão.” Não são os velhos que são odiosos, mas a velhice.

A decadência da sociedade e da democracia grega , à exemplo do Brasil de hoje torna tudo uma baixaria só. Ri-se de tudo: não há diferença entre políticos, oradores, embaixadores e palhaços e bufões. Tudo está no mesmo saco.

VII –  OS BUFÕES

Na Grécia antiga já existiam os bufões. Bobos da republica grega. Eram comuns em festas e banquetes. Eram quase institucionais, haviam até manuais de chalaças e anedotas no século 3 antes de Cristo. Pra vocês verem como existem piadas velhas rsrsrsrs estas três abaixo constam deste manual grego que se chamava “Amigos do Riso”

1 – Um estudante que acaba de vender seus livros escreve ao pai: “O senhor fique tranquilo que meus estudos já começam a render”.

2 – Um professor de medicina responde ao doente que se queixa de ter dor de cabeça sempre meia hora depois de acordar: “Acorde  meia hora depois” !

3- O marido pergunta à mulher ninfomaníaca: “Mulher o que  vamos fazer: Comer ou fazer amor?” e ela responde:

-O que você quiser. Não há nada para comer”.

Com o passar dos tempos os banquete foram ficando refinados e exigiam outra postura.Aristóteles confirma este refinamento passando a exigir  que “A ironia convém mais ao homem livre que à bufonaria, já que o homem livre diz a pilhéria para seu próprio prazer , e o bufão o faz para prazer do outro.”

 

VIII – SUBSTITUINDO O RISO

Esta mudança de postura do riso ocorre a partir do século IV AC. O riso arcaico, devastador, agressivo e triunfante é substituído pelo riso moderno, irônico, comedido, colocado a serviço da moral e do conhecimento.

Demócrito diz: “ É o homem que me faz rir: ele é cheio de deboches e vazio de ocupações racionais. Ninguém entre nós conhece coisa alguma.E não sabemos sequer se sabemos ou não sabemos.” O homem , sem a mínima idéia da verdade, está sempre a se preocupar, a se criar problemas, a ter medo. Marck Twain disse que ao chegar à velhice percebia que 90% das problemas com que se preocupou nunca aconteceram.

Portanto, para Demócrito, nada é para se levar á sério, já que tudo é ilusão, aparência, vaidade – tanto os deuses como os homens.

Já, o riso dos cínicos é diferente. Praticando a ironia de forma  provocativa , eles perseguem de fato uma moralidade.

Diógenes que consagrou o desprezo por todas as convenções sociais fazia suas necessidades e copulava em público. Neste ponto o nosso Lobão não chega no chinelo dele. Um dia um homem recebeu Demócrito em casa e lhe disse: “Não escarres no chão. A casa é limpa”. Demócrito que estava querendo escarrar escarrou na cara dele, dizendo “Foi o único  lugar que me pareceu mais sujo para isto.”

“O Cinismo é um moralismo frustrado e uma ironia extrema” diz um filósofo polonês contemporâneo.

O riso necessita de um mínimo de distância em relação ao real.

Um ia em que Demócrito se masturbava em praça público gritou aos céus: “Seria bom que bastasse a gente esfregar assim o estômago e a fome passasse.”

Durante uma refeição jogaram-lhe um osso como se fosse um cão. Então, no papel de cão ele urinou em cima de todos os que estavam à mesa.

O cínico vê o mundo às avessas.

O riso cínico é um riso desesperado.

 

IX -  O ERRO DE DEUS

Na Grécia antiga diz Alcebíades sobre o riso de Sócrates:”É uma forma de educar. Para ensinar, para formar o espírito. O riso pode ser um instrumento a favor do pensamento. O riso não é a forma suprema do pensamento, mas já é pensamento, é parte integrante do pensamento sério.”

Wiesel diz: “Sabes o que é o riso? É o erro de Deus. Deus ao criar o homem dotou-o deste mecanismo, que acabou servindo de vingança do homem contra Ele mesmo. Quando Deus foi ver já era tarde para retirar do homem este poder.”

 

X – OS ESTÓICOS

Entre os gregos havia também correntes de pensamento que defendiam a seriedade do ser, e estes desconfiam do riso, que é preciso enjaular, enfraquecer,  supervisionar, regulamentar. Não se pode deixar em liberdade uma força tão perigosa. Já que não se consegue eliminá-la, é preciso confiná-la num papel subalterno. A válvula de segurança.

Os estóicos são pessoas sérias. Eles não riem Dizia Epitecto: Não rias muito, nem de muitas coisas. Não faças os outros rirem. Essa é uma maneira de deslizar para a vulgaridade e também de fazerem seus vizinhos perderem o respeito por ti.E se vais à comédia, abstém-te totalmente de rir, de gritar , de rir do ator...do contrário será sinal de que te apaixonaste pelo espetáculo!”.

Para os estóicos o riso é sinônimo de bobagem, de vulgaridade, de incapacidade de transformar o mundo. Aquele que ri dissocia-se do seu objeto de riso. Afasta-se da realidade em vez de integrar-se nela.  Os que se integram não riem: o militante, o revolucionário, o político, o funcionário, o policial, o apaixonado não se sentem tentados de rir daquilo  que defendem.

Os pitagóricos também não riem. Pitágoras tornou-se impassível, mergulhado no seu universo de números.

Platão desconfia do riso. Diz ele” Na vida urbana deve-se abster de rir. Essas caretas de fealdade que são produzidas quando se ri,  são indecentes, obscenos, indignos e inconvenientes, perturbam o espírito e traduzem a perda de controle de si mesmo. Rir nos torna feios, tanto física quanto moralmente. É por isso que as leis deveriam proibir nossos autores de fazer de qualquer de nossos cidadãos um personagem de comédia. Se é para fazer comédias deve-se rir de estrangeiros e escravos, assim mesmo comedidamente.  Há um domínio onde o riso é expressamente proibido: a política. Não se deve zombar dos homens públicos, e estes para manter sua função de forma exemplar devem permanecer sempre dignos e  sérios.

O riso faz as pessoas perder a lucidez e o controle de si mesmos, indispensáveis a um dirigente. As artes e a literatura nunca devem representar os homens importantes rindo. Isto solapa seu prestígio e é degradante.”

Portanto, com Platão, o riso domesticado, reduzido a um magro sorriso é limitado a um uso parcimonioso a serviço da moral e do conhecimento. O riso arcaico, agressivo, barulhento está domado: desse mal é preciso fazer um bem domesticando-o.

 

XI – ARISTÓTELES

Aristóteles também classifica a comédia como gênero literário inferior à tragédia. “A comédia que representar os seres inferiores, enquanto a Tragédia quer representá-los superiores aos homens da realidade” (Poética) O que resume em dizer que o riso degrada os homens e a tragédia os eleva.

Aristóteles rompe completamente com o riso homérico, dionisíaco, arcaico. Para ele, só se pode rir de uma deformidade física se ela não for sinal de dor ou doença. O riso só é aceitável em pequenas doses, para tornar mais agradável a conversação, com brincadeiras finas e que não magoem.

Há um abismo entre os textos teóricos, entre os filósofos e críticos e a prática social. Enquanto os que não gostam do riso arcaico o condenam os gregos – e nós- continuamos a rir desbragadamente em casa, no trabalho etc. etc..

Mas Aristóteles era um homem ponderado, de bom senso (rsrsrsrs) esta ponderação, este bom senso ou juízo, vai servir séculos mais tarde à burguesia que será a terceira via na revolução francesa e que imporá o drama, o caminho do meio entre a gargalhada da comédia  e o choro da tragédia. Este ponderado Aristóteles exige um riso  não escandaloso ou anárquico, e exige também uma finura no trato com o trágico.

Eis que surge Plutarco e prepara a base para a repressão cristã ao riso. Dois domínios sagrados devem escapar ao riso: a lei e a religião. Para ele rir é igual a ateísmo.  O riso é expulso dos céus. Antes os deuses riam de uma gargalhada nascera o mundo. Agora, com um deus monolítico, onipotente, sem fissuras, inquestionável o riso é uma ruptura deste poder. E em Deus não pode haver a menor fissura. O diabo tenta utilizar o riso para rachar, fender, ferir a fé e Deus.

 

XII – O HUMOR DE ROMA

Dada a flexibilidade do latim, como língua, surge em Roma a arte de trocar letras dos nomes próprios para dar sentido debochado aos mesmos. Essa coisa por exemplo, de chamar o Ministro Mantega,de Manteiga ; Zeca Pagodinho de Seca Pacotinho etc. etc. nasceu na comédia romana.

A sátira encontra boa guarida em Roma.  E para os que se horrorizam e acham grosso certo humor feito hoje em dia, vejam o que o imortal Horácio escreve sobre uma velha apaixonada. O que ele diz deixa no chinelo qualquer grossura posta em cena hoje em dia:

“Ousas me pedir, velha podridão centenária, que gaste contigo meu vigor, quando tens os dentes pretos, tua figura toda sulcada de rugas e entre tuas nádegas murchas boceja uma pavorosa abertura como a de uma vaca que digeriu mal? Crês porém poder me excitar com teu tronco, teus seios pendentes como as tetas de um jumento, teu ventre flácido, tuas coxas gretadas que terminam em pernas inchadas?...Meu membro  está menor e mais mole. Para levantá-lo da minha virilha desgostosa precisarias trabalhar com a boca...melhor que ninguém reconheço um pólipo, e o fedor de bode sob os sovacos peludos. Que suor escorre sobre seus membros murchos, que odor se espalha por toda parte quando, com meu membro lânguido, ela ainda quer, sem descanso, acalmar sua raiva indomável !”

XIII – A SÁTIRA EM ROMA

Muito antes de Cristo, já os romanos e latinos em geral usavam a sátira da forma mais cruel possível. Falando do Imperador César, o sátiro Suetônio diz que ele era “rival da Rainha e parceiro íntimo do rei da Bitínia”. Aliás era comum nos cortejos vitoriosos dos generais e Imperadores os soldados do ultimo batalhão virem cantando impropérios contra o vitorioso, para lembrá-lo de que é homem e não deus. Só mais tarde, com a ascenção completa de Roma os sátiros passam a louvar a autoridade do momento e a manutenção do status quo, deixando as grosserias para os governantes que passaram. Isto se deu depois que muitos deles foram castigados até mesmo com a morte por suas diatribes. Então a verve destruidora e agressiva volta-se para si mesma, fazendo piadas inocentes, de costumes, com jogo de palavras e humor refinado e de espírito. Aliás não difere muito de hoje. Um humor mais cruel e grosseiro jamais encontra patrocínio, crítica boa no Globo, ou até mesmo teatro para se apresentar. Se não são mortos ou açoitados , são pelo menos banidos do dia a dia os sátiros deste grau.

 

XIV – O RISO FESTIVO DAS SATURNAIS E DAS LUPERCAIS

Duas festas chama a atenção: as Saturnais em honra a Saturno e as Lupercais (que seria o nosso carnaval de hoje) em que o riso é o elemento essencial.

Nestas festas tudo acontece ao contrário. O tempo , ele mesmo, está invertido. De dia dá-se boa noite e de noite dá-se bom dia . Tochas acesas durante o dia e apagadas à noite. Aclamação de um novo sol à meia noite. Saturno era associado a Janus (Janeiro) o deus bi. Os homens vestiam-se de mulheres e cantam com voz de falsete.

Durante as saturnais que duravam 12 dias usava-se a língua do “p” e invertia-se as palavras para se comunicar, provocando com isto trocadilhos e chistes que levavam ao riso.

Os que não aderiam aos festejos eram lambuzados de preto, negros como a lua nova.

É preciso lambuzá-los, sujá-los, zombar deles.Não há nada mais intolerante e impiedoso que uma assembléia de pessoas que riem.

O riso das Lupercais já por sua vez estava associado a uma vida nova. Ritual de renascimento,.  Matavam-se cabras, e jovens de família nobres são tocados na fronte com a faca manchada de sangue, enxugam-lhes a face com a lã molhada no leite das cabras e os jovens devem começar a rir, depois o couro das cabras é cortado e fazem-se correias com ele. Os jovens saem então nus cobertos apenas com uma pequena tanga e vão açoitando as pessoas que encontram no cainho. As mulheres jovens ao correm deles, pelo contrario: deixam-se açoitar acreditando que desta forma engravidam mais facilmente.

 

XV- A CATARSE DA COMÉDIA

Há sempre nas comédias latinas a figura do escravo esperto, expedito, que sempre engana seu amo. É ele o verdadeiro heróis destas peças, que nesse sentido se aproximam do mundo invertido das saturnais.

Outro personagem presente é o Velho. Que é sempre zombado, ridicularizado exposto na sua avareza, lubricidade, e que monopoliza o dinheiro e as mulheres. A grande quantidade  de velhos nas comédias de Plauto denota bem o problema social que já se apresentava no século II A.C.. Todo poderoso, pelo “pater famílias” (observe-se a proximidade semântica entre “pater” (pai) e “potere” (poder)) o velho é detestado  sobretudo pelos jovens que ficam à mercê de seu poder. E as famílias esperam a sua morte com ansiedade, sobretudo em funçãod a sua herança de “potere”.

Muitos adjetivos sobre os velhos são encontrados nas comédias romanas, a saber:

Imundo, cor amarela, hálito fedorento, fedendo como um bode, cabelos brancos, bexiguento, barrigudo, queixudo, pés chatos, sórdido, oscilante, doentio, descarnado, dobrado em dois, trêmulo, beiçudo, rabugento, resmunguento, feia coisa velha, murcho, usado, frouxo, velha carcaça decrépita, tagarela burro.

Outra característica da comédia latina é que os personagens zombam de si mesmos. Ninguém se leva muito a sério, feliz ou infeliz cada um sabe se observar e caricaturar-se a si mesmo.

A comédia latina servia como válvula de escape de uma sociedade extremamente rígida e legalista.  O riso contribuiu muito para a longevidade do mundo romano.

 

XVI – O DECLÍNIO DO RISO NA DECADÊNCIA DE ROMA

Roma declinou ao  mesmo tempo que sua capacidade de rir.

A desconfiança em relação ao riso aparece pouco a pouco no mundo romano.

Cícero  louvava o riso, mas cem anos depois Quintiliano já  deplorava.

Para Cícero, o domínio do riso é “sempre uma feiúra, um defeito físico. O meio mais poderosos, senão o único, de provocar o riso é ressaltar uma dessas feiúras de modo que não seja feio.”

Há mil maneiras de fazer rir , por palavras e por idéias. Por palavras o trocadilho, a palavra de duplo sentido, a palavra inesperada,a cacofonia, as metáforas etc. etc.. Por idéias o humor de situação, com esquetes, anedotas, piadas, etc etc..

Para Cícero o riso é uma arma , um meio que pode servir para atacar, defender, aconselhar,m ensinar,exemplar. E para ele o riso deve ser elegante , polido, inventivo, deve respeitar o estatuto social, evitar a grosseria.

Cento e vinte anos mais tarde Quintiliano afirma que o riso é destruidor, suspeito, desestruturador, fomento de desordem; perigoso para o poder pois faz perder a dignidade e a autoridade. Demoníaco mesmo.

Os romanos dos séculos III e IV DC não podem sequer rir das suas desgraças. Antes mesmo do desaparecimento do Império eles entram no “vale de lágrimas” que a nova religião do “crucificado” lhes prepara.

 

XVII -  O RISO É COISA DO DIABO NA IDADE MÉDIA

“O riso não é natural no cristianismo. Do que poderia rir um Ser todo-poderosos, perfeito, que se basta a si mesmo, tudo vê, tudo sabe e tudo pode?

As três pessoas divinas , puro espírito sem corpo, imutáveis, e imóveis estão eternamente absorvidas em auto-contemplação” diz Geroges Minois em “ História do Riso e do Escárnio”.

“O riso não tem lugar no Jardim do éden. Lá tudo é perfeito . Eis que surge o Maligno, sob a forma da serpente. O pecado original é cometido, tudo se desequilibra e  riso aparece quando as criaturas tornam-se decaídas.Agora não é mais o paraíso. Pode-se rir do outro que tem um sexo, que peida, que arrota, que defeca, que se fere, que cai, que se engana, que se prejudica, que se torna feio, que envelhece e que morre.Afinal, um ser humano ! Uma criatura decaída.

Os primeiros episódios da Bíblia não tem nada de engraçado: Caim mata Abel; vem o Dilúvio e  Deus faz a humanidade perece; mistura as línguas; extermina Sodoma e Gomorra.

O primeiro riso vamos encontrar em Sara, que tendo 90 anos, Deus diz a ela que deve ter um filho com Abraão que tem 110. Sara ri. E Deus se irrita com sua falta de fé.

A história santa é a história séria por excelência. Não se brinca com a salvação eterna  da Humanidade.”

Ou como diz Donald Murray: “é evidente que um livro de borda dourada, revestido  de couro negro, com o título de Livro Sagrado gravado em ouro sobre a lombada não pode ser um receptáculo de humor. Também é evidente que os puritanos, e os vitorianos, viam aí uma fonte de pensamento mortalmente sério e de austeridade moral.”

“Mas, a partir de 1950 o tom muda. O humor está na moda, é de bom gosto. Na sociedade atual ser desprovido de humor é quase uma doença. De repente todo mundo, a começar pelos evangélicos, redescobre o riso bíblico...atualmente são  os textos desesperadores e trágicos que passam desapercebidos” diz ainda George Minois.

 

XVIII – O RISO BÍBLICO

Nos escritos mais antigos da Bíblia o riso de alegria simples é raro. É o riso do retorno dos exilados, da restauração de Israel, como no Salmo 26 “ Nossa boca se enchia de riso...”!

No livro de Jó encontramos: riso de alegria “Deus vai encher tua boca de riso” e de zombaria “ Eu sou a risada dos mais jovens que eu” e de desastres “Desastres, penúria, rirás de todos eles”.

Nos provérbios encontramos a condenação do riso maldoso: “O zombador tem horror à humanidade” e “muitos castigos estão reservados para os escarnecedores”.

Certamente Deus ri de tempos em tempos, mas isso é apenas uma imagem. Não há mais o riso ritual, organizado, como uma função religiosa como nos deuses gregos , nas saturnais e nas lupercais. Menos ainda dionísias. A concepção linear da História proíbe isto, já que a Criação ocorreu de uma vez por todas. Sendo o riso portanto é um comportamento estritamente humano, surgido depois da Queda e que é um dos símbolos da decadência humana.

 

XIX – JESUS RIU?

Os Evangelhos e demais livros não fazem menção do riso em Jesus. São os adversários dele, os maus, que riem, desde  a humilhação do “Rei dos Judeus”.As beatitudes condenam o riso neste mundo: “Felizes de vós que agora chorais, rireis depois...” Nas epístolas Paulo condena o riso e proíbe as blagues licenciosas.

O tom está dado: em toda parte onde se fala do riso no Novo testamento é para condená-lo como zombaria, sacrilégio. Portanto já que em lugar algum fala-se que Jesus riu, é porque ele não riu e os cristãos devem imitá-lo em tudo e portanto não deve rir. Começa a se formar a mentalidade que levará à perseguição dos que riem e dos comediantes. Bruxas gargalham, inquisidores são sérios em nome de Jesus.

Herdeiro do mundo hebraico, o cristianismo poderia ter recebido seu senso de humor, entretanto o passou inteiramente a seu irmão mais velho: o judaísmo. Este mantém grande familiaridade com o divino, como em Woody Allen “Deus não existe, mas somos seu povo eleito.” Isto no cristianismo seria blasfêmia, sacrilégio, que pesam sobre qualquer brincadeira com o divino. Qualquer brincadeira com o divino é anátema no cristianismo, que embora afirme que Jesus é inteiramente homem sempre lhe recusou as particularidades da natureza humana, como o riso e o sexo. Para o cristianismo é suficiente aceitar que ele comia

O dominicano Dominique Cerbelaud., diz eu depois de dois mil  anos o cristianismo esteve em posição de domínio muito mais que de dominado, aliado íntimo dos poderes sempre disputou com eles  a posição suprema Logo, sendo poderosos, não poderia admitir o riso que é sempre forma de crítica e  de qualidades julgadas subversivas.

“Entretanto no mundo humorístico de hoje, que tanto admira os cômicos, os cristãos esforçam-se para demonstrar que Jesus, se não era um palhaço pelo menos era um gracejador” diz Georges Minois. Suas parábolas seriam cheias de ironia às práticas hipócritas dos fariseus. Mesmo o “Da a César o que é de César” e o “Atire a primeira pedra quem não tiver pecado “. Jesus, portanto tinha senso de humor. Mas enquanto homem ele pode rir, Enquanto Deus não pode. Portanto entremos num dilema que foi assim solucionado por pierre lê Chantre no século XII : Jesus podia rir, mas não riu !

Para afirmar o contrário só com a palavra com a qual a Igreja resolve tudo: mistério !!!!

 

XX – DIABOLIZAÇÃO DO RISO PELOS PAIS DA IGREJA

Para os primeiros cristãos o riso é diabólico.

Satã que aparece discretamente no velho testamento,  no novo é citado 188 vezes e é um anúncio direto da visão apocalíptica dos primeiros cristãos. O fim do mundo está próximo diziam eles.

Ninguém contribuiu mais para demonizar o riso que os pais da Igreja. Tertuliano investe contra a s comédias e espetáculos que fazem rir. Basílio de Cesaréia escreve que “não é permitido rir em qualquer circunstância porque o riso ofende a Deus”. Na epístola 22 ele diz que “o cristão não deveria rir, nem tolerar os que riem ou fazem rir.” Porque o riso vem do prazer carnal, logo, vem do Diabo.

Santo Ambrósio escreve parecido: “O Riso é inconveniente, contrário aos ensinamentos do Cristo e para dizer tudo: diabólico !”

Para Santo Agostinho : “Eu vos rogo que coloqueis a razão acima do riso, porque nada é mais vergonhoso que um riso que só é digno de zombaria”.

Já São Jerônimo pega um pouco  mais leve: “Existe o riso excessivo e sonoro, aquele que sacode o corpo, riso dos judeus, dos estudantes, dos bêbados , dos bárbaros e dos espectadores de comédias, que é condenável; e o riso moderado cujo exercício pode se considerado para a educação da juventude cristã.”

Clemente de Alexandria em seu tratado “O Pedagogo” afirma: “Aqueles que sabem imitar o risível, sobretudo o ridículo, devem ser expulsos da nossa república.”

 

XXI – COITADO DE SÃO JOÃO CRISÓSTOMO ...

Entre os inimigos do riso na filosofia católica, um dos mais ferrenhos foi São João Crisóstomo ( 344 a 407 dc) . Diz ele que “os divertimentos não são dons de Deus , mas do Diabo.”

Em “Comentário sobre a Epístola de São Paulo aos Hebreus” diz ele:

“Vós,  com esse riso ousado, imitais as mulheres insensatas e mundanas,e ,como elas que se espreguiçam sobres as pranchas do teatro, tentais fazer os outros rir.Nossos assuntos sérios tornam-se objetos de risos, de deboches, de gracejos e de trocadilhos.; Não há nada de sério, de grave, na nossa conduta. Não escutastes São Paulo gritar que “toda a vergonha, que toda a tolice de linguagem, toda a bufonaria seja banida do meio de vocês”?  Vocês que riem digam-me onde viram que Jesus Cristo riu? Em lugar nenhum. A contrário: em várias passagens vocês o viram aflito. Amargurado; à vista de Jerusalém ele chorou; ao ressuscitar Lázaro também verteu lágrimas. E Ele ainda disse: “Infeliz daquele que ri, pois ele chorará”.Mas talvez haja aqui alguns tão devassos, tão efeminados,que nossas censuras os fazem rir ainda pelo simples fato de que falamos do riso, é  uma insensatez.

Porque vocês ,mulheres, que colocam um véu sobre a cabeça ao entrar na igreja,  riem?Vocês entram na Igreja para suplicar, para se prosternar diante de Deus pedindo que perdoe seus pecados, e entretanto riem!”

“Não nos compete passar o tempo  rindo, nos divertindo e nas delícias. Isso só é bom para as prostitutas de teatro. Para os homens que as freqüentam...Assim que esses bufões ridículos proferem alguma blasfêmia ou palavra indecente, logo uma multidão de tolos põe-se a rir ae a demonstrar alegria. Eles os aplaudem por coisas que deveriam fazer com que fossem apedrejados e atraem assim, sobre si mesmos, por meio desse prazer infeliz, o suplício do fogo eterno.

Puxa !!!!

 

XXII – O RISO E O SAGRADO NA IDADE MÉDIA

A repetição de proibições é sempre índice de sua ineficácia. Na Idade Média, o cristianismo que não pôde eliminar o riso, começa a a assimila-lo; A Igreja, apesar da sua rigidez de fachada possui um extraordinário poder  de adaptação.. O que não pode destruir, ela assimila, integra  à sua substância, como o Capitalismo ( vide o movimento hippie da década de 70, Woodstock etc).

Na Idade Média, Satã, o demônio, que na Grécia era quem trazia o riso aos homens, passa a ser motivo de chacota e vítima do riso , ele mesmo, pelos pais da Igreja e por sua dramaturgia.

Em Diálogos o Papa Gregório, o Grande relata a seguinte história: uma religiosa queria salada; gulosa, morde uma folha esquecendo-se de fazer o sinal da cruz; ora, um diabinho estava tranquilamente  sobre a folha, tirando a sesta. É engolido e a religiosa fica possuída. Um abade intervém para exorcizá-la  e o diabinho se espanta por ser chamado para a briga:  “o que foi que eu fiz de errado, eu estava dormindo sobre a folha e ela veio e me comeu” Assim o diabo evolue para o burlesco.As desventuras dos demônios vão fornecer uma miríade de histórias engraçadas na Idade Média. Satã trouxe o riso que agora é voltado contra ele. Que adaptação da Igreja , hein?

Os Diálogos sobre os Milagres DE Cesário de Heistebach por exemplo é cheio de humor, revelado entre o trivial e o sublime. Um sujeito atormentado por tentações grita aos céus “Senhor, se na me livrares das tentações eu vou me queixar à sua mãe !” Não terá sido por aí que Ariano Suassuna reescreve ,adapta, e cria o Auto da Compadecida?

Descobre-se que é preciso zombar do sagrado , porque quando não se zomba mais de uma coisa é porque ela está moribunda. Não tem mais valor para ser mexida.

 

XXIII – UM TEMPO PARA RIR, UM TEMPO PARA CHORAR

Mesmo com toa esta condenação por parte dos cânones religiosos, ainda assim na Idade Média a confusão sobre o riso se estabelecia. O riso, apesar de tudo explodia aqui e ali.Vários escritores como defensor de LIgugé, que escreveu o livro das faíscas, admite o riso, desde que moderado, sem gargalhar. Gargalhar pertence ao home grosso, bronco. O fino apenas sorri. Np século VI, Boécio  em um comentário sobre uma obra de Porfírio, vê no riso uma prerrogativa do homem  racional.  E no século IX um monge, Noker lê Berge, define o homem como um animal mortal, racional e capaz de rir. O riso é portanto colocado no mesmo  nível da razão, como particularidade fundamenta do homem em relação à Besta.

Desde a época merovíngia ( por volta de 450 dc) os dignitários da Igreja possuem seus bufões. Ao passo que os regulamentos canônicos proíbam esta prática e assinalem que é proibido aos clérigos de representar papéis de  bobos, de “joculators” – termo que vem de “jocus”, “brincadeira”, “jogo”, e que dará “jogleur” em francês e “jogral” em português.

A atração pelo grotesco permanece, assim por v volta de 449, Teodósio o Imperador  romano, contrata os serviços de um anão : Zercon. Um anão corcunda, estropiado, vesgo e sem nariz.

Os imperadores  bizantinos também tem seus bobos.  Um deles, Dandery, bobo do imperador Teófilo (829 – 842 dc). Em943 o rei da França, leva ao campo de batalha seu “mimus” que diz a bestice de que na guerra cristã as pessoas morrem com “odor de santidade”. O cronista Ordenico Vital diz que Deus o puniu, fulminando-o com um raio no dia seguinte ao que proferiu esta frase.

Veja portanto mais esta contradição: deve-se rir, mas não se pode brincar com o sagrado. A confusão se confirma, mas há um consenso que permite o riso nas festas : riso pascal, Carnaval, festa dos bobos e festa do asno. Pouco a pouco progride a idéia bíblica  segundo a qual “há um tempo( e um lugar)  para rir, e um tempo ( e um lugar) para chorar”. Começamos a caminhar para “o lugar do riso” que cito no meu livro “Humor , Graça e Comédia”.

 

XXIV – O RISO BANIDO DOS MOSTEIROS

Na Idade Média monges ousavam rir e brincar. Logo uma série de proibições e regulamentações os proibiram de tal.

São Bento pede a um monge que não use palavras vazias e nem amar o riso excessivo e barulhento. Ele atingirá o décimo grau de humildade se não rir. Rir do outro sobretudo ´[e sempre presunção e sinal de superioridade. O tolo gargalha, diz São Bento.

O 11° grau de humildade se dá quando o monge definitivamente não ri de nada. Rir é sinônimo de leviandade e orgulho.

No século VI a Regra de Paulo e Estevão diz claramente que o riso está a  serviço do diabo.

O inferno é o lugar do riso nas ordens monásticas.

Há um relato de um certo Drictelmo, ressuscitado, que tendo passado uns dias com Satã ouvia no Inferno gargalhadas terríveis. E almas penadas choravam enquanto os capetas riam.

Na Regra do Mestre datada também do século VI diz-se que “o riso é a vingança do diabo, e eis os perigos contra os quais devemos nos guardar...bufonaria...riso prolongado...gargalhadas...cantarolar... Tudo isso não é de Deus, mas do Diabo e no dia do Juízo Final quem se rendeu ao riso irá para o fogo eterno”.

Para todos os fundadores das ordens religiosas, o riso é considerado inimigo da perfeita vida cristã.

Nascia e se fortalecia na Idade Média o preconceito contra o riso. Que permanece até nossos dias. O Capitalismo é coisa séria, e só permite o riso se ganhar dinheiro com ele. Vide o Carnaval e todas as festas datadas.

 

XXV – O RISO MEDIEVAL

Para o historiador russo Bakhtine existe na idade Média duas visões do mundo: a visão séria, das  autoridades, e a visão cômica, do povo.

A visão do povo evoluiu fora das esferas oficiais e tornou-se extremamente libertária, e lúcida.

Ela se exprime por três formas:

1 – Ritos e  espetáculos tais como Carnavais e peças cômicas;

2 – Obras cômicas verbais ( trovadores etc)

3 -  Desenvolvimento de um vocabular familiar e grosseiro ( como Lula falando “porrada” em seu discurso)

A visão cômica do povo na Idade Média necessita do carnaval para a inversão dos valores, para afugentar os medos. Trovadores etc em cujas trovas as autoridades e os sérios são motivos de chacota; e um vocabulário não erudito, mas grosseiro.

Daí surge o que Bakhtine chama de “realismo grotesco” que é melhor exemplificado nas pinturas de Jeronimo Bosch.

O traço marcante do realismo  grotesco é o rebaixamento de tudo que seja elevado, espiritual, ideal, . Então o cômico grotesco vai se inspirar no “baixo” , mais das vezes da cintura para baixo: a absorção do alimento, as secreções, o acasalamento, o parto na sujeira, os dodores e ruídos do baixo ventre...

A visão clássica do mundo, representada pela estética clássica, insiste no permanente, no estável, e só vê no grotesco popular , grosseria, insulto, sacrilégio, vontade subversiva de rebaixamento. A visão séria é acompanhada de interditos, restrições, medos, e intimidações. Ao contrário a visão cômica  popular, ligada à liberdade, é uma vitória sobre o medo.

Já vimos, salvo engano, em capítulo anterior que quando uma sociedade sente-se tomada de surpresa por novos valores, e com medo ela apela para o grotesco. Se repararmos as faces de Lula e do pessoal do PT veremos que elas são muito mais grotescas que as “elegantes” e “harmônicas” faces de FHC e a turma do PSDB. A própria linguagem de Lula é grotesca e vulgar. O rosto , as imagens e canções de hoje,  no poder ou  em qualquer lugar são mais grotescas que elegantes. O Brasil está vivendo seu momento grotesco.

 

XXVI – O CARNAVAL É CRISTÃO OU PAGÃO?

 Na Idade Média o símbolo do riso é a festa coletiva: o Carnaval.

Para uns historiadores a perpetuação das festas pagãs, para outros uma tradição cristã. Para uns os festejos agrícolas em louvor a Dionisos. Para outros a despedida da carne – cene levale -que prepara a Quaresma.

De toda forma vale notar que o Carnaval é hoje e há muito, uma festa urbana,  particularmente desenvolvida em regiões de cidades importantes onde as alegres sociedades e as corporações assumem a organização dos divertimentos.

A participação das autoridades no Carnaval demonstra que não se trata de manifestação ou revolta, ou contestação. Desde a Idade Média, poderes eclesiásticos e municipalidades  controlam e utilizam o jogo-espetáculo para manter seu prestígio e sua popularidade por meio de concessões ao riso. “Todos os governos toleram  de bom grado estas brincadeiras pesadas, que, por algumas horas desafiam a sua dignidade e zombam de suas maneiras e posição social. Afinal, farsas tão grandes não ameaçam tanto. “

 

XXVII – O CARNAVAL NA IDADE MÉDIA

O riso carnavalesco tem sempre um função de liberação, das necessidades recalcadas. O riso carnavalesco está lá para dar segurança,, para vencer o medo. Por isso vemos no Carnaval figuras monstruosas, falsamente assustadoras que ameaçam atacar, provocar medo sabendo “que é para rir” é um  meio de exorcizar o medo.

A dança e o riso têm a virtude do exorcismo. A dança muitas vezes nasceu de passos para esmagar e enterrar influências perniciosas, e o riso tem o poder de dissipar os temores da noite.

A mascarada é no início o desejo de imitar, mas sem contestar.Somente a partir de 1380 o tom se torna acre e contestador: as desgraças da época motivam isto.

O riso do carnaval é também o riso da loucura. A demência é um tema muito difundido na Idade Média, mas é ambíguo. Entre a loucura puramente lúdica e a loucura  que conduz ao caos, depois do pecado original, a fronteira é muito fluida.O bobo evoca a completa reviravolta de valores.. Ao mesmo tempo é “inocente” , “Irresponsável”, logo, protegido por Deus. Navega entre deus e o Diabo. A figura do bobo existe de forma oficial  em todas as sociedades.

Na Idade Média o riso carnavalesco é antes um fator de coesão social que de revolta. O carnaval é uma inversão necessária para manter o poder e as coisas como estão, após as festas.

O uso da máscara remonta a tempos longínquos quando havia o costume de se lambuzar  o corpo para se assemelhar ao dos animais selvagens, como o urso. No termo latino “masca” pode-se ver uma sobrevivência das crenças relativas ás almas do outro mundo. Logo, muitos religiosos poderiam ver nestas máscaras a presença do demônio.

XXVIII – O CHARIVARÍ

Os charivarís são gargalhadas tumultuosas. O charivari começa por volta de 1350 e vai até meados de 1800. O charivari consiste num agrupamento ruidoso de membros da comunidade dos vilarejos, entre os quais alguns vão disfarçados e batendo sobre utensílios de cozinha. Eles se encontram diante da casa de um dos paroquianos que está excluído do grupo por uma atitude irrepreensível. A balbúrdia de jovens mascarados com seus tachos, panelas, tamborins, sinos, matracas, e berrantes , podia durar uma semana diante da casa das suas vítimas , até que elas aceitassem e pagassem  uma multa. O charivari aplica-se aos maridos que apanham das mulheres, aos avarentos, aos bêbados, aos delatores , aos maridos que freqüentam prostíbulos, enfim, a todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, excitam contra eles a opinião pública da comunidade local.

O agente da sanção é o riso.Barulhento, agressivo e de exclusão. O charivari faz  rir muito , mas aqueles que são visados jamais se livram do ridículo e da vergonha que ele causa. O riso do charivari é típico  da tirania do grupo contra a liberdade individual. Acontece numa sociedade corporativa, profundamente antiindividualista. Esse riso é um instrumento de opresssão que não tolera a diferença. É obrigatório e vexatório.

As sanções geralmente são determinadas por tribunais de jovens. Havia por exemplo a fogura do “barão”, um paroquiano que representa uma figura que é acusada de sandices, fofocas, prejuízos etc. . Às vezes trata-se de um boneco de palha que é surrado e queimado durante o Carnaval.  Vem daí a queima e malhação de judas.

O riso nessa época, e com o charivari é uma arma opressiva a serviço do grupo, uma arma de autodisciplina.

 

XXIX -  A FESTA DOS BOBOS, OU "VAMOS RIR DO CLERO"

Na Idade Média, apesar de toda a rigidez da Igreja e do clero acontecia o que se chamava a festa dos Bobos, e a festa do Asno,  que introduz o riso nos meios eclesiásticos. Como a liturgia e a vida religiosa  era uma repetição constante de sons, gestos, etc. etc. tudo isso era muito enfadonho. Por baixo deste enfado brincava-se e ria-se na missa e nos eventos. Isto deu origem por volta d0 século XIII a várias festas ligadas ao clero que tinham por nome s Festa do Bobos. Era como se hoje se chamassem de Festa da Bobeira, todo mundo de bobeira. Havia liturgias, onde para quebrar a rotina os padres dançavam e eram aprovados em suas danças pelos bispos locais, que também dançavam. Isto me lembra o contemporâneo Padre Pinto, da Bahia, que foi dançar e “dançou”. As danças vêm  a desaparecer nas Igrejas no século XVI. A Festa dos Bobos pertencia aos jovens noviços e sacerdotes, cuja idade mínima era de 14 anos. Por um período eles invertiam toda a liturgia e os padres e cardeais deviam pedir bênção ao Rei dos Bobos, sob pena de punição. Os jovens tinham o direito de zombar de tudo, de criticar tudo na Igreja. Com o tempo isto foi num crescendo até vir a serem  proibidas tais festas por volta de 1440, porque “fantasiados, os clérigos, jogam cartas, fazem patuscadas, entoam canções libertinas, juram, blasfemam, debocham da liturgia, parodiam as cerimônias mais sagradas e queimam chinelos velhos no lugar dos incensos.”

 

XXX – A FESTA DO ASNO

Esta era outra festa que acontecia nos vilarejos e cidades a partir da liturgia católica. O asno em questão era o jumentinho que carregou Jesus  em sua entrada no Domingo de Ramos. Era originalmente uma maneira de homenagear o humilde, o pequeno, o ignorante, o inocente . Mas era uma loucura. Punha uma capa num burro e o puxavam pelo rabo para entrar na Catedral enquanto todos entoavam em latim canções religiosas com letras parodiadas. O asno era levado ao púlpito como se fosse um bispo. Depois de entoarem homilias debochadas o asno era levado por toda a cidade que cantava e dançava ao seu redor. É claro que havia setores na Igreja que discordavam  destas festas – a dos Bobos e a do Asno e diziam que elas remontavam ao paganismo. Mas a questão era que tornava-se necessário permitir o riso e o deboche em instituições tão rígidas para que a pressão não fizesse explodir a panela. Assim  estas festas foram sendo preteridas na Igreja  por outras na liturgia católica, mais próximas do Evangelho e suas datas: Natal, São Silvestre, São João, Epifania etc.  até culminar com o Carnaval medieval, datado a partir das Cinzas, criada no concílio de 1090 e  que punha um limite ao fim das brincadeiras e levava os fiéis para a Quaresma. Nos séculos XV e XVI  estas festas já haviam desaparecido e davam lugar a festejos religiosos mais comedidos e domesticados. Mantinha-se o Carnaval porque ele antecipava a Quaresma.

 

XXXI – O RISO NO SÉCULO XIII

Entre tantas festas e ,manifestações do riso há que se registrar dois tipos de confrarias do riso: a dos Goliardos e a dos Meirinhos. Os primeiros eram como os hippies do século XX: a vagabundagem é que torna seu riso perigoso. Riam sem limites, e não estavam interessados em se integrar á sociedade. Eram monges, e noviços que acreditavam que a essência divina é incompreensível, maior que tudo, e que portanto nada poderia ser levado à sério.  Eram repudiados pela Sociedade, pois já naquela época os homens de negócio e as demais autoridades riam, mas riam comedidos e sabendo que deve ser limitado e passageiro. Por outro lado, os Meirinhos eram membros de ordens burocráticas, intelectuais, todos jovens,  legisladores, advogados etc. Estes riam, mas se integravam à Sociedade. Riam com recato. Eram pessoas  estabelecidas. Nesta época começam a surgir as primeiras companhias de paródias – mais tarde , de teatro –  “Companhia da mãe Louca”, “Crianças descuidadas”, “Cornudos da Normandia” etc  etc. para vcs verem que “F,...e Privilegiados” ou coisas parecidas,  nos dias de hoje  nada têm de modernas. Já existiam companhias com nomes ousados há pelo menos 800 anos.

XXXII – O RISO AMORAL DAS FÁBULAS

Na Idade Média, entre 1100 e 1400, vamos encontrar as fábulas.  Pequenos contos em versos. Brutais, grosseiros, cínicos, obscenos mesmo, em que se fala sem cessar de cu, de cona, de foder, cornear. Os autores quase sempre anônimos eram jovens noviços, monges, sacerdotes decadentes,  apóstatas e clérigos errantes. Vão até mesmo á blasfêmia, nada detém os autores, como em “O Bispo que Benzeu a Cona” ou em “O Padre Crucificado!” que conta a história  de um padre que surpreendido pela retorno inesperado do marido, completamente nu finge ser Cristo crucificado. Os personagens são às vezes sonhos freudianos como “A Moça que não Podia Ouvir Falar  em Foder” é a  história de uma jovem que desmaia toda vez que ouve a palavra foder (Já usamos algo parecido no “Cabeludo” do Cordel, com a  empregada.)A violação dos tabus é assim uma das características dos contos para fazer rir.

O clérigo é sempre mal retratado: avarento, concubinário, cúpido, aproveitador de situações. Contudo a  fábula abstém-se de qualquer julgamento e o padre que copula com suas paroquianas e que consegue isso graças à sua astúcia é antes um personagem positivo. Da mesma forma, nesta fábulas, o conteúdo da religião não é contestado de frente, mas a blasfêmia ousada, o juramento excessivo: “Pelo cú de deus!” , “Pelo cú da Virgem Maria”, são clamores raivosos contra a dominação de um sagrado injusto, opressivo e angustiante.

A fábula também se coloca diante de outro grande medo universal: o da morte. Numa história o coveiro se debate com um cadáver que teima em não se deixar enterrar, até que o coveiro lhe dá com a pana cabeça e o morto “remorre”.

XXXIII – O RISO INDIVIDUALISTA DA FARSA

A imoralidade da fábula, embora tenha a ver em comum com a da farsa, difere porque a farsa já é teatro. Ao ar livre. A farsa aparece por volta de 1250, mas desaparece pela Guerra dos Cem anos e volta com força a partir  de 1450. Reaparece em meio a representações religiosas, como um entre ato. É curioso que farsas imorais venham mescladas com as moralidades dos autos religiosos. Mas este é o universo da Idade Média, ainda não havia o pensamento cartesiano. A carnalidade das farsas servia para demonstrar nossa origem pecadora dentro das representações religiosas. Assim um espetáculo completo e era precedido pela soltura de diabos na cidade.: indivíduos vestidos como demônios espalham-se pelas ruas, perseguem os habitantes e podem mesmos  sequestrá-los para exemplá-los. Os pobres é que representam os papéis de diabos, daí nasce a expressão “pobre-diabo”. Esses pobres, que puxam o “diabo pelo rabo” são insolentes como o diabo. fazem um barulho dos diabos , e fazem o diabo a quatro no placo, num mistério religioso. Nesse período também o louco torna-se muito popular. O louco e o diabo têm em comum o fato de haverem transgredido uma regra, uma norma: a norma da razão, da moral.. Eles são associados há tudo que há de ruim, de feio no  mundo e além disso fazem rir.

Os diabos na rua faziam um barulho horrível usando sinos e badalos de animais, soltando urros e gritos.

Era uma loucura aos nossos olhos as representações das farsas com os mistérios religiosos. Vê-se por exemplo na Farsa  “Jenin, Filho do Nada”  representada a seguir de um “Mistério da Paixão”em que se vê o referido Jenin manipular o falo gigante de um padre e expressar a sua admiração:

“Jenin - Meu Deus, como vossa coisa é grande. E os a colocais aí dentro?

Padre -  Não toque aí.

Jenin – Ela tem dentes? Vai me morder se eu a tocar?”

Imagine-se a explosão de risadas que isto provocava. Voltamos a lembrar a questão da carnalidade.

A mulher infiel, o marido corno e o padre amante são por demais relembrados. Numa farsa a mulher briga tanto com o marido que este exclama: “Tomara que apareça um diabo que a carregue”. Imediatamente entra na casa o Padre fantasiado de Diabo e leva a amante.

Como nas fábulas, as mulheres são astuciosas, sexualmente exigentes, guardadas por um marido idoso que não pode satisfazê-las. Enquanto há na paróquia uma quantidade de jovens padres disponíveis. Isso tem a ver com o alto índice de mortalidade feminina. Então os viúvos acabavam casando com moças novas, de novo.

Mas a questão é que a farsa é individualista por excelência, ela reforça o individualismo dos seus heróis. O importante é se dar bem. O indivíduo se dar bem, com astúcia e esperteza. Mas isto, naquele tempo refletia uma revolta contra uma sociedade que era plenamente coletivista: igreja, paróquia, bairro, vila, corporações etc. etc.

XXXIV – TUDO SE COPIA

Por volta do ano de 1200 surge na paródia um personagem que mais tarde vai dar origem ao grande romance de “Todo Mundo e Ninguém” . É a história de Nemo. Para quem não sabe, Nemo em latim significa em relação  a uma pessoa “ninguém”, “coisa alguma”, “sem nome”. Relembrem o Capitão Nemo de “20.000 Léguas Submarinas”, de Julio Verne, e agora recentemente o peixinho Nemo. São os autores contemporâneos brincando com um nome parodiado muito antigo. Assim, em 1200 o autor dizia “Nemo come, Nemo dorme, Nemo trabalha e isto servia a mesma coisa que dizer:: Ninguém come, ninguém dorme, ninguém trabalha. Mais tarde já no período Vicentino – Gil Vicente – vamos encontrar a farsa de “Todo Mundo e Ninguém” do tipo : “Todo Mundo quer dinheiro e Ninguém trabalha”.

 

XXXV - O RISO CONSERVADOR DOS PREGADPRES

Na Idade Média reconquista-se, ao mesmo tempo, o humor eclesiástico. Muitos pregadores usavam de humor nas suas prédicas, desde que um humor conservador e rígido. Mas, contar as moralidades com humor mantém acordados os fiéis, diziam eles. Algumas ordens menos humoradas, outras, como os franciscanos levando ao pé da letra a rase de seu fundador Francisco de Assis : “joculatores Domini” = Eu sou o palhaço do senhor. E realmente Francisco determinava a seus discípulos que mantivessem sempre a face risonha, e muitos deles faziam verdadeiras palhaçadas em seus sermões. Em muitos mosteiros franciscanos haviam sessões de “riso solto”.

Os monges mendicantes da Idade Média, por trabalharem nas ruas e em contato com o popular contam historias e fábulas muito divertidas. Uma delas era  a de uma mulher simples que ouvindo o juiz dizer que só trabalhava se tivesse a mão “engraxada” unta-lhe a mão com banha de porco fervente.

As fábulas contadas á época pelos monges rompiam até mesmo com a reverência religiosa. Numa delas um açougueiro vendia carnes estragadas aos peregrinos. Aprisionado pelo Sultão  e condenado à morte  ele afirma em sua defesa que melhor seria o Sultão deixá-lo viver, porque ao vender carnes  estragadas ele matava mais cristãos que as tropas do Sultão.

Noutra anedota,  durante a encenação da Paixão de Cristo,  um dos ladrões ouve Cisto dizer “Tenho sede”. Pensando que  se tratava do ator e não da personagem , ele grita na cruz da esquerda : “Uma cerveja pra mim também !”

Noutra, durante um naufrágio o capitão ordena que joguem ao mar as coisas mais pesadas. Um homem aponta para sua mulher e diz: “a língua dela é o que pode haver de mais pesado neste navio”.

Os monges portanto usavam estes contos cruéis para com o próximo como forma de combater o mal, excluindo os maus do convívio normal. (continua)

 

XXXVI – O RISO CONSERVADOR DOS PREGADORES  (continuação)

O riso dos pregadores religiosos é um riso de exclusão que recorre à cumplicidade de auditório para lançar a ovelha negra nas trevas eternas.Curiosamente esta cumplicidade se forma com o público feminino que freqüenta os sermões em maior número que os homens. Há relatos de que as mulheres iam aos sermões como a um divertimento. Jogando inconscientemente com estes elementos os pregadores  exploram o riso usando-o também para opor-se à emancipação das mulheres. A evolução sócio cultura dos séculos XII e XII , no meio urbano, oferece à mulher novas possibilidades de afirmar seu papel: o contexto mais refinado das cidades permite variar sua indumentária,, a maquiagem , ampliar os encontros e  recepções, ter amantes, introduzir-se nos negócios, enfim ,., sair de seu papel de reprodutora e submissa. O riso dos pregadores procurar também ridicularizar esta mulher “moderna”. Te riso também se volta contra os maus clérigos: estava em curso a moralização da Reforma Gregoriana. ( Papa Gregório).O riso dos sermões é um riso de combate; é uma arma a serviço da moral cristã, contra o mal e os vícios.Mesmo com alguns franciscanos caindo na bufonaria, o riso continua em sua maioria visto como um instrumento delicado  e colocado sob suspeita.São Luíz, rei da rança, abstinha-se de rir na sexta feira e quando se surpreendia rindo neste dia imediatamente tornava-se sério.

Os pregadores utilizavam o riso em todos os domínios , incluindo o sagrado, porque o riso para eles é sempre um meio , nunca um fim, e , sabe-se na Igreja Medieval o fim justificam os meios. Se o risos serve para edificar, tudo pode. Nisto reside a diferença entre o riso clerical da Idade Média e o nosso de hoje. Naquele tempo o riso era apenas um meio. Sempre usavam o riso com alguma finalidade. Esta era a forma de combater os vícios e pregar a moralidade, mas sobretudo de ridicularizar os tempos modernos que chegavam, a evolução socioeconômica e a urbanização que trazia a depravação dos costumes. Esta modernização trazia mais liberdade para o individuo e menos força para as estruturas coletivas repressoras como a Igreja que se construiu sobre estas estruturas. Assim, embora parte do clero usasse o riso este riso era conservador. Visava sobretudo debochar, destruir, desmoralizar os novos tempos urbanos e burgueses que se avizinhavam.

 

XXXVII – O RISO IMPERTINENTE DOS CLÉRIGOS

É muito interessante de observar que durante boa parte da Idade Média ( a chamada Alta Idade Média, 100 a 1300 DC) os monges, os clérigos, sobretudo os mais jovens brincavam e troçavam à vontade, sobretudo dos ofícios religiosos. Aproveitavam-se do fato da língua religiosa ser o Latim, desconhecido do povo, para fazer paródias com ela, paródia cantadas, dando outros sentidos aos sons da língua latina.

Até a oração do Credo era ridicularizada:

“Creio no jogo de dados,

Que muitas vezes me ganharam

Bons bocados que comi,

E muitas vezes me embriagaram,

 E sempre me livraram

Das minhas roupas  até a última peça.”

Segundo Georges  Minois esta permissividade por parte da Igreja e da Sociedade denotaria que o Sistema sentia-se tão forte e seguro que se permitia troçar de si mesmo. Coisa que mais tarde não aconteceria, advindo a Inquisição etc..

 

XXXVIII – O RISO SENSATO DO BOBO DA CORTE

Trata-se de um bobo comum, mas que a Idade Média deu lugar de importância: o Bobo do Rei. Os  senhores, as comunidades, as sociedades e municipalidades todas faziam questão de adotar e ter um bobo, como um mascote. Também era possível alugar os serviços de um bufão  profissional. No início a função de bufão parece ter sido mantida pela de bobo, e mais tarde por hábeis  histriões.

Débil mental, o bobo também é escolhido por sua deformidade. Reis faziam coleção de anões e aleijões para  trocá-los entre os demais reis., o rei da Escócia possuía um verdadeiro monstro: um xifópago. Dois corpos incompletos unidos na parte superior.

O bobo carrega consigo um símbolo: um capuz com duas orelhas de asno, símbolos de ignorância e sensualidade.

O bobo veste uma casaca matizada, com bordas em losangos verdes e amarelos.; Verde era a cor da ruína, da desonra, e amarelo a dos lacaios, dos pobres, dos judeus.

Às vezes os bobos eram vestidos como o Rei, e muitos deles ganhavam muitos presentes, um deles chegou a ter 143 pares de sapatos.

Todas as casas reais e  principescas tem seu bobo. Em 1316,  Felipe V , rei da França cria o cargo vitalício de bobo  a título de ofício.

Haviam bobos e bobas,  e eram pessoas conhecidas internacionalmente, e quando eram trocados ou vendidos eram motivos de comentários em todas a s cortes.

Havia inclusive uma “linhagem “ de bobos. Famílias que se dedicaram a prover de bobos as casas reais. Famílias onde os soberanos encomendavam bobos do seu pedigree.

O bobo tinha a grande função de dizer ao rei as verdades que todos lhe ocultavam. Sob a proteção da loucura, ou seja do riso, podia dizer tudo. Só dois profissionais privavam de toda a intimidade dos reis: o bobo e o confessor religioso. Mas os reis davam ouvidos aos bobos, pois estes não almejavam poder, e os confessores nem sempre falavam a verdade ao rei.

O bobo tinha ainda outra função: simbolizava a Oposição. Podia reclamar e falar de tudo diante do Rei. O bobo vem a desaparecer com o absolutismo de Luiz XIV, o Rei Sol, tão absoluto que não ria, claro, afinal ele era o Grande Rei Sol !

 

XXXIX – O BOM E O MAU RISO DO TEÓLOGO

A palavra sorriso vê do latim: subrisus  (ou seja: riso no interior de si mesmo , ou  às escondidas).

Na Idade Média, como não fica claro se Jesus riu ou não, desenham-se duas correntes. Uma para quem o riso é paixão da alma, um fenômeno espiritual, o que não é necessariamente positivo. Para outra o riso é questão de fisiologia. Pela teoria dos humores é ele situado à altura do diafragma. O temperamento sangüíneo é mais inclinado ao riso (arlequim) enquanto o melancólico (pierrô) tende á tristeza. Alguns filósofos e estudiosos da época situam a sede do riso no baço, que se dilata para engendrar os cacarejos que também afetam os intestinos, o estômago, a bexiga e os aparelhos genitais, essas coisas pouco apetitosas que se encontram abaixo da cintura. Sendo tudo isto muito nefasto pode ter conseqüências sobre a saúde: Roger Bacon no século XII desaconselha o riso para os velhos, pois há uma grande perda de  energia. Entretanto já no século seguinte Bocaccio lhe conferirá virtudes terapêuticas.

São Tomás de Aquino dedica parte de seus estudos ao Riso. Entre algumas condenações ao riso desbragado e solto, diz ele: “Nas coisas humanas tudo que vai contra a razão é vicioso.Por exemplo, é ir contra a razão ser um fardo para os outros., não se mostrando alegre e impedindo que os outros o sejam. Pecar é nunca brincar e fazer cara feia àqueles que brincam, repreendendo sua diversão, mesmo que moderada...”

Em boa lógica ele diz que a distração honesta é lícita, logo a profissão daqueles que trabalham com o riso – os comediantes - também o é. Desde que incluam a  moderação conveniente...nada de rolar por terra, sacudir as costas ou bater nas coxas...deve-se respeitar os parentes, os justos, os poderosos, os fracos, a religião, os textos sagrados, e sobretudo Deus. O riso nunca deve ser de escárnio ou zombaria. Zombar do mal não é um bem, pois o mal deve ser levado à sério.”

 

XL –  SANTINHA DO PAU OCO

 Ainda na Alta Idade Média, há que se registrar a presença e influencia de dois santos católicos: Hildegarde e Bernardo, que não eram nem um pouco bem humorados. Segundo seus biógrafos Hildegarde era doentinha, franzina, muito sofredora por questões de saúde, pois era possuída por um demônio que a chamava de “velha encarquilhada”. Este mesmo demônio chamava Bernardo de “Bernardinho” pois este era ainda mais franzino , com uma aparência que era motivo de deboche de todos. Por aí dá para imaginar que estes dois santinhos não podiam gostar muito de risos e bom humor. São Bernardo compara o homem que ri como uma bexiga inflada, sacudida pelo ar que escapa dela. Já Santa Hildegarde, era doentinha, mas como entendia de sexo: “quem ri não é mais que uma bexiga que se  esvazia, o jato de um falo que ejacula às sacudidelas.. O corpo é sacudido  pelo riso como os movimentos da cópula, e  no momento de  maior prazer o riso faz jorrar lágrimas como o falo faz jorrar esperma”. O riso, como o sexo, é fruto do pecado, do demônio.  Diz ela ainda mais : “ O riso é como o peido: é um vento que das medulas percorre o  fígado, o baço, as entre-coxas e que provoca sons incoerentes. O riso arruína seus pulmões, o fígado. Arruína a sua saúde” A santa propõe um remédio contra o riso para se beber, à base de noz moscada, açúcar e vinho quente. Devia dar um barato maior ainda e mais risos ainda rsrsrs.

 

XLI – SANTINHO DO PAU IDEM

Para São Bernardo , recusar o riso era o que distinguia os cristãos dos pagãos. E ele se orgulha dos templários, porque lá os cavaleiros puniam quem ria, entre eles. Lá, ainda segundo Bernardo os templários condenam os cômicos, os bufões, os bobos, porque tudo isso, o riso e os que fazem rir era vaidade vã. Os templários não tomavam banho, não penteavam cabelos e não se barbeavam, e neste estado, suados fedendo, cheios de imundícies e poeira,  avançavam selvagemente contra seus adversários. Nem precisava, só o cheiro...já devia assustar. Rsrsrss

Ao canonizar Bernardo e Hildegarde a Igreja santificou dois inimigos do riso. Felizmente nem toda a Idade Média era composta de bernardos e hildes. Mas, a presença dos dois marca mais uma vez a demonização do riso pelos cristãos.

De toda forma, as risadas da Idade Média são risadas claras. Confiantes. De um mundo que atingiu um certo equilíbrio, que não se questiona e que usufrui  tal força vital que pode dar-se ao luxo de rir de si mesmo. Por um período, pois entre os séculos XIV e XV essa alegre harmonia se desfaz. Tudo se torna mais amargo, a zombaria fica mais maldosa, o riso mais agressivo, Os grandes medos provocam risos nervosos, as faces das feicitceiras ficam horrendas De repente as autoridades  proíbem as festas de paródias onde explodia a subversão. O riso do fim da Idade Média, a chamada Baixa Idade Média é marcado pela volta do diabo. Que por sua vez, prepara  a explosão renascentista que virá depois.

 

XLII    -  O RISO E O MEDO NA IDADE MÉDIA

Um desses limiares marca a passagem da Idade Media para a época moderna.

Entre a metade do século XIV e o fim do século xv. Se o termo "crise" tem um sentido, ele se encaixa justamente ao lon­go desse período, em que todos os domínio os da vida humana foram pro­fundamente perturbados, provocando uma verdadeira mutação das men­talidades. Isso começa no mundo repleto dos anos de 1330, quando a superpopulação relativa determina a volta da escassez e da fome, que tinham desaparecido havia séculos. Depois, quase ao mesmo tempo, na metade do século XIV, inicia-se a mais longa guerra da Hist6ria, a Guerra dos Cem Anos, e surge uma das mais terríveis epidemias que o mundo já conheceu, a peste negra, que matara quase um terço da população. Em uma Europa dizimada, esfomeada, devasta­da, a recessão econômica se instala; as tens6es sociais agravam-se e degeneram: ha motins desde os anos de 1350, revoltas urbanas a partir de 1380. As autoridades civis enlouquecem: crise da monarquia na França, Guerra das Duas Rosas na Inglaterra, conflitos dinásticos ou interurbanos na Espanha e na Itália. As autoridades religiosas cedem ao pânico: O papa­do, de início exilado em Avignon, dilacera-se, em seguida, com O Grande Cisma; circulam rumores do anticristo e de fim do mundo; os astrólogos calculam e elucubram; os profetas aterrorizam-se; as heresias proliferam; feiticeiros e feiticeiras multiplicam os shabats; a dança macabra sai dos cemitérios superlotados para orna­mentar capelas e igrejas; o maremoto turco invade e submerge Constanti­nopla, em 1453. As coisas não são melhores nas universidades, nas quais os pilares da razão são abalados pelo nominalismo. A duvida, o paradoxo da "douta ignorancia" e a loucura estão na moda. A Europa perdeu suas referencias.

 

XLIII –    O RISO E A FÉ SALVADORA

Não ha, portanto, de que rir. E preciso, antes, tremer a chegada do Apocalipse. E, contudo, nesse "outono da Idade Media", o riso amplifica-se, a ponto de cobrir o medo. Quando ouvimos esse riso, damo-nos conta de que os dois fen6menos estão ligados. Não e mais o riso lúdico dos séculos XII e XIII: é um riso desabrido, cacof6nico, contestatório, amargo, infernal - o riso dos alegres esqueletos da dança macabra. Não se ri mais para brincar, mas para não chorar, e os ecos desse riso estão a altura dos medos experimentados.

Prociss6es, bênçãos, intercessão dos santos, indulgencias, novas devoções, sem duvida, ajudaram as gerações do fim da Idade Média a não cair por completo no desespero e na neurose coletiva. Mas, independentemente da Fé, os povos também foram salvos  pelo riso. Os europeus do século xv tentam assegurar-se rindo muito. Diante do grande medo, o grande riso. E se esse riso e desbragado e porque, quanto mais alto e ruidoso, mais ele pode afugentar os maus espíritos, su­focar os rumores atemorizantes, fazer esquecer - durante uma gargalhada ­os perigos que ameaçam. Outros reagem pelo riso: "Eles afirmaram que beber muito, usufruir, ir de um lado para outro cantando e se satisfazendo de todas as formas, segundo seu apetite, e rir e zombar do que pudessem rir era o remédio mais certo para tão grande mal". De igual modo, diante da avalanche de mortos, "eram raros aqueles que se comoviam com as lagrimas piedosas ou amargas dos parentes. Ao contrário, essas lágri­mas eram, na maioria das vezes, substituídas por risos, ditos alegres e fes­tas". E assim que um grupo de jovens, homens e mulheres, decide passar o tempo contando as hist6rias, engraçadas se possível, que comp6em a trama de Decameron.

Essas histórias são tipicamente medievais. Elas não anunciam uma nova era: são o canto do cisne de um mundo que termina, Ao contrário, ha um prazer maligno, como nas fábulas, em rir dos monges dissolutos, em ridicularizar crenças populares.

 

XLIV – VAMOS RIR DO INFERNO

Ri-se também do Inferno, de onde vem um certo Tingoccio, que conta sua estada lá, como uma espécie de paródia de Dante: "Meu irmão, quando cheguei lá embaixo, deparei com um que parecia conhecer de cor todos os meus pecados e que me ordenou prosseguir ate um lugar para expiar minhas faltas no meio de grandes tormentos; ali, encontrei numerosos companheiros condenados a mesma pena que eu; e, lembrando o que tinha feito com a comadre e esperando, por esse pecados, uma pena maior ainda que aquela que me fora imposta, embora estivesse num grande fogo ardente, eu tremia de medo.

“O que  fizeste mais que os outros que estão aqui que tremes  tanto, mesmo estando no fogo?'

'Oh, meu amigo', respondi, 'tenho muito medo do julgamento que me espera por um grande pecado que cometi outrora.' Ele me perguntou qual pecado. Respondi: 'Foi este: dormi com minha comadre; tantas vezes que perdi a pele ali'. Então ele, rindo muito, disse: 'És um tolo, não temas nada; aqui, ninguém liga para comadres'. Ouvindo isso, fiquei  completamente tranquilo". 

 Rir do diabo e do inferno é exorcizar o medo que se tem dele. Ora, o diabo está em toda parte, nessa época. Zomba-se dele e ele zomba dos homens, em uma grande bufonaria trágica.

 

XLV  - Rir do Diabo e do Anti Cristo

Nos dias que precedem as representações dos mistérios, as diabruras se multiplicam, cada vez mais bufas, parodísticas e agressivas. Em um mistério da mesma época, vê-se Satã acompanhado de seis bobos numerados celebrando uma missa parodística; em Paixão de Troyes, o bobo põe o bastão no lugar dos ídolos e declara: o bastão que domina". A entrada do inferno está sempre representada no teatro: é a "Chappe Hellequin", boca do inferno, cujo nome contamina certos personagens, como Arlequim.

O personagem de Satã fica cada vez mais embaçado nas representações, cujo sentido torna-se confuso. Ele é ridicularizado, mas, ao mesmo tempo, defendido, porque aparece cada vez mais sob os traços de uma vítima. Nos mistérios, assiste-se a processos parodísticos em que os diabos são a parte queixosa, acusando Deus de ter cometido uma injustiça contra eles. Eles são escarnecidos, mas sente-se, confusamente, que não estão errados. Em todo caso, tragicômicos. Ri-se do pobre-diabo, bode expiatório, vítima de um Deus cuja justiça parece tão contestável. O que não impede que ele seja levado muito a sério. A multidão participa verdadeiramente do que  vê na cena, a ponto de enforcar o ator que fez o papel de Satã em Paixão de Meaux, ao passo que aquele que representou o diabo em Desespero se suicida tomando veneno.

Nos Carnavais, ele é cada vez mais presente. Em Nuremberg, em 1475, aparece um novo carro durante a parada: o "Inferno", repleto de demônios e bobos. Esse carro logo se toma o centro dás atrações, e o grande jogo consiste em tomá-lo de assalto, o que dá lugar a alegres extravasamentos. Logo, esses confrontos degeneram para lutas religiosas: em 1539, os jovens patrícios colocam sobre o carro a efígie de Osiander, chefe dos luteranos da cidade, no meio dos loucos. O conselho da cidade interdita, então, o cortejo de Schembartlaufer. A mesma degeneração ocorre na Suíça, onde as autoridades tentam disciplinar o Carnaval. Na Hungria, lugar em que as festividades e as mascaradas - descritas, em 1476, por Hans Seybold - duram quase dois meses, o Carnaval está estreitamente associado ao diabo, como o testemunha, em 1502, o franciscano Pelbart Tamesvari, em seu manual de sermões, o Pomerium. Em 1525, o rei da Hungria, Luís lI, usa ele próprio a máscara de Satã, com cornos de boi, bico de cegonha e rabo de serpente, enquanto os nobres se fantasiam de diabos.

 

XLVI – A VINDA DO ANTICRISTO

Nesse fim da Idade Média, a grande questão também é a próxima vinda do anticristo, precursor do fim do mundo. O medo acentua-se a partir do fim do século XIV, estimulado pelas elucubrações proféticas. Desde 1349, o carmelita William de Blofie1d escreve a um dominicano de Norwich que circula um rumor: o anticristo já tem dez anos e vai reinar como papa e imperador. No mesmo ano, o franciscano Jean de Roquetaillade, em seu Liber secretorum eventuum, confirma que, sem dúvida, o anticristo já nasceu: a peste é um indício disso; outras catástrofes virão, pois ele deverá reinar três anos e meio, de 1366 a 1370, antes de ser eliminado por Cristo; virão em seguida mil anos de paz, depois o assalto de Gog e Magog, ao redor de 2370 e, enfim, o julgamento final. Outros colocam o milênio antes do anticristo, mas também utilizam a peste como signo anunciador. Um autor francês da metade do século XIV, meditando sobre a multiplicação das catástrofes, também vê nisso o anúncio da vinda iminente do anticristo. Um autor anônimo inglês, em 1356, situa essa vinda em 1400.

Entre o povo miúdo, o desvario traduz-se por movimentos sociais guia­dos por uma esperança profética. São os flagelantes de 1348-1349, que se fixam sobre a cifra de 33 e meio: 33 dias e meio de procissão, início de um movimento que deveria durar 33 anos e meio, período em que as ordens monásticas desapareceriam e tudo seria substituído por uma ordem nova, pura, desprendida dos bens terrestres e que duraria até o fim do mundo.

 

XLVII – PIRARAM NA BATATINHA

Os astrólogos também se intrometem. Conforme uma predição anôni­ma de 1380-1383, o anticristo nasceu; ele fora anunciado pela conjunção de "Júpiter e Saturno no ano de 1365, que significaria o nascimento de um novo profeta. Este seria o anticristo, que destruiria a fé em Jesus Cristo por três anos e meio. E qualquer um pode reconhecer seu advento pela divisão desses três papas, dos quais um é o mensageiro do anticristo .... Outro diz que, quando a cidade de Paris for ofendida, ela não demorará trinta anos para ser destruída" .

O dominicano espanhol Vincent Ferrier concluiu que o anticristo está chegando à adolescência: ele deve ter nove anos. Em 1410, ele escreve ao papa que a catástrofe é iminente porque o Cisma é a grande divisão anunciada por São Paulo em sua segunda epístola aos tessalonicenses. O anticristo vai reinar por três anos e, depois de seu aniquilamento, haverá 45 dias antes do fim do mundo. Não há chance, segundo Vincent Ferrier, de um milênio de paz. Diante dessa ameaça iminente, trememos, certamente, mas, mesmo as­sim, encontramos maneiras de rir. O anticristo - quem poderia crer? - pres­ta-se aos disfarces carnavalescos. Ele é colocado em cena, em 1331, em O dia do julgamento: reivindicando seus domínios, manda cunhar moedas com sua efígie. Em um mandamento burlesco, é dito que todos os povos devem uti­lizar essa moeda, sob pena de morte. Durante esse período inteiro, o anticristo é apresentado nas farsas como um personagem bobo, o fatuus, que sig­nificava, na origem, o "enfeitiçado". Riem do diabo, riem do anticristo e riem também desses grupos que a pregação oficial torna responsáveis pelas catástrofes do período: os judeus, em particular, mas também os mouros, os heréticos, os feiticeiros e as feiti­ceiras. Os judeus são o alvo preferencial. Em Roma, no século xv, eles se tor­nam, à própria custa, a primeira atração do Carnaval, a ponto de, cerca de 1500, os viajantes chamarem o Carnaval de "a festa dos judeus". Eles pagam duplamente os custos: de um lado, exigem-se deles, por volta de 1400, quinhentas peças de ouro, contribuição estendida, pelo papa, em 1420, a todas as comunidades judaicas de seus estados; de outro lado, eles são fisi­camente atores. A Companhia dos Judeus desfila em trajes amarelos e ver­melhos e, sobretudo, eles devem participar das corridas de judeus, que o papa Paulo II criou ou confirmou ao redor de 1470. Sobre a mais longa avenida da cidade, denominada, por isso, o corso, depois de uma boa refeição,

 

XLVIII  - O RISO DAS FEITICEIRAS

Não existe feitiçaria que não seja fonte de cômico . Os rituais que, supostamente, se desenrolam ao Iongo dos sabás prestam-se particularmente a cenas bufas, como beijar o traseiro de Satã ou o rabo de um gato. Um dos mais celebres manuais de demonologia do século xv, O famoso Malleus maleficarum ou pilão das feiticeiras, redigido em 1484 por Heinrich Kramer e Jacques Sprenger, pode, hoje, ser lido como perfeita obra cômica, ao mesmo tempo burlesca e grotesca, o que não era, evidentemente, a in­tenção de seus autores

O mundo de Kramer e Sprenger é, literalmente, grotesco: tudo é ilusão, porque Satã está em toda parte na obra. Este engana nossos sentidos, trans­formando os homens em animais ou as velhas em moças; ele próprio pode revestir todas as aparências e dar as feiticeiras poderes extraordinários: elas podem deslocar-se voando, provocar metamorfoses ... Uma de suas mágicas favoritas, que ocupa numerosos capítulos do manual- e que revela muito das preocupações dos inquisidores -, é "privar o homem de seu membro viril".

 

XLIX – ANTIGAS PRÓTESES PENIANAS

O que fazem as feiticeiras? Colocam esse órgão em uma caixa ou em um ninho, onde ele fervilha como grandes vermes. Quem perde o sexo pode consultar uma feiticeira para ter um de reserva; ela apresenta à pessoa um magnífico prato deles, dentre os quais se pode escolher um. Os inquisidores citam testemunhos como o daquele homem que escolheu o maior deles, mas não pode obte-lo porque esse imponente penis era de um padre, logo, consagrado. Tudo isso é contado em latim, com a maior seriedade: as feiticeiras colecio­nam grande numero de órgãos de macho, ate vinte ou trinta, e colocam-nos num ninho de pássaro ou encerram-nos em uma caixa, onde eles se mexem como órgãos vivos e comem aveia e trigo, como pudemos constatar e tal como e de conhecimento publico. Um prodígio, se é que se podem escrever coisas semelhantes sem se rir. No mo­mento em que tudo se torna possível pelos sentidos enlouquecidos, nada mais é serio, e só o riso pode dissipar a alucinação. Quando Fouquet, em Mistérios de santa Apolônia, coloca um bufão que abaixa as calças; quando nas ruas se desenvolvem furiosas diabruras e sobre os palcos se afobam títeres com mascaras zoomorfas; quando os demonólogos contam como os diabos, mais numerosos que mosquitos, cortam os ares levando, cada um, um feiticeiro que deixam cair se, por acaso, escutam o som de uma Ave Maria,  devemos não apenas "convir que nossos ancestrais tinham um gosto muito particular pela a farsa, pela malicia, na vida real",  mas também constatar que os homens do século XV, enlouquecidos com as desgraças da época, brincaram com seus medos. Quando o mundo também se torna absurdo, quando as catástrofes se acumulam a esse ponto, que fazer senão rir? Rir de tudo, rir de todos, dos excluídos e dos poderosos, da loucura e da morte, de Deus e do diabo.

 

L – O Riso Chega Até Deus

Deus não é poupado pelo riso, nesse fim da Idade Media. Diante da aparente inércia divina perante as catástrofes, o riso torna-se acusador. Sobretudo, não levanta o dedinho para socorrer-nos. Vós que tudo podeis e que nos amais tanto! Olhai-nos sofrer! Esse é o sentido das preces paroxísticas que vem a luz no século xv. Desta vez, a blasfêmia não está longe, como o testemunham dois Pater Noster do fim do século XIV que, com nuance trocista, felicitam Deus por ficar tran­quilamente no céu, enquanto males de toda espécie se abatem sobre a Terra . Ninguém sabe o que os homens fizeram para merecer semelhante sorte, mas o Senhor tem toda a razão em ficar longe dela.

Uma Ave Maria paroxística dá o mesmo conselho à Virgem: "fica ai em cima!".

 

LI - O RISO AGRESSIVO DAS ALEGRES SOCIEDADES.

Tudo isso anuncia um novo clima, em que o medo dá ao riso um tom agressivo e violento. A mudança é notada especialmente nas festas, sejam elas regulares, organizadas ou espontâneas. A sistematização do riso público e sua organização em instrumento de derrisão social são ilustrados pelo aparecimento, no fim da Idade Média, das "alegres sociedades". Seu papel, contudo, é ambíguo. De um lado, testemunham o rigor do movimento de zombaria subversiva que caracteriza a época; mas, de outro lado, à medida que esse movimento decorre de um molde associativo, ele é circunscrito, delimitado, regrado, organizado, ou seja, ma­nipulado. Passa-se da fase do riso espontâneo, expressão livre da base, à do sindicato do riso. E, então, tudo depende da força e das circunstâncias locais.

Uma das mais célebres, dentre as sociedades, é a "Compagnie Folle de Dijon", ou Companhia da Mãe Louca. Ela aparece em um mandado do du­que de Borgonha, de 1454, que confirma seu direito de organizar, todo ano, a festa dos "bobos alegres" e proíbe qualquer um de opor-se a ela:

E que alegres loucos sem perigo do costume de nossa capela  façam a festa boa e bela, sem ultraje ou deboche. “

Os quinhentos membros da sociedade são oriundos da burguesia, das pessoas da lei, comerciantes, mestres de oficio, e suas atividades giram em torno da celebração da folia. A  frente ficava a Mãe Louca, que era aquele "mais recomendável por sua boa aparência"; cercado de uma corte, ele devia ser muito rico para financiar boa parte das festas. No decorrer delas, os membros ordinários, que se diziam "lunáticos, ventilados, aduncos, almanaques velhos e novos, heter6clitos, joviais, melanc6licos, curralistas, saturninos, fanáticos, alegres, coléricos", formavam a infantaria e desfilavam em roupa de bobos, bastão na Mao, precedendo a carruagem da Mãe Louca. Notáveis da cidade, fantasiados de vinhateiros, declamavam versos satíricos contra as autoridades, civis e eclesiásticas, visando personagens de forma muito precisa. 0 conjunto era organizado e, antes, comportado. A composição social e a proteção ducal parecem garantias suficientes contra qualquer desvio subversivo do riso. A companhia contara, de resto, com membros de prestigio, como Henrique de Bourbon, príncipe de Conde, Henrique de Lorraine, conde de Harcourt, ou o bispo de Langres. Para ser admitido, e preciso submeter-se a um exame cômico, durante o qual se deve ter presença de espírito em replicas e treplicas e recebe-se um diploma em língua burlesca, par6dia do jargão jurídico.

O caráter aristocrático é mais marcado ainda nos Cavaleiros da Ordem dos Loucos, fundado em Cleves, em 12 de novembro de 1381, por Adolphe de la Marck, conde de Cleves, e por 35 senhores que, quando da assembléia anual, vivem em total igualdade. Nesses corte­jos, satirizam-se os acontecimentos marcantes do ano transcorrido.

Todas essas sociedades representam um contra-poder burlesco, com seu abade, bispo, príncipe, mãe, com títulos cômicos: príncipe dos tolos, príncipe da alegria, príncipe dos estouvados, mãe Época. Freqüentemente, ha um abade de Maugouvert - isto é,  de mau governo - que a preside, o que fornece ocasião para processos burlescos em que a hierarquia e invertida.

 

LII – A SUVERSÃO DO RISO NAS SOCIEDADES

Atrás da fachada dos estatutos dessas sociedades e dos vagos resumos dos cronistas, memorialistas e redatores de diários pessoais, adivinha-se, porem, que, na realidade, essas manifestações aparentemente inocentes podem dar lugar a derrapagens e extravasamentos, quando ressurge o elemento subversivo do riso. As regras da polícia, aplicáveis ao tempo do Carnaval, por exemplo, deixam pressupor tumultos. Em 1494, ordena-se a todos os estrangeiros que vem participar do Domingo Gordo, em Arras, que deixem as armas com seus hospedeiros; solicita-se aos vagabundos que saiam da cidade e barra-se o acesso aos parapeitos. E um período muito difícil para as autoridades, confrontadas com um enorme afluxo de forasteiros, uma desordem incontrolável, em favor da qual, acobertadas pelas mascaras, todas as bandalheiras são possíveis. Um sinal revelador dessa dificuldade de administrar a situação e que, em 1490, foi suspenso o exercício normal da Justiça; pede-se aos sargentos para não efetuar prisões durante as festas. A cidade esta nas mãos de sua dezena de alegres sociedades.

Ora, essas sociedades não parecem contentar-se em brincar de queimar gatos nem o Rei Carnaval em distrair gigantes; elas derivam para a oposição político itico-religiosa, que pode, sob a cobertura do riso, descambar para a heresia. Nessa cidade de Arras, em 1439, foi queimado, como valdense, o poeta Jean Frenoye, que tinha sido, outrora, um dos soberanos de alegres sociedades, o abade de Pouco Juízo. Os valdenses de Arras, suspeitos de formar uma seita diabólica, celebrando missas parodísticas, eram, alias, chamados de buffones. Os elos entre as alegres sociedades, heresia e feitiçaria também estão estabelecidos em Cambrai. Em 1459, em Langres, e queimado outro herético, também ex-Abade de Pouco Juízo, o pintor Jean Lavite. Da mesma forma, são prováveis as relações entre a seita herética dos Turlupins, impor­tante em Lille nos anos de 1460, e uma sociedade de atores de Abbeville.

Com a Reforma, esses vínculos se reforçam. Em Valenciennes, uma alegre sociedade, a Principado da Diversão, e acusada, diretamente pelas autoridades, de usar utilizar o riso e a ironia a serviço do diabo e do calvinismo . As mesmas acusações se aplicam aos Tolos de Gene­bra e as Crianças sem Cuidados de Guyenne. Em 1549, uma "criança sem cuidados" de Rouen foi presa em Noyon e queimada em Paris.

O riso da festa não e apenas suspeito de conluio com a heresia; ele pode também ser instrumento de desestabilização das autoridades civis. Todos os anos, durante o Carnaval, os "Connards" de Rouen e Evreux, dirigidos por seu Abbas Cornadorum, ridicularizam os magistrados e manter um tribunal sob as janelas daqueles de quem querem escarnecer. Alias, as vitimas são cavaleiros, mestres, senhores. Tudo isso, sob o efeito dos males do tempo, corre o riso de degenerar

LIII  - DA LOUCURA NEGATIVA À LOUCURA POSITIVA

Em todas essas manifestações, observa-se a onipresença da loucura, que cada vez mais fascina o homem do fim da Idade Media. O louco, com sua roupa tradicional, está presente em toda parte. O louco sempre inquietou o homem racional, que, de bom grado, atribuiu à divindade a origem das desordens de comportamento, nomeando, por exemplo, a epilepsia de "grande mal" ou "mal sagrado". A loucura: possessão diabólica ou possessão divina; fala-se igualmente, na Idade Média, do "louco Jesus": este não bendisse os pobres de espírito, e sua sabedoria não é loucura para os homens? O louco pode ser o morosofo, aquele que diz a verdade. Loucura e misticismo mantêm vínculos misteriosos.

Do outro lado, a rejeição. O louco é aliado do diabo, a representação do irracional; perigoso, é freqüentemente excluído, expulso, às vezes em gru­pos miseráveis. O sucesso do tema da loucura  é tal que se vê aparecer pouco depois, nos Carnavais alemães, um carro que é a nave dos loucos. A bordo, figuras grotescas ou monstruosas, designando, às vezes, indivíduos específicos ou diabos, dentre os quais um, todo de preto, lança fogo ou água. Os diabos e os loucos estão no mesmo barco. É a nave do mal Nos Carnavais, a nave dos loucos era, finalmente, tomada de assalto e incendiada.

Os homens que abandonaram os valores tradicionais são loucos e deve-­se zombar deles. Às vezes, obrigam certos criminosos a usar o habito de louco em sua execução; é o caso, em Paris, em 1530, de um vigário que matou seu superior e, em Rouen, em 1533, do padre Etienne Ie Court. E uma associação comum da loucura ao mal, ao diabo, a morte.

Nas cidades medievais, o louco serve de alvo para os sarcasmos, para os apelidos, para as pancadas; Bode expiatório e burro de carga, o louco torna permissível rir dos males, dos perigos, das angustias. Eis por que ele está tão presente no Carnaval.

Pode acontecer que, no Carnaval, pelo menos, não sejam os loucos os mais visados. Perseguem-se os sensatos, os sábios, os censores. Mas que diferença faz se o triunfo coroa os loucos ou os sábios? Na realidade, são ha um vencedor: o riso.

LIV - A FESTA SOB VIGILÂNCIA

Deus pune os zombeteiros e não acolhe de bom grado, no paraíso, os que riem. Como o demonstrou o grande estudo de Andre Vauchez, A san­tidade no Ocidente nos Últimos séculos da Idade Media, todos os canonizados da época, em particular os bispos, são santos tristes: "Jovens tristes - Pierre de Luxembourg lembrava, rudemente, a seus próximos que 'Cristo nunca riu' -, adolescentes desencantados com a realidade e que mais nada esperam das instituições eclesiásticas, esses são os santos bispos do fim da Idade Media, no território francês"

As autoridades agora estão decididas a reprimir as manifestações coletivas do riso, acusado de ameaçar a paz social. Aqui, impõe-se a insolúvel questão de saber quem começou: as autoridades iniciaram o com­bate as festas populares, até então inocentes, porque a cultura de elite esta­va evoluindo para formas serias e ordenadas, considerando a diversão do povo como superstição? Ou as festas populares transformaram-se em moti­vo de tantos problemas que as autoridades foram obrigadas a punir? Dito de outra forma: as elites decidiram matar o riso popular ou o riso popular decidiu subverter as elites, provocando a reação destas ultimas?

É impossível destrinchar o problema. Não se pode, honestamente, esta­belecer a anterioridade deste ou daquele agente. Como acontece nos pro­blemas socioculturais, tudo está misturado. Se é possível estabelecer uma prioridade, ela recai, provavelmente, sobre o medo. As espantosas crises suscitam pânico, angústia, tensão, confronto: senhores e burgueses temem as reações do povo camponês e urbano e adotam medidas repressivas para assegurar ordem e segurança; a ralé zomba de maneira agressiva dos diri­gentes, cuja incúria é em parte responsável pelas crises. O confronto começa: riso turbulento e zombeteiro de um lado, interdição ou limitação da festa de outro. a partir das Reformas, protestante e cato1ica, é que Vasari descreveu extensamente essas festas do Carnaval florentino e seus esplendores, os carros, os costumes. Ri-se, brinca-se, diverte-se, mas não se contesta. Trata-se da política do "pão e do circo". Encoraja-se a busca de prazer, celebra-se o amor e até mesmo um certo grau de licenciosidade, 0 que desarma qualquer tentativa de contestação social. Há sempre um carro com diabos, mas é puro decoro convencional, e não existem mais os turbulentos ataques a loucos e a diabos: "O Carnaval florentino e dos Médici permanece ainda o reino dos loucos, mas, aparentemente, cada vez menos, por simples referencia ou hábito que tende a se perder A loucura, erigida em espetáculo, não sustenta todo o cortejo". Sob a fachada de loucura, é, na realidade, a celebração da submissão voluntária e conformista.  Elemento propriamente cultural será considerado, como uma cultura mais refinada das elites, mais racional e mais austera, condenando o riso grosseiro e in­conveniente do povo. Ainda não se trata de choque entre duas culturas, mas daquele dos mantenedores da ordem medieval contra o riso agressivo, julgado um tanto perigoso, das festas coletivas.

 

LV – A REPRESSÃO

As autoridades civis e religiosas reagem de comum acordo. Em Lille, o conselho municipal proíbe os jogos, as danças em torno das fogueiras de São João, plantações de milho, as assembléias de paróquias, desde 1382 ­interdição renovada em 1397, 1428, 1483, 1514, 1520, 1554, 1552, 1559, 1573, 1585, 1601. Essa repetição é sinônimo de ineficácia, é claro, mas também de obstinação na política de controle do riso festivo. De maneira mais sutil, as autoridades tentam apossar-se das festas, para transformá-las em espetáculos disciplinados, celebrando a ordem estabelecida em vez de subverte-la por meio da parodia.

. Em Florença, os dois aspectos se sucedem. Na grande época dos Médici, o príncipe - aqui, Lourenço, o Magnífico - faz do Car­naval um instrumento a serviço de sua política, "a serviço de sua gloria", escreve Jacques Heers, "de sua casa e de sua cidade, da paz publica, contra todos os fatores adversos e os inimigos de seu poder. O Carnaval florentino dessa época apresenta-se a nos como um excelente exemplo de alegre festa popular, antes contestatória e depois confiscada para melhor proveito do homem no poder e dos seus. E agora a festa dos elogios e da exaltação".

Vasari descreveu extensamente essas festas do Carnaval florentino e seus esplendores, os carros, os costumes. Ri-se, brinca-se, diverte-se, mas não se contesta. Trata-se da política do "pão e do circo". Encoraja-se a busca de prazer, celebra-se o amor e ate mesmo certo grau de licen­ciosidade, o que desarma qualquer tentativa de contestação social. Ha sempre um carro com diabos, mas e puro decoro convencional, e não exis­tem mais os turbulentos ataques a loucos e a diabos

A festa dos loucos é particularmente visada. Os censores eclesiásticos associam-nas as festas pagãs e, sobretudo, tentam demonizá-las. "Não são diversões, são crimes ....Pode-se fazer um jogo da impiedade? Pode-se fazer um divertimento de um sacrilégio? Ninguém brinca, sem perigo, com uma serpente, ninguém se diverte, impunemente, com o diabo".

 

LVI – O CARNAVAL JÁ ERA LOUCO

O Carnaval é objeto de rigorosa vigilância, e as medidas adotadas o associam ao charivari. Desde 1404, o sínodo de Langres decide: "Os eclesiásticos não devem assistir - muito menos se divertir com ele - ao charivari, no qual se usam mascaras que tem figuras de demônios. Porque não apenas lhes proibimos essa diversão como a proibimos também a todos os fieis de nossa diocese". As autoridades civis vedam, igualmente, o uso de maásca­ras: as sentenças dos Parlamentos de Rouen e de Paris, em 1508 e 1514, interditam sua venda no recinto do palácio. A de 1508 especifica que "é proibido a todas as pessoas usar, vender ou comprar mascaras, narizes ou barbas falsos e outros disfarces, sob pena de multa de cem libras". Fanta­siar-se é enganar, ao mesmo tempo, a natureza e a policia. A Idade Média termina com risos e ranger de dentes. Risos da insen­satez e da derrisão, atrás dos quais as elites cultivadas viam a zombaria do diabo. A unanimidade medieval e quebrada: social, religiosa e politicamente, a cristandade, no amanhecer da Renascença, explode em classes, em confissões e em estados rivais. Os confrontos que se preparam não se prestam ao riso. É o grito de zombaria de todos aqueles que pregam uma leitura cômica do mundo. Na verdade, é nessa época que começa o confronto entre partidários e adversários do riso.

 

LVII - RENASCENÇA – O mundo rabelaisiano e suas ambigüidades.

 

Mikhail Bakhtine, estudioso do Riso, diz:  "O estrépito da gargalhada ensurde­cedora que contaminou a Europa avançada, que levou até o túmulo os eter­nos fundamentos do feudalismo, foi uma prova alegre e concreta de sua sensibilidade à mudança de ambiente histórico. Os estouros desse riso 'his­toricamente' colorido não apenas abalaram a Itália, a Alemanha ou a França (antes de tudo, faço alusão a Rabelais com Gargântua e Pantagruel), mas também suscitaram um enorme eco além dos Pireneus". 1

Essa frase contém o essencial da tese de Bakhtine: a Renascença foi a rejeição da cultura oficial da Idade Média pelo riso popular... Os humanistas utilizaram a cultura popular cômica medieval como alavanca para reverter os valores culturais da sociedade feudal. Pelo riso, eles introduziram uma visão de mundo dinâmica, otimista e materialista. O revelador dessa revolução pelo riso foi Rabelais, o Marx da hilaridade, o fundador da internacional do riso, cujo apelo à união dos ridentes do mundo inteiro prefigura o que o Manifesto lançará aos proletários.

O riso tem um poder revolucionário.

 

LVIII – ENTRE O HUMANISMO E O FANATISMO

 

Gos­taríamos de demonstrar que, se o século XVI marca uma verdadeira revira­volta na história do riso, este se inscreve na evolução cultural geral dessa época. A Renascença repousa, entre outras, sobre a contradição flagrante entre o humanismo sorridente e o fanatismo religioso. Diante dessas duas atitudes, o riso rabelaisiano parece incongruente. Entre o sorriso fino e de bom-tom de O cortesão, de Castiglione, e a austeridade impiedosa de Calvino, Rabelais e seus êmulos, com seus deboches de flatos e arrotos, suas grosserias blasfematórias, parecem marginais contestadores, rejeitados, ao mesmo tempo, pela antiga e pela nova cultura da elite.

Entretanto, sua "gargalhada ensurdecedora" ressoa de um canto a ou­tro da Europa e do século. Fruto do humanismo e da cultura popular medieval, ela zomba dos antigos valores dominantes, utilizando as formas populares tanto quanto as cultas. Ela provoca a dupla oposição dos mantenedores da tradição e dos partidários de um humanismo refinado. Estes últimos, à imagem de  Erasmo, condenam o grosseiro riso rabelaisiano, ao passo que os primeiros condenam apenas o riso assimilado à impiedade.

 Acabou-se a época em que se podia ser, ao mesmo tempo, devoto e gargalhante, pertencer à elite dos poderosos e contorcer-se de rir. Conduzir-se como um porco e preservar seu prestígio social é, doravante, privilégio reservado aos soberanos: veja-se Hen­rique VIII. OS outros devem escolher seu campo: a austeridade sem falha dos reformadores religiosos, só recorrendo ao sarcasmo para atacar os vícios e os heréticos; o sorriso polido e superior do cortesão manejando a zombaria es­piritual e de bom grado maldosa; o riso barulhento da seita rabelaisiana, en­carando a vida como um Carnaval.

 

LIX – CULTURA DE ELITE E CULTURA POPULAR

Todos os historiadores das mentalidades fizeram uma constatação: é no século XVI, em particular com o aparecimento da imprensa, que o rompi­mento entre cultura das elites e cultura popular alarga-se de forma decisiva. Mas a ruptura entre cultura do riso e cultura séria não coincide com o corte entre cultura popular e cultura das elites. O riso, como forma de encarar a exis­tência, encontra-se tanto nas elites como no povo. E o mérito de Rabelais é, justamente, ter realizado a síntese entre o cômico popular medieval, de base corporal, e o cômico humanista, de base intelectual.

Com Rabelais, começa de fato o riso moderno, que não é mais cômico.

Esse riso humanista é profundamente ambíguo. Mais além da bufonaria de su­perfície, Rabelais prenuncia a era do absurdo, a nossa, e se ele toma o parti­do de rir dela é porque não adianta nada chorar por ela. É o que, desde o século XVI, atrai para ele o ódio dos donos da verdade, que acreditam que seu sor­riso é um sopro que fissura os ídolos, abala os templos de todas as religiões, verdadeiras e falsas, clericais e laicas.

Tudo tem duplo sentido, dois níveis, em Rabelais; tudo pode ser lido pelo direito e pelo avesso. Decorre disso seu sucesso em todas as categorias sociais e também as interpretações contraditórias de sua obra. Tomemos um exemplo da maneira como ele aborda um dos mitos fundamentais do fim da Idade Média: o inferno. Epistemon, que foi lá vê-lo depois dos muito sérios Ulisses, Enéas e Dante e antes dos muito cômicos Arlequim e Taba­rin, assistiu a um verdadeiro Carnaval: lá, a inversão é a regra. Os diabos são "bons companheiros", e Lúcifer é bastante sociável; quanto aos condenados, "eles não são tão maltratados como se imagina". Desempenham funções cuja humildade contrasta com a glória que cada um teve na terra. Há, aliás, personagens históricos da Antigüidade, da cristandade e heróis mitológicos. Sua presença não tem nenhuma relação com seu passado mo­ral. César e Pompeu são alcatroeiros de navio; Cleópatra, vendedora de ce­bolas; o rei Artur, limpador de toucas; Ulisses, ceifeiro; Trajano, pescador de rãs; os cavaleiros da Távola Redonda, remadores do Rio Estige; Júlio lI, criador de patês; Bonifácio VIII, escumador de panelas, e assim por diante.

O ponto comum é a inversão das situações, os orgulhosos sendo humi­lhados por aqueles que foram pequenos na terra

Essa carnavalização do inferno inscreve-se em uma longa tradição de farsas medievais. Se ela faz rir, é por seu caráter parodístico, pelo rebaixa­mento do "alto", equiparado a um bulício orgânico. Para os contemporâ­neos de Rabelais, é também porque ela dá segurança: se são essas as penas do inferno, não são tão temíveis. É o riso de alívio que arruína os esforços terroristas da pastoral oficial. Ele exorciza o medo, sem negar a existência do inferno. Teologicamente, poder­-se-ia dizer que esse castigo por inversão não é pequeno. Mas o que o torna imperdoável é que ele é apresentado pelo riso. Se as pessoas riem do fim dos tempos, é porque não existe nada de sério. O riso aparece como arma suprema para superar o medo. Quem ri do inferno pode rir de tudo. O riso - eis agora o inimigo - para aqueles que levam tudo a sério.

 

LX  - UM RISO DESTRUIDOR

O riso pode até mesmo nos prestar serviço aqui embaixo: fazer mor­rer agradavelmente. Morrer de rir.

A popularidade desse tema é manifesta, na época de Rabelais. Em 1503, o humanista Ravisius Texto consagra um capítulo de seus mortos célebres aos "mortos de alegria e de rir"; em 1507, Batista Fulgosa também relata alguns casos. Em Gargântua, o episódio do Mestre Janotus de Bragmardo característico: Assim que o sofista acabou de falar, Panocrates e Eudemo se mataram de rir, tanto que pensaram que iam entregar a alma a Deus nem mais nem menos que Crasso, vendo um asno comendo cardos, e que Filemon, que morreu de rir ao ver um asno comendo figos colhidos para  o jantar. Junto, competindo com eles, Mestre Janotus começou a rir tanto que as lágrimas lhe vinham aos olhos pela veemente concussão da substância do cérebro, na qual foram espremidas essas umidades lacrimais, escoada até os nervos ópticos. Para eles, estavam representados Demócrito heraclitizando  e Heráclito democratizando."

 

LXI – ENTRE A VIDA E A MORTE

A síntese das figuras emblemáticas do riso e das lágrimas resume toda ambigüidade de Rabelais diante do drama da vida e da morte, ambigüidade que confirma os rumores sobre sua própria morte. "Fechai a cortina, a farra acabou!", ele haveria declarado em 9 de abril de 1553, data de sua agonia Teria acrescentado: "Vou procurar um grande talvez". Que a vida seja uma farsa e que se se capaz de dizer isso no último momento é uma audaciosa novidade no mundo cristão. Contudo, tal fato não é suficiente para morrer de rir, mesmo que  três anos mais tarde Aretino, pintor e poeta de reputação atéia, quase tenha conseguido: durante um jantar, ele é tomado por um riso desmedido ouvindo uma história licenciosa, cai para trás com sua cadeira e morre O riso e a impiedade, mais uma vez, têm uma impertinente tendência a associar-se. A brincadeira que encerra o testamento de Rabelais - "Eu não tenho nada valioso; devo muito; o resto dou aos pobres" - não é uma paródia ridicularizando a caridade cristã e as obras piedosas?

A obra de Rabelais foi condenada ao Index em 1564, e em 1587 o padre Benedicti lembra que aquele que lê as obras dele "está excomungado e só deve ser absolvido se consentir em queimar tais livros e fazer penitência"

O que fere mais, talvez, os chefes dos credos opostos, fixados numa visão estática do mundo, é que o riso rabelaisiano faz surgir um dado novo, o tempo, que lhes sugere que seus combates são estéreis porque são ultrapassados, fossilizados, não têm mais poder sobre a vida.  Rabelais era médico e se o riso cura, cura de quê? Se o autor declara, no início de sua obra, que melhor escrever sobre risos do que sobre lágrimas, Porque o riso é próprio do homem," é porque ele toma o partido do riso. Decisão consciente, que não esconde que seria possível tomar o partido do choro.  Essa escolha dá à obra um aspecto burlesco endiabrado, marcado pela exaltação do "baixo", do material, do corporal fundamental: comer, excretar, copular. Nivelar por baixo, reduzir o su­blime a funções biológicas elementares é, evidentemente, bastante en­graçado, mas não muito otimista. O espírito mais genial depende, de fato, de sua digestão.

 

 

LXII - DA VERTIGEM RABELAISlANA AO RISO TRÁGICO DE AGRIPPA D'AUBIGNÉ

. A  personagem mais humana de Rabelais  é Pa­nurgo, o medíocre, o supersticioso, o trapaceiro e, sobretudo, o medroso. Panurgo é aterrorizado: "Eu morro de medo", diz. Ele encarna o homem do século XVI, assaltado por terrores escatológicos e terrestres, mas também o homem moderno. Panurgo tem humor, do tipo hu­mor negro, que o ajuda a se debater no combate da vida.  Lembro que Henfil tinha uma personagem em quadrinhos que se chamava “Ubaldo, o Paranóico”.

Rabelais não nos poupa das atrocidades e dos males de sua época: pestes, guerras e massacres castigam de forma permanente; queimam-se pessoas "vivas como arenques defumados"; faz-se churrasco dos heréticos. A morte está em toda parte, inseparável companheira da vida..

Que quadro poderia ilustrar melhor os massacres das guerras amargas que o espantoso 7tiunfo da morte, de Bruegel, o Antigo, pintado alguns anos mais tarde? Vê-se aí um bufão aterrorizado que se refugia sob uma mesa de jogo onde reina um crânio. Rabelais e Bruegel, o mesmo combate - o que nos instiga a refletir sobre o riso rabelaisiano.

Há mais: a morte e a desgraça atingem de forma indiscriminada, parecen­do mesmo ter predileção pelos inocentes, pelos bons, pelos meigos. Assim, a peste mata aqueles que se devotam aos doentes e poupa os maus: "Os páro­cos, vigários, pregadores, médicos, cirurgiões e boticários que iam visitar, curar, e consolar os doentes, assim como fazer pregações, morriam todos de in­fecção, e esses diabos pilhadores e assassinos nunca pegavam o mal. Por quê, senhores? Pensai nisso, eu vos rogo".  Quantas vezes não nos perguntamos desta forma hoje?

Então, bebamos e comamos, empanturremo-nos até arrebentar!

 

LXIII – COMER ATÉ ESTOURAR

No país do Outro e do excesso, em O quinto livro, de Rabelais, diagnos­tica-se, claramente, essa bulimia suicida: comidas ali são comezainas, o úl­timo sopro vem de baixo, no "peido da morte". É por isso que Panurgo "defecava, urinava, limpava a garganta, arrotava, peidava, bocejava, cuspia, tossia, soluçava, espirrava, escarrava como um arcediago"

A redução última, o cúmulo do rebaixamento da condição humana, encontra-se no final escatológico de O quarto livro, em que Panurgo, aterrori­zado, faz suas necessidades e finge-se de mata-mouros diante de seus ex­crementos: "Que diabo é isto? Chamais isto de diarréia, chapisco, caganei­ra, merda, soltura, dejeção, matéria fecal, excremento, deixada, borra, bosta ou espiroqueta?"23 Não! É uma matéria preciosa, o "açafrão da Hibérnia". Fecha-se o círculo: tudo se reduz a um monte de merda. "A merda não é, necessariamente, sinônimo de grossura cômica. Como comer, beber, o sexo e a própria morte, tudo o que se refere ao corpo é ambivalente. Panurgo encolhe-se de medo da morte. Tudo é matéria fecal, decomposição: eis o que diz o final de O quarto livro."24

. Uma grande gargalhada à beira do precipício, eis o que Rabelais nos oferece. Esse riso, ele o oferece, de início, a seus contemporâneos, como antídoto aos terrores e à angústia: se tudo se reduz a um monte de borra, nossos medos são vãos e é melhor rir deles.

Particularmente ridículos são aqueles que se julgam importantes, porque "no mais alto trono do mundo, só estamos sentados sobre o CU".Diz Montaigne.  Fórmula magistral, digna de figurar no frontão dos palácios reais e presidenciais. Montaigne nos cita uma coleção desses ditos, atribuídos a condenados à morte: aquele que expressa o desejo de que o levem a cavalo evitando tal rua, porque ele deve dinheiro a um comerciante que poderia rogar-lhe uma praga; aquele que pede ao carrasco "que não lhe toque o pescoço porque ele é muito sensível a cócegas"; aquele que se re­cusa a beber no copo do carrasco, porque tem medo de pegar varíola; aquele cujo confessor lhe declara que ele vai jantar com Nosso Senhor e ele res­ponde ao confessor que vá ele próprio, pois, no que lhe concerne, está jejuando...

LXIV – A DIFERENÇA ENTRE RIR E CHORAR

 

Rir, chorar: a diferença é menor do que pensamos, como já o dissera Rabelais. Com freqüência, "nós choramos e rimos da mesma coisa". Ambivalência do real e ambivalência do riso: a tomada de cons­ciência dessa ambigüidade é uma das características da Renascença. O mundo é mais complexo do que a Idade Média pensava. Sobretudo, a realidade é raramente unívoca e exclusiva: o bem nunca é só branco e o mal só negro; o cômico e o trágico misturam-se, muitas vezes, de forma incon­gruente.

O mundo das guerras de religião é um mundo de loucos. Esses grupos de fanáticos que se massacram a propósi­to de ridículos detalhes imaginários, em nome de uma religião de amor, atingem o cúmulo da desrazão - desrazão mortal e diabólica. A Europa inteira se transforma em uma nave de loucos .

Os loucos furiosos que se estripam em nome de Cristo são os arautos de uma nova era. Eles sempre riem, mas esse riso torna-se ricto e sarcasmo de ódio.

 

LXV - O TRIUNFO DO BOBO DO REI – O SUCESSO DE TRIBOULET- CHICOT

 

Um personagem encama esse papel ambíguo  que faz surgir a razão da loucura: é o bobo do rei, que conhece seu apogeu no século XVI, em todas as cortes européias. Até o papa tem um: em 1538, em Aigues­Mortes, Francisco I oferece tecidos de ouro e uma medalha a Le Roux, "gra­cioso" do soberano pontífice.

É sob o Rei  Francisco I que o bobo real se torna, de fato, um personagem central: quem não conhece Triboulet, mais célebre que a maior parte dos ministros? Esse filho de camponês, débil e embrutecido, cujo nome ver­dadeiro é Férial, nasceu perto de Blois. Espécie de aborto corcunda, do­tado de grandes olhos e nariz proeminente, foi assumido, muito jovem, por Luís XII, que o confiou a um governador, Michel Le Vernoy. Suas zombarias cáusticas, sua falsa ingenuidade, seu sólido bom senso fazem dele um conselheiro do rei muito ouvido. Francisco I lhe permite assistir ao Conselho, dar opiniões, dizer a cada um sua verdade, conduzir-se com a maior impertinência. Seu papel é expressar a verdade pelo riso, chamando as sublimes "razões de Estado" pelo que elas são na verdade: vulgares cál­culos de interesse. Com a afirmação do absolutismo, o rei, cercado de conselheiros-cortesãos, tende a perder o contato com a realidade e, so­bretudo, com os aspectos desagradáveis do real. Somente o pseudobobo pode, impunemente, desmistificar, desvelar as quimeras e os falsos sa­beres. Com a condição de desempenhar bem seu papel, eminentemente ambíguo: quem pode conhecer a psicologia exata desses seres híbridos, meio sábios, meio loucos? Em que proporção eles são atores e se identi­ficam com seus personagens?

 

LXVI – O RISO DA LOUCURA E DA SENSATEZ

Triboulet é o riso ministro de Estado, o riso da loucura-sensatez. Rabe­lais sabia tão bem isso que o utilizou em suas histórias malucas. Em O terceiro livro, Panurgo dá a Triboulet uma escritura de bobo e segue seu con­selho de consultar o oráculo da Divina Garrafa. Francisco I  tem vários bobos, como o Negro Onis, convertido ao cristianismo, que chegou a pro­nunciar os votos de franciscano; Clément Marot comporá seu epitáfio. Há também Villemanoche e Guillaume de Louviers: quanto mais bobo, mais ri e mais faz rir, mais se é sábio.

O sucessor de Triboulet é um meridional: Jean-Antoine Lombard, ape­lidado Brusquet e nascido em Antibes cerca de 1520. Aventureiro sem escrúpulos, faz uma brilhante carreira graças a sua habilidade e audácia.

Depois de rudimentares estudos de medicina, ele estréia como charlatão: cirurgião na armada francesa, inventa uma poção mais mortífera que os mosquetes inimigos. Condenado à morte pelo condestável de Montmoren­cy, é interrogado pelo delfim, a quem ousa responder: "Senhor, há um só, entre aqueles que tratei, que alguma vez tenha vindo se queixar a vós? Não os curei para sempre?" Esse é bem o tipo de verdade que se espera de um bobo e que não se tolera de nenhum outro: curar um paciente de uma doença ordinária, permitir-lhe viver alguns anos mais para, finalmente, morrer com uma doença dez vezes mais dolorosa. Não é, de fato, uma medicina sensata?

Seduzido por sua personalidade, o delfim, futuro Henrique lI, confere sua graça a Brusquet e o conserva como bobo da corte durante todo o seu reinado. Ele atuará também sob Francisco II e Carlos IX. Brantôme relatou numerosas anedotas relativas a brincadeiras de gosto duvidoso, cuja vítima é Pierre Strozzi, marechal da França, que replica no mesmo registro. Brusquet conta a dois franciscanos que Strozzi está possuído pelo demônio: eles vêm surpreendê-Io no leito para exorcizá-lo e a cena degenera em pancadaria, no quarto do marechal, com muitas blasfêmias, sob os olhos de Brusquet, hilário. Ele oferece a Strozzi uma refeição grotesca, com patês contendo velhos ar­reios; e faz um buraco com um broche no suntuoso manto dele. Seguro do apoio real, permite-se tudo, e a corte sente-se obrigada a rir de suas desones­tidades. Ele recebe jóias, objetos preciosos, obtém o lucrativo cargo de chefe da estalagem do rei. Todavia, esse vidente não tem a última palavra. Na primeira vez, Strozzi o denuncia à Inquisição, que o manda prender; era uma blague, e o marechal liberta-o. Mas Brusquet, por azar, tinha parentes hu­guenotes, e o campo dos Guises não era dotado de senso de humor: ele teve de exilar-se na casa da duquesa de Bonillon e morreu em 1568.

 

LXVII-   MAIS BOBOS

Outro bobo notável do reino de Henrique II foi um picardo, Thony ou Antoine. Esse era um puro-sangue, saído de uma família especializada em reprodução de bobos: os dois irmãos mais velhos exerciam a mesma função.  Detalhe divertido (?): Thony destinava-se ao sacerdócio, antes de dedicar-se à bufonaria. De início a serviço de Henrique lI, ele passa, em seguida, a servir o temível condestável Anne de Montmorency, que estimu­la seu humor negro: "Deus nos guarde dos padres-nossos do Senhor Condestável", teria ele dito diante de um grupo de heréticos enforcados por ordem de Anne. Thony, aparentemente, mantém sua função até 1572, e o condestável permanece muito satisfeito. "Com mais de 65 anos, ele revelava o avesso do mundo  e isso, tudo indica, encantava-o".

Contemporâneo de Thony é o impertinente Martin Le Bailli, que se permite ostentar o grande colar da ordem de Saint-Michel. Sob Carlos IX, encontramos também Étienne Doynie, Pierre de Provins, Greffier de Lorris. Henrique IlI, além de seus "queridos", é apaixonado por bobos - que desem­penham, como os primeiros, um papel ambíguo. O lado teatral do persona­gem só pode seduzir um soberano que, além de tudo, é muito inclinado à zombaria e às tiradas de espírito. Assim, ele confere a seus bobos licença excepcional, além de grandes honrarias e vantagens, escandalizando os eclesiásticos que o cercam. Para muitos dos moralistas religiosos, é o diabo que fala pela boca do bobo do rei, e eles gostariam de enviar para a fogueira esse agente do anticristo, como feiticeiro. Quando, em março de 1584, o rei enobrece Chicot, os protestos fervilham, e quando morre Thulene, o poeta da corte, Jean Passerat, pede para receber a mesma gratificação que ele.

Depois da morte do rei, o pároco Jean Boucher estigmatiza assim seu bobo Sibilot: "O que Henrique foi podemos julgar por esse bruto impuro, esse espantoso mons­tro Sibilot. Apesar de não haver nada mais ignóbil que esse ser, nada mais inclinado a bebedeiras e ao deboche, e mais sujo de blasfêmias, ele provoca­va uma alegria barulhenta quando surgia, bastão na mão, espuma na boca, como um cão raivoso, olhos inflamados e furiosos, babando pus ... " É possível que tenham tentado assassinar Sibilot porque, na conta de 1588, con­fere-se uma gratificação a um médico que "tratou Sibilot de uma ferida que ele teve".

 

LXVIII – 0 BOBO CHICOT

O mais célebre bobo de Henrique IlI, talvez graças a Alexandre Dumas, foi Antoine Anglarez, cognominado Chicot por causa de sua baixa estatu­ra. Nascido em 1540. Espírito vivo, espirituoso, zombeteiro, hábil em destacar defeitos e ridículos de cada um assim como em manipular a sátira, é, de fato, um militar que, de início, serviu ao marquês de Villar, depois a Carlos IX como mensageiro oficial, depois ao duque de Anjou como "porta-casaco", encarregado de seu guarda-roupa. Não se tra­ta, pois, de um profissional do riso. Se nunca teve o título de bobo, preencheu essa função: o rei permite-lhe entregar-se a suas bufonarias "quando qui­ser”. Contrariamente a Sibilot, ele é muito popular, porque não hesita em arranjar-se com os "preferidos". No meio dessa corte em que tudo é absurdo ou tudo é desencaminhado, ele aparece como o único homem de bom senso, cujo riso expressa a verdade, como o testemu­nha este panfleto:

A rainha-mãe conduz tudo,

O duque de Espernon rouba tudo, A Liga quer fazer tudo.

O Guizard se opõe a tudo,

Os príncipes de sangue perdem tudo, O cardeal é bom para tudo,

O rei da Espanha compreende tudo, Só Chicot ri de tudo.

A verdade, a triste verdade pelo riso, só Chicot pode permitir-se dizer a seu "Henriquinho". Em dezembro de 1585, enquanto a autoridade real está tão baixa que Guise, Damville e Henri de Navarre reinam em Champagne, em Languedoc e na Gasconha, ele declara cruamente a Henrique III, segun­do o Espelho dos príncipes, de René de Lucinge: "Tu és o homem mais infeliz do mundo, e eu, o outro. Tu, porque todos os súditos zombam de ti e, por teres nascido grande rei, serás o menor que já existiu na França, pois, en­quanto te fazes de monge com tuas devoções, ouvir-se-á dizer que há um rei de Champagne, outro de Languedoc, outro da Gasconha que vestirão o hábito pela tua cabeça. Quanto a mim, serei desgraçado porque eles me darão um pontapé no traseiro".

O espírito de Chicot só podia agradar a seu quase compatriota Henri de Navarre que, tornando-se Henrique IV, toma a seu serviço esse bom com­panheiro: "O rei amava esse homem", escreve Estoile, "mesmo doido como era, e não achava grave nada que ele dizia". A familiaridade de Chicot com Henrique IV era sem limites. Ele chamava o rei de "meu pequeno rei de Bourbon", "o primeiro herético de todos os reis da França", e assinava "Su­perintendente de Bufonaria de Sua Majestade".

 

LXIX – O BUFÃO E SUA VERDADE

Mais que nunca, o bufão exprime a verdade, em termos crus ou até cínicos; ele tem o privilégio de dizer bem alto o que todo mundo pensa baixo, o que é muito útil ao rei para fazer que enxerguem a realidade aqueles que ainda não compreenderam ou que fingem acreditar que a política é guia­da pelos grandes princípios e pelos ideais morais e religiosos. Se Henrique IV  pensa baixo que "Paris vale uma missa". No mesmo ano, diante de toda a corte, Chi­cot dá este conselho ao rei: "Senhor, meu amigo, vejo bem que tudo o que fazes afinal não te serve de nada, se não te fazes católico. É preciso que vás a Roma e, estando lá, prosta-te diante do papa para que todo mundo te veja, pois, do contrário, não acreditarão que és católico. Depois, faze um clister de água benta, para acabar de lavar o resto de teus pecados". 

Vê-se claramente: a função do bobo do rei evoluiu sensivelmente ao longo do século XVI. O bobo, sob a aparência de zombar do rei, transfor­mou-se em seu instrumento, seu conselheiro, seu porta-voz.

Morto Chicot, em 1592, quem o substitui é um antigo cozinheiro do cardeal de Bourbon, Guillaume Marchand, denominado Mestre Guilher­me. Muito feio, bizarro e espirituoso, ele ilustra o novo papel do bobo do rei, intermediário entre o soberano e o povo. Instalado sobre a Pont-Neuf, lê pequenos textos satíricos para os passantes. Textos em verso ou em pro­sa, comentando a política,

Mais tarde, quando o bobo passa a defender o Estado e o rei, não se trata mais de bufonaria, é a forma moral. O riso contestador do bobo transformou-se no conformismo sério do moralista. Desde então, a função quase não tem justificativa. O jovem Luís XIII, que "detestava natu­ralmente os graciosos e os bufões", segundo seu médico Héroard, acostu­ma-se, contudo, com Mestre Guilherme, que sabia como agradar-lhe

 

LXX – MAS HAVIA BOBAS TAMBÉM

Na corte, no século XVI, não há apenas bobos: há também bobas. Quase sempre, elas pertencem ao círculo das rainhas e das princesas. A história re­gistra ao menos Madame de Rambouillet, na corte de Francisco I, depois Cathe­lot, diminutivo de Catarina, que faz rir as princesas: Marguerite de Navarre, depois Marguerite de Valois, sua sobrinha, em seguida Éléonore da Áustria, depois suas filhas, Madeleine e Marguerite. Catarina de Médici mantém uma extravagante coleção de macacos, anões, anãs, animais exóticos, muçulmanos (um mouro e um turco) e bobas, das quais duas são conhecidas: ]ardiniere e ]acquette. Sua filha Élisabeth tem como boba uma certa "Legado".

Henrique N, não há dúvida, também teve uma boba: Mathurine, espécie de dragão hermafrodita, ex-cantineira da armada, cujas brincadeiras de caser­na provocam o riso tonitruante dos conquistadores baratos. Os cortesãos ficam repugnados com os modos "dessa boba, mais imprudente que tola", indigna-se Pierre Colins. Ela é onipresente na corte e, às vezes, senta-se à mesa do rei.

Mathurine ganha 120 libras de salário para divertir o rei; Mestre Gui­lherme, 180, e esses fundos provêm dos "Pequenos Prazeres". O bobo e a boba também têm numerosas vantagens em espécie. Um rápido olhar para os outros países permite constatar que a situação lá é idêntica. Na Espa­nha, conhece-se o bobo de Carlos v, Perricquou, e a tradição se perpetua por mais tempo que na França: Velázquez, no século XVII, imortalizou os bufões do rei em seis retratos célebres. O bobo é o avesso do rei, o rei para rir, destinado a lembrar ao soberano sério a rea­lidade concreta. O riso como equilíbrio do poder político: eis o que é digno do século de Rabelais.

 

LXXI -  Riso e Natureza Humana. O caso dos índios.

O interesse pelo riso, sob seus diferentes aspectos, marca a Renascença. Tratados ressaltam seu valor terapêutico. Em 1560, o médico Laurens Jou­bert publica Tratado do riso, contendo sua essência e seus maravilhosos efeitos, curiosamente investigados, avaliados e observados ... Em 1579, o mesmo autor apresenta Causa moral do riso, do excelente e renomado Demócrito, explicado e testemunhado pelo divino Hipócrates e suas epístolas. Ele se baseia em Romance de Hipócrates, à época muito considerado nos meios intelectuais, que expõe as virtudes do riso. ParaJoubert, rir é "o mais maravilhoso" dos dons de Deus; é um privilégio concedido "apenas ao homem, entre todos os animais, por ser o mais admirável", e que lhe permite ter uma vida social e psicológica equilibrada. Esse médico adota, portanto, a contracorrente da teoria diabólica do riso; faz dele um dom divino, como Ronsard, que escreve, em um poema dedicado a Belleau:

Deus, que ao homem tudo submeteu,

Apenas ao homem, somente a ele, o riso concedeu Para se alegrar, e não à besta,

Que não tem razão nem espírito na cabeça.

A importância do riso na Cultura da Renascença é igualmente revelada por uma novidade: ele entra na “grande” literatura. Confinados aos gêneros populares da farsa e da comédia, durante a Idade Média, que só trataram de assuntos nobres - filosofia, teologia, história - com grande seriedade, eis que com Boccacio, Rabelais, Cervantes e Shakespeare o riso ascende ao estatuto filosófico. Com o exemplo dos antigos, mas apoiando-se também nas descobertas modernas, percebe-se que o riso pode constituir uma visão global do mundo, que ele pode ter um valor explicativo e existencial, que pode colocar-se como rival da concepção séria e trágica imposta pelo cris­tianismo oficial. O riso não é só divertimento, pode ser uma filosofia: eis uma das grandes descobertas da Renascença, que dá ao riso direito de ci­dadania na grande literatura.

Os espíritos mais curiosos interrogam-se, por exemplo, sobre o papel do riso na comunicação, e isso é, para eles, um primeiro questionamento dos absolutos da época. Tomemos o caso de Jean de Léry, esse calvinista convicto que, em 1556, se junta à pequena comunidade francesa conhecida como "França Antártica", estabelecida na entrada da baía do Rio de Janeiro. Em 1578, de volta à França, ele relata sua experiência em História de uma viagem feita ao Brasil. Uma de suas maiores surpresas, chegando de uma Europa séria e fanática, foi constatar que os índios riam sem cessar. É um "povo que foge da melancolia", escreve ele. "Eles detestam os taciturnos, mesquinhos e melancólicos". O estado natural seria uma hilaridade per­manente? "Eles só fazem rir." Uma piroga vira, provocando pânico nos eu­ropeus? Eles "começam a rir muito  alto. Os europeus assam um frango? Os índios "riem e caçoam de nós". Eles riem desses brancos que comem falando sem parar, que têm vestimentas bizarras etc. Eles riem dos fatos mais horríveis, como os atos de canibalismo. Uma vez, Jean de Léry julga que se preparam para comê-Io, mas era um engano, que suscita grandes gargalhadas. Outra vez, os índios apressam-se em matar e comer uma mu­lher; Jean de Léry, caridoso, propõe-se a batizá-Ia, mas ela lhe ri na cara. "Ela, rindo de novo, foi golpeada e morreu dessa maneira." Foi uma alegre refeição.

Jean de Léry fica perplexo. O  riso dos índios faz com que ele compreenda, por exemplo, o ridículo da moda do vestuário europeu. Assim, o riso do selvagem pode ser a voz da razão. Pode ser também o riso da exclusão, da rejeição: os tupinambás, aliados dos franceses, riem de outros povos indígenas.

 

 

LXXII - DEBOCHANDO DO SAGRADO

Quando o riso diz respeito ao sagrado, a conflagração é terrível, porque o sagrado é o sério por excelência, é intocável. Fazê-lo objeto de escárnio é sacrilégio e blasfêmia, é atacar o próprio fundamento da existência. Esse é o aviso de Calvino, invectivando "esses zombadores" que "se enganam", tanto reformados quanto católicos; eles riem, divertindo-se com as toli­ces e as brincadeiras dos papistas; porque, na verdade, não têm nenhuma religião.  Isso significa simples­mente que a interferência da derrisão na religião é considerada por muitos como intolerável atentado ao sagrado, qualquer que seja ele: não se brinca com essas coisas. O Concílio de Trento condena todos aqueles que se servem dos episódios e das palavras das Escrituras em "bufonarias, fábu­las, vaidades", condenação retomada pelos con­cílios provinciais de Milão, em 1565, de Bourges, em 1584, de Aix, em 1585, e de Toulouse, em 1590.

Essas decisões testemunham uma nova sensibilidade. As autoridades eclesiásticas ficam mais suscetíveis, se é que se pode dizer isso, no que se refere ao sagrado e a tudo o que concerne, direta ou indiretamente, a ele. A Idade Média era mais tolerante nesse aspecto, mas os tempos mudam. Os confrontos religiosos tornam flagrantes a ameaça de desvio cético ou ateu que o riso representa e a tendência de surgir uma contra-religião.

É verdade que existem índices inquietantes. O povo permite-se mani­festações de deboche que não têm mais o caráter inocente de outrora: em 1541, na saída da representação de O mistério dos Atos dos Apóstolos,  os espectadores  "gritam que o Espírito Santo não quis descer", como o expõe o pro­curador-geral: "eles zombavam e, publicamente, pelas ruas, arremedavam os atores, invertendo tudo o que tinham ouvido". Escandaliza­va-se com a multiplicação de espetáculos ímpios em que atores, vestidos como eclesiásticos, representam "coisas dissolutas e de mau exemplo". Ele fica ultrajado com essas "farsas, comédias, sátiras em latim ou francês, con­tendo lascívia, injúria, invectivas, degradação", segundo as expressões do Parlamento. Os comediantes italianos atraem mais pessoas que os me­lhores pregadores, espanta-se ele, e o povo apressa-se para assistir a espe­táculos como esse indigno balé de seios animados em que as moças "mos­tram os seios, peitos abertos e outras partes peitorais que têm um contín­uo movimento e que essas boas senhoras agitavam no compasso e na me­dida, como um relógio.

 

LXXIII– A BÍBLIA É RIDICULARIZADA

A Bíblia é ridicularizada; zomba-se de episódios in­verossímeis e nebulosos que ela contém; escarnece-se dos milagres. Abusa­dos, descrentes,  caçoam do paraíso e do inferno; este último, dizem, não é mais real que o bicho-papão e parece-se com as "ameaças que se fazem às criancinhas". Aqueles que acreditam nessas fábulas são "uns po­bres idiotas". Ao redor de 1538-1540, começa-se também a falar do famoso tratado "dos três impostores",  que ridiculariza as três religiões reveladas: a judaica, a cristã e a muçulmana.

Em breve, fica claro o divórcio entre o riso e a fé. Mas o riso é uma arma de dois gumes. Por que não utilizá-lo contra o mal, contra a here­sia, contra a impiedade? Ele pode servir para estigmatizar os vícios e os pecados, para fulminar o adversário mal pensante. O riso não é nem divino nem dia­bólico; é uma arma, e todas as armas são boas contra os adversários da verdadeira fé.

Para Calvino o riso não tem lugar em assuntos religiosos; Rabe­lais: a ovelha negra dos reformadores austeros, protestantes ou católicos, culpado por ter feito o elogio da "virtude curativa do riso". Nem uns nem outros podem perdoá-lo por ter comparado as virtudes das Crônicas de Gargân­tua às da Bíblia e do Evangelho: aqueles que lêem as crônicas e acreditam em seu conteúdo ficam dispostos a sacrificar a vida por elas; esse livro sal­va; ele cura dor de dente, varíola ou gota, e "os editores, em dois meses, o venderam mais que a Bíblia em nove anos".

A intolerável aproximação demonstra, uma vez mais, aos olhos dos religiosos extremistas, que o riso e a fé são incompatíveis. Um pouco por toda parte, em país católico ou protestante, o divórcio se confirma entre os crentes rigorosos, do tipo puritano, adeptos de uma reforma radical, intole­rante e séria, e os fiéis do tipo medieval, que praticam uma religião sincre­tista, que mistura sagrado e profano, alegre e supersticiosa. Na Inglaterra, no último quarto do século, desenvolvem-se festas populares sazonais, com danças, peças cômicas e farsas que escarnecem dos puritanos: a Merry En­gland manifesta sua oposição ao puritanismo, que inventa, então, a palavra clown para designar esses rústicos, esses camponeses ignorantes e risonhos.

 

LXXIV - A CARICATURA

As lutas religiosas, tão sérias e tão trágicas, contribuem, entretanto, para o aparecimento de um gênero cômico destinado a um belo futuro: a caricatura. Tecnicamente, a impressão, que permite a difusão de grande número de exemplares de folhas volantes, é elemento decisivo.  O realismo, que nasce no século xv com a multi­plicação de retratos por encomenda, prepara o aparecimento da caricatura: a observação precisa das particularidades individuais permite a possibilidade de acentuar este ou aquele traço característico com finalidade cômica.

A beleza é obra divina, e a fealdade é a expressão do mal, segundo a simbólica medieval. A arte do retrato individualizado acompanha a grande promoção do individualismo que caracteriza a Renascença. Cada indivíduo é único, insubstituível: é isso que faz sua dignidade e sua fragilidade. É muito revelador constatar que, desde o início, a tentação cômica está pre­sente; percebe-se que é suficiente pouca coisa para fazer oscilar para o ridículo uma fisionomia nobre, que a máscara de dignidade de cada homem é fina e que atrás, sempre perceptível ao olho atento, transparece o rosto grotesco. Ninguém escapa: cada um de nós tem seu aspecto ridículo, e todo homem sério tem um avesso cômico.

Dessa forma, a exploração malévola dessa realidade é inevitável, num contexto de conflito. Especialmente porque o século XVI dá grande importân­cia à aparência. O rosto revela o caráter e a personalidade, porque esta últi­ma molda nossos traços. Em virtude da íntima união alma e corpo, é possí­vel julgar o indivíduo por sua aparência.

Assim, a caricatura nasce espontaneamente do ódio. Aviltar, degradar, humilhar pelo riso, que adquire aqui toda a sua dimensão diabólica. Só no fim do século a caricatura "civiliza-se", domestica-se, na Itália. . A commedia deU 'arte, com suas máscaras, contribui para fixar as regras do gênero . Percebe-se, então, que a cari­catura pode ter um lado simpático e que o aspecto cômico de um indivíduo pode revestir-se de valor positivo: ambivalência do riso, cuja função agressi­va apareceu primeiro, como quase sempre.

 

 

LXXV - AS VARIAÇÕES NACIONAIS DO RISO

De fato, o riso do século XVI explode em todos os sentidos: macarrôni­co, picaresco, burlesco, grotesco, humorístico, satírico, irônico. A afirmação dos temperamentos nacionais é acompanhada por certa diversificação geográ­fica do riso: em cada um desses risos há mais de universal que de particular. Na Itália, o gênero ma­carrônico e pseudo-popular aparece com um beneditino, Teofilo Folengo. São aventuras ridículas, poéticas, oníricas, achincalhando sem cessar a lógica e os nobres sentimentos. É a afirmação do trivial e do baixo em uma visão louca, monstruosa, grotesca do mundo. ­ Essa obra, na qual Rabelais se inspirará, ilustra a frase de Aretino: "Com uma pena e uma folha de papel, eu zombo do universo".

Essa primeira literatura macarrônica também tem valor social e políti­co; é o riso ácido, corrosivo, denunciando a miséria popular atrás da facha­da dos corsos principescos da Renascença.

Na mesma época, põe-se em evidência ,a commedia deU 'arte, espécie de Carnaval sobre o palco, com criados que mandam em seus senhores. Reencontra-se aí a tradição da atelana, com seus estereótipos, como Pantalon, o pai rabugento e tolo. O gênero impõe-se, bufão, trivial, burlesco, em 1545, com a formação, em Pádua, da primeira companhia de atores profissionais. As au­toridades religiosas e civis tentam, em vão, interditar essas impertinências que fazem até grandes senhores rir.

Ao riso macarrônico dos italianos, que conserva um aspecto lúdico, corresponde o riso picaresco dos espanhóis, que surge quase ao mesmo tempo. Esse riso é mais áspero, amargo ou mórbido, porque ele é marcado pelo pecado original. A vida de Lázaro, em 1554, é uma farsa moralizadora, mas cética, quase mística. Depois da falta de Adão, o homem é um ridículo títere, que os autores picarescos não se cansam de aviltar e de cobrir de riso desdenhoso. De Guzman de Alfarache (1599), de Mateo Aleman, a Buscon (1626), de Quevedo, o pícaro desaba para o imundo e o repugnante. Guz­man come ovos podres e jumento morto; um porco o faz cair no defumador; uma noite, ele é encerrado com cadáveres. Depois da maçã, o homem é irremediavelmente maldito, mau, perdido. Se o cômico macarrônico é um jogo que termina em canções, o cômico picaresco é um jogo que termina em condenação à morte: a da humanidade. A vida é uma tourada, e o riso, o toureiro, mesmo que Cervantes tenha introduzido aí um pouco de senti­mento, de ternura, de humor.

Tudo isso é grotesco. A coisa existia antes da palavra, isso é certo; mas, no século XVI, ela entra no vocabulário e adquire verdadeira autonomia. E, como nada surge por acaso, pode-se dizer que o riso grotesco nasceu da consciência humanista da ambigüidade e da ambivalência do ser. Ele corresponde ao aparecimento de uma nova sensibilidade: o medo suscitado pelo crescimento brutal dos conhecimentos, que começa a tornar fluido o seguro mundo das aparências.

 

LXXVI - O BURLESCO

Macarrônico, picaresco, grotesco - o que mais? Burlesco? Esse corte do riso em fatias e em categorias estratificadas não corre o risco de tam­bém se tornar ridículo? A mania de classificação pode recair nos excessos escolásticos. A questão foi recentemente levantada a propósito do bur­lesco. Ao lado dos gêneros precedentes, italiano e espanhol, vê-se, de fato, aparecer na França, no século XVI, um gênero do cômico literário que seria tipicamente gaulês e que se expandirá na primeira metade do século XVII. Jean Emelina definiu-o como um gênero impertinente, ligeiro, trivial, desrespeitoso, ousado, elegantemente indecente, brincalhão, jo­vial, parodístico, às vezes iconoclasta, tendo uma "função de desrecalque, no sentido popular e psicanalítico do termo. O burlesco age como uma libertação de tudo o que pesa sobre o indivíduo e a sociedade, às vezes de maneira desenvolta e elegante, mais freqüentemente de forma grosseira. Esse é seu aspecto mais desacreditado. Ele é o escândalo intolerável do vulgar e da 'indecência', isto é, do que não convém".  O aspecto fol­gazão, lúdico contrasta fortemente com o trágico picaresco e lhe confere um ar superficial e ligeiro que seria anunciador do "espírito francês". Mas o burles­co só atinge seu verdadeiro desenvolvimento nos anos 1630-1640, em oposição à preciosidade ambiente: Voiture, Saint-Amand, Scarron lhe dão cartas de nobreza e, em 1649, a anônima Vida de Nosso Senhor em versos burlescos empurra o gênero até as fronteiras da blasfêmia, em uma espécie de prefi­guração de A vida de Brian, de Monty Python.

 

LXXVII - O HUMOR

Eis-nos na Inglaterra. A geografia do riso enriquece-se no século XVI com aquilo que se tornará o mais belo fiorão do planeta cômico: o humor. Se a época redescobre que o riso é próprio do homem, ela não está ainda plenamente consciente de que o humor é a quintessência do riso. Já disse­mos: a coisa existe muito antes da palavra, e o aparecimento do termo na Encyclopaedia Britannica de 1771 só faz consagrar uma forma de espírito sem dúvida tão antiga quanto a humanidade.

Nessa longa história, a Renascença corresponde a uma etapa impor­tante: a tomada de consciência da existência, em certos indivíduos, de um tipo de temperamento extravagante, de um humor capaz de ultrapassar agra­davelmente as contradições da vida e da natureza humana. O humor especifica-se na época dos Tudor e no início dos Stuart, a contar de 1550, sobretudo, partindo da velha teoria médica dos "humores". Para Bem Jonsoin ( autor inglês da época) o predomínio de determinado humor em um indivíduo confere-lhe uma excentricidade, uma bizarrice de caráter nitidamente cômico. Se o indivíduo em questão toma consciência dessa originalidade e usa-a diante das dificuldades da vida, o "humor" (no sentido fisiológico do termo) transforma-se em humor no sentido moderno do termo. Vári­os países estão dispostos a transpor a barreira: a Espanha, onde a excen­tricidade de Dom Quixote é claramente um "humor"; a França, onde Cor­neille e Scarron, entre outros, utilizam várias vezes a expressão "ter hu­mor", no sentido jonsoniano; a Itália, sobretudo, onde o umorismo designa um sistema de pensamento baseado na extravagância barroca. Em 1602, é fundada, em Roma, a academia Umoristi, reunindo aristocratas que prati­cam o umore. Havia também os lunaici, os estravaganti, os in fiammati, os fantastici, os intronati.

É, contudo, na Inglaterra que a barreira cai, discretamente. Não há ata de nascimento do humor. Um dia, dão-se conta de que ele existe, lendo Shakespeare, por exemplo. Não é o gordo Falstaff quem nos oferece uma das definições mais precoces dele: a jest with a sad brow ("uma brincadeira dita com ar triste") ? É uma definição incompleta, por certo; mas um dos traços do humor é justamente ser indefinível. Pode-se praticá-l o, reco­nhecê-lo, mas jamais descrevê-la. Não é de surpreender que esse instru­mento pragmático, que permite ultrapassar as dificuldades - ou esquivar­se delas -, se tenha aclimatado, de início, na Inglaterra? "Otimismo triste ou pessimismo alegre", ele reflete também as contradições desse país no século XVI, em particular o confronto entre puritanismo e alegria de viver da Merry England.

 

LXXIII - HUMOR E FELICIDADE

Thomas More, que deixou a reputação de ser humorista, é uma das primeiras ilustrações disso. Seu humor vem da união dos contrários: um temperamento feliz, consciente da fragilidade da natureza humana. "En­quanto procuro curar a loucura dos outros, é necessário que eu seja tão louco quanto eles", escreve ele em Utopia, e lhe atribuem esta prece: "Se­nhor, dai-me senso de humor. Dai-me a graça de saber discernir uma brincadeira, para que eu usufrua alguma felicidade na vida e que a partilhe com os outros". A degradação gerada pelo pecado original, que pode ser fonte de desespero, é a principal causa do humor cristão. Ainda é preciso usufruir um caráter feliz. O humor tem necessidade de contraste: é um duplo olhar, sobre os acontecimentos e sobre a vida; um simples olhar só vê as aparên­cias e produz, de maneira inevitável, tolice ou fanatismo, ou, mais freqüente­mente, os dois ao mesmo tempo.

O olhar humorístico é capaz de nos fazer sorrir de qualquer coisa ­mesmo que seja da asneira e do fanatismo. "Se formos dotados de humor, podemos fazer uma leitura humorística de textos desprovidos de humor", escreve Robert Favre.

Desde o início do século XVII, a técnica humorística instala-se na Ingla­terra de forma tão perfeita que, às vezes, é difícil discernir a parte séria da humorística.

Assim, a mistura espantosa de humanismo e conflitos religiosos, no século XVI, faz ressoar o riso em todas as direções: maldoso riso sarcástico do fanático, riso gigantesco e ambivalente do rabelaisiano, riso macarrôni­co caricatural e lúdico, riso picaresco amargo e mórbido, riso grotesco inquie­tante, riso burlesco, impertinente, riso humorístico sutil e abusado ... O riso explode em mil pedaços, e as gargalhadas compõem a grande sinfonia de auto-deboche, insuportável para os ouvidos dos reformadores religiosos in­transigentes. Cacofonia de risos infernais ou gritos de desafio do homem diante do nada?

Rabelais deu o tom. O século XVI ri, com entonações diferentes. Inega­velmente, a explosão dos valores tradicionais liberou uma necessidade uni­versal e variada do riso, que se manifesta, entre outros, pela multiplicação de histórias engraçadas: faz-se provisão de riso para momentos difíceis.

 

LXXIX - COLECIONANDO HUMOR

A coleção de blagues é riso em conserva, porque não há certeza de tê-lo sempre fresco. Esse tipo de obra não é, de certa forma, um sinal de penúria, uma precaução diante do acúmulo de ameaças? De fato, os medos tornam-­se precisos, as angústias tornam-se mais profundas, o conforto habitual da religião revela-se menos eficaz.

As histórias engraçadas também têm outra função. Destinadas a ser contadas entre amigos, em reuniões particulares de pessoas do mesmo meio e de mesma cultura, elas desempenham a função de cimento social, excluindo os outros, os outsiders, os estrangeiros, que não são queridos. Os que riem entre si fazem-no, em geral, à custa de um grupo social, étnico ou religioso: blagues antijudeus, antipuritanos, antinobres, anticatólicos ... Alvo são tam­bém os defeitos, as taras, os vícios; o riso consolida assim os preconceitos e contribui para construir uma sociabilidade por exclusão. Um estudo so­ciológico dos temas das histórias engraçadas é um bom indicador da evolução das mentalidades.

É preciso desconfiar, todavia, de uma ilusão: se as coleções de blagues multiplicam-se na Renascença, é também por uma razão técnica, a saber, porque a imprensa permite a difusão dessas pequenas obras. Durante lon­go tempo, elas ainda são manuscritas, minuciosamente copiadas por amantes de ditos espirituosos, para seu uso pessoal. A primeira coleção do gênero foi elaborada, ao redor de 1450, pelo humanista Poggio Brac­ciolini, que reuniu, em seu Liber facetiarum, as blagues, quase sempre esca­brosas, que circulavam nos meios pontificais de Roma. Elas são impressas em 1477 e circulam amplamente na Europa, sus­citando imitações.

É também dos meios eclesiásticos que sai o Schimpf und Ernst (Riso e seriedade), do monge alemão Johannes Pauli. Ele explica que compôs sua coleção de histórias engraçadas para que "os monges reclusos nos mosteiros tenham o que ler para distrair o espírito e relaxar". Os ambientes aristocráticos não escapam a essa nova necessidade. Em 1528, no segundo volume de O cortesão, Castiglione reúne numerosas histórias destinadas a divertir a companhia. Considerada aqui como complemento da conversação elegante, a história engraçada deve, portanto, preencher as condições de forma e conteúdo: finesse e decência, essencialmente

Menos refinadas, mas muito mais divulgadas, são As cem histórias alegres (A hundred merry tales), publicadas em 1526, num desconfortável formato in-fólio, por um grupo de humanistas ingleses. Shakespeare inspirou-se em algumas delas. Encontram-se traços delas ou alusões a elas em Muito barulho por nada, Noite de reis, As alegres comadres de Windsor, A megera domada. Na obrigação de compor certas obras rapidamente, sob encomen­da, o grande William não desdenha de recorrer aos jest books que circulam na Inglaterra para introduzir alguns ditos espirituosos nos diálogos de suas comédias.

Uma das mais ricas coleções cômicas é a muito séria Jocorum et serio­rum libri duo, publicada, em 1600, por Melander, que insiste em lembrar que ela se inscreve numa longa tradição de sábios, incluindo teólogos me­dievais que, antes dele, escreveram histórias para rir. Trata-se de conferir ao gênero sua carta de nobreza e de fazer do riso uma qualidade do homem do mundo.

 

LXXX - O RISO DO CORTESÃO

Depois de lembrar que é impossível definir o riso, e que este é, na verdade, próprio do homem, Bernardo Accolti, poeta sustentado por Júlio II e Leão x, uma das coqueluches literárias dos círculos da moda na Itália renascentista.  lhe atribui uma função recreativa e de di­vertimento. Concepção muito redutora: o riso do cortesão não é uma visão de mundo, mas uma simples recreação. "Tudo o que provoca o riso exalta o espírito do homem e lhe dá prazer, permitindo-lhe, por momentos, esque­cer as preocupações e atribulações que freqüentam a vida. Assim, vós vedes que o riso é bom para todos e que aquele que sabe provocá-Io no momento e no lugar certos é digno de elogios."

Bernardo especifica a pluralidade dos risos: o dos cortesãos não é, evi­dentemente, o "dos idiotas e dos bêbados, ou dos clowns estúpidos e dos bufões". Ele deve respeitar limites muito precisos. De início, em seus alvos: não zombar nem dos desgraçados inocentes, que merecem piedade, nem dos viciados e criminosos miseráveis, que merecem ódio, nem da religião, porque isso logo descamba para a blasfêmia. Em seguida, na forma: não cair no grotesco, no trivial, no grosseiro, "lembrando-nos sempre de nossa dignidade de fidalgo, evitando palavrões e gestos indecentes, contorções grotescas do rosto e do corpo e fazendo apenas movimentos que permitam àqueles que nos escutam e vêem imaginar muito mais do que podem ouvir e ver e, assim, provocar-lhes o riso".

Bernardo e Castiglione distinguem três tipos de brincadeira: a história do tipo narrativo, com desenvolvimento cômico; o dito espirituoso ou co­mentário, breve e bem colocado; e o "gracejo em ação", "que compreende uma história, um breve comentário e também uma certa dose de ação". Bernardo fornece numerosos exemplos de cada tipo, com múltiplas variantes e subcategorias. Essas brincadeiras, normal­mente atribuídas a personagens históricos, parecem apenas capazes de nos fazer esboçar um sorriso de polidez. Ora, a cada vez, Castiglione assinala que os presentes "gargalham". É a relatividade do cômico, sem dúvida, porém, mais freqüentemente, evolução da sensibilidade: o homem do sécu­lo XVI ri e chora com muito mais facilidade que nós. "O arcebispo de Flo­rença diz ao cardeal de Alexandria que o homem possui três coisas: o corpo, a alma e seus bens, mas os bens lhe são disputados pelas pessoas da lei, o corpo pelos médicos e a alma pelos teólogos."

 

LXXXI - A TRADIÇÃO DA FARSA, DA BLAGUE

É preciso redobrar a prudência nas brincadeiras de ação, porque é muito delicado enganar qualquer um sem vexá-lo, humilhá-lo, fazer dele um inimi­go, mostrar-se mau e cruel. Por precaução, Bernardo conta uma anedota na qual ele foi vítima: no Carnaval de Roma, o cardeal de San Pietro, sabendo que ele gostava de fazer blagues com os monges, disfarçou um de seus servidores de frei mendicante; Bernardo, mascarado, faz crer ao falso monge que ele é procurado pela polícia e, para salvá-lo, constrange-o a montar na garupa de seu cavalo. "Imaginai, portanto, que espetáculo era ver um monge na garupa atrás de uma máscara, sua roupa voando ao vento, a cabeça sacudida para a frente e para trás, como se fosse cair! Vendo isso, os nobres começaram a jogar-nos ovos", segundo o costume. Protegido por seu disfarce, Bernardo alegra-se com a derrota do pseudomonge, até o momento em que este último, para quem os comparsas passaram os ovos, "parecendo agarrar-me para não cair, esmaga alguns ovos sobre meu peito, outros sobre a cabeça e vários no rosto, até que eu ficasse todo pingando". E o cardeal e seus amigos torciam-se de rir, na janela. O episódio é quase tão engraçado quanto as batalhas de tortas com creme do cinema mudo. Os ouvintes de Bernardo riem com toda a alma ...

Sabendo que se trata de brincadeiras aristocráticas, o espanto com as obscenidades rabelaisianas é menor. Esse tipo de brincadeira é, de fato, uma tradição italiana que conhece seu apogeu entre 1450 e 1550: a tradição da farsa, a blague, a trapalhada. Os exemplos fervilham na literatu­ra, desde Decameron, em que se enumeram oitenta referências, até Novelas, de Matteo Bandello, passando pelas histórias de Sacchetti, Masuccio Saler­nitano, Sabadino degli Arienti e Antonfrancesco Grazzini.62 Na vida, a prática  é onipresente, da taberna e do Carnaval à corte dos duques de Milão e de Ferrara. Os arquivos judiciários estão repletos dessas blagues equivocadas que geravam demandas. O gosto da brincadeira é uma das características da aristocracia italiana do século XVI, que manda instalar, em seus jardins, armadilhas para pregar peças nos visitantes, como essas fontes que, de repente, põem-se a andar.

As principescas cortes italianas da Renascença são extremamente afi­cionadas a farsas de todos os gêneros. O bufão do papa Leão x é um padre, frei Mariano; o do duque de Mântua, Matello, disfarça-se de monge e paro­dia os ofícios. Em 1492, na corte de Milão, a princesa Beatriz d'Este manda colocar animais selvagens no jardim do embaixador de Ferrara, e todos os seus frangos são mortos. P Os bobos de corte italianos são renomados entre os melhores da Europa

 

LXXXII - O RISO NA POLÍTICA DA RENASCENÇA

Na corte da França, as brincadeiras também são muito apreciadas, sal­vo raríssimas exceções, como a rainha Ana de Bretanha. Seu marido, Luís XII, gosta de rir e, às vezes, aventura-se a pregar peças na soberana. Cont-se  que os embaixadores tinham o costume de ir vê-Ia depois da visita ao rei. Eles eram introduzidos pelo príncipe de Chalais, M. de Grignaux, seu primeiro chanceler, que era poliglota. A rainha lhe pede que a ensine a dizer algumas palavras amáveis na língua dos embaixadores para poder cumpri­mentá-Ios. Chalais, que era farsista, ensina-lhe um punhado de grosserias e ri com o rei. Ana, avisada a tempo dessa pequena "canalhice é tomada de espantosa cólera:

"Um dia, tendo a rainha lhe pedido algumas palavras em espanhol para dizê-Ias ao embaixador da Espanha, e sendo-lhe dita uma pequena canal­hice rindo, ela logo a aprende; no dia seguinte, esperando o embaixador, M. de Grignaux conta o fato ao rei, que o achou bom, conhecendo seu humor alegre e agradável; no entanto, ele foi ao encontro da rainha e contou-lhe tudo, com a advertência de evitar pronunciar aquelas palavras. Ela foi toma­da de tão grande cólera que queria expulsar M. de Grignaux, apesar da risa­da do rei, a quem ela ficou sem ver por vários dias, mas M. de Grignaux pediu-lhe humildes desculpas, dizendo que o fizera para divertir o rei e fazê-lo distrair-se e que ele não agira tão mal, já que o rei a advertira quando o embaixador chegou; e assim, pelos rogos do rei, ela se acalmou".

Zombar do soberano é apanágio do bufão do rei. Mas o tempo das guerras de religião vê desenvolver-se a sátira política. Reis e rainhas tor­nam-se alvo de zombarias cada vez mais virulentas, especialmente Catarina de Médici, "mulher machona", e Henrique !lI, "rei mulher ou homem rai­nha". Sob Henrique IV, os panfletos satíricos multiplicam-se, como A sátira menipéia da virtude do católico de Espanha. No século XVI, o riso diversifica-se, portanto, e explode por toda parte sem comedimento. É símbolo de vita­lidade, sem dúvida, mas não vai demorar para provocar reação, quando as crescentes exigências de civilidade e decoro se unem às dos reformadores religiosos. Erasmo já ressalta em seu Manual de civilidade que a explosão de riso, esse riso imoderado que sacode todo o corpo e que os gregos chama­vam de "sacudidelas", não tem decoro em nenhuma idade. É possível ima­ginar a Gioconda rindo às gargalhadas?

 

LXXXIII - DE RABELAIS A SHAKESPEARE

A gargalhada ensurdecedora da Renascença termina com Shakespeare, que nos deu a imagem mais completa da variedade e ambigüidade do riso. Em suas comédias, certamente há o riso franco, jovial, recreativo. Mas o riso autêntico, profundo está na tragédia e no drama. A vida é fundamental­mente uma tragédia, não uma comédia, e o "verdadeiro" riso é aquele que vem pontuar esse tecido trágico. O riso é uma reflexão sobre a tragédia; é uma forma de interpretá-Ia, de ver-lhe o sentido, ou a falta dele. E todos os grandes, de Shakespeare a Hugo, viram isto: o homem é grotesco, a condição humana é grotesca. Todo ser, todo ato, sublime ou horrível, possui seu lado debochado.

O reencontro do riso e da morte está no centro do teatro elisabetano e jacobino, pelo viés do estudo do suicídio em particular. A maior parte das comédias ressalta o lado grotesco desse ato. Grandiloqüentes ou parodís­ticos, os suicidas são ridículos, a menos que o suicídio seja para eles um estratagema, como em O mendigo cego de Alexandria, de Chapman. O suicí­dio é desmistificado e, expondo suas verdadeiras motivações, os autores põem à luz seu aspecto debochado. Confirma-se assim que, para o espírito da Renascença, pode-se rir de todos os assuntos, tudo é redutível ao deboche

Tudo se reduz a uma bufonaria. O infeliz Hamlet não passa de um boneco, perseguido pela ilusória questão de ser. Esse príncipe incoerente faz-se pas­sar por louco: é na bufonaria que encontra consistência, é por ela que ele espera encontrar a verdade. O riso esconde e revela, ao mesmo tempo.

Um dos ápices do grotesco é a encenação do pseudo-suicídio de Glou­cester, em Rei Lear. Lá se concentra todo o ridículo da existência humana, de nossa existência, que nos conduz à velhice e à morte. Que imagem surpreen­dente da humanidade! O duque de Gloucester, velho e cego, confinado em seus sonhos e em suas desgraças, quer terminar com a vida. Ele pede a Tom que o leve à beira da falésia, para que salte. Tom é o bobo de Bedlam. Esse bobo benévolo engana o velho, conduzindo-o a uma ponta de poucos cen­tímetros, e o salto fatal é um salto de pulga. Assim, nesta vida, "os tolos conduzem os cegos", a loucura salva a sabedoria, que é só ilusão e nos transporta ao ridículo; mesmo o fim é fracassado. Entramos na vida da for­ma mais trivial, saímos dela da maneira mais lamentável, e entre os dois gesticulamos a meio caminho entre a loucura e a cegueira. Não é risível? Os que querem levar essa comédia a sério são, sem dúvida, os mais risíveis.

LXXXIV - O FIM DO RISO NA RENASCENÇA

O grande homem do teatro shakespeariano não é nem Hamlet nem Macbeth nem Henrique v, mas Falstaff, Sir John Falstaff, que ri, faz rir e de quem se ri. Ele é odioso, medroso, fanfarrão e mentiroso; sua divisa é "Come, bebe e div:erte-te, porque amanhã estarás morto". Ele é o riso rabelaisiano por excelência. Só comete um erro, fatal: confia num político, crê na palavra de um poderoso, no caso o príncipe Henrique, que o rejeita de forma odiosa assim que se torna o respeitável Henrique v:

"Eu não te conheço, velho! Vai rezar. Os cabelos brancos caem mal num bobo e num bufão. Há muito tempo vi, em sonhos, um homem dessa espécie, também estufado de orgia, também velho, também profano. Mas, ao acordar, desprezei meu sonho. Trata agora de ter menos ventre e mais virtudes; renuncia à gula; saiba que teu túmulo tem de ser três vezes mais largo que o dos outros homens. Não me retruques com uma resposta de bufão. Não imagines que sou o que era. Porque, Deus sabe e o mundo saberá, eu expulsei de mim o antigo homem e rejeitarei assim aqueles que foram meus companheiros". 69

Falstaff morre por isso. O príncipe Henrique, tornado rei, rejeita e mata o riso. Essa cena é um pouco a ilustração da reviravolta cultural européia do fim do século XVI: depois de terem flertado com o riso na época da Renas cença, as autoridades morais e políticas o rejeitam como diabólico e im­põem um ideal clássico de grandeza e de nobreza. O ridículo grandiloqüente mata o ridículo trivial. Luís XIV, que não leu Montaigne, esquece-se de que, vestido com todas as suas bugigangas, está sentado sobre seu traseiro, como todo mundo. Fim do riso: a partir de agora se abre a grande ofensiva políti­co-religiosa do sério.

 

LXXXV - ACABOU-SE  O RISO – A grande ofensiva politico-religiosa do sério (sécs. XVI –XVIII)

Desde a metade do século XVI, ocorre uma poderosa reação contra a gargalhada da Renascença. Essa reação visa, em primeiro lugar, às manifes­tações sociais do riso popular: Carnavais e várias festas são o alvo de repeti­das interdições por parte das Igrejas e do poder civil. Depois, rapidamente, essa ofensiva aumenta para o conjunto das atividades culturais. O riso tor­na-se suspeito

Esse movimento contra o riso é apenas uma das conseqüências da evo­lução global da civilização ocidental. Sejamos sérios, retomemo-nos! Essa é a palavra de ordem de uma Europa consciente da necessidade de restaurar a ordem ameaçada pelas fortes sacudidas das descobertas e das Reformas. Ora, o riso é a desordem, o caos, a contestação. Não é rindo que se fundam as bases de um mundo estável e regenerado. O recreio terminou.

Para começar, que cessem todas as bufonarias populares que colocam o mundo do avesso! Cada um no seu lugar, cada um no seu posto, a serviço de Deus e do rei! A aliança de uma Igreja triunfante e de uma monarquia abso­luta não poderia tolerar as turbulências sediciosas do Carnaval e da festa dos bobos. Mesmo o bobo do rei não tem mais lugar ao lado de um sobera­no do direito divino, diretamente esclarecido pelo Espírito Santo.

Certamente, moralistas, teólogos, agentes do Estado sabem que eles não podem abolir por completo o riso. Ao menos, que o riso se discipline; que ele se faça polido, discreto, elegante, distinto, se possível silencioso, e que só apareça por motivos válidos: ridicularizar os defeitos, os pecados, os vícios, reagir a inocentes brincadeiras com finalidade recreativa. Para as elites do mundo clássico e barroco, as Igrejas Protestante e Católica, o riso pode, a rigor, ser um ornamento da vida social e cultural, conformando-se a regras muito precisas; de modo algum ele poderá compor o tecido da exis­tência, que é profundamente trágico, portanto, sério. A simples idéia de que o trágico possa ser cômico constitui uma monstruosidade em relação a esse pensamento do unilateral e do exclusivo.

 

LXXXVI - PROTESTO CONTRA O CARNAVAL

É preciso terminar com o riso obsceno e subversivo do Carnaval e de outras festas populares. Desde 1540, o Parlamento interdita a mascarada noturna organizada pela abadia dos Connards em Rouen, que tinha feitio rabelaisiano. O abade dos Connards, com um presunto em uma mão e um báculo em outra, seguido dos confrades, em hábito de Momo, em meio a mil facécias, solicitava ao Parlamento o direito de celebrar os dias gordos. Na procissão, notavam-se um papa, um rei, um imperador e um bobo, que se lançavam num mundo muito redondo para zombar dele. O abade concedia o direito de usar máscaras, e aqueles que lhe desobedeciam deviam beijar-lhe o traseiro e receber um peido no rosto. Pulsões e fantasias tinham livre curso; durante a refeição, um pseudo monge lia passagens de Pantagruel.

Aí reside o problema. É que entre o riso desbragado e a violência a fronteira é frágil, fluida e facilmente ultrapassável, sobretudo na atmosfera de conflitos religiosos que então prevalecem.. Em 1521, o Carnaval de Wittemberg adquire ares de manifestação antipapista. Nas cidades luteranas, em 1523, Nicolas Manuel organiza um Carnaval contra o papa e contra o clero e difunde, pela imprensa, explicações sobre cenas alegóricas: a derrisão torna-se propagan­da político-religiosa.

Em 1538, Francisco I interdita as abadias da juventude, suspeitas de propagar as idéias da Re­forma. Nas cidades flamengas, o imperador interdita a festa do Rei dos Bobos. Seu zelo anticarnavalesco também tem uma motivação social: "Como essas representações eram fei­tas por profissionais, mais capazes de excitar o riso que a piedade - como exigiria uma mascarada espiritual -, é por isso que os senhores magistra­dos, quando muitos camponeses já estavam infectados pela heresia de Cal­vino e para não lhes dar ocasião de atribuir à Igreja um abuso introduzido por esse tipo de gente, ordenaram suprimi-los"

 

 

Os Carnavais não só atentam contra a religião católica como também ameaçam a ordem pública, degenerando, às vezes, em conflitos armados. O caso mais célebre é o Carnaval de Romans, durante a Delfinada, em 1580, que se encerra com uma dezena de mortos. Confronto de confrarias, tendo como pano de fundo lutas sociais e religiosas. Brigas entre católicos e protestantes. Papistas e antipapistas.

Outros elementos concorrem para tornar o Carnaval suspeito. Nos países protestantes, o puritanismo reinante não pode tolerar a extrema li­cenciosidade que acompanha essas festas. As cidades calvinistas serão ain­da mais zelosas que as católicas em interditá-las. Além disso, o mundo carnavalesco e suas inversões, assim como o charivari, questionam institui­ções religiosas fundamentais, como o casamento. Assim, em Rouen, os Connards não são bem tratados, nem pelos protestantes nem pelos papis­tas. Em 1562, quando os protestantes se tornam senhores da cidade, eles proí­bem suas manifestações:

O século XVI é também o momento em que a cultura popular e a cultura das elites afastam-se uma da outra, de forma decisiva, A cultura das elites, livresca e esclarecida, já racio­nal, visa ao controle de si, O cômico fora substituído pelo didatismo." A cultura popular é a natureza mal compreendida, ou, dito de outra forma, a magia, a superstição ou a feitiçaria que se entrevê por trás de todos esses enormes risos camponeses. A religião esc1arecida e as elites sociais têm a vontade comum de suprimir o riso carnavalesco.

 

LXXXVII - OS LOUCOS PARA O ASILO

É tempo de colocar o mundo nos eixos e de eliminar dele a loucura. A grande desvalorização da loucura também começa no século XVI, e com ela é rejeitada a visão cômica e carnavalesca do mundo invertido. A demonização do Carnaval e da loucura está lançada.  Em 1589, em Asilo dos loucos incuráveis, o cônego italiano Tomaso Gar­zoni fala "dos loucos endiabrados e desesperados", que são "uma infinidade de inimigos de Deus que vimos, em nosso tempo, cometer toda espécie de rapinas, violências, sacrilégios, homicídios e rebeliões que se possa imagi­nar .... Eles merecem mil forcas"; ele assimila a loucura à morte das danças macabras, que "não se preocupam nem com reis nem com imperadores". A obra, reeditada onze vezes, traduzida para o alemão, para o inglês e para o francês, expressa um sentimento muito difundido nessa época: o mundo é louco, tudo está do avesso e as pessoas riem desse universo carnavalesco que só pode ser obra do diabo. Os quadros de Bosch e Bruegel já o sugerem; figuras do início do século XVII o confirmam, multiplicando cenas incon­gruentes, com comentários explícitos: "O mundo está revirado, eu não com­preendo", pode-se ler num deles, de 1616.

É possível ver a transição da farsa e dos charivaris para o discurso culpabilizador. Mesmo nas festas, a loucura e o mundo às avessas podiam constituir uma maneira de endireitar situações de desordem .... Mas a cul­tura humanista e clerical ultrapassou esse nível de regulação banal das con­dutas. Extrapolou e dramatizou a situação de loucura e inversão: ela desco­briu ali o pecado".

Acontece, cada vez mais, de festas degenerarem em badernas sérias. O jesuíta Mariana pensa, aliás, que essa violência faz parte do plano divino para fazer do indivíduo um ser social. Por exemplo, em 1636, o Carnaval de Bourges transforma-se em motim contra os oficiais de Justiça, enquanto em Cler­mont um comissário é assassinado: "Os habitantes de Clermont, conta uma testemunha, mascarados, na época do Carnaval, foram até a casa, forçaram as portas e, estando o dito comissário com saúde, o perseguiram e o joga­ram do teto para o piso da rua".

Tudo começa com o riso, e é exatamente isso que torna o Carnaval suspeito aos olhos das autoridades. Assim, em 1705 ainda, em Guéret, os meirinhos são cercados por habitantes vestidos de mulher e dirigidos por um açougueiro, Tixerat: "Depois de terem bebido, estando tomados pelo vinho, alguns jovens foram até ele para pegar o tambor e passear pela cida­de; ele seguiu-os, como era de costume nos Carnavais, ainda mais sendo o tambor-mor da cidade, e os jovens lhe colocaram uma peruca de mulher e assim ele desfilou pelas ruas dançando com esses jovens".

Não há nada de espantoso, portanto, no fato de as autoridades terem visto, no riso carnavalesco, uma manifestação diabólica: "Os diabos, duran­te o Carnaval, reviram como podem a natureza do homem; depois, apode­rando-se dele, enviam-no para o inferno", escreve, em 1580, um padre che­co, Vavrinec Rvacocsky.

 Não podemos nos esquecer de que estamos em plena psicose de feitiçaria. Depois de queimar os feiticeiros, encerram-se os loucos. Em 1632, Vicente de Paula reforma Saint-Lazare para acolher os alienados; em 1656, foi criado o Hospital Geral de Paris e, em 1676, o rei prescreve a criação de um estabelecimento semelhante em cada cidade. As autoridades religiosas colaboram com as autoridades civis nessa obra do "grande encerramento". Exigência de ordem pública, de moral e de salubri­dade. "Se a loucura, no século XVII", escreve Miche1 Foucault, "é quase des­sacralizada, é, em primeiro lugar, porque a miséria sofreu aquele tipo de decadência que a faz ser percebida, agora, apenas no horizonte da moral. .,. Surge uma nova sensibilidade: não mais religiosa, mas social. Se o louco aparecia normalmente na paisagem humana da Idade Média, era rindo de outro mundo. Agora, ele vai se destacar como um 'caso de polícia' concer­nindo à ordem dos indivíduos na cidade."

A festa popular é uma espécie de loucura coletiva, e o olhar das autorida­des sobre ela torna-se suspeitoso. Ela ameaça a ordem pública. Assim, o riso carnavalesco, demonizado pela religião e acusado de subversão pelo Estado, é combatido por todas as autoridades. Acusado de paganismo, depois de imoralidade e, por fim, de perturbar o descanso público, o Carnaval resiste, adapta-se, morre e renasce na profusão de seus símbolos e imagens",  escre­ve M. Grinberg. Durante mais de dois séculos, autoridades religiosas e civis esforçam-se por ampliar - ou, ao menos, disciplinar - o riso do Carnaval, das festas comunitárias e de confraternização, das festas dos bobos. Obra de lon­go fôlego, que encontra fortes resistências e cujos resultados são irregulares.

 

LXXXVIII - QUE A FESTA TERMINE!

Na Alemanha, a famosa Schembart de Nuremberg, onde se queima, em efígie, um pastor hostil às diversões populares, aconteceu, pela última vez, em 1539; no ano seguinte, a falta de dinheiro é pretexto para não organizar a festa. Na Inglaterra, pode-se seguir a cronologia do término das festas em Coventry: as de São Jorge, da Ascensão, de Pentecostes, de Corpus Christi cessam entre 1535 e 1547; as de São Pedro e São João, em 1549; a de Hock Tuesday, celebran­do uma vitória sobre os piratas normandos, em 1579; os jogos de bola, em 1595. Os pregadores puritanos atribuem essas diversões a desvios papistas. A partir de 1550, as eleições do Mock Mayor (Prefeito do Riso), do Bishop of Unreason (Bispo da Derrisão) ou ainda do Master of Merry Disports (Mestre dos Prazeres) desaparecem, pouco a pouco, nas grandes cidades. As festas renas­cem um pouco sob a Restauração, mas a onda metodista põe fim a elas a partir dos anos 1730. Em Piemonte, os sínodos diocesanos interditam, a partir de 1592, a prática do Rei da Juventude e de seu alegre cortejo, que entravam nas igrejas, em Mondovi, Saluces, Turim, Ivrée, Verceil; a última menção data de 1749. Na França, o movimento é geral. Editos de 1539 e 1561 proíbem as máscaras. Em 1538, há um decreto contra as abadias da juventude.

No norte, o poder empreende a luta contra as festas de dedicação das igrejas, festas denominadas ducasses ou kermesses, que, segundo o jesuíta An­toine de Balinghem, em 1615, causam mais de 130 assassinatos por ano. Desde 1531, Carlos v tenta limitar a duração delas; em 1588, Filipe II ordena que todas as dedicações de Artois sejam celebradas ao mesmo tempo, em 7 de julho ou no domingo seguinte; em 1601, os "jogos de moralidade, farsas, sonetos, ditados, refrãos, baladas" são proibidos nos Países Baixos. Em Lil­le, todos os aspectos de diversões populares são alvo de repetidas condena­ções: a festa dos Inocentes, o costume de zombar de príncipes (1514 e 1544), de fazer desfiles de juventude (1520), de plantar milho - costume que pro­porcionava ocasião de o Principado da Diversão organizar bufonarias e ceri­mônias burlescas em todas as cidades do norte, sob a direção de um Prebos­te dos Patifes, de um Capitão da Alegre Inteligência ou de um Guardião da Dama Ociosa. Em 1560, um decreto de Filipe II proíbe "cantar, jogar, divul­gar ou brincar publicamente, com companhia ou em segredo, algumas far­sas, baladas, canções, comédias, refrãos ou outros escritos semelhantes de qualquer matéria ou em qualquer língua que seja, tanto velhos como novos, nos quais sejam misturados questões, proposições ou fatos referentes a nossa religião ou a pessoas eclesiásticas". Igualmente proibidos são "os jogos mu­dos, denominados encenação ou representação por personagens". A aplica­ção é estrita: em 1563, sete homens são presos e condenados à retratação, em camisa, por ter representado, sem autorização, o Jogo do veado de ouro.

 

LXXXIX - A PERSEGUIÇÃO CONTINUA

No leste do reino, as famosas companhias da Mãe Louca, das quais participam inclusive grandes personagens, também são objeto de repres­são. Em Châlons, onde até o príncipe de Condé era um confrade da Mãe Louca, o conselho da cidade proíbe, em 1626, as atividades dessa socieda­de, decisão confirmada pelo Parlamento de Paris. Em Dijon, uma ordem real, de 1630, aboliu as manifestações da Mãe Louca, em razão de "desor­dens e deboches produzidos contra os bons costumes, contra o repouso e a tranqüilidade da cidade". As últimas veleidades cessam em 1650. Em Guyen­ne, o Parlamento interdita máscaras e assembléias de Carnaval, em 1636.

O restabelecimento da autoridade traduz-se por uma nova onda de in­terdições, reforçada pelo espírito jansenista e, no século XVIII, pelo das Lu­zes. As correntes mais contraditórias da elite cultural parecem unir-se con­tra as manifestações do riso popular. "A festa popular, que tivera uma função ritual, que permitira criticar a sociedade, que assegura, às vezes, o equilí­brio entre trabalho e diversão, perdia todo o sentido.

À exigência política de ordem acrescentam-se as normas de decoro so­cial, que reforçam os interditos teológicos; é de bom-tom, para o "homem honesto", não rir, ou, ao menos, deve fazê-Io discretamente. Dominique Ber­trand, em seu belo estudo A história do riso na idade clássica, demonstrou que os tratados de civilidade estão de acordo com o ideal religioso de austeridade: mostrar os dentes e a língua ao rir é inconveniente.  Nesse ponto, há unani­midade entre católicos e protestantes; nos Países Baixos, o Carnaval é com­batido dos dois lados. No século XVII, o catecismo protestante explica que "esse maldito dia de Baco" é uma superstição romana contrária à palavra de Deus. O pastor calvinista Peter Brod escreve, em 1761: "no dia da Terça-Feira Gorda, os cristãos têm condutas extravagantes e condenáveis. Alguns usam roupas do outro sexo e, com isso, são levados a entregar-se à luxúria. Outros encobrem sua vida e disfarçam-se de almas vindas do inferno. É por isso que concordamos em chamar esse dia de festa dos diabos"  O católico espanhol Rodrigo Caro, no século XVII, estabelece a mesma ligação entre o paganismo e o demônio: "Como Janus era o companheiro de Saturno, os meses de dezembro e janeiro foram consagrados aos dois, ao mesmo tempo; é por isso que durante as festas de Janus havia tais excessos, personagens monstruosos e demoníacos, homens vestidos de mulher e com o rosto pintado" .Onde prelados jansenistas exercem seu rigor, a luta contra o Carnaval testemunha uma rigidez particular. Em Châlons, o bispo Vialar, de 1640 a 1680, manda vigiar a cidade e os lugares afastados, aos domingos, feriados e no período da Terça-Feira Gorda, para descobrir eventuais foliões. Jean­Georges de Souillac, bispo de Lodeve, de 1733 a 1750, faz o mesmo; seu sucessor, Jean-Félix de FumeI, muito mais tolerante, é acolhido com fogos de alegria. tempo de nos desfazermos dessas memórias que nos tornam ridículos perante os povos do norte", escreve, em 1774, um eclesiástico simpatizante do jansenismo. Como nunca é possível suprimir bem o que é substituído, os eclesiásticos reformadores tentam divulgar novas práticas destinadas a preencher os dias livres pela interdição do Carnaval. Desde 1625, o jesuíta Balinghem faz Doze propostas para passar agradável e honestamente os dias da pequena Quaresma. Para ele, o Carnaval é "um erro que há muito tempo, e a título de herança de pai para filho, tomou posse do espírito do ser humano, ... uma doença inveterada, ... o maldito costume de abandonar, nessa estação, o temor e o respeito a Deus". Ofícios religiosos, exposição do Santo Sacramento, preces de quarenta horas: eis o que certa­mente substitui os risos diabólicos do Carnaval.

 

XC - AS RESISTÊNCIAS

 

É difícil avaliar a eficácia das medidas. As resistências fazem-se sentir um pouco por toda parte, e em breve as autoridades precisam aceitar um compromisso. Em 1560, o vigia do bispo de Fréjus foi expulso da catedral por homens mascarados, furiosos com a interdição da festa dos Inocentes. Em 1662, o bispo manda prender os tocadores de oboé e de tambor; em 1663, os foliões, protegidos por uma escolta fornecida pelo tenente do castelo, vêm zombar do bispo sob suas janelas, na noite de São João; o prelado replica expondo o Santo Sacra­mento; Em 1740, em Montpeyroux (diocese de Lodeve) um boneco representando o bispo, sobre um asno, é queimado no lugar do Rei Carnaval.

Na segunda metade do século XVIII, os Parlamentos multiplicam as proi­bições, com uma capacidade que parece limitada. Um pouco por toda parte, formas espontâneas de mascarada subsistem, a despeito das repetidas condenações. Às vezes, uma manifestação desaparece, como o concurso de jato de urina entre rapazes e moças em Grasse, 1706, que perturbava o bispo.

 

XCI - QUEM DISSE QUE NOSSAS BALADAS SÃO LOUCAS? VEJAM ESTAS.

 

Ou a festa se mantém ou então se chega a uma solução de compro­misso.Os costumes locais oriundos do direito feudal, que eram motivo de riso, bufonarias e zombarias, até que resistem bem, mesmo que os mais ricos possam dispensá-los. Assim, entre muitos ou­tros, ocorreu com o direito de "merdouladou", em Tulle: no domingo antes do Carnaval, os recém-casados do ano deviam jogar uma pedra em um barril cheio de sujeira, na presença de oficiais de justiça do condado e sob pena de uma pequena multa para os que fugiam dos respingos. Da multa saíam-se bem os mais abonados.

Na maior parte das localidades, as festas populares se mantêm até o fim do século XVIII: a festa do Traseiro, na Picardie, na qual os jovens escol­tam uma pessoa montada ao contrário em um asno, recolhendo uma "mul­ta" dos mais abastados; festas de loucura, um pouco por toda parte; festas da juventude, charivaris. Enquanto uma desaparece - como a dos padeiros e a dos moleiros, em Viena (Dauphiné), com seu cortejo burlesco de homens nus e untados de fuligem, os "escurecidos", dos quais não se ouve mais falar depois do início do século XVII -, muitas outras se transformam e, sobretudo, tornam-se seculares, com o clero desligando-se, progressivamen­te, dessas manifestações pouco conformes à nova dignidade. Muitas vezes também o bobo se torna profissional: um saltimbanco oferece seus serviços e é pago para garantir o espetáculo.

 

XCII - ORDEM OU CARNAVAL

Em muitas localidades, os representantes da ordem preferiam ficar a distância, durante o Carnaval, por saber que sua intervenção correria o risco de desencadear um motim. Riscos e violências de toda espécie benefi­ciam-se de relativa impunidade, e o Carnaval constitui o que chamamos, hoje, de "lugar sem lei"; o direito de rir substitui o direito real e, se ele não é menos impiedoso, é ainda mais injusto.

Entretanto, essa prática cessa em 1680. A guerra entre os poderes e as manifestações do  riso popular coletivo prosseguem durante todo o século XVIII. Lentamente, o Rei Carnaval cede terreno ao rei absoluto. Ele recua, não tanto diante do clero quanto diante da potência acrescida dos parla­mentos, duvidosas máquinas anti-riso, que por toda parte se dedicam a conter os transbordamentos da alegria popular e a limitá-Ia estritamente no tempo: em 1782, por exemplo, o Parlamento de Paris proíbe os habitan­tes de Aux de invadir a Quaresma com o Carnaval. A luta é dura até as vésperas da Revolução. Juízes, procuradores, membros do marechalato têm de se esforçar muito, porque os ridentes não brincam: um cavaleiro é mor­to em 1754, quando os guardas tentam interromper um jogo; em 1767 e 1778, juízes e procuradores fiscais são postos a correr pelos foliões.

Nesse combate bem real entre o Carnaval e a Quaresma, entre o desa­brido riso popular e a séria administração, é conveniente evitar juízos apres­sados e parciais que nossa época tem tendência a formular. Cuidado om os extremos ao pensarmos naquela época, pois o riso car­navalesco está sempre prestes a matar: ele é agressivo, intolerante, violen­to; humilha, degrada, despreza, vexa; riso da coesão estreita de pequenos grupos, é excludente; não admite oposição, impõe sua lei, persegue os re­calcitrantes, elimina aqueles que não querem se divertir; tirânico, não tole­ra os que não gostam da festa.

A juventude diverte-se e não admite que se fixem limites a seu riso. A partir do momento em que é dito "diversão", tudo é permitido. Os arquivos judiciários estão repletos dos excessos das companhias de juventude. Eis um exemplo entre milhares de outros: na noite de 1" a 2 de novembro de 1701, em Arras, os jovens, fantasiados de arlequins, boticários ou avôs, festejaram o dia de Todos os Santos de maneira burlesca, antes de agredir os guardas urbanos, ferindo um cabo e um sargento. Certamente, eles se di­vertiam. Em fevereiro de 1783, as "máscaras armadas" de Vivarais re­voltam-se contra os magistrados e os funcionários da lei. Escárnio e agitação são, mais que nunca, parentes.

 

XCIII – O DESAPARECIMENTO DA FESTA DOS BOBOS

A festa dos bobos desaparece no século XVll. Já muito desacreditada no fim da Idade Média, é objeto de repressão sistemática.Em janeiro de 1552, ela já é uma prática moribunda - apesar de ainda se ter arrastado durante um século, como escreve, em 1645, com reprovação Mathurin de Neuré a seu amigo Gassendi:  "nunca os pagãos celebraram com tanta extravagân­cia suas festas  como ocorre na festa dos Inocentes, segundo o costume dos franciscanos de Antibes. Nem os padres religiosos nem o guardião vão ao coro nesse dia. Os frades laicos, os frades hortelões , os pedintes, os que trabalham na cozinha e no refeitório, os jardineiros ocupam o lugar deles na igreja e dizem que fazem o que é conveniente a essa festa, pois representam os loucos furiosos, que de fato são. Eles se vestem com os ornamentos sacerdotais, mas esfarrapados e no avesso; simulam ler com óculos que não têm lentes e nos quais amarram casca de laranja, o que os torna disformes e tão assustadores que é preciso ver para acreditar, sobretudo depois que acendem os turíbulos que têm nas mãos e se agitam zombeteiramente, soprando cinza no rosto e na cabeça uns dos outros. Com esse equipamento, eles não cantam nem hinos nem salmos nem as missas de costume, mas balbuciam palavras confusas e gritos tão loucos, tão desagradáveis, tão dissonantes quanto os de um bando de porcos que grunhem; de sorte que bestas-feras não fariam melhor que eles o ofício desse dia. De fato, seria melhor levar certas feras às igrejas para louvar o Criador a sua maneira, e isso seria uma prática mais santa que suportar esse tipo de pessoa que zomba de Deus querendo cantar seus louvores, eles são mais insensatos e mais loucos que os mais insensatos e mais loucos animais'?!

 

XCIV  - PINTANDO E  BORDANDO DENTRO DAS IGREJAS

A cada vez, invocam-se as mesmas razões: essas práticas advêm do pa­ganismo e são indecentes. O riso é expulso das igrejas por ser pagão e imoral. É o que afirmam os provinciais de Sens, em 1528, de Cologne, em 1536, de Cambrai, em 1565: "Em certos dias de festa, os eclesiásticos têm o costume, sob pretexto de recreação honesta, de fazer coisas que, pelo desregramento que cresce de um dia para o outro, muito escandalizam os fiéis por causa das bufonarias que se praticam em certos lugares e em certas igrejas e que têm relação mais com o paganismo que com a modéstia cristã". 22 O concílio pro­vincial de Toledo, em 1566, lembra que as igrejas existem "para que os cris­tãos encontrem nelas um culto tranqüilo e digno de sua piedade", e que o riso fica, portanto, proibido. Pelos estatutos de Lyon, de 1566 e 1577, "não se deve tolerar, nas igrejas, jogos, tragédias, farsas e exibir espetáculos ridículos com máscaras, armas e tamborins e outras coisas indecentes que acontecem nelas, sob pena de excomunhão". O Concílio de Reims, em 1583, proíbe as "brincadeiras ridículas", e o de Aix, em 1585, todos os "divertimentos". Os estatutos sinodais de Chartres, em 1550, publicam "que nem os estudantes nem os clérigos nem as crianças do coro nem os padres façam nada de tolo ou ridículo na igreja, e que ninguém o faça nas festas de São Nicolau, Santa Catarina, dos Inocentes nem em nenhum outro jogo, sob pretexto de diver­são. Enfim, que sejam banidas das igrejas as roupas de bobos, que são perso­nagens de teatro". Essas interdições são renovadas em 1575.

As procissões também não devem mais ser ocasião de folganças - o que são freqüentemente, como parece descobrir o Concílio de Tours em 1583: "Sou­bemos, de forma fidedigna, que na maior parte das procissões desta província foi introduzido o mau costume de apresentar espetáculos ridículos nas procis­sões públicas que os pais da Igreja instituíram para glorificar Deus". Esses risos "são, antes, capazes de atrair a cólera de Deus". São, portanto, proibidos, sob pena de excomunhão. Em 1642, o bispo de Angers constata que os jovens, "ao escarnecer da Santa Igreja", desviam o sentido da procissão do Santíssimo Sacramento: eles cantam canções de amor a suas amantes, "que são expostas em público, para esse efeito"; e que ces­sem os risos nos cemitérios, parem de "fazer aí zombarias e facécias que eles chamam de moralidades".

 

XCV - A COISA FICA FEIA

Em Gerona, onde se podem seguir as peripécias desse com­bate, transcorrem 150 anos entre a primeira medida de interdição, em 1475, e o desaparecimento efetivo do costume, em 1621: um século e meio para abafar uma gargalhada!.

Não se deve jamais troçar de alguém em uma igreja, porque isso é fazer dela "covil de ladrões que se entretêm com coisas agradáveis e divertidas"; por mais forte que seja a razão, um pregador nunca deve escarnecer no púlpito.

Além disso, há assuntos tabus. Não zombar de Deus nem da religião:

"Isso é coisa de ímpios que levam sua boca suja ao céu". Nunca caçoar dos santos, de seu culto, das relíquias, das cerimônias da Igreja: "Só os heréti­cos, os Lutero, os Calvino, os Rabelais, os Henri Estienne, os Boccacio e os Marot, os ministros Du Moulin e seus colegas tratam assim as coisas da religião". Jamais zombar das Escrituras nem das preces da Igreja. Não es­carnecer dos amigos nem dos infelizes nem dos grandes, porque isso faz que "prejudiquemos a nós mesmos e que atraiamos maus negócios". Nunca caçoar das pessoas de bem nem de seus parentes nem dos soberanos. Estes últimos devem também abster-se de qualquer zombaria, já que isso pode prejudicá-Ios. E não se pode ironizar durante a Quaresma, sobretudo diante da aproximação da morte, assunto que deve ser abordado com temor e tremor: nem pensar em fazer uma boa tirada de espírito para aliviar o medo.

Deixemos igualmente de lado todas essas coleções de histórias engra­çadas: "Não se deve dar importância às coleções de ditos espirituosos nem a livros de histórias, novelas, contos, aventuras, fábulas feitos para agradar e divertir", porque "o que mais aparece neles é o espírito de libertinagem e de impiedade". O cristão deve, assim, abster-se de assistir a comédias, que são absolutamente proibidas aos eclesiásticos. Aliás, não se deve estranhar que as farsas, as bufonarias, as marionetes e todos os divertimentos dessa nature­za sejam proibidos aos verdadeiros fiéis que professam a religião católica Todos os saltimbancos e bufões foram condenados pelos Concílios de Sens (1524), Narbonne (1551), Bourges (1584) etc.

As mascaradas são intoleráveis. São restos pagãos das saturnais, e o uso de disfarces é contrário tanto à lei civil quanto à lei religiosa. As ordens de Francisco 1(1539), Carlos IX (1561), Henrique III (1579) e uma sentença da corte de Rouen, em 1508, proíbem "todas as pessoas de usar, vender ou comprar rostos falsos, máscaras, narizes ou barbas falsas e outras coisas que servem para disfarçar". Isso, de fato, facilita os atos criminosos, mas também permite que os indivíduos se entreguem a diversões proibidas. Disfarçar-se é um ato contrário à natureza, sobretudo se se travestir em pessoa do sexo oposto, porque "a natureza revestiu cada sexo de vestimen­tas que lhe são próprias". Disfarçar-se de animal é ainda mais infame: é rejeitar a imagem de Deus para ficar no nível da besta, como faziam os pagãos. Em uma palavra, isso é diabólico. Paradoxalmente, vestir­-se de religioso é ainda pior.

 

 

XCVI - RIR PARA CONTINUAR SOFRENDO, SIM.

Trata-se de preparar a Qua­resma, estação de choro, medo e tremores; ora, não é com o riso que se preparam as lágrimas! Contudo, o homem sente necessidade de se divertir, afirma Jean­Baptiste Thiers, mas "ele não tem necessidade de jogos nem de divertimen­tos, se se conservar no bem-aventurado estado de inocência em que Deus o criou. Porque, mesmo que tivesse de trabalhar no paraíso terrestre, seu trabalho lhe seria agradável".  Notemos que a punição do pecado original não é o trabalho, como se diz sempre, mas o divertimento. O ideal seria poder trabalhar de forma contínua, permanecendo sempre sério, sem ter necessidade de descansar nem de rir. Mas, infelizmente, "a fraqueza do ho­mem é tão grande depois do pecado original que, não podendo se ocupar, sem cessar, das coisas sérias, ele é obrigado, de vez em quando, a se diver­tir". O riso só é útil, portanto, "para nos tornamos capazes de ocupações sérias". Sempre evitando diversões bufas e abstendo-nos totalmente, nos domingos e dias santos, de "momices, farsas, fábulas ou pretensas histó­rias". Portanto, é permitido rir - discretamente - fora dos dias de trabalho, dos domingos, dos dias feriados.

 

XCVII - AUTORES ESPIRITUAIS E PREGADORES CONTRA O RISO

 Com raras exce­ções, a imensa maioria dos pensadores cristãos, de 1550 a 1800, de todas as tendências, condena o riso, essa tara da humanidade degenerada, esse desafio diabólico ao Deus vingador, terrível e sério. Entre os grandes nomes da Contra­ Reforma, Carlos Borromée, em um concílio provincial de 1565, denuncia as peças encenadas na Páscoa porque elas provocam o riso e fica indignado contra a maneira cômica com que representam a vida de Cristo. Da mesma forma, Roberto Belarmino pronuncia-se, em sua carta de 1608, pela eliminação de qualquer tipo de derrisão (deboche)  nos escritos da vida de santos: rir de São José, cornea­do pelo Espírito Santo, por exemplo, é uma verdadeira blasfêmia. São João da Cruz condena, em A subida do Carmelo, "a vã alegria que se tem com as criaturas".. Grig­non de Monfort condena as "zombarias malignas" e faz as moças cantarem:

Beber, comer, dormir, rir,

Para nós deve ser grande martírio,

Para Guillaume Briçonnet, o domingo é feito "não para rir e folgar, mas para chorar". A  opinião do jesuíta Martin deI Rio: "Satã gosta de provocar o riso nos homens, para que, alegres e plenos de contentamento, eles se entre­guem à impiedade" 

 

XCVIII - COMÉDIA NÃO !

As decisões contra a comédia multiplicam-se: desde 1641, há a declaração real que visa eliminar da comédia os elementos trivi­ais e lascivos; depois, a resolução da Sorbonne, em 1694, que vê na derrisão (deboche) uma "infâmia"; e ainda a interdição dos comediantes italianos, por Luís XIV, em 1697. O rei, que no início do reinado gargalhava forte diante das panta­lonadas ( de Pantaleão, ou Pantalon), torna-se sério com a idade e cede, pouco a pouco, às pressões do partido devoto e de madame de Maintenon: "A velha enrugada do grande homem", escreve a princesa Palatina, "exigia a supressão da comédia". Luís XIV abandona a comédia italiana a partir de 1689, e Bossuet, o bispo corte­são, que sabe escolher seu momento, martela o prego no caixão de Arle­quim com suas Máximas e reflexões sobre a comédia, em 1694; agora que o rei não ri mais, persegue o riso.

Por toda parte, os oradores sacros vociferam contra a diabólica hilari­dade. Outro membro da Companhia de Jesus, o padre La Colombiere, anatematiza os que riem: "Infeliz daquele que ri, duplamente infeliz sois vós que rides agora, que rides nestes dias desgraçados, quando o inferno está escancara­do, quando o príncipe deste mundo parece ter recuperado seu antigo impé­rio, quando os pecados se multiplicam até o infinito, quando não se distin­guem mais os fiéis dos idólatras". O signo do verdadeiro cristão é verter lágrimas: preciso chorar sem parar, ouvintes cristãos, para apaziguar Deus; mas, depois de ter enfraquecido sua cólera por nossas lágrimas, é necessá­rio ainda chorar para satisfazer sua justiça. Para destruir o pecado é preciso detestar a alegria criminosa que se experimenta no uso ilícito dos bens criados; porém, para expiar esse pecado, deve-se ainda renunciar à alegria inocente que esses mesmos objetos nos propiciam".

De fato, como é possível não ficar morto de medo? "Eu me espanto de ver-vos pensar nos prazeres e não vos ver morrer de medo."

 

XCIX - CARNAVAL, TAMBÉM  NÃO !!!

O Carnaval é alvo de uma coorte de pregadores. Um dos mais virulentos é Jean Richard, cognominado Advogado, morto em 1719. Na realidade, Ri­chard é um leigo, casado, que compõe dezenas de sermões. Para ele, o Carna­val, "ilusão perigosa do demônio", é uma celebração satânica que põe o mundo do avesso; o homem rebaixa-se ao nível das bestas; vêem-se os pobres, que tanto se queixam da miséria, desperdiçar, empanzinar-se; "eles consomem, em três ou quatro dias, o trabalho de várias semanas". 

Em seu sermão "Sobre as zombarias", Richard, o Advogado, parte dos exemplos bíblicos e evangélicos. São sempre os maus que zombam; eles riram de Jesus, de Paulo, e esse riso vem do orgulho: "Ele os torna bufões críticos, exigentes, chocantes como uns Demócritos". "O zombador é um apóstata, um homem inútil para o mundo, tem uma língua perigosa e põe os irmãos aos seus pés por desprezo" .

Que os zombadores fiquem pre­venidos, porque Deus zombará deles enviando-os para o inferno: "Morre-­se rindo e zombando como se viveu; e é com esse terrível castigo que Deus se vinga do homem. Vós zombastes de Vosso Pai: agora sereis zombados".

O tom nunca muda nos sermões do século XVIII. Em Pequenas homilias ou instruções familiares especialmente para as pessoas do campo, em 1761, Gi­rard, vigário de Saint-Loup, avisou os humildes: contam-se histórias en­graçadas, às vezes obscenas, "brinca-se, gargalha-se; ninguém se digna a confessá-lo; aplaude-se; louvam-se e admiram-se aqueles que as proferem com mais espírito e graça; eles são procurados como pessoas de conversa­ção agradável. Porém, que estranha surpresa na hora da morte e no dia do temível julgamento de Deus, quando se encontrará, a propósito desse as­sunto, um grande número de crimes; quando se verá que esses discursos envenenados e encantadores terão causado a danação de várias pessoas e farão com que muitas outras pereçam no futuro". 50 O inferno está repleto daqueles que riem.

C - O PADRE GARASSE E A BATALHA DO RISO

Precisamente em 1624 estoura o caso Garasse, uma gargalhada seguida de uma voz de trovão que fizeram grande ruído na igreja e na pretoria. Motivo da agitação: a grave questão de saber se é legítimo e desejável utilizar o riso contra os inimigos da fé. O padre François Garasse, jesuíta formado em Tou­louse, espírito fervente, truculento, intrigante e audacioso, publicou em agosto de 1623 uma volumosa obra de mais de mil páginas, A doutrina curiosa dos belos espíritos desta época. O sangue de Garasse lhe sobe à cabeça: Ele descreve os libertinos como um bando de bufões deslocados que se reúnem nos cabarés ou na capela de Isle-du-Pont-de-Bois, em Paris, e se entregam a violentas paródias anti-religiosas, sacrílegas, misturando obs­cenidades e blasfêmias. Escarnecendo de todas as práticas de piedade, eles não hesitam em ir em bandos para rir dos sermões nas igrejas e ridicularizar a austeridade dos huguenotes. Fazem troça dos absurdos que a Bíblia contém e só têm dificuldade ao escolher entre a baleia de Jonas, os 967 anos de Matu­salém, as histórias escabrosas de Lot, que engravida suas filhas com a bênção divina, o asno de Balaão e a serpente falante do paraíso terrestre, sobre a qual os libertinos perguntam: "Como ela andaria, saltitante, sobre a ponta da cau­da, voaria ou se arremessaria como uma flecha animada?"

Garasse propunha que os sacerdotes e a Igreja usasse o riso contra os atues e apóstatas. Sua tese foi violentamente rechaçada pela Igreja da sua época. Afinal o riso , mesmo que venha da Igreja , pertence ao demônio! A Igreja detém a verdade, e a verdade é séria.  O caso Garasse é mais importante do que parece à primeira aborda­gem. Perdendo a batalha do riso, os pensadores, oradores e escritores cató­licos privam-se de um instrumento essencial que lhes fará muita falta nos grandes combates do século XVIII. Desprezando essa arma como grosseira e indigna, eles deixam seu monopólio para os adversários, que vão utilizá-Ia amplamente, aperfeiçoá-Ia, refiná-Ia, adaptá-Ia. Voltaire não está longe dis­so. Assim, no momento em que a Igreja se torna ridícula por romper com a ciência moderna - o caso Galileu data de 1633 -, ela amputa todo um setor cultural, o da ironia, da brincadeira, do riso. Optando pelo pomposo, pelo pesado, pelo tedioso, pelo sério, ela se afasta um pouco mais da cultura moderna civil. A Igreja abandona o riso ao diabo, que nem pedira tanto. O erro é colossal.

Como vimos, os nomes que aparecem com mais freqüência na luta contra o riso são nomes de jesuítas, o que surpreende um pouco, vindo da parte de uma ordem considerada leve, aberta, apta para o compromisso. Essa falta de gosto lhe será fatal, como judiciosamente comentou Marc Fu­maroli: "Os jesuítas não conseguirão mais recuperar o terreno perdido: ... a arte de atacar sem se tornar odioso escapará, muitas vezes, aos discípulos de Loyola. Especialistas na arte do elogio e da celebração, eles se mostrarão regularmente desajeitados na arte do panfleto. Souberam fazer-se admirar e, às vezes, temer: nunca souberam conquistar o riso das 'pessoas de bem', o que Paris, como um todo, não perdoa. Na guerra de panfletos em meio à qual eles viveram até sua expulsão, no século XVIII, não souberam encontrar o tom justo.

 

CI - UM RISO JANSENISTA?

(O Jansenismo foi uma teologia cristã que surgiu na França e Bélgica, no século XVII e se desenvolveu no século XVIII.Tem esse nome porque tem origem nas idéias do bispo de Yprès, Cornelius Jansen. O Jansenismo era uma versão modificada do calvinismo, que por sua vez se baseia na teologia de Agostinho de Hipona.)

 

Para o  jansenista Pierre Nicole, o cristão deve imitar seu modelo, Jesus, que nunca riu: "Ele sempre teve sua cruz diante dos olhos.  Por aí se vê que satisfação ele podia ter no mundo ..  Assim, é preciso ter em mente que ele nunca riu. Nada nunca se igualou à seriedade de sua vida: e é claro que o prazer, a diversão e tudo o que pode distrair o espírito não têm lugar neste mundo. A vida de Jesus é toda volta­da a Deus, toda ocupada por Ele e pela miséria dos homens, sem que tenha dado à natureza o que não poderia recusar sem destruí-ia". 

Esse velho lugar-comum sobre Cristo nunca ter rido conhece uma nova saga no século XVII.   Já que Jesus nunca riu, ninguém deve rir. É preci­so, pois, perseguir aqueles que suscitam essa vergonhosa atitude, a co­meçar pelos comediantes: "Se o cristão se considera pecador, ele deve reconhecer que não há nada mais contrário a esse estado que o obriga à penitência, às lágrimas e à fuga dos prazeres inúteis que a busca de uma distração tão vã e tão perigosa como a comédia".

Em Port-Royal( onde se formou a corrente jansenista), onde as constituições proíbem a zombaria e o riso imo­desto, os solitários levam uma vida totalmente desprovida de brincadeiras.

Eles acarretam o ridículo, ou o cômico involuntário, até afirmar, como Arnauld d' Andilly, que se pode ceder às paixões para enganar o demônio, fazendo-o crer que ele ganhou! A astúcia é cômoda e não tão rara em certos místicos de espírito frágil. Veja-se Louise de Bellere du Tronchay, uma obcecada com a danação, que assegura ser seguida por um bando de demônios em forma de gatos e que se inflige mortificações extravagantes. Atacada por um ciúme doentio de Maria Madalena, que passa seu tempo  abraçada aos pés de Cristo na cruz, ela arranca a imagem da santa, dizendo: "Dai-me vosso lugar, há mui­to tempo que estais aí" e põe-se a acariciar "seu" Jesus. As cartas que ela envia a seu confessor revelam, segundo Bremond, uma neurose erótica. Essa louca foi internada no asilo de Salpêtriere, em 1677, mas dizia que se fazia passar por louca para se humilhar. Caso extremo, certamente, mas já vimos, com os pais do deserto, que o excesso ascético desemboca no absurdo cômico.

 

 

CII - A IRONIA JANSENISTA

Mas o domínio privilegiado do riso jansenista é a ironia polêmica. Si­tuando-se eles próprios fora deste mundo corrompido, os senhores estão certos ao torná-lo derrisório, ao ressaltar o cômico, o ridículo, o burlesco, o grotesco, o absurdo das convenções mundanas. É uma posição confortável e eficaz: paradoxalmente, foram os tristes espíritos jansenistas que melhor iluminaram o cômico irrisório da comédia humana. Num nível mais eleva­do, isso faz nascer a ironia devastadora de Pascal.

Um jansenista anônimo, em Carta de uma pessoa de posição, afirma que o riso não é cristão, pois nem os anjos nem Cristo riram; baseando-se nessa revelação, ele opõe o sorriso ao riso. Na harmonia, can­ta-se, sorri-se, o rosto se ilumina, há lágrimas de amor. Por mais animado que se queira imaginar um céu cristão, não é possível conceber que lá exista riso; é preciso deixá-lo para os deuses de Homero em seu Olimpo, onde é inextinguível, como suas desordens e seus adultérios." Contudo, o Grand Arnauld tomou o partido das Iluminuras, mostrando que a Bíblia muitas ve­zes utiliza a zombaria. A ironia é a arma dos pessimistas, porque sua caus­ticidade pode corroer as falsas certezas dos otimistas de encomenda. É por isso que Pascal ri, como o veremos.

 

CIII - A MORTE DO RISO

(Jacques-Benigne Bossuet (Dijon, 27 de Setembro de 1627 —e morreu em Paris, 12 de Abril de 1704) foi um bispo e teólogo francês. Bossuet foi um dos primeiros a defender a teoria do absolutismo político; ele criou o argumento que governo era divino e que os reis recebiam seu poder de Deus.)

Bossuet nunca ri. Nenhuma forma de hilaridade tem graça aos olhos desse agelasta patológico, encarnação quase caricatural da expressão "le­var-se a sério". Cartas, sermões, tratados são, nesse ponto, de total coerên­cia, e suas Máximas e reflexões sobre a comédia permanecem um dos pilares da luta contra o riso.

Na base desses pilares, há uma convicção inabalável. Jesus nunca riu, e isso não por acidente, porque não existissem trocistas entre os doze, mas deliberada e sistematicamente porque a condição humana corrompida exi­ge lágrimas, e a careta do riso é uma máscara indecente que deforma a imagem de Deus. "Jesus ... assumiu nossas lágrimas, nossas tristezas, nos­sas dores e até nossas fraquezas, mas não assumiu nossas alegrias nem nossos risos e não quis que seus lábios, onde a graça residia, fossem dilata­dos uma única vez por um movimento que lhe parecia acompanhado de uma indecência indigna de um Deus feito homem." Nossa natureza é a dor; o riso é a decepção e o erro; um belo rosto é um rosto em lágrimas; a fealdade é uma fácies deformada pelo riso.

 

CIV - MAIS UMA VEZ O PAPO DE QUE JESUS NÃO RIU

Contraprova: não apenas Jesus não riu como riram dele durante sua vida e sobretudo por ocasião da Paixão. preciso que o insulto da zomba­ria o persiga até sobre a cruz e mesmo na proximidade da morte; e, enfim, que se invente na Paixão uma nova espécie de comédia, em que todas as brincadeiras sejam, por assim dizer, tingidas de sangue, em que a catástrofe seja totalmente trágica."

A zombaria é, portanto, em si, uma atitude odiosa, um pecado, uma tara social que corrói as relações humanas.

São os inimigos da fé, os libertinos que utilizam  o deboche para "envenenar os espíritos com suas zombarias sacrílegas". Isso põe Bossuet fora de si, e sua audácia fica à altura de sua vulnerabilidade diante do riso. A zombaria o confun­de totalmente, porque ele não pode compreender que se aborde, com o riso, uma questão tão séria quanto a fé. "Se quereis discutir a religião, que o seja com a gravidade e o peso que a matéria demanda. Não façais brincadeiras despropo­sitadas com coisas tão sérias e tão veneráveis. Essas importantes questões não se decidem com meias palavras e assentimentos de cabeça, com essas sutis zombarias das quais vos vangloriais e com esses desdenhosos sorrisos."

Ê, portanto, dever do soberano reprimir a derrisão, a zombaria, o riso.

O rei, imagem de Deus, não ri e, acima de tudo, não caçoa de ninguém:

O riso em si mesmo, em sua essência e sob todas as formas, é mau.

Malditas sejam "as gargalhadas de riso que fazem esquecer a presença de Deus e a conta que é preciso prestar-Lhe das mínimas ações e das mínimas  palavras; e, enfim, todo o sério da vida cristã

É desonesto ser divertido: Bossuet consiste nisso. Os temperamentos joviais são suspeitos.

Bossuet põe sua erudição seletiva a serviço de sua obsessão. Jesus dis­se: "Infeliz daquele que ri"; é claro, e isso deveria ser suficiente para pôr fim à questão. Mas, para acabar de convencer os espíritos joviais, nosso bispo releu a Bíblia e seu olhar de águia não encontrou a mínima justificativa para o riso: certo que não se vê nos Santos Livros nenhuma aprovação nem nenhum exemplo autorizado desses discursos que fazem rir". 

Quanto às autoridades humanas, todos os pais da Igreja condenaram o riso, afirma o prelado: "Eu não conheço nenhum dos antigos que, longe de classificar as brincadeiras como qualquer ato de virtude, não as tenha olha­do como viciosas". 

 

CV – O MUNDO É UMA FARSA

Esse riso libertino não é, aliás, muito alegre. É desanimador rir da bestialidade humana quando se percebe que ela é incurável. Conscientes de formar uma elite secreta, despre­zando as crenças, superstições e preconceitos da massa, praticando um con­formismo de fachada, os desabusados não demonstram nenhum proselitis­mo. Não procuram mudar o mundo, de uma indescritível bestialidade. Seu riso não é de crítica positiva; é o riso petulante do espectador que lamenta o nível do espetáculo, uma espécie de sub-riso, como aquele determinado por um cômico tão miserável que não há outra solução. De fato, quando o come­diante cai abaixo de certo nível, não se ri mais dele, ri-se de si mesmo, da própria idiotice: como é possível ser tão besta a ponto de perder tempo vendo tal estupidez? O riso do libertino erudito, dos anos 1620-1650, é um pouco isso, com o sentimento de que o mundo todo é uma "asneira" digna do pior cômico, como o resume La Mothe Le Vayer: "Toda a nossa vida é, na verdade, uma fábula; nosso conhecimento, uma asneira; nossas certezas, uma ilusão; resumindo, todo esse mundo é apenas uma farsa,

 

CVI - O RISO LIBERTINO USADO NAS LUTAS RELIGIOSAS

Por seu lado, os protestantes não deixam de zombar das superstições papistas. Assim, em 1635-1636, o caso da possessão diabólica das religiosas de Loudun, que os católicos levam tão a sério, desencadeia o sarcasmo dos ingleses. Viajantes céticos vão até lá e observam, ironicamente, todos os sinais de fraude, o que exaspera os jesuítas. Thomas Killigrew, já citado, assiste às seções de exorcismo e ressalta que, durante os interrogatórios das possuídas, "o padre só fala em latim, o diabo, em francês". Quando o exorcista pede ao demônio que vista de ferro o corpo da religiosa e propõe que o inglês o toque, este constata: "Só senti carne firme, braços e pernas rijos". O duque de Lau­derdale, que estava em Paris em 1637, também vai assistir aos exorcismos. "Comecei a suspeitar de velhacaria", escreve ele, e quando lhe mostram, sobre a mão de]oana dos Anjos, os nomes de]esus, Maria e]osé, "milagrosamente" inscritos, ele percebe que se trata de água-forte: "Perdi a paciência e fui dizer a um jesuíta o que eu realmente pensava". Em seguida, ele pede a esse jesuíta que tente uma experiência: ele pronunciaria uma frase em língua estrangeira e pediria ao demônio possuidor da religiosa que a traduzisse. Confusão do je­suíta: "Ele me respondeu: 'Esses diabos nunca viajaram', o que me fez estou­rar de rir, e não pude obter mais nada". Um por um, lorde Willoughby, George Courthop, Charles Bertier testemunham o mesmo ceticismo, o que irrita pro­fundamente os exorcistas. Para]ohn Locke, que escreve em 1678, toda essa história é um golpe montado por Richelieu com religiosas comediantes.

Nossos viajantes também são muito sarcásticos em relação às supersti­ções comuns dos católicos e, em particular, ao culto de relíquias. Por toda parte, eles destacam a credulidade dos fiéis diante de objetos, uns mais horrorosos que outros: lanterna de ]udas, bengala de Moisés, sangue de Cristo, leite da Virgem, louça das núpcias de Caná - a qual não tem nada a ver com o estilo daquela época, ressalta ]ohn Locke. Este último, lembran­do que, em Toulouse, se pretende possuir o corpo de seis apóstolos, ironiza:

 

CVII - A SANTA ZOMBARIA PASCALIANA

Paradoxalmente, um dos maiores zombadores do século não tem nada de cético nem de brincalhão. O jansenista Blaise Pascal. Ficando no contrapé dos pregadores clássicos, Pascal afirma que o pró­prio Jesus foi zombador: não caçoou de Nicodemo, que se julgava um sá­bio? Melhor ainda: Deus Pai zombou de Adão. Depois que Adão comeu a maçã, escreve Pascal, "Deus, em punição, tornou-o sujeito à morte e, após tê-Io reduzido a essa miserável condição, zombou dele com estas palavras de escárnio: 'Eis o homem que se tornou como nós', o que é uma ironia sangrenta e sensível com que Deus o espicaçava".

Deus zombou de Adão depois do pecado original; ele também escarne­cerá dos condenados, no fim: '1\. sabedoria divina unirá a zombaria e a risa­da à vingança e ao furor que os condenará aos suplícios eternos". O espetá­culo, de fato, tem seu grão de sal, da parte de um Deus infinitamente bom! Que magnífico presente para os libertinos! Mas Pascal, aqui, só retoma o tema clássico da pastoral do medo.

Portanto, conclui Pascal, "não é conduta contrária à dos santos rir dos erros e dos desvios dos homens". Daí o direito que ele tem de rir dos erros e dos desvios dos jesuítas. "Por que, meus padres, a imaginação de vossos autores deverá passar por verdade de fé, e não se pode zombar de passagens de Escobar e de decisões tão fantásticas e tão pouco cristãs de vossos outros autores sem ser acusado de rir da religião?"

"Existe coisa mais própria para provocar o riso que ver algo tão grave quanto a moral cristã repleta de fantasias tão grotescas quanto as vossas?" Por exemplo, quando os jesuítas dizem "que um religioso não é excomun­gado por tirar o hábito para dançar, trapacear ou ir incógnito a lugares de deboche (incognitus ad lupanar) e que se cumpre o preceito de celebrar a missa ouvindo quatro quartos de missa, ao mesmo tempo, de diferentes padres"; "que se pode matar para evitar uma bofetada ou uma injúria, que é possível ser salvo sem nunca ter amado Deus ... que um juiz pode, cons­cientemente, ficar com o que recebeu para cometer uma injustiça". Entre­gando-se a uma enumeração um tanto simples de certos excessos da casuís­tica jesuíta, Pascal pretende ilustrar uma das teorias clássicas do riso: o efeito de surpresa. "Então, digo eu, quando se ouvem essas decisões e ou­tras semelhantes, é impossível que essa surpresa não faça rir, porque nada supera a desproporção surpreendente entre o que se ouve e o que se vê".

É, portanto, dever dos cristãos zombar da frouxa moral dos jesuítas.

 

 

CVIII - A SALVAÇÃO PELO RISO – O HUMANISMO DEVOTO

O DIABO É TRISTE

o riso do humanismo devoto que se espalha nessa primeira metade do século XVII, tão cheia de contrastes, é mais franco. Em uma Igreja Católica que se orienta para lágrimas triunfantes e que vê a salvação na tristeza, um grupo de eclesiásticos avança para o céu, gargalhando. Nos alegres cortejos figuram capuchinhos, beneditinos, seculares e numerosos jesuítas que não partilham as visões severas de seus confrades. Esses otimistas situam-se na trilha de Francisco de Sales, que inverte por completo a perspectiva. Para ele, não é o riso que é diabólico, mas a tristeza. Satã não ri, ele é triste e gostaria que todo mundo o fosse: "O maligno gosta de tristeza e melancolia porque ele é triste e melancólico e o será eternamente: portanto, ele gosta­ria que todos fossem como ele" .

O bispo de Annecy, em Tratado do amor de Deus, intitula assim um capí­tulo: ''A tristeza é quase sempre inútil". Ele atribui isso a três causas:

"1. Ela provém, às vezes, do inimigo informal que, por milhares de sugestões tristes, melancólicas e covardes, obscurece o entendimento, en­fraquece a vontade e perturba a alma .... O maligno, preenchendo o espírito humano de pensamentos tristes, retira-lhe a facilidade de aspirar a Deus e lhe dá tédio e desânimo extremos, para desesperá-Io e estragá-lo.

"2. Outras vezes, procede da condição natural, quando o humor melancóli­co nos domina; e esse não é vicioso, em si mesmo, mas nosso inimigo se serve dele para urdir e tramar mil tentações em nossa alma. Ele se aproveita de espí­ritos mornos, tristes e melancólicos, pois os perturba facilmente com desgostos, suspeitas, raivas, murmúrios, censuras, preguiça e muita gordura espiritual.

"3. Finalmente, há uma tristeza que a variedade dos acidentes huma­nos nos traz .... Ora, essa tristeza é comum nos bons e nos maus, porém, nos bons, é moderada pela aquiescência e resignação na vontade de Deus. '" Ao contrário, essa tristeza é comum nos mundanos e transforma-se em desgostos, desesperos e perturbações de espírito .... O mundano é rabugen­to, pesado, amargo e melancólico, apesar das prosperidades terrestres, e sua influência é, quase sempre, bravia, irritante e insolente".

 

CIX - QUEM NÃO RI ENVELHECE ANTES

A vida devota tem a reputação de tornar seus adeptos tristes. Francisco de Sales sabe disso e o deplora, ele que pensa que um santo triste é um triste santo, como dirá Bernanos. Ouvir-se-á: "Vós caireis no humor melan­cólico, perdereis crédito no mundo, vos tornareis insuportável, envelhece­reis antes do tempo".

Na linhagem de Francisco de Sales vêm alegres jesuítas cujo riso sono­ro escandaliza alguns, a começar por Pascal. Este toma como exemplo Etienne Binet, um religioso que quase poderia ser qualificado de rabelaisi­ano. Nascido em Dijon, em 1569, ingressa na Companhia de Jesus, em 1590, e faz uma bela carreira, chegando a provincial de Paris, onde morre, em 1639. Esse bom padre tem um incorrigível bom humor. Rir é sua palavra de ordem: é a melhor arma contra o diabo, que é um triste senhor; é também o melhor medicamento, remédio universal para o corpo e para o espírito. Suas obras espirituais o são em todos os sentidos do termo, especialmente Consolação e regozijos para os doentes e pessoas aflitas, publicada em 1620, que é um verdadeiro tratado de terapia pelo riso.

Essa obra se apresenta como um diálogo entre o doente e o consolador, que recomenda um remédio radical, "à gaulesa": é o tratamento "desses simples aldeões que ainda vivem à velha e boa moda gaulesa! Porque se eles estão doentes, com febre alta, logo lhes dão o mais gordo toicinho da casa, providenciam-lhe uma garrafa de vinho forte e lá, diante de um belo e gran­de fogo, fazem com que jante bem. Os pobres rapazes suam em bicas, e isso tanto lhes faz bem, apesar dos médicos, que a febre, de uma forma ou de outra, vai-se e bem depressa, pois o homem de bem ou morre ou sara logo. Ele não pode se dar ao luxo de ficar muito tempo doente. No dia seguinte, ou vai para o arado ou para o cemitério

Afinal, o que são as doenças? Pancadas amigáveis que Deus nos dá para nos fazer entrar mais depressa no paraíso. Então, por que nos queixamos? "O paraíso é como a França, onde nossos antigos gauleses tinham o costu­me de ficar na porta da igreja quando o padre realizava casamentos e dar socos no noivo; à força de golpes, levavam-no, batendo tambor, até o grande altar. Não era raiva, e sim uma velha cortesia daquele bom tempo. Aliás, os agressores eram o pai, irmãos, parentes e amigos do pobre rapaz, que só fazia rir sob a saraivada de socos; no final, ele tinha de agradecer e sorrir. Esse costume permanece ainda no paraíso. A febre, a gota, a pedra, as tris­tezas, todos esses males são os agressores que, como marechais, nos marte­lam uns depois dos outros e não nos deixam até que nos tenham empurra­do para dentro do templo de Deus vivo.

 

CX - A DOENÇA  RESISTE  NA CABEÇA

Freqüentemente, as doenças residem mais na cabeça que no corpo.

Assim, o antigo arcebispo de Bourges, sob Carlos IX, que estava preso ao leito por causa de gota, ouviu gritar que a cidade fora tomada: "Deveríeis ver o bom prelado correr à porta como um dromedário e saltar os degraus quatro a quatro. Ele alcançou a grande torre e subiu tão depressa que dei­xou sua gota no meio do caminho e não a encontrou mais".

Um dos procedimentos de Binet é zombar dos médicos, para focalizar sobre eles o pensamento dos doentes, que, assim, esquecem seus males:

"Parece-me que, gritando contra os médicos, espanto minha febre". "Se eles levantam uma cova no canto do cemitério, sem eles todo mundo seria um cemitério", e não vale a pena servir-se deles: eles só fazem adiantar em alguns dias nossa morte. "E se é o caso de enviar, todos os anos, uma meia dúzia mais cedo para o paraíso, por que não fazem isso com eles próprios?" E eis o doente reanimado: "Vejo que estais de bom humor. A cor já aparece em vosso rosto. Será que não agrada a Deus que eu interrompa vosso dis­curso? Quem sabe não sarais dizendo injúrias a vosso médico?"

 

CXI - OS MACACOS , DEUS E O RISO

Binet,arcebispo de Bourges, nascido  em Digne, em 1554, foi professor de Teologia em Lyon e em Bordeaux - onde morreu, em 1625 - e viveu em Roma de 1607 a 1616. Para ele, o riso é excelente, um presente divino, destinado a instruir-nos. Ele desenvolve essa idéia em Adeus à alma devota, em que se revela um bom observador da natureza humana. Com um espírito providencialista e fina­lista que prenuncia os achados ridículos do abade Pluche, ele pensa que Deus criou coisas risíveis para nos fornecer imagens do mundo moral. As­sim, por que Deus teria criado macacos senão para nos fazer rir? Tudo neles concorre para esse efeito: "Os macacos têm uma alma insana e ridícula; o corpo deles é próprio para fazer rir, retirado do retrato de sua alma; uns não têm cauda e são pelados em certo lugar; outros, como as macacas, apresentam uma longa e disforme extensão de cauda; os pés não são nem pés nem mãos, mostrando-se semelhantes, todavia, aos dois; a face nem é rosto de homem nem de besta, disformemente enrugada, salpicada de verrugas, ave­lu dada por pêlos desajeitados, a garganta fendida até as orelhas, em suma, extremamente disformes e com uma feiúra artificial e agradável".

Se Deus não gostasse de rir, não teria criado os macacos. Sua "agradá­vel feiúra" é também uma imagem do lado grotesco das necessidades hu­manas. O que há de mais ridículo, por exemplo, que homens comendo? Suponhamos que sejam surpreendidos por uma espécie de extraterrestre que não sabe o que significa comer: "Será que ele não diria consigo mesmo: 'O que eles fazem agora ... esquartejando corpos mortos e assados; tirando desses sepulcros de pasta pedaços do morto e enfiando todos esses pedaços num buraco e remexendo o queixo e as extremidades desse buraco; e des­pejando nele ainda vidros ou copos? Em que abismo será que eles jogam tudo isso? Será que são mágicos exibindo sua arte?'''

 

CXII - SOMOS RISÍVEIS

Nós somos feios, ridículos, grotescos, risíveis. Nossas vestes são ridí­culas e nossos medos, absurdos: testemunhas disso são essas mulheres de roupas "recortadas, desfiadas, mosqueadas, pregueadas, abalonadas, in­fladas, alteadas". E o que dizer de nossas pretensões intelectuais? Os an­jos e os demônios devem torcer-se de rir quando nos ouvem: "Os tomistas têm seu forte e suas peças de artilharia numa escola; os escolásticos, em outra; e cada um pensa que é o melhor. Presenciei várias disputas e ouvi sutilmente pessoas se atracando por diversas questões ou então falando, com grande empáfia, sobre a natureza e a ação dos anjos, e imagino como os bons anjos presentes deviam rir com compaixão dos que falavam tão aleatoriamente de sua essência, de sua maneira de ouvir ou de agir. Tam­bém me parece ouvir os demônios zombar e rir com ar superior, vendo os debatedores esgrimindo sua ignorância, sobretudo os que querem osten­tar seu saber". 

A humanidade decaída é ridícula, e nada impede que se ria dela - ao contrário. Outro jesuíta, Pierre-Juste Sautel, nascido em Valença em 1613, exprime isso de forma particularmente bufa em escritos burlescos, como Marcha fúnebre de uma pulga. Numerosos capuchinhos par­tilham essa atitude de escárnio que não está longe da dos libertinos ateus: este mundo é uma farsa. É precisamente o que escreve o padre Yves de Paris (1590-1679) em reologia natural: "O mundo seria uma comédia contínua se tivéssemos o dom de vê-lo por dentro como vemos uma face". De qualquer forma, o riso faz parte de nossa natureza: "Já vi pessoas", escreve ele, "que, dois ou três dias depois de um grande luto, de repente, por um motivo insignificante, explodem juntas num riso involuntário, por um trans­porte da natureza, que reivindica seus direitos e se restabelece, conjurando esse humor melancólico, sem ouvir as leis da razão"

 

 

CXIII - O DEMÓCRITO CRISTÃOE OS SEUS COMBATES

"É preciso que eu ria, ridicularize, bufoneie e zombe de tudo". Ele publica, em 1615, Demócrito cristão. Rir é uma força, uma virtude, e Demócrito deve ser o modelo dos cristãos: "Se ele ri, não pense que com isso não está zom­bando; porque, rindo, ele diz verdades e, zombando, não deixa de ser sábio . ... Entregar-se às lágrimas denota fraqueza de coração e falta de coragem. Mas rir e zombar no auge da aflição é desafiar as vaidades do mundo, é mostrar virtude e demonstrar que se é homem" .39

A devoção não exclui o riso, ela até o estimula em algumas pessoas. O abade Bremond lembrou alguns títulos de obras cômicas redigidas ou inven­tadas nessa época: A tabaqueira espiritual para fazer espirrar as almas devotas até o Senhor; O doce tutano com molho apetitoso dos santos e saborosos ossos do advento; Óculos espirituais; Seringa mística para as almas constipadas de devoção “

Os padres franceses não são os únicos a fazer troça, nos anos 1600­1650. Nos Países Baixos, a reputação de "palhaço" do padre Petrus Ste­vens, de Onssenisse, chega até os ouvidos do deão da cidade, e os visitantes da abadia beneditina de Affligem, em 1634, ficam intrigados com as gargalhadas contínuas vindas da enfermaria e do dormitório. Em 1645, o bispo de Gand torna a proibir as beguinas de dar gargalhadas e de deitar-se duas no mesmo leito. Os místicos tendem ao riso, como a religiosa Catharina Daneels, em Louvain, "muito inclinada a rir, não por vaidade ou imprudência, mas por alegria natural", segundo sua biografia espiritual. A mística flamenga Marie Petyt, de Hazebrouk, ri dos próprios sofrimentos, e, para Philippe de Néri, o riso tem sentido religioso. "O que nos provoca o riso vem do interior e faz-nos cócegas no coração", escreve o jesuíta Adriaen Poirters.

Nem todo o clero dessa época é triste. Uma corrente burlesca atravessa parte de suas fileiras e em todas as ordens religiosas há alguns que reivindi­cam o direito de rir. Garasse é uma espécie de porta-voz deles: "Há no mun­do espíritos tão malformados que, quando vêem um religioso rir, julgam-no um perdido, um réprobo ... Mas, meu Deus, o que essas pessoas querem de nós? Que nos derretamos em lágrimas? “

Garasse e o humanismo devoto não são a Igreja.

Willemynkens retoma a velha posição do riso como próprio do homem, do riso indispensá­vel como recreação e para assegurar o equilíbrio. "Eu preciso rir, de vez em quando, para que meu coração se sinta bem." Não se pode ser sempre sério, e, aliás, "as pessoas são seduzidas pelo riso e preferem cantos cômicos". Se fôssemos sempre sérios, "o que diriam? Eles zombariam de nós se nossa única distração fosse colher flores". Para Duyfkens, ao contrário, a única alegria lícita é a que vem do bem e da religião. E é essa que a arrebata.

Rir ou não rir? A questão é debatida pela enésima vez e, academicamen­te, pela Universidade de Louvain, em dezembro de 1611, dia de santa Luzia. Por ocasião dessas quaestiones quodliheticae, o filósofo e humanista Erycius Pu­teanus defende a posição de Demócrito: o riso é expressão de sabedoria. Ele questiona com seus adversários o argumento de que Cristo nunca riu: se Cristo, Deus feito homem, escolheu não rir, é justamente para nos mostrar que o verdadeiro riso é divino; ele rirá quando abandonar a condição humana.

 

CXIV - AS COLEÇÕES DE FÁBULAS ENGRAÇADAS:UMA NOVA MODA REVELADORA

A força do riso, na primeira metade do século XVI!, e sua evolução para formas mais refinadas podem também ser discernidas nos escritos laicos, públicos ou privados, e nos testemunhos sobre as relações sociais. A zom­baria faz estragos; ama-se zombar dos outros nesses anos barrocos. O fato não é novo, mas parece ganhar amplitude com o uso crescente da escrita. Confiam-se ao papel os sarcasmos, na correspondência privada, como o mostram as cartas de Balzac, e até nos tratados científicos. O sucesso de Galileu não está ligado apenas a suas qualidades de astrônomo e de mate­mático. O Saggiatore, o Diálogo são obras-primas da literatura sarcástica; até o papa riu delas ... até certo ponto. É uma novidade reveladora que se possa fazer humor na física: para seduzir, para persuadir, é preciso fazer rir.

Que um papa ria, de boa-fé

Não ouso assegurá-lo, mas eu resistiria a um rei Bem infeliz se ele não ousasse rir:

É o prazer dos deuses.48

Sem a doçura que se experimenta em maldizer, Há poucos prazeres sem tédio.

Nada é tão agradável quanto rir

Quando se ri à custa do outro.

 

 

CXV - A NOVA MODA DOS SALÕES

 

Com a nova moda dos salões, a retomada da vida social, os jantares, os encontros nos meios urbanos nobres e burgueses, a arte de contar blagues se desenvolve. Para brilhar na sociedade, nada melhor que um talento de contador cômico, e é preciso espírito aberto nesse domínio. Portanto, é útil constituir um estoque de boas histórias. Os jest books, coleções de fábulas engraçadas, fervilham nessa época. Impressos ou manuscritos, cuidadosa­mente copiados logo depois das reuniões, estão entre os livros mais consul­tados nas bibliotecas privadas.

Todo homem de boas maneiras tinha seu exemplar, desde personalida­des célebres até burgueses anônimos. O recordista é, sem dúvida, o advogado Aernout van Overbeke (1632­1674), em Haia, que deixou não somente um manuscrito de 2.440 histórias engraçadas mas também a reputação de brincalhão, de trocista, de impagá­vel farsista. Em uma carta, ele relata como, durante uma viagem marítima às Índias, não parou de fazer rir os membros da equipe: "Eu recorri às mi­nhas blagues e brincadeiras, e eles não conseguiam parar de rir". Graças a esse holandês brincalhão, a viagem pareceu mais curta, mas não se sabe se o capitão apreciava ver sua tripulação morrendo de rir.  "Trata-se de uma gama humorística extraordinária", afirmou Herman Roodenburg, que sobreviveu ao estudo dessas 2.440 preciosidades. 53

Todos os temas são abordados, e os prediletos são o sexo, o casamento, as relações sociais e os defeitos femininos. Entre as piadas suscetíveis de fazer rolar de rir um marinheiro holandês, ao redor de 1650, há a seguinte :uma mulher raspa o púbis; antes de fazer amor, seu marido coloca um sapatinho de bebê no pênis porque não quer andar descalço nos “espinhos”. Ou ainda esta outra: dois pederastas, um homem e seu genro, dormem juntos numa taverna, inocentemente; à noite, o genro sobe em cima do sogro, que, furioso por ser acordado, grita: "Meu Deus! O que você pretende? Eu já lhe dei minha filha para ficar livre disso!" Essa história "inocente", segundo as palavras de Herman Roodenburg, é extremamente ousada para a época, o que talvez explique o fato de ter sido excluída por Overbeke. Naquele tempo, não se brincava com a sodomia - ao menos fora da alta sociedade.

Além dessas, foram registradas muitas outras compilações e coleciona­dores. É que as coleções de histórias engraçadas também pretendem ser um meio de combater a melancolia, o stress versão Luís XIII, a doença da moda, que, depois de 1586, Timothy Bright, em Tratado da melancolia, apresenta como produto da vingança divina e da tentação diabólica. Os ataques de bílis negra, descritos por Fernel em 1607 e por Robert Burton em 1621, são a explicação universal para a tristeza. Em 1637, Huygens prescreve a seu melancólico amigo Barlaeus esse maravilhoso antidepressivo que é o riso:

"O essencial é que encontreis um assunto para rir e brincar", e, para ajudá­-lo, envia-lhe algumas dessas historietas engraçadas. Além do mais, as cole­ções de piadas vangloriam-se de "resumir o tempo", de abreviar o tédio das tardes intermináveis. Utilizáveis tanto para o riso solitário (pela leitura) quanto para o riso social (pela conversação), elas permitem, por exemplo, distrair os companheiros de viagem.

As histórias relatadas, como indicam os títulos, ultrapassam as frontei­ras. As blagues cosmopolitas ilustram ainda a internacional do riso. Em uma Europa em que as individualidades nacionais estão nascendo, o humor não tem pátria. As atmosferas rabelaisianas são universais, e os emprésti­mos dão-se de um país a outro.


 

 

CXVI - A EVOLUÇÃO DO RISO NO SECULO XVII

Entretanto, os jest books são reveladores da evolução dos valores cultu­rais e sociais. Não se ri da mesma coisa em 1600 e em 1700. As coleções holandesas de 1661 criticam a grosseria de suas predecessoras e descartam qualquer história refe­rente a sexo. Em 1663, um manual de civilidade inglês,, recomenda evitar brincadeiras indecentes. As piadas relativas ao clero diminuem. Ao redor de 1700, elas não representam mais que um sexto do conjunto nos novos jest books ingleses. Ainda são muito moderadas: por exemplo, a do campo­nês que, no confessionário, em troca da absolvição oferece ao padre ensiná-lo  a fazer um chapéu de palha;  na Holanda, uma história relata como o bispo de Gand é ridicularizado por um servidor que retira um urinol de baixo de sua mesa. Evidentemente, é menos divertido, mas é mais polido, mais civilizado que as grosseiras pilhérias dos anos 1600-1650.

 

CXVII - REVISÃO DO DECAMERON

A mesma evolução pode ser observada na maneira como são relidas as obras cômicas de outrora. As histórias do Decameron, por exemplo, são seria­mente revistas e corrigidas, na forma e no conteúdo. Aliás, elas só haviam escapado aos raios do Concílio de Trento graças à intervenção do duque de Florença. Uma versão expurgada aparecera em 1582: certas histórias desapa­recem, como aquela do inquisidor hipócrita; outras são transformadas, como a do monge que se disfarça de arcanjo Gabriel para seduzir uma virgem. Até Castiglione é expurgado em 1584. O espírito da Contra-Reforma exerce pesa­da pressão sobre a elite social e cultural italiana para eliminar ou, ao menos, refinar o riso e a brincadeira. Um manual de civilidade para cortesãos, de Giambattista Giraldi Cinthio, aconselha o leitor a jamais ser o primeiro a fazer uma brincadeira, porque isso pode ser interpretado como falta de respeito em relação ao príncipe. Em 1617, outro manual, II cittadino di repubbIica, do geno­vês Ansaldo Cebà, recomenda moderar as brincadeiras e adaptá-las ao meio.

 

CXVIII - O HUMOR VAI SE REFINANDO

Muito reveladora é também a evolução, na Itália, da prática da beJJa, ou practical joke, tão apreciada pela aristocracia, como já vimos. No século XVII, tende-se a substituir a beJJa por brincadeiras puramente verbais.  Na metade do século XVII, numerosos testemunhos demonstram que continuam a entregar-se a brincadeiras jocosas. Os viajantes estrangeiros são freqüentemente vítimas dis­so: em 1645, "fomos bem regados por nossa curiosidade", escreve John Evelyn em seu Diário a propósito das fontes de Pratolin;Só em 1670, outro inglês, Richard Lasse1s, teve direito, nas grutas de Cupido, a "poltronas regadoras nas quais, quando a pessoa se sentava, um grande jato de água lhe jorrava em plena face".  No ordinário cômico, jatos de água são fontes inesgotáveis de riso - não seriam eles que forneceriam, mais tarde, a pri­meira gag cinematográfica, "o regador regado"?

Contudo, desde o século XVII, moralistas autores de manuais de civilida­de começam a julgar tudo isso pueril e inconveniente. Em 1654, Emmanuel Tesauro trata com desprezo essas "brincadeiras populares" e defende a brin­cadeira verbal, baseada na utilização espiritual da língua. A essa altura, nume­rosas academias italianas praticam esses exercícios refinadamente, quando o trocadilho ocupa destaque especial.

O barroco como recreação para artistas e escrivães clássicos fatigados: ao menos, a idéia tem o mérito de reunir esses dois termos quase sempre opostos nos manuais de arte e literatura. Toda civilização tem essas duas faces e a irrepreensíve1 necessi­dade de rir de si mesma. Esse riso se reveste de diferentes formas, mas, no fundo, é eterno. Sob o efeito do processo civilizador, analisado por Norbert Elias, ele experimenta, na segunda metade do século, a necessidade de se refinar.

 

CXIX - DEIXAR DE RIR É INDIFERENÇA

Outra questão básica torna-se flagrante: a mudança do conteúdo das coleções de histórias jocosas não revela uma degradação do sentido moral? A priori, isso pode parecer paradoxal. De fato, zomba-se dos vícios clericais, as blagues blasfematórias se retraem, assim como as pilhérias referentes ao sexo, à infidelidade, aos desvios sexuais; isso não seria sinal de um melho­ramento de costumes e de polidez? A menos que se trate de uma aceitação crescente dessas atitudes: à medida que elas se tornam banais, não fazem mais rir e desaparecem das coleções de histórias engraçadas. Da mesma forma, o recuo do medo diante de certas ameaças, diante de certas institui­ções, também pode explicar que não se ria mais delas, porque o riso é uma espécie de exorcismo: "Se ris, é porque tens medo", escreve Georges Ba­taille. Montesquieu constatará isso: zombar menos da religião é sinal de culpa. Ele escreve em Meus pensamentos: "Uma prova de que a falta de reli­gião perdeu terreno é o fato de que os trocadilhos não são mais baseados nas Escrituras nem na linguagem da religião: a impiedade não tem mais graça". O comentário talvez seja prematuro para sua época, mas encontra confirmação, no fim do século, nestas palavras de um eclesiástico, relatadas por Mercier: "Não há mais cabeleireiros fazendo pilhérias sobre a missa .... Seria bom que houvesse, de vez em quando, alguns sacrilégios. Ao menos, pensariam em nós; mas eles se esquecem de nos faltar com o respeito". Eis uma coisa que teria surpreendido Bossuet e os pregadores da Contra­Reforma: se não se zomba mais do sagrado, não é porque o sagrado venceu, é que não há mais interesse por ele. Pior que a zombaria é a indiferença. Madame de Sévigné é a espantosa comprovação disso. Nela, o amora­lismo é levado a tal ponto que seu cinismo se torna involuntário, quase cândido. Suas cartas testemunham, sem cessar, uma monstruosa indiferen­ça diante das situações mais trágicas. Um exemplo disso é o tema do suicí­dio de Vatel, mordomo do príncipe de Condé, em 1671, cuja notícia não afeta em nada o jantar que mal começara: "Gourville tratou de reparar a perda de Vatel; ela conseguiu. Jantamos muito bem, fizemos colação, pas­seamos, ceamos, jogamos, fomos caçar. Tudo estava perfumado de junqui­lhos, tudo parecia encantador" . Suas considerações desenvoltas a respeito dos enforcados" que faziam uma cara horrível" e da selvagem repressão na Bretanha, depois da revolta de 1675, introduzidas furtivamente entre con­versas frívolas sobre intrigas de vizinhança, tudo no mesmo tom maligno, constituem o auge do cinismo aristocrático. É a indiferença, e não a virtude,que mata o riso.

 

CXX - DO CAOS DA GUERRA AO RESTABELECIMENTO DA ORDEM

A primeira metade do século foi extremamente con­turbada, a confusão culminando com a Fronda, a Guerra dos Trinta Anos e a revolução inglesa. O riso participa assim de todos os combates, exprime to­das as contestações e todas as desordens, exige todas as liberações: panfletos e caricaturas contra os cardeais-ministros, bufonarias teatrais na Itália e na França, escárnios barrocos do humanismo devoto, obscenidades blasfemató­rias dos libertinos, grosserias escatológicas e sexuais dos meios da corte, burlesco satírico e parodístico do romance, de Scarron a SoreI. Durante as atrozes matanças da Guerra dos Trinta Anos, a Europa é tomada pelo riso solto. Nunca a assimilação do riso ao caos foi tão justificada. Mas esse riso também exprime o vital e o primordial, diante de um mundo tornado carnavalesco onde tudo parece do avesso, onde a França católica e real apóia uma república calvinista contra o rei católico, onde um cardeal-ministro é amante da rainha, onde camponeses e burgueses se revoltam, onde súditos executam um rei. O grande riso barroco e burlesco é a reação ao cômico dessa situação. E esse enorme riso é, ao mesmo tempo, moral: ele denuncia o absurdo, o excesso, as injustiças, zombando, escarnecendo de todos esses importantes incapazes. Ao redor de 1660, a Europa não pode mais rir disso.

Os poderes se restabelecem, a sociedade estabiliza-se, as hierarquias reencontram suas bases, as injustiças, suas justificativas, as hipocrisias, sua máscara séria. Uma nova ordem se estabelece. O riso sempre teve seu lugar no quadro clássico, mas é um riso disciplinado, conveniente, de bom-tom, decente, discreto, fino. Um riso que acomoda as convenções sociais e polí­ticas, que defende os valores, excluindo os desvios e os marginais; o riso de Moliere, de Boileau, de La Bruyere, que até Bossuet aprecia. Certamente, esses ridentes sabem que o mundo é mau, mas é preciso mudá-lo. Então, vamos rir desses avarentos, dos distraídos, dos burgueses pretensiosos, dos velhos amorosos, vamos rir de todos esses furúnculos ridículos que per­meiam o corpo social, mas não vamos rir do próprio corpo. O grande riso burlesco da época de Luís XIII  tinha uma dimensão cômica; ele ria da vida do homem. O pequeno riso polido da época de Luís XIV é puro divertimento, um pequeno jogo superficial que zomba de alguns defeitos anódinos para assegurar a seriedade dos valores fundamentais. Essa é a grande diferença, esperando a volta de ri dentes mais radicais.

 

CXXI - O RISO AMARGO DO ROMANCE CÔMICO

A palavra-chave, na primeira metade do século, é "burlesco". Cômico dos limites, o burlesco começou ligado a um riso filosófico, na linhagem dos cínicos gregos e de Demócrito. O bur­lesco transgride todos os tabus, reivindicando o direito de rir de tudo, in­cluindo a morte e o sagrado. A explosão burlesca no século XVII, na França, ilustra a defasagem radical entre as tentativas oficiais de domesticação do riso e as práticas extremas, que se rebelam contra a imposição de normas e regras. Atrás do riso, é a liberdade de pensamento que está em causa".

Essa vontade de liberação se apóia na constatação do absurdo e da vai­dade das convenções sociais, das instituições. Ela afirma o primado da mo­ral sobre o social, intuindo o caráter inelutável do mal: "Muito marcada por um pessimismo cristão, a degradação burlesca humilha as pretensões e o orgulho excessivo do homem".  Ela é "o avesso melancólico do humor e do riso", brinca freqüentemente com a morte e com o macabro, desmistifica, relativiza, zomba dos absolu­tos, denuncia a hipocrisia das aparências. O burlesco é uma atitude típica de períodos de crise de valores, quando o mundo perde sua inteligibilidade, gerando uma vertigem no pensamento. E "essa vertigem passa pelo riso".

 

CXXII - PARECE HOJE

A forma e os assuntos tratados traduzem esse desarranjo do pensa­mento, com uma predileção pela reescritura bufa de obras-primas consa­gradas, pela dessacralização dos grandes mitos, pela  e pela paródia das epopéias sérias:  a Eneida transforma-se em Virgí­lia travesti. Uma estética trivial, irregular, provocante, popular destrói os ídolos; os grandes assuntos tornam-se minúsculas farsas.

Essa forma literária convém, particularmente, aos marginais da escrita: os Cyrano, os Dassoucy, os Le Petit... Para Dominique Bertrand, "observa­se uma correlação entre situações de crise individual e a predileção pelo estilo burlesco". 64 Este último se permite, de fato, acertar as contas e entre­gar-se à crítica social com a virulência que autoriza o uso da linguagem popular. Brébeuf, que publica, em 1650, uma paródia do sétimo livro da Eneida - decididamente maltratada - e, em 1656, outra da Pharsale, de Luca­no, introduz nelas ataques contra os grandes:

É preciso dizer, cá entre nós,

Os grandes têm um cu como vós, Às vezes sarnento como o do outro E menos honesto que o VOSSO.

 

 

CXXIII - E TOME BURLESCO !!!

A significação social do burlesco aparece também em duas obras dos três irmãos Perrault, compostas por volta de 1648: as paródias de Eneida e os Muros de Tróia. Na primeira, que se apresenta como livre tradução do texto latino em octossílabos, vê-se a  profetisa Sibila em plena crise de GASES, per­turbada por ApoIo, que lhe sopra o traseiro, enquanto Enéias cai de ponta­cabeça; o suicídio de Dido, que "enterra um ferro no próprio seio", é sim­plesmente o resultado da ingurgitação de um pó de ferro para curar sua varíola, e assim por diante.

O caráter grotesco da festa popular desvia-se, de um lado, tornando-se decorativo e pretexto para deboche nos meios aristocráticos; de outro, é recuperado pelos burgueses, que se afirmam, nessa época, por meio de uma nova corrente literária: o burlesco. Para Bakhtine, esse novo gênero se de­senvolve nos diálogos pseudopopulares como os "falatórios": Falatório das peixeiras (1621-1622), Falatório da parteira (1622), Falatório das mulheres de Montmartre (1622), Amores, intrigas e cabalas das domésticas das grandes casas de nossa época (1625) ... Tudo isso seria apenas a "degenerescência dos francos propósitos grotescos expressos em praça pública", mesmo que "uma pe­quena faísca carnavalesca ainda brilhe nesse gênero".

 

CXXIV - LONGE DO CARNAVAL

Há, de fato, na literatura burlesca que emerge ao redor de 1600, um elemento original que não deve nada à cultura popular. O romance burlesco e o humanismo degradado, a expressão da amargura que acompanha o nau­frágio de um grande sonho. A confiança no homem que marcara a primeira Renascença soçobrou no naufrágio das guerras de religião. O homem é, deci­didamente, de uma bestialidade e de uma maldade incuráveis; é "o mais odioso dos vermes que a natureza permitiu aflorar na superficie da terra", como diria Swift, mais tarde. O romance cômico exprime profundo pessimismo; se ele aparece ao mesmo tempo que o jansenismo, é porque tem a mesma ori­gem que ele: o homem é mau, irrecuperável, detestável.

Essas pessoas do “burlesco” são tristes, e seu riso é amargo. Do Carna­val, eles certamente tomam emprestado o cenário, mas os autores não têm nada a ver com as festas alegres: são fantoches bestiais e maldosos. O pri­meiro a ilustrar o gênero é o inglês Barclay, que publica, em 1603, o roman­ce Eufórmio, história sórdida cujo anti-herói é um pobre homem covarde, tolo, supersticioso, que multiplica suas desventuras pelos albergues. A fau­na humana é descrita sem complacência: os pobres são patifes; os ricos, ladrões; os clérigos, hipócritas; os nobres, brutos ignorantes; os médicos, perigosos charlatães; os juízes e os magistrados, sádicos inconscientes. Tudo transborda de vício e gatunice. O povo tem o que merece ao confiar nesses mestres corrompidos. A herança picaresca é evidente.

 

CXXV - O BURLESCO É DESAGRADÁVEL PARA MUITOS

Ridicularizando a mitologia, o burlesco indispõe certos guardiães de valores. "De um lado, escarnecer de deuses mortos pode ser considerado um meio de glorificar uma religião viva que os sucedeu. Mas, de outro, tocar numa forma do sagrado, mesmo caduca, é tocar no sagrado como um todo", escreve V. Gély-Ghédira, que conclui: "O humor e o sagrado pare­cem ter dificuldade de entrar em acordo". Já na Antigüidade, Macróbio se indignava com o fato de Apuleio ter podido troçar do mito de Psique, e Écouchard-Lebrun fará a mesma censura a La Fontaine em 1774.

O burlesco não pode, evidentemente, agradar aos defensores do sério.

Em 1652, Pellisson condena o "furor burlesco", flagelo vindo da Itália, onde acreditam ser divertido dizer coisas contra o bom senso e a razão. O próprio Scarron hesitou, pois declarou, no início de sua carreira: "Se eu tivesse de escrever contra algum desconforto do gênero humano, seria contra os ver­sos burlescos .... Depois do mau hálito e dos maus comediantes, não conhe­ço maior desconforto".

 

 

CXXVI - APOGEU E MORTE DO BURLESCO

O burlesco é, entretanto, a liberação pelo riso. É a ele que a Rússia deve sua primeira liberação literária, na segunda metade do século XVII. Nessa época, o espírito burlesco, vindo do Ocidente, penetra o império dos czares e encontra terreno fértil para se desenvolver: o da cultura popular. Espalha­-se então um riso particular, de defesa e de ataque, esse riso que se chama em russo satírico mas que toma emprestado seus efeitos, o mais das vezes, do burlesco e progride até o absurdo". Esse riso nós reencontramos em O abecedário do homem nu e pobre, visão amarga e cari­catural de um mundo risível, e em Ofício para a taverna, paródia de ofício religioso para beberrões, composta em 1666, sem dúvida por um padre. As paródias bufas desse gênero multiplicam-se então; é o começo de uma libe­ração da literatura, e "essa partida é acompanhada de grande gargalhada".

 

CXXVII - O CARDEAL RICHELIEU

Na França, o burlesco é a linguagem dos partidários da Fronda (Guerra Civil na França) , e os anos 1648-1652 marcam o forte retorno do riso contestador e subversivo. Richelieu já suscitava a verve dos satíricos que o qualificavam de "protetor dos bufões" ou de "charlatão de seu teatro"; A Miltíade diz ainda dele:

É o ministro dos infernos, É o demônio do universo.

Em 1642, com a morte do cardeal, um panfleto intitulado Notícias do outro mundo referentes ao senhor cardeal de Richelieu apresenta-se sob a forma de um despacho assim datado: "Do inferno, em 4 de dezembro de 1642, às 10 horas da manhã": dois postilhões chegam da terra para anunciar ao mundo infernal a próxima chegada do cardeal. O diabo, galhofeiro, cede-lhe o tro­no, sobre o qual manda gravar:

Como meu orgulho não conseguiu me igualar a um deus,

Escolhi minha morada dentro deste rico lugar.

Com Mazarin, o riso satírico desencadeia-se. Vejam o que escreve Scarron sobre o Cardeal:

Ilustre em tuas partes vergonhosas,

Apenas tua braguilha é famosa.

Em vez das virtudes cardeais,

Só tens as animais.

Ana da Áustria também tem direito à sua parte de obscenidades. Por exemplo, em A custódia da rainha:

Povo, não duvideis,

É verdade que ele a fode. E é por esse buraco

Que Jules nos estropia.

 

CXXVIII - O RISO VENCE A GUERRA CIVIL

Essa avalanche de panfletos revela a riqueza das potencialidades bur­lescas em todos os meios sociais. Quatro anos de riso insano, a despeito das violências, dos boatos, das intrigas, da miséria e dos achaques de toda espé­cie. Raramente, na História, foi visto tal nível de deboche, de veia cômica, de chocarrice, de hilaridade. Sim, a Fronda (Guerra Civil) é, de fato, o "triunfo do burles­co" . Uma enorme gargalhada prolongada, nas ruas de Paris ou de Bordeaux! As "mazarinadas", lidas em público, desencadeiam tempestades de riso -rir às gargalhadas, rir até as lágrimas, rir até rolar por terra, rir até urinar nas calças ... ou pior: "Sujamos nossos calções à força de rir", diz um perso­nagem das Agradáveis conferências de dois camponeses de Saint-Ouen e de Mont­morency sobre os costumes do tempo. Dominique Bertrand tem razão de falar da "inundação cômica que as brochuras de propaganda 'frondosas' propici­aram a um público popular".

O grande vencedor da Fronda não é nem Luís XIV nem Mazarin nem os parlamentares: é Rabelais, é o riso desbragado, sem freio. Por uma vez, os grandes do mundo - rei, rainha, ministros, fidalgos, magistrados, políticos - são reduzidos à sua justa medida: o nada. Há vacância de poder, as autori­dades são dispersadas e o povo ri, o povo troça desses senhores que se crêem tão importantes. Quatro anos de Carnaval, preparados por meio sé­culo de espírito grotesco.

 

CXXIX - DEPOIS DA GUERRA CIVIL, O PODER DESMORALIZADO

Mazarin é um bufão, aconselhado por bufões e é preciso derrubá-lo pela bufonaria. A Fronda tem ares de Carnaval. O panfleto descreve a exe­cução do cardeal Richelieu como a do Rei Carnaval. Estamos em plena tragicomédia, e nisso ainda há uma surpreendente semelhança entre o que se vê no palco e o que se vê nas ruas de Paris. Sob Luís XIII, um espetáculo cômico compre­ende, em geral, três partes: um prólogo cômico, de preferência obsceno, recitado, a partir de 1690, pelo célebre ator Bruscambille; depois uma tragi­comédia; enfim, uma farsa na qual triunfam verdadeiras estrelas da bufona­ria.

Na França, a tragicomédia culmina entre 1625 e 1640: são 68 títulos entre 1630 e 1639. Jovens autores,  cujas peças são encenadas pelo elenco dos Co­mediantes do Rei, habituam o público a uma verve satírica, bufa, que con­juga o sério e o cômico, o grande e o irrisório e em que o solene se dissolve no bufão. É o espírito da época, o do burlesco, que triunfa no romance, no palco, na corte, nos salões onde proliferam as piadas aprendidas nas cole­ções e mesmo em parte no clero. Mesmo que a tragicomédia tenha declinado depois de 1640, o público permanece im­pregnado por ela e se aborrece, durante muito tempo, com a nova comédia. A opinião pública, formada pelo burlesco, está prestes a transformar a epo­péia dos cardeais-ministros em pantalonadas bufas. Se a Eneida pode se reduzir a uma bagatela de chocarrices, por que a ascensão do absolutismo por direito divino não se resumiria às desventuras de um pequeno neuróti­co pretensioso - o jovem Luís XIV -, guindado ao centro das intrigas por uma mãe austríaca inconsciente e por seu amante, um cardeal-boneco ita­liano, ambos confrontados com um punhado de príncipes e parlamentares frágeis? A aurora radiante do Sol-Real é também a tragicomédia burlesca da Fronda.

Esta última é a apologia do período caótico que se segue às guerras de religião. Período de extravagâncias que conheceu todos os excessos, do pre­ciosismo ao jansenismo e da libertinagem à Contra-Reforma. Depois dos pesadelos dos conflitos religiosos, o riso burlesco marca, ao mesmo tempo, o alívio e a amargura; sim, sob essa aparência pomposa, a aventura humana é uma farsa sangrenta, e o riso avulta sob a Fronda: como levar a sério esses palhaços enfeitados que disputam o poder?

 

CXXX - A MONARQUIA ABSOLUTA É FILHA DOS BUFÕES

Mas uma gargalhada não pode durar eternamente. O sério deve read­quirir seus direitos. O caos da hilaridade que foi a Fronda não teria prepara­do o advento do despotismo, sugerindo ao poder que tudo era possível? É o que afirma Guez de Balzac, em 1658; em Aristipo, ou Da corte, ele desmonta "o mecanismo que leva da bufonaria à tirania", conforme a fórmula de Do­minique Bertrand, com um "príncipe sensível aos sortilégios da ficção e do riso". Mazarin e seu círculo, "bufoneando e recorrendo às fábulas, persua­dem o príncipe de que ele não é obrigado a manter sua palavra, depois de tê-lo convencido de que não está mais sujeito às fantasias e às visões dos legisladores. É assim que se criam os tiranos". É assim que se criam os Luís XIV . A monarquia absoluta de direito divino nasce da bufonaria, filha do burlesco; até a História pratica a ironia!

Para o novo poder, há uma urgência: colocar cada coisa em seu lugar, depois dos sobressaltos caóticos do período burlesco. O próprio riso preci­sa entrar nas fileiras, disciplinar-se, apurar-se, moralizar-se; em uma pala­vra: civilizar-se. Como nos jardins, deve existir um riso à francesa, que man­terá o regime ridicularizando as faltas, os defeitos, os desvios. Mas pode-se, verdadeiramente, domesticar o riso? Intelectualizado, este, disfarçado de humor ácido, não vai tardar em corroer as bases do poder e da sociedade.

CXXXI - DO RISO POLIDO À ZOMBARIA

O poder ácido do espírito (séculos XVII e XVIII) .

Quando jovem, Luís XIV gosta de rir - sobretudo do próximo. Ele não quer pessoas tristes a sua volta e é visto, freqüentemente, hilário, rindo a bandeiras despregadas. Ele ri de bom grado assistindo às comé­dias de Moliére, que vão ao encontro de sua política: zombando das ex­travagâncias e das pretensões dos nobres e dos burgueses, o comediógra­fo presta serviço ao rei, mesmo que isso faça rilhar as dentaduras aristocráticas. Depois da Fronda, tudo o que possa rebaixar os grandes é bem-vindo. Quando Moliere escreve, em O Improviso de Versalhes, que "o marquês hoje é figura de comédia, e como em todas as comédias antigas vê-se sempre um criado bufão que faz rir os ouvintes, da mesma forma, em todas as nossas peças atuais, é preciso um marquês ridículo que di­virta a companhia", isso, sem dúvida nenhuma, diverte o soberano. Na representação de Escola de mulheres, que fez Sua Majestade rir a bandeiras despregadas, ele se deleita ao ver destinados ao deboche os velhos maridos; e, na represen­tação de Tartufo, não se importa de ver os devotos sob suspeita de hipocri­sia. Porque Luís XIV, dos anos 1660 a 1670, não é verdadeiramente um mo­delo de virtude. Zombando dos velhos, dos maridos traídos, dos avarentos e dos censores beatos, Moliére só pode fazer rir um rei jovem, sedutor, perdulário e de costumes levianos.

 

CXXXII - O POLIMENTO DO RISO

Nessa época, o riso é aliado do rei. Porém, não importa de que tipo: se um riso policiado, submisso, disciplinado; ou um riso cortesão, que adula os gostos e as vontades do soberano. Luís XIV, apesar de seu temperamento refinado, desconfia do espírito. Saint-Simon insiste várias vezes nessa "aver­são do grande rei pelo espírito". O homem espiritual é potencialmente pe­rigoso. Até suas relações com os cortesãos mais dedicados são ambíguas.

Um exemplo, entre muitos outros, é o duque de Lauzun, que Saint­Simon descreve como "cheio de espírito, ... zombador e baixo até com a criadagem, ... cruel no que se refere aos defeitos e sempre pronto para expô­-los ao ridículo, ... por isso perigoso para os ministros, temido por todos na corte e com muitos traços cruéis e picantes que não poupam ninguém".  Esse zombador que semeia o pânico entre os cortesãos, e cujas tiradas estão em todas as bocas, não hesita em ofender Sua Majestade. A propósito das freqüentes e ridículas mudanças de indumentária do chanceler Voysin, ele responde a cortesãos que lhe perguntam sobre as novidades de Marly: "'Nada', diz ele naquele tom baixo e ingênuo que costumava usar. 'Não há novidades: o rei se diverte em vestir sua boneca.'

Ao longo do desastrado ano de 1709, por sugestão da duquesa de Gra­mont, a grande nobreza é convidada a doar suas baixelas de prata à La Mon­naie (Casa da Moeda) para ajudar o esforço de guerra. Lauzun não fica muito entusiasmado e responde a todos que lhe perguntam se ele contribuiu: '''Não ainda; não sei a quem me dirigir para fazer a doação, e depois, sei lá se tudo isso não precisa passar sob a saia da duquesa de Gramont?' Nós todos explodimos de rir; quanto a ele, fez uma pirueta e nos deixou". O rei não gosta, desconfia do duque e não deixa de rir à custa dele. Em 1701, quando Lauzun, seguindo Luís XIV, se prepara para entrar na casa da duquesa de Bourgogne, "o porteiro, ignorante e estouvado, puxou-o pela manga e mandou-o sair. O sangue lhe subiu ao rosto, mas, pouco seguro quanto ao rei, não respondeu nada e saiu. O duque de Noailles, que por acaso era o mordomo nesse dia, foi o primeiro a perceber o acontecido e contou ao rei, que, de forma maligna, só fez rir e ainda teve tempo de ver Lauzun atravessar a porta. O rei raramente se per­mitia  essas travessuras, mas havia pessoas que provocavam isso nele, e M. de Lauzun, que ele sempre  temera e de quem jamais gostara, era uma delas".

As blagues de Luís XIV não têm nenhuma relação com as trivialidades de seu pai. Rabelais, que aquecia o coração de Luís XIII, tornou-se um espan­talho, um monstro incompreensível da era gótica. Como se pode rir de suas obscenidades?

Em 1752, o abade de Mary publica, em Amsterdã, Rabelais moderno, ou suas obras ao alcance da maioria dos leitores, em oito volumes: o texto fica submerso num aparato científico que tem seu mérito mas afoga o cômico; a língua é modernizada e o texto, expurgado de suas piores grosserias. No mesmo ano, em Genebra, outro abade, Pérau, publica uma versão consideravelmente diminuída, da qual se retiram todas as obsce­nidades, cenas e alusões escatológicas. Não sobra muita coisa, e o Rabelais novo, purgado de suas "sujeiras", não provoca mais gargalhadas. O texto torna-se tão inocente que, em 1776, a Biblioteca Universal de Romances pode publicar uma versão "para damas".

 

CXXXIII - VOLTAIRE CONDENA RABELAIS

Sepultado sob a exegese, ressuscitado sob a forma de contos para mo­cinhas, Rabelais, descaracterizado, metamorfoseia-se em autor anódino de aventuras divertidas de dois bons gigantes, Gargântua e Pantagruel. Suas obscenidades, sua grosseria, sua vulgaridade não passam adiante. Os riden­tes do século XVIII só têm por ele um refinado desprezo, expresso por Voltai­re em Cartas filosóficas: "Rabelais, em seu extravagante e ininteligível livro, difundiu muita alegria e uma impertinência ainda maior: ele foi pródigo em erudição, dejetos e tédio; um bom conto de duas páginas é trocado por volumes de besteiras; só algumas pessoas de gosto bizarro gabam-se de entender e apreciar essa obra completa. O resto da nação ri das brincadeiras de Rabelais e despreza o livro. Nós o vemos como o primeiro dos bufões, e é lamentável que um homem com tanto espírito tenha feito uso tão miserá­vel dele; é um filósofo embriagado que escreveu dominado pela ebriedade".

En­tre Rabelais e Voltaire, existiu Bossuet, mas sobretudo Descartes, Boileau, Moliere, Swift, Shaftesbury, e Kant não está longe. O riso não é mais um sopro vital, um modo de vida; tornou-se uma faculdade de espírito, uma ferramenta intelectual, um instrumento a serviço de uma causa, moral, so­cial, política, religiosa ou anti-religiosa. Ele se decompôs em risos mais ou menos espirituais, em risos funcionais, correspondendo a necessidades pre­cisas. O ridente generalista deu lugar aos especialistas, quase se pode dizer aos profissionais, com tudo o que isso significa de competência e enfraque­cimento. Tal como no esporte, em que o amador procura saúde e bem-estar mediante uma prática equilibrada e o profissional granjeia glória e dinheiro por meio da superação e de recordes, o riso, a partir do século XVIII, tem seus atletas de alto nível, seus artesãos do ridículo - sem nuance pejorativa -, dos quais Voltaire é o campeão, e tem também seus amadores, cuja prática cotidiana recebe agora o nome de humor.

 

CXXXIV - ATÉ O BURLESCO SE REFINA

A transição efetua-se, progressivamente, na segunda metade do século XVII, quando se passou do burlesco vulgar à Scarron ao burlesco distinto à Boileau. Charles Perrault exprimiu assim a diferença entre as duas concep­ções: "O burlesco é uma espécie de ridículo [que] consiste na discrepância entre a idéia que se tem de uma coisa e a idéia verdadeira, assim como o razoável consiste na conveniência dessas duas idéias. Ora, essa discrepância se dá de duas maneiras: uma falando de forma baixa das coisas mais eleva­das; outra falando magnificamente das coisas mais baixas. Foram essas duas inconveniências que formaram os dois burlescos que mencionamos. O au­tor de Virgílio travesti revestiu de expressões comuns e triviais as coisas mais elevadas e nobres, e o autor de Lutrin, pegando a contramão, descreveu as coisas mais comuns e abjetas em termos pomposos e magníficos".

Há uma mudança de temas e também de termos. O segundo aspecto é, talvez, o mais importante. A invasão da linguagem por termos coloquiais, populares e chulos não deixa de inquietar a elite social e intelectual. Falar como os patifes é tornar-se igualmente patife, é favorecer a infiltração da ralé na melhor sociedade. A língua deve permanecer como uma barreira social, e só se deve rir entre si. Em 1652, Guez de Balzac, em Diálogos, investe contra o "modo baixo e grosseiro" do estilo burlesco, que o faz semelhante às farsas, contra "as caretas de vilões, as posturas relaxadas, as máscaras disformes e odientas que provocam medo nas crianças e admiração no povo".

 

CXXXV - “É UM ESTRANHO EMPREENDIMENTO FAZER RIR ÀS PESSOAS DE BEM”

O desaparecimento da tragicomédia na França, na metade do século XVII, dá lugar a uma comédia influenciada pela Itália e pela Espanha, com d'Ouville, que explora o tema do amor contra­riado, pronto para seduzir um público de jovens submetidos ao poder fami­liar. Também nesse caso, o estilo é considerado bufão e as situações, in­convenientes na nova ordem social. Thomas Corneille se rebela contra as "conversas de criados e bufões com príncipes e soberanos". Não se pode deixar de ter cuidado com a mistura de burgueses e fidalgos: a cada um seu ridículo, a cada um seu riso! A segregação do cômico é acompanhada pela estratificação da sociedade de classes.

 

CXXXVI - AFINAL,MOLIÉRE !!!

Por fim, chega Moliêre. "Ele não era alegre. Provavelmente nunca foi", escreve Antoine Adam;lI "Moliêre, taciturno, difícil de manter fora da zona de silêncio em que gostava de encerrar-se", vai encarnar o cômico clássico à francesa. Para isso contribuem, além de aspectos puramente técnicos de seu talento, duas grandes razões. Em primeiro lugar, seu caráter melancóli­co. Para ser um grande cômico, é preciso ser sério, de uma seriedade próxi­ma da tristeza, que permite sentir em profundidade a miséria, a pequenez, a maldade, a mesquinhez, a mediocridade do homem e zombar de seus defeitos tocando no ponto exato, evitando o mau gosto. A tarefa não é fácil:

um estranho empreendimento fazer rir as pessoas de bem", diz Moliêre, porque as pessoas de bem não riem de nada - são muito "de bem" para isso.

 

CXXXVII - MOLIÉRE CONHECIA SEU PÚBLICO

A outra grande qualidade de Moliêre é seu senso de opinião pública: adivinhando as correntes e as tendências, ele sabe tocar as cordas sensíveis - sensíveis demais, às vezes. Entre o riso e a indignação a distância é tão pequena quanto entre a honestidade e a hipocrisia. Moliere põe a sociedade em cena enfatizando ligeiramente aquele ponto que incomoda, e o riso bro­ta. Ele traduz a vida, e o bom tradutor é também criador. "Um autor cômi­co", diz Paul Bénichou, "segue o fluxo geral do público para quem escreve; nas ações que põe em cena, difunde e encarna pensamentos de todo mun­do; ele procura, para sua zombaria, o auditório mais vasto .... Moliere não pode ser um 'pensador', já que não poderia ser partidário; e sempre se edi­ficará no vazio quando se pretender explicar como declarações de guerra aquilo que, nele, é apenas a tradução, na linguagem quase sempre irrespon­sável do riso, dos juízos de valor já formados por seus ouvintes."

 

CXXXVIII - A COMÉDIA ENTRE A ITALIA E A FRANÇA

Mesmo com Moliere, o riso à francesa concorre, até o fim do século xvn, com um certo riso à italiana. É uma concorrência entre as companhias, mas também no conteúdo: não se ri da mesma coisa com os comediantes italianos do rei, instalados em Paris desde 1661, e com os comediantes franceses. Com os primeiros, formados na tradição da commedia deU'arte, evolui-se para uma con­cepção já humorística da vida, para um humor desabusado, resignado e inten­cionalmente cínico. Um cinismo insidioso, que se dissimula atrás de palavras, que ostenta as fachadas para fazer passar melhor os conteúdos. Nossa época tornou-se perita nesse jogo, com suas "limpezas étnicas" e seus "direcionamentos de alvo", mas já no século xVII, quando Arlequim recapitula suas façanhas "na medalha" (moedeiros falsos), nos "regimentos do arco-íris" (criado), quando ele lembra que "seguiu o rei em suas galeras" (como condenado) e que quase "morreu de falta de ar" (ser enforcado), o que ele faz senão desculpar seus cri­mes apresentando-os de forma humorística? Será que um patife que tem tanto espírito pode ser tão mau? A insinuação é inquietante para a moral, sobretudo quando a justificativa das trapaças pela linguagem se torna sistemática. Em uma de suas comédias, As aventuras dos Campos Elísios, os mortos ironizam os logros e as trapaças de sua vida passada. A comédia italiana retoma o espírito cínico de La Rochefoucauld. O público ri das pilhérias e das troças desses autores burlescos que perderam as ilusões. O humor aparece, e sua primeira cor é o negro.

Charles Mazouer, recentemente, escreveu: bem possível que o humor, cujo espaço permanece restrito no antigo teatro italiano, explique de maneira competente o espírito dessas comédias: realce jovial, zombeteiro, de uma sociedade má, essa atitude lúdica mal disfarça uma resignação amarga e a tentação do consentimento indulgente do mal ou do cinismo. Colombi­na, a mais atraente humorista da companhia, permanece como a figura em­blemática da comédia italiana".

Em compensação, o espírito molieresco é mais sério, mais moralizador. Com os italianos, ri-se de toda a comédia social, profundamente má e inevitável; com os franceses, ri-se apenas de certos tipos, considerados maus, que precisam ser excluídos, pelo deboche, de uma sociedade globalmente boa. Sabe-se que Moliêre deve muito a Scaramouche e, em seu gênero, é um Dom Quixote que ainda crê que é possível eliminar os vícios. Mas não seja­mos cegos: a despeito da interdição oficial dos italianos, em 1697, Arlequim é mais popular que Moliêre. Muito contestado quando era vivo, Moliére deve parte de seu triunfo póstumo à glorificação orquestrada pelos manuais de literatura, obras de professores formados em humanidades e seduzidos pelo cenário oficial da propaganda clássica de Luís XIV. Ê uma miragem do "grande século", que mal começa a se dissipar graças aos pa­cientes esforços de historiadores que, depois de Pierre Goubert, tiveram a audácia de desafiar o mito, que ainda guarda alguns adoradores tardios.

 

CXXXIX - ARLEQUIM E NÃO MOLIÉRE

Quando as pessoas querem rir, em 1690, vão ver Arlequim e não Mo­liêre; e, depois de 1697, elas se apressam para ver as representações semi­clandestinas do teatro de feira, encenadas por companhias interditadas. Os "empresários de espetáculos", que recorreram a todas as rixas para desafiar o teatro francês, perpetuam a tradição burlesca, repleta de alusões satíricas, recebidas por um público cúmplice com um riso de desafio. Chega-se até a parodiar os comediantes franceses e seus alexandrinos, daí as reações vio­lentas como o assalto e o incêndio do teatro de Holtz, na feira de Saint­Germain, pelos comediantes franceses, em 1709. O decreto de 1710 que proíbe "representar comédias por diálogos, monólogos ou outros" preten­de impor o cômico oficial, mas o regente, ridente sagaz e impenitente, volta a chamar os italianos depois da morte de Luís XIV.

O cômico oficial, de convenção, visa reforçar a norma social excluindo, pela iro­nia, os desvios, os marginais e os contestadores de qualquer espécie. Há alvos bem precisos. Sério, pedagógico, ele demonstra aos homens de bem quanto é ridículo um avarento, uma pessoa que procura sair de sua condi­ção, um ímpio, uma mulher que quer ser sábia, um doente imaginário ... Uma vez que as normas sociais mudam, o cômico sofre as conseqüências disso. Sabe-se que Moliere teria desejado ser tragediógrafo e que suas me­lhores peças são, na realidade, tragédias: Dom ]uan, O misantropo, Tartufo não são engraçadas ... Moliere leva o mundo muito a sério e acredita que pode mudá-lo. Quando Moliere faz rir - o que sempre acontece, sem exagero -, ele se prende a um defeito ou a um vício ligado à organização social, isto é, que se pode reme­diar e que não é, portanto, trágico. Quando ele aborda os grandes temas e as grandes questões da condição humana - Deus, os outros ... -, não evita a tragédia, porque deseja ardentemente poder mudar o que quer que seja.

Já o cômico clandestino tem uma visão global do mundo e toma o parti­do dele. O mundo é mau, e nada podemos fazer contra isso; então, o melhor é rir. Esse riso se dirige ao mundo todo e a toda a comédia humana. É um riso mais de espectador que de ator e abrange todas as nuances possíveis: da bufo­naria grosseira ao humor mais delicado, do riso rude ao cinismo superior.

 

CXL - O SENTIDO DO BIZARRO

O primeiro tipo de cômico é mais difícil de dominar. É preciso ser um verdadeiro artista para "fazer rir os homens de bem", e a grandeza de Molie­re é, precisamente, essa. O segundo tipo, mais livre, é mais difundido e mais popular. A oposição entre os dois persiste ao longo de todo o século XVIII. Desde os primeiros anos, o teatro de feira confirma seu sucesso com Alain-René Lesage, um bretão de origem plebéia, formado pelos jesuítas de Vannes, que expõe sua filosofia da existência, em 1707, com O diabo coxo. Esse diabinho é Asmodeu, que é libertado por um estudante de Espanhol de uma garrafa onde estava aprisionado e que, em troca, mostra ao rapaz todas as tragicomédias, manipuladas por Satã, que se desenrolam na cida­de. Os homens são títeres com os quais brinca Asmodeu, um diabo coxo e farsante: "Eu faço casamen­tos ridículos, uno velhos babões com lavadeiras, senhores com suas servas e moças maldotadas com ternos amantes sem fortuna. Fui eu quem intro­duziu no mundo o luxo, o deboche, os jogos de azar e a química. Sou o inventor do carrossel, da dança, da música, da comédia e de todas as novas modas da França. Resumindo, eu me chamo Asmodeu ou o diabo coxo".

 

CXLI - A ÓPERA É RIDÍCULA

Lesage é audacioso, porém não é mau. Seu riso é compassivo e sem ilusão. Ele é excelente na paródia, incluindo a da ópera, com A paródia da ópera de Telêmaco, e, em 1724, na feira Saint-Germain, cria uma "ópera cômi­ca". Mas toda ópera não é cômica? Como se podem olhar sem rir - ou sem dormir - esses personagens que se agitam cantando frases incompreensí­veis, desenvolvendo ações ordinárias como se fossem as mais graves? O grotesco é ainda acrescido pelo conteúdo das intrigas que fazem o século XVIII girar em torno de atormentadas aventuras mitológicas. A isso somam-­se a decoração, o maquinário, os "efeitos especiais" que provocam ridículas reviravoltas dramáticas: "Eu não consigo segurar o riso diante de algumas catástrofes trágicas", escreve o abade Mably. As pessoas sensatas só podem rir da ópera, a propósito da qual Saint-Évremond declara: "Uma tolice car­regada de música, de dança, de máquinas, de decorações; é uma tolice mag­nífica, mas ainda assim uma tolice".

Essa opinião é partilhada por muitos espíritos esclarecidos: Addison, Steele, Muratori, Gravina, Maffei, Boileau, La Bruyere, Crescimbeni. Para eles, não se deve ter vergonha de achar a ópera grotesca, e o empolgamento que ela suscita na alta sociedade do século XVIII permanece um mistério. Certamente, o espetáculo estava mais na platéia do que na cena, mas, en­fim, prossegue Saint-Évremond em Carta sobre as óperas, "pode-se imaginar que um senhor chame seu criado ou lhe dê uma gorjeta cantando, que um amigo faça uma confidência a outro cantando, que se tomem decisões can­tando, no Conselho, que se exprimam as ordens com canto e que melodiosamente se matem homens a golpes de espada ou dardo, em um comba­te ... ? Se quereis saber o que é uma ópera, eu vos direi que é um trabalho bizarro de poesia e música no qual o poeta e o músico, influenciados um pelo outro, dão-se ao trabalho de fazer uma obra ruim".

 

CXLII - A ÓPERA É BURLESCA

"Trabalho bizarro", sem dúvida, mas que se inscreve também na cor­rente bufa do século XVIII. Esse mundo irracional de pessoas que fazem tudo cantando é a forma aristocrática do burlesco que atravessa todo o século. A "ópera-bufa" é apenas sua versão mais extravagante. Para Fontenelle ou para o marquês de Argenson, burlesco e bufão são a mesma coisa; é o cômi­co extremo, que eles atribuem aos italianos. É reabilitando o lado bufão de Moliere que ele se torna cômico para nós.

Eis o que revela o esforço do século para dirigir a imagem e o sucesso do cômico oficial para o teatro. Mas os anátemas da Igreja contra a comédia fazem gorar qualquer tentativa. Nos colégios jesuítas, certamente há tea­tro, mas trata-se de peças sob medida, didáticas e morais. Desconfia-se das comédias, às quais os mestres preferem as tragédias, que exaltam suas no­bres virtudes. No entanto, elas aparecem timidamente, com O mercado das ciências, em 1667, no colégio de Chalon-sur-Saône, para romper um pouco "o tédio de ver o sangue que a tragédia faz correr em nossos teatros". Em 1693, apresenta-se a comédia Diógenes, no colégio de Caen.

 

CXLIII - NÃO HÁ COMÉDIA SÉRIA

Fora dos colégios, a comédia moralizante arrasta-se penosamente. É um dos grandes erros dos filósofos das Luzes acreditar na possibilidade de uma "comédia séria", que, conforme o desejo de Diderot em Diálogos sobre o filho natural, apresentaria não os vícios, mas as virtudes, os deveres, num ambiente de alegria, otimista, franco e aberto. Algumas tentativas, nesse sentido, ter­minam em comédias lacrimejantes que não fazem ninguém rir. A virtude não é um tema cômico, e o bom humor forçado é muito artificial para provocar o riso. Contudo, na Itália, o veneziano Carlo Goldoni (1707-1793) consegue a façanha de criar "um cômico que consiste, mais que em suscitar o riso ou o sorriso, em alegrar o coração por meio de uma confiança profunda na exis­tência, na natureza, na razão".  Goldoni dá uma segunda chance à commedia deU 'arte, misturando o cômico farsesco com o cômico de meia-tinta. Esse otimista põe em cena a psicologia em ação, de modo amável e em proveito de uma moral individual e social. Ele é virtuoso e, por isso, faz rir - docemente. “Arlequim Servidor de Dois Amos”

 

CXLIV - DESCARTES EXPLICA O RISO RSRSRSRS

Os filósofos continuam a interrogar-se sobre a natureza do riso. O novo Aristóteles, Descartes, que recria o mundo a partir do cogito ergo sum (Penso, logo existo.), deve explicá­Ia. Mas sua explicação se revela muito falaz e simplificada. No tratado sobre As paixões da alma, de 1649, ele dá, de início, uma descrição fisiológica do fenômeno: o riso é provocado por um afluxo de ar expulso dos pulmões por um brusco acesso de sangue, e esse sangue vem do baço, que se dilata, como se sabe, sob efeito de uma surpresa agradável, ligada à admiração ou à raiva. A despeito de sua independência em relação a Aristóteles, Descar­tes permanece muito influenciado pela teoria dos humores: Àqueles cujo baço não é sadio estão mais sujeitos a ser não apenas mais tristes como também, por intervalos, mais alegres e mais dispostos a rir que os outros; tanto assim que o baço envia dois tipos de sangue ao coração; um muito espesso e grosseiro, que causa a tristeza; o outro bastante fluido e sutil, que causa a alegria. E muitas vezes, depois de rir, a pessoa se sente naturalmen­te inclinada à tristeza porque, quando a parte mais fluida do sangue do baço se esgota, a outra, mais grossa, sucede-a no coração" . Exteriormente, esse afluxo de ar faz pressão sobre os músculos da garganta, do diafragma e do peito, que por sua vez "movimentam os do rosto conectados a eles; é a essa ação do rosto, com essa voz inarticulada e ruidosa, que chamamos riso".

 

CXLV - EU RIO, LOGO ODEIO

É certo que o riso resulta às vezes da alegria, porém esta "só pode causa-­lo quando é medíocre"; por outro lado, é preciso que ela seja mesclada com a raiva, ou com a admiração, e com a surpresa. Pode-se rir ouvindo as zombarias de outro, mas é melhor não rir de si mesmo enquanto se zomba, para não parecer muito cheio de si e também porque as zombarias sonsas "surpreendem mais aqueles que as ouvem".

Há também a má zombaria, aquela dos fracassados, dos enfermos, que cospem seu veneno por despeito ou amargura: "Vê-se que aqueles com defeitos muito evidentes, por exemplo os que são coxos, zarolhos, corcundas ou que receberam alguma afronta pública, são particularmente inclina­dos à zombaria; porque, ao desejar ver os outros tão desgraçados quanto eles, livram-se dos males que os afligem e consideram-nos dignos" 

Visivelmente, para Descartes, o riso é suspeito. Eu rio, logo, odeio.

 

 

CXLVI - MORRER DE RIR

Processo mecânico que escapa à razão e que se traduz por caretas e ruídos desprovidos de qualquer dignidade, o riso pode facilmente tornar-se incon­veniente. A filosofia da primeira metade do século XVII rejeita os costumes burlescos e tende, antes, para os censores religiosos.

Um dos estudos mais negativos do riso na metade do século XVII é o de Cureau de La Chambre, conselheiro do rei e seu primeiro médico comum. Em 1663, na edição em dois volumes de seus Caracteres das paixões, ele con­sagra menos de cinqüenta páginas ao riso. Sua descrição do homem que ri é sem nuances: uma crise, uma espécie de delírio, de histeria, de epilepsia, de uma violência inconfessada que deixa sem forças e que pode até provo­car a morte". Essa passagem, semelhante a certos quadros flamengos da época, nos leva a indagar se o riso, no século XVII, não era mais violento que hoje, o que explicaria as reticências dos moralistas e dos manuais de civili­dade diante dessa explosão de selvageria:

"O peito agita-se tão impetuosamente e com sacudidelas tão freqüen­tes que mal se pode respirar, perde-se o uso da palavra e é impossível engo­lir o que quer que seja. Do flanco sobe uma dor tão forte que parece que as entranhas se dilaceram e que vão se abrir; e nessa violência vê-se o corpo todo dobrar-se, entortar-se e recompor-se. As mãos comprimem as costelas e apertam-nas vivamente; o suor sobe ao rosto, a voz se perde em soluços e o hálito, em suspiros inflados. Às vezes, essa agitação chega a tal excesso que produz o mesmo efeito que os medicamentos; ela expulsa os ossos das articulações, causa síncopes e, por fim, a morte. A cabeça e os braços so­frem os mesmos estremecimentos que os flancos e o peito, mas, entre esses movimentos, vedes que eles ocorrem aqui e ali, com precipitação e desor dem, e que depois percorrem de uma costela a outra, como se tivessem perdido todo o seu vigor; as mãos tornam-se lassas, as pernas não conse­guem sustentar-se e o corpo é obrigado a cair".

E nosso ridente está literalmente" desabado", esgotado, quase sem vida.

 

CXLVII -O RISO É COISA DE DÉBEIS E IGNORANTES

Ê possível imaginar o que seria uma crise de riso coletivo, na corte ou na taverna. O mais divertido, se é que se pode afirmar isso, é que o homem nem sabe por que ri, prossegue Cureau de La Chambre: "Não há nada mais ridículo que ver aquele que não consegue controlar sua natureza e que acre­dita ser seu confidente ignorar aquilo que lhe é mais próprio e mais fami­liar; rir a todo momento sem saber por que e não conhecer sequer o motivo nem os movimentos que formam essa paixão".

Depois de ter descrito os sintomas desse estranho comportamento, Cureau de La Chambre dedica-se a procurar as causas. Ele passa em revista as explicações mais comuns: admiração misturada com alegria, alívio, cons­tatação de um mal ou de uma deformidade sem dor. Para ele, três aspectos são essenciais, os quais depreciam o riso. De início, ele está associado a um sentimento de superioridade: rimos ao constatar um defeito ou uma fraque­za nos outros, o que supõe um mínimo de consciência. por essa razão que as crianças não riem antes de quarenta dias; é como se a alma estivesse amor­talhada, mergulhada nessa quantidade de humores que não são capazes de nenhum conhecimento; mas, à medida que a umidade diminui, as luzes au­mentam e elas adquirem, pouco a pouco, o poder de rir, começando pelo sorriso, e algum tempo depois tornam-se capazes de um riso veemente."

Em seguida, há um efeito de surpresa; os seres mais frágeis, mais cân­didos e mais ignorantes são os mais fáceis de ser surpreendidos e atacados pela hilaridade. "Os jovens e os biliosos riem mais dos defeitos dos outros que os velhos e os sábios, porque são naturalmente insolentes e arrogantes; os loucos e os ignorantes não notam os ditos espirituosos nem torneios engenhosos; as mulheres e os sanguíneos são mais propícios ao riso, por­que têm uma inclinação natural para a adulação."

Resultado: os sábios, instruídos, inteligentes e bons riem pouco. Como sabem tudo, não são surpreendidos, e como são bons, não são vaidosos. "Os sábios riem menos que os outros, porque não são nem ignorantes nem maliciosos, há poucas coisas que lhes são novas e eles se desvencilham facilmen­te das imperfeições." Inversamente, o riso é próprio dos débeis, dos igno­rantes, dos tolos, dos maus. Isso é próprio do homem, já que os animais não experimentam esse tipo de surpresa agradável e não há do que ter orgulho.

Enfim, o riso é uma atitude social: o solitário não ri ou não tem um riso verdadeiro. verdade que a companhia determina a produção do riso e que a alma deseja aparentar que está surpresa." 

 

CXLVIII - O RISO EM KANT

Essa concepção negativa do riso reaparece pouco depois em Leibniz: nas críticas que dirige a Shaftesbury, ele escreve que o riso, que escapa à razão, tende naturalmente ao excesso. Distinguir entre o riso vulgar e o riso moderado lhe parece muito aleatório. Os tipos de riso não coincidem com as categorias sociais: quantas pessoas, na elite, têm um riso grosseiro, so­noro, vulgar? "O vulgar é mais difundido do que se pensa, [porque] há grande quantidade de pessoas que são povo quanto à racionalidade." Acre­ditar que a razão pode regular o riso é ilusório.

Spinoza é, nitidamente, mais favorável. Mas, como Hobbes, não tem reputação de santo. Para ele, o riso, que contribui para o desenvolvimento do ser, participa da natureza divina. O júbilo está em Deus. "O riso, como a brincadeira, é pura alegria e, conseqüentemente, desde que não seja exces­sivo, é bom em si mesmo. Por certo, é uma superstição selvagem e triste que proíbe o prazer." Em compensação, a zombaria, que participa do ódio, é condenável: "Sempre evitei tornar derrisórias as ações humanas, deplorá­Ias ou maldizê-Ias; ao contrário, tentei compreendê-Ias" .

Kant é quase da mesma opinião, com uma análise mais intelectualiza­da. No início, há um fenômeno psíquico: a descoberta repentina de um absurdo, de uma incongruência, isto é, de uma realidade totalmente dife­rente do que era esperado. De súbito, a tensão psíquica se mobiliza para atender a essa realidade, descarrega-se brutalmente. preciso que haja, em tudo o que provoca um riso vivo e ruidoso, um elemento absurdo (o que faz com que a compreensão não encontre satisfação). O riso é um efeito resultante da maneira como a tensão da espera é reduzida a nada. Essa transformação, que não é agradável ao entendimento, é precisamente o que provoca, de forma indireta, uma alegria muito viva." A dificuldade consiste em explicar como um fenômeno psíquico pode desencadear essa reação física. Kant, realmente, não o consegue: ele fala de uma sinergia, de uma harmonia entre corpo e espírito, o corpo "imitando" o que se passa no espí­rito - o que resulta num jogo de palavras.

O riso é positivo, afirma Kant; ele faz bem, tem valor terapêutico. Infe­lizmente, é difícil provocá-Ia: "Voltaire dizia que o céu nos deu duas coisas para equilibrar as múltiplas misérias da vida: a esperança e o sono. Ele poderia ter acrescentado o riso, se o meio de suscitá-Io em pessoas sensatas fosse fácil e se o espírito ou a originalidade de fantasia, que lhe são necessá­rios, não fossem tão raros quanto o talento para compor obras complicadas como as dos sonhadores místicos".  Também Kant opõe o riso benfazejo ao riso zombador: "O escárnio equivale ao ódio", escreve ele.

 

CXLIX - O SÉCULO DE ASMODEU, O DEMÔNIO ZOMBADOR

O escárnio é, contudo, o riso do século. Todo mundo conhece o gran­de trocista Voltaire. Ora, se ele adquiriu tamanha celebridade, é porque é a quintessência de uma época em que a zombaria está em toda parte. Essa época não é, aliás, mais maldosa que qualquer outra; se as pessoas zombam, é porque acreditam, enfim, ser donas de seu destino. A zom­baria generalizada, no século XVIII, testemunha uma sociedade que, de­pois das dúvidas da "crise de consciência européia" (entre 1680 e 1710), pensa ter encontrado, com a razão crítica, o caminho para o progresso, para a verdade, para a civilização. A razão está morta; o bom senso pros­pera, prolifera e ri das fraquezas passadas, dessas miragens, dessas bru­mas que se dissipam no amanhecer de uma nova era. A razão acorda e ri desses sonhos. E, como o riso agora está policiado, ela ri docemente, com inteligência - faz ironia.

 

CL - A IRONIA

Forma intelectual do riso, baseada em razoável certeza e desprezando o erro, a ironia está por toda parte. Depois do burlesco, raivoso e subversivo, sacudindo o mundo porque não chega a compreendê-lo, a ironia é a atitude daquele que compreende - ou julga compreender - e se contenta em troçar dos erros porque sabe que eles podem desaparecer. O ironista é seguro de si e pode permitir-se ironizar. E como todo mundo se tornou sensato e seguro de si, todo mundo troça. Ri melhor quem ri por último.

- Os adversários das Luzes não são os últimos, nesse concerto de troças.

Basta ver a História dos cacouacs, surgi da em 1757. O livro faz uma análise dessa tribo orgulhosa que não aceita nenhuma autoridade, que se deleita e se vangloria da palavra "verdade", ensinando que tudo é relativo, que cospe em cada palavra seu veneno, escondido sob a língua. Não-religiosos, os cacouacs divinizam a natureza, e uma de suas obras intitula-se: Plano de uma religião universal para uso daqueles que podem prescindir dela e na qual se pode admitir uma religião, com a condição de que ela não interfira em nada. Esses seres barulhentos e fanfarrões podem ser afugentados com um assobio. A zom­baria pega no ponto e os filósofos ficam furiosos. Em 1760, eles são nova­mente ridicularizados na comédia parodística Filósofos. Aí se vê também o grande ecologista Jean-Jacques Rousseau entrar em cena de quatro, com uma alface no bolso. Entre os mais espirituais dos anti-Luzes, o abade Fré­ron é um trocista de primeira, que dá trabalho a Voltaire.

 

CLI - TODO MUNDO ZOANDO

Todo mundo zomba de todo mundo, e há muita inventividade quanto aos procedimentos utilizados. A velha paródia burlesca chega a efetuar um retorno com Homero travesti ou A llíada em versos burlescos, um pecado de juventude de Marivaux (1717). A idéia do viajante estrangeiro que vê as instituições e os costumes com um olhar novo e destaca disso o lado ridí­culo, contrário ao bom senso, é um filão brilhantemente explorado por Montesquieu e seus persas, Goldsmith e seu chinês, Voltaire e seu Cândido, Cadalso e seu africano. O gênero utópico, em plena renovação, tam­bém permite impertinências. Mas todas essas zombarias têm um alvo privilegiado: a organização social de sua época. Os cômicos da geração precedente incidem sobre ví­cios e defeitos individuais para preservar o corpo social. Estes, ao contrá­rio, riem do corpo social, que julgam mau e querem reformar pelo bom senso. "Eles denunciam", escreve Paul Hazard, "um presente que os irrita mas que acreditam ser possível mudar. Seu inimigo é o estado social, tal como o encontraram ao nascer; que seja destruído, que seja substituído, e o futuro será melhor".

 

CLII - O HUMOR, VACINA CONTRA O DESESPERO

Desde o início do século XVIII, é possível distinguir, nitidamente, a as­censão dessa contestação social pelo riso. Na Inglaterra, em 1713, o médico e erudito John Arbuthnot funda o Scriblerus Club, o clube dos escrevinha­dores, que aciona a luta trocista conta a idiotice. No mesmo momento, as­siste-se nesse país à tomada de consciência do humor no sentido moderno ­indefinível- do termo. A primeira utilização da palavra, nessa acepção, data de 1682, e Shaftesbury é um dos primeiros a explicitá-Ia, em 1709, em Sen­sus communis: an essay on the freedom of wit and humour. Dois anos mais tarde, em um artigo do Spectator de 10 de abril de 1711, Addison distingue o ver­dadeiro humor do falso: assim como o verdadeiro humor tem um ar sério, enquanto todo mundo ri em volta dele, o falso humor ri o tempo todo, enquanto todo mundo mantém um ar sério em volta dele". A propósito das obras burlescas que aparecem na época, ele escreve: "Essas obras incoeren­tes ou delirantes que circulam entre nós sob títulos extravagantes ou qui­méricos são produto de cérebros degenerados e não obras de humor".

 

CLIII - O HUMOR VEM COM O HABEAS CORPUS

Os ingleses começam, portanto, a precisar essa noção, que acompanha a afirmação da consciência individual, a ascensão de valores individualistas que John Locke defende na mesma época. Humor e sentido de liberdade caminham juntos. Aquele que tem humor é um homem livre, separado de si mesmo, dos outros e do mundo. É lógico que o humor apareça pouco depois do habeas corpus e da Declaração dos direitos. O humor não tem, defini­tivamente, o sentido que lhe dava Jonson, ou seja, aquele de um humor físico involuntário. Agora, é uma atitude voluntária e consciente, uma es­pécie de filosofia de vida baseada no distanciamento.

Outros homens de letras ingleses tentam delimitar melhor essa quali­dade evanescente, com alguns tropeços. Assim, em 1744, Corbyn Morris consagra um tratado às distinções entre espírito, humor, zombaria, sátira e ridículo. A obra testemunha o interesse que se confere a essas noções, mas as definições propostas por ele ainda são fluidas:

"Um homem de humor é capaz de representar com facilidade um per­sonagem fraco e ridículo na vida real, seja assumindo-se como tal, seja fa­zendo-o ser representado por outra pessoa, de maneira tão natural que se poderá, por assim dizer, tocar com os dedos as bizarrices e as fraquezas mais extravagantes do personagem.

"Um humorista é uma pessoa da vida real, obstinadamente apegada a extravagâncias de sua própria lavra, bizarrices que são visíveis em seu tem­peramento e em sua conduta.

 

"Resumindo, um homem de humor é aquele capaz de representar e de revelar, com felicidade, as extravagâncias e as fraquezas de outros perso­nagens."

 

CLIV - SENTADOS NO PENICO OS HOMENS SÃO SÉRIOS

Na Inglaterra, no século XVIII, o humor apresenta grande variedade de nuances, de acordo com as doses de pessimismo e de melancolia acrescentadas ao tratamento. Porque o humor, de certa forma, é a vacinação do espí­rito, que é imunizado por doses moderadas de pessimismo. Entre a vacina de Jenner e o humor do doutor Johnson, há semelhanças. Um cuida do corpo, outro do espírito, e esses dois britânicos contemporâneos utilizam a mesma idéia. O humor é uma vacina contra o desespero. Depois da dose cavalar que era o burlesco, medicamente comparável à sangria, esse novo tratamento preventivo permite afrontar o absurdo fundamental do ser, pre­servar o sorriso em qualquer circunstância, sem medo e sem ilusão. Lúcido, realista, compassivo e sorridente: assim aparece o humorista.

Injetado em grandes doses, o pessimismo virulento gera um humor ne­gro e amargo, tal como o de Jonathan Swift, que Robert Escarpit definiu, com razão, como "uma pessoa que tem espinhos por fora e tosas por dentro. Para atingir sua profunda generosidade, é preciso vencer o obstáculo de sua impie­dosa ironia, geradora de tal desespero metafísico, de tal desgosto com o uni­verso humano, que nos perguntamos se a loucura que o acabrunhou nos últi­mos anos não foi conseqüência disso ou, o que seria mais grave, a causa".

Swift, o Esfolado, é um homem de coração, e é, sem dúvida, porque leva a humanidade a sério que o humor, para ele, é o único remédio contra o desespero de não poder acabar com o mal. É só por amar a humanidade que ele descreve a idiotice criminosa desse "verme" sob os traços repulsi­vos dos Yahous e que sugere a seus compatriotas irlandeses que comam seus filhos para sair da miséria. É também para humilhar o orgulho huma­no que ele nos lembra de que "os homens nunca são tão sérios, pensativos e concentrados quanto quando estão sentados no penico".

 

CLV - O HUMOR NEGRO DE SWIFT

O humor negro de Swift advém de seu imenso amor pelo ser humano, o indivíduo concreto. É impossível amar os seres humanos se não se é pro­fundamente individualista. Amar essa abstração, essa entidade, esse con­ceito que é a humanidade, o gênero humano, é uma declaração puramente intelectual, que não implica nenhum sentimento real. Swift escreve: "Sem­pre detestei todas as nações, profissões e comunidades e só sei amar indivíduos. Eu abomino e odeio, sobretudo, o animal que leva o nome de homem embora ame, de todo o meu coração, João, Pedro, Tomás etc." Preparando ( próprio epitáfio, Swift lembra, justamente, que seu riso visava aos vícios, àS coletividades, mas nunca aos indivíduos:

Em 1729, Swift forneceu um modelo de humor corrosivo com seu fa­moso opúsculo: Modesta proposta para evitar que as crianças pobres da Irlanda sejam um fardo para seus pais e para seu país e para tomá-ias úteis à comunidade. A obra apresenta-se como um verdadeiro tratado de economia política, com fórmulas e cálculos extremamente sérios. A demonstração também é im­perturbável. A Irlanda sofre de três males: a penúria alimentar, a pobreza e a superpopulação. A solução (como não se pensou nisso mais cedo?) é sim­ples: que os pobres vendam seus filhos como carne de açougue! Apoiando-­se em cifras, Swift prova que os três problemas seriam resolvidos. Para que o sistema seja eficaz, ele dá conselhos a respeito da criação, dos abatedouros e das receitas de cozinha. É a obra-prima do humor negro, sem dúvida, dada a enormidade da coisa. Trata-se de atrair a atenção para a situação dramática da população irlandesa, e aqui a ironia substitui a diatribe com vantagem.

O riso de Swift às vezes é menos virulento, mas ele visa sempre à estu­pidez humana, causa essencial do mal. Ora, existe prova maior de estupidez que acreditar em astrologia? Em 1707-1709, Swift faz a Europa gargalhar, ridicularizando o astrólogo John Partridge num almanaque fictício, predi­zendo o momento preciso de sua morte, depois confirmando a morte com um relato circunstanciado e uma pseudoconfissão do referido Partridge. Voltaire ainda ria em 1752.

Swift chega a desejar a loucura, para não ter mais consciência da idioti­ce e da maldade. Ele gostaria, comenta, de atingir "esse grau de felicidade sublime que se chama faculdade de ser bem enganado, o estado agradável e sereno que consiste em ser um louco entre patifes". Ele se exaure: a partir de 1736, desliza para a loucura. É difícil levar o humor até aí.

 

CLVI - O HUMOR NA FRANÇA

Na França, apesar de a palavra existir desde 1725 - quase o mesmo tempo que o neologismo inglês suicídio -, sua utilização é bastante limitada, como testemunha este comentário de Voltaire, em 1762: "Eles têm um ter­mo para designar essa brincadeira, esse cômico verdadeiro, essa alegria, essa urbanidade, essas tiradas que escapam de um homem sem que ele duvide delas; fornecem essa idéia pela palavra 'humor', humour, que pro­nunciam yumor. E acreditam que só eles têm esse humor, que as outras nações não possuem esse termo para expressar tal característica do espíri­to; contudo, é palavra antiga em nossa língua, empregada nesse sentido em várias comédias de Corneille" . Voltaire erra na propaganda: o humor não é uma brincadeira involuntária, ao contrário.

O humor aclimata-se lentamente na França. O Dicionário da Academia, em 1762, vê no "humorista" apenas um médico partidário da teoria dos humores, e um século mais tarde, em 1862, Victor Hugo ainda evoca com curiosidade" essa coisa inglesa que se chama humor". Taine, em Notas sobre a Inglaterra, não lhe dá muita importância: é "a brincadeira de um homem que, fazendo isso, mantém o rosto sério". Littré definiu o humor como "palavra inglesa que significa alegria de imaginação, veia cômica", e a Aca­demia francesa ignora soberbamente o termo até 1932. A Enciclopédia, em 1778, mencionara a palavra, mas só fornecendo exemplos, sem abordar a questão da definição.

 

CLVII - VIVER E MORRER ZOMBANDO

Na França, no século XVIII, não existe humor, mas há "espírito". E é a coisa mais difundida na alta sociedade, em que é indispensável mostrar-se espirituoso para ter sucesso. Mesmo os desesperados demonstram espírito, porque "a melhor filosofia, em relação ao mundo, é aliar o sarcasmo da alegria à indulgência do desprezo", escreve Chamfort, que vê a vida como uma armadilha, como um calabouço em que somos lançados e onde o ins­tinto de preservação nos obriga a permanecer. "Viver é uma doença, a morte é o remédio", constata também. E comete suicídio em 1794.

Senancour, por sua vez, prefere assistir até o fim ao espetáculo grossei­ro da existência: "A vida me entedia e me diverte. Nascer, crescer, fazer grande barulho, inquietar-se com tudo, medir a órbita dos cometas e, de­pois de um tempo, deitar-se sob a grama de um cemitério; isso me parece suficientemente burlesco para ser visto até o fim". A vida é uma farsa penosa, e é melhor rir: "É melhor julgar as coisas menos infelizes que julgá-las cômicas", e eis por que "procuro em cada coisa o caráter bizarro dúbio que a torna um veículo de minhas misérias .... Eu rio de dor, e me julgam ale­gre". a riso de Beaumarchais não é mais otimista. "Eu me obrigo a rir de tudo, por medo de ser obrigado a chorar", diz Fígaro.

CLVIII - ÚLTIMAS PALAVRAS DIANTE DA MORTE

Deixar essa espécie de vida não é, portanto, um drama. É a ocasião para dizer a última piada, para menosprezar a morte, a vida, o ser e mostrar que o riso tem a última palavra. Fontenelle declara, em 1757, com quase cem anos: "Isso não dá mais, tudo se vai ...É tempo de ir embora, porque começo a ver as coisas tal como são". Seu médico, que lhe pergunta se está sofren­do, recebe esta resposta filosófica: "Não, sinto dificuldade de existir". Em 1744, Alexander Pope responde ao seu, que tenta tranqüilizá-lo: “Assim, meu senhor, eu morro de ser curado!". Samuel Garth, em 1719, prefere dispensar os médicos: "Senhores, deixem-me morrer de morte natural", e, depois de receber a extrema-unção com óleo santo: “A viagem começou: já engraxaram minhas botas". Em 1746, o presidente do Parlamento da Bor­gonha, Jean Bouhier, pede silêncio em torno dele: "Psiu! Estou espiando a morte". a último desejo de Saint-Évremond, em 1703, é: "Reconciliar-me com meu apetite". Em 1709, o pintor holandês Bakhuysen, antecipando Jacques Brel, pede a seus amigos que riam e bebam em seu enterro. Em 1750, o abade Terrasson, que um confrade se apressa a confessar, no leito de morte, aponta para sua governanta: "Confessai a senhora Luquet: ela res­ponderá pelo patrão". Mesmo em cima do cadafalso, o espírito não perde seus direitos: Bailly diz ao carrasco que se ele está tremendo é porque sente frio; e Expilly reclama por ter de comparecer, no mesmo dia, diante do tri­bunal dos homens e do de Deus.

O mestre do trocadilho, o marquês de Bievres, autor de Almanaque dos trocadilhos, de 1771, e a quem se atribuem mais de quatro mil deles , deixa a vida com um último trocadilho. Isolado em Spa, na Bélgica, declara: "Eu me vou neste passo", * e dirigindo-se ao padre: "Pode trazer seus óleos, já estou cozido!".

Alguns, mais empenhados, fazem humor póstumo, mostrando com isso que o riso é mais forte que a morte. A moda de epitáfios cômicos é também uma marca reveladora do espírito do século XVIII, como no epitá­fio do marechal de Saxe, composto por Piron:

Maurice cumpriu seu destino:

Ride, ingleses; chorai, prostitutas.

Tudo isso testemunha ao menos uma coisa: a necessidade inveterada de zombar, escarnecer, troçar:

... é preciso que eu ria

de tudo o que vi todos os dias de minha vida.

 

CLIX - O RISO COMO REMÉDIO

O texto acima é o que diz, no início do século, um personagem de Regnard. Para Voltaire, isso se torna uma razão de viver: "Eu sempre me deito com a esperança de zombar do gênero humano ao acordar. Quando essa faculdade me faltar, será um sinal seguro de que está na hora de par­tir", escreve ele a um correspondente. Zombar do mundo é a única maneira de superar o absurdo. Em Voltaire, é também uma doença, uma obsessão:

"Há três meses eu me arrebento de rir, ao me deitar e ao me levantar", afirma a Thierlot, em 11 de agosto de 1760. Aos olhos de Voltaire, a zombaria é a melhor aliada da razão, "o grande meio de diminuir o número de maníacos", fanáticos, entusiastas, sectários: ela os mata pelo ridículo. "Não valerá nada o ridículo atrelado ao entusias­mo por todos os homens de bem? Esse ridículo é uma potente barreira contra as extravagâncias de todos os sectários." Para ele, a zombaria é, manifestamente, um substituto da violência física: "Se ele não tivesse escri­to, teria assassinado", diz Piron a respeito dele. É melhor não ser alvo desse caçador de cabeças que não larga a presa.

Assim, quando Voltaire escreve, em Dicionário filosófico, que o riso é uma expressão de alegria, sem nenhum sentimento de orgulho, de superio­ridade nem de agressividade, ficamos um tanto céticos: "O homem", ele explica, "é o único animal que chora e ri. Como choramos por aquilo que nos aflige, só rimos daquilo que nos alegra. Os pensadores achavam que o riso nasce do orgulho e que nos julgamos superiores àqueles de quem ri­mos .... Qualquer pessoa que ri experimenta uma alegria verdadeira, naque­le momento, sem ter nenhum outro sentimento".

 

CLX - SÁTIRA POLÍTICA E CARICATURA

Não é de surpreender que esse século de zombaria tenha conhecido o verdadeiro desabrochar da caricatura. No século XVII, ela ainda hesita sobre o caminho a seguir. Jacques Callot (1592-1635) aperfeiçoa a técnica, realizan­do retratos grotescos, inspirados na commedia D L 'arte; esses retratos podem adquirir uma dimensão inquietante, e, atrás dessas máscaras, Wolfgang Kay­ser acredita discernir o riso do diabo. Mas a vocação zombeteira da caricatu­ra ainda não nascera. Para os artistas, esse gênero permanece pura diversão, sem função precisa. Bernini se diverte em caricaturar Inocêncio XI, e quando, em 1665, ele vem a Paris e propõe caricaturar Luís XIV, ninguém sabe do que se trata. Chantelou, que o acompanha, explica "que eram retratos que fa­ziam aparecer o feio e o ridículo". O primeiro caricaturista profissional apa­rece no século XVII: é o romano Pier-Leone Ghezzi (1674-1755), que executa uma galeria divertida de aristocratas, mecenas, padres e artistas.

CLXI_ A CARICATURA E A BUNDA

Na Inglaterra, onde o parlamentarismo e o apreço pela liberdade fazem progressos decisivos, no século XVIII, a caricatura já ataca a esfera política, em parceria com o panfleto. Hogarth também é pioneiro nesse domínio, em que trabalha com o satirista Henry Fielding. Constata-se, com surpresa, que, nessa sociedade que se quer refinada e polida, a verve escatológica e obscena está sempre viva. O traseiro, o rump, volta de maneira obsessiva nas caricaturas: ele é enorme, barulhento, nauseabundo, rabelaisiano. "A idéia de mostrar o traseiro humano é curiosamente persistente na arte grosseira do século XVIII", escreve Peter Thomson, autor de um artigo recente, de título evocador: "Magna farta: Walpole and the golden rump" (O grande peido: Walpole e a bunda de ouro). 

Em caricaturas pouco conhecidas, Hogarth utiliza largamente a ima­gem clister purgando o enorme traseiro do ministro Walpole, enquanto Fielding se junta ao ataque contra a família real em sua ópera de 1731, The welsh opera. Na caricatura intitulada Broad bottoms (Grandes traseiros), vêem­-se o rei George e o primeiro-ministro agachados, defecando sobre o povo. O rump, que lembra o Rump Parliament (Parlamento corrupto) da época de Cromwel1, é também associado à idéia de liberdade, e em 1734 um grupo de pares da oposição jacobina funda o Rumpsteak Club (Literalmentte o “Clube do Bife de Bunda”).

 

CLXII - A FESTA DA BUNDA DE OURO

Em março de 1737, aparece uma estampa satírica que faz rir Londres inteira: A festa da bunda de ouro. A dita-cuja é do rei George Il, postado sobre um pedestal, nu, visto de costas, soltando um enorme peido: "Os ventos do leste, do sul e do sudoeste levantam-se em tempestade", diz a inscrição ­citação da Eneida - sobre o pedestal. O rei, cujas desordens sexuais eram bem conhecidas, é representado como um sátiro, ao passo que a rainha Caroline se apressa em lhe fazer uma lavagem com ouro líquido. Os corte­sãos maravilham-se, e a cena se desenrola em um cenário suntuoso; sobre os cortinados brilham bundas bordadas a ouro.

 

CLXIII - A IRONIA, O ESPÍRITO E A LOUCURA

Entretanto, o mesmo Chesterfield, em sua correspondência privada, mos­tra-se hostil ao riso, marca de má educação, ruído incongruente, sem falar na "grotesca deformação do rosto que ele provoca"; é o que o populacho "chama ser alegre". Em outra carta, ele afirma: "O riso barulhento é a alegria do populacho, que só se diverte com coisas idiotas, porque o verda­deiro espírito (wit) e o bom senso nunca provocaram riso". É claro que a ocasião faz o ladrão. Diderot estava certo em assegurar que "a brincadeira tem limite, e se o brincalhão o ultrapassar não é mais um homem de espírito, mas um impertinente", ou seja, cada um atravessa ale­gremente a fronteira segundo as circunstâncias. Quanto ao impacto dessas impertinências em matéria de sátira política e social, é impossível avaliar. Com certeza, o riso dos filósofos não transformou o Antigo Regime. No domínio das mentalidades, o efeito da derrisão é, às vezes, desesperadamen­te nulo. Mas será que o riso sozinho consegue derrubar um preconceito, uma superstição, uma bobagem, uma crença estúpida? Séculos de zombaria não eliminaram nem a astrologia nem os fundamentalismos religiosos. É porque é preciso um mínimo de espírito para apreciar o espírito, e aqueles que o têm já são convertidos; para os outros, o muro da estupidez constitui uma blindagem impermeável à ironia. Portanto, a ironia é para uso interno; ela mantém o bom humor, permite suportar a estupidez e absorver os golpes baixos da existência. "A vida é uma tragédia para aqueles que sentem e uma comédia para aqueles que pensam", diz, bem a propósito, Horace Walpole.

 

CLXIV - O RISO A IRONIA E A VERDADE

Certamente, o riso não é sinônimo de verdade. Não é suficiente ter espírito para ter razão. A ironia pode ser uma proteção. Elevada a um valor social, pode tam­bém transformar-se em agente corrosivo que produz a decadência. Segundo Vladimir ]ankélévitch, de fato, a ironia dissolve o trágico da existência, de­compondo-o em pequenos pedaços que são, cada um, tratados pelo escár­nio. Além do mais, à força de tornar tudo ridículo, ela desemboca na indife­rença e na indecisão: "Essa ironia presumida e escrupulosa não acredita em nada, nada vale a pena e o mundo é só vaidade ....

A ironia sistemática não destrói apenas o sério da existência, mas tam­bém a coerência do pensamento discursivo, pulverizado em uma multidão de situações independentes. Assim, "o espírito de conversação tende a tor­nar-se, no século XVIII, zombaria mundana. O diabo é ironista porque é um grande ilusionista, o grande mágico.

Nada existe verdadeiramente, nada é realmente sério, tudo se presta ao riso. O ironista termina por flutuar entre o real e o irreal, entre o autêntico e o virtual. Ele esvazia o conteúdo objetivo e reduz o mundo a palavras. Hegel não vai demorar para reagir a esse "discurso sobre o discurso", a essa "logo­logia". A onipresença da ironia desempenha uma função social essencial. O século de Voltaire privilegia a aparência. Perder a face, ser ridículo é deixar de existir, pois, num mundo ironista, o ser é o parecer. Pareço ser, logo sou: essa é a nova lógica social das elites. Daí a importância do espírito, do wit, que permite, ao mesmo tempo, afirmar e ridicularizar o outro, logo, eliminá­-lo.

Assim, o duque de Lauzun, em quem despreza a "baixeza", fascina-o pela capacidade de produzir palavras de espírito que deixam seus adversá­rios. Saint-Simon relata grande quantidade de 'suas tiradas, usando termos que as igualam a verdadeiros golpes de espada: "pontudas", "agudas", "perfurantes"; não somente o interlocutor fica "morti­ficado" como os assistentes "morrem de rir". Contadas por Saint-Simon, são cômicas, sobretudo quando ele lhes acrescenta fantasias de linguagem, maliciosas ou cândidas. A melhor é a famosa "oração ejaculatória", em vez de "oração jaculatória", termo técnico que designa "uma prece curta e fer­vorosa pela qual a alma se eleva a Deus", diz o Dicionário da Academia. Seria um lapso? Uma imagem desrespeitosa mostrando que a prece de Lauzun jorrava como esperma? De qualquer forma, trata-se de uma das últimas brincadeiras de Lauzun. Doente, ele é vigiado em seu quarto por Biron e pela mulher deste, sua principal herdeira, que ele detesta. Eles estão escon­didos atrás de um biombo para surpreender eventuais decisões testamentá­rias do moribundo. "Ele queria castigá-los por isso e se divertir, ao mesmo tempo. Então começa a falar alto, como se estivesse só, e faz uma oração ejaculatória, pedindo perdão a Deus pelos pecados de sua vida, expressan­do-se como um homem persuadido de sua morte próxima e dizendo que, na impossibilidade de fazer penitência, quer ao menos servir-se de todos os bens que Deus lhe deu para resgatar seus pecados e legá-Ios aos asilos .... A senhora Biron fica desesperada. Isso era exatamente o que o duque queria. Ele manda chamar os notários, os faz entrar e dita seu testamento, que é um golpe mortal para a senhora Biron. Todavia, demora para assinar e, sen­tindo-se cada vez melhor, não o assina mais. Ele se diverte com essa comé­dia e ri ao comentar com algumas pessoas, quando se restabelece."

 

CLXV - A ZOMBARIA FAZ ESTRAGOS NA ALTA SOCIEDADE: "NINGUÉM QUER SER RIDÍCULO.

É melhor ser odiado", escreve, em 1760, ]acques Abbadie. Esse austero aposentado vê no riso, com os acentos que ele adquiriu no século XVIII, uma agressão, uma arma criminosa cuja motivação é o orgulho. Ele o condena sem apelo: "Nós nos alegramos em rebaixar os outros. São tantas as pesso­as que deixam de aspirar à glória; temos prazer em vê-Ias tornar-se ridícu­las .... Por que será que os homens nunca riem quando vêem uma pedra ou um cavalo cair, mas não deixam de rir quando vêem a queda de um homem, já que um não é mais ridículo que outro? É que não há nada que nos inte­resse no tombo de uma besta, ao passo que existe algo muito interessante no rebaixamento de outros homens: isso nos dá prazer. Acreditamos rir inocentemente, mas sempre rimos de maneira criminosa".

Contudo, ressalta Abbadie, os homens fazem tantas coisas grotes­cas, cujo absurdo não os toca porque lhes é habitual: o que há de mais ridículo que as contorções da dança ou os uivos da ópera? Poder-se-ia acrescentar aí a etiqueta da corte, à qual Saint-Simon é tão apegado, ou o grosseiro baile de duques avermelhados e emperucados. E o que dizer da lisonja sem limites que o culto de Sua Real Majestade exige? Um bispo tão "sensato" como Fléchier pode declarar, sem rir, ao rei: "Só vosso gênio é capaz de satisfazer a todos. Sois a própria fonte de vossos conse­lhos. Sustentais o peso dos negócios. Devemos a vosso coração e a vosso espírito tantos sucessos; vosso poder os produz; vossa prudência os pre­para. Tendes ao mesmo tempo a glória do desígnio e da execução .... A Igreja e os altares só têm a vós como defensor. A causa do céu é a vossa, e, enquanto tantos príncipes unem seus exércitos contra vós, vós, intrépido e sereno, vos unis a Deus".  Tais fórmulas só se repetirão, laicizadas, na URSS de Stalin. O desaparecimento do bobo do rei abre caminho para a loucura coletiva dos cortesãos.

 

CLXVI - A LOUCURA RONDA SEMPRE

A loucura ronda sempre, conquistando suas presas atrás da fachada sensata do século. Para Fontenelle, ela é tão onipresente quanto no tempo de Erasmo, e ele o faz dizer em seu Pigmaleão:

Meu domínio se impõe sempre melhor.

Os homens do presente são mais loucos que seus pais; Seus filhos os superarão,

Seus netos terão ainda mais quimeras Que seus extravagantes ancestrais.60

Profecia clarividente. A loucura, no século XVIII, é menos brutal que no XVI, mas é mais insidiosa. Diderot a vê no centro da razão, o que é muito inquietante para as Luzes. O sobrinho de Rameau estabelece nova relação entre loucura e razão, o que gera um novo tipo de riso. De um lado, a loucura é produto de uma pressão coletiva que exclui os extravagantes pela zombaria. "Quiseram-me ridículo e eu me fiz tal", diz o Sobrinho, lou­co porque foi designado como tal pela opinião bem pensante. De outro lado, essa loucura recai sobre as pessoas "normais", que só podem julgar-se sensatas por oposição aos loucos. "Sem o louco", escreve Michel Foucault, "a razão seria privada de sua realidade, seria monotonia vazia, tédio de si mesma, deserto animal que tomaria evidente sua própria contradição." É um pouco o que acontece com o rei absoluto privado de seu bobo: sem seu contrário, ele não tem consciência de seus limites.

CLXVII - QUEREMOS ZU

Daí surge um novo riso: solitário, incomunicável, um riso louco - o daquele que compreende que se é sempre o louco de alguém e que o outro, decididamente, é louco. Se esse sentimento de loucura rela­tiva transborda do domínio intelectual para o do sentido e do desejo, isso cria o riso sádico. Entretanto, Sade tem medo da loucura, do internamento. Essa época, que brinca com a desrazão, teme uma contaminação com origem nos asilos. Ocorrem movimentos de pânico, como em 1780, em Paris, quando se fala de infecção dos espíritos oriunda do Asilo Geral. As obras de Medicina da época reúnem uma forma de doce loucura na qual o doente ri ou sorri sem cessar: a imbecilidade. O "imbecil feliz" perde a razão por uma causa médi­co-moral: masturbação, abuso do álcool, pancadas, ressecamento do cére­bro, nos velhos. Lembrando da face de Marcelo Marcos no exercício do ZU na Oficina, "Os imbecis não são agitados nem furiosos: raramente som­brios, mostram um rosto estupidamente alegre e quase sempre igual, quer estejam felizes, quer sofram", afirma, em 1785, o Journal de Médecine, que aconselha: "Não há nada melhor que inocular a sarna, e esse meio deveria ser tentado em todos os imbecis".A loucura perde seu aspecto bufão da Renascença. Ela não faz mais rir; provoca medo. O riso racionaliza-se, intelectualiza-se. É o riso cerebral da zombaria.

 

CXLVIII - O REGIMENTO DA CALOTTE:

UMA "COMICOCRACIA" CONTRA O ABSOLUTISMO (1702-1752)

Na primeira metade do século XVIII, um grupo de gracejadores aristo­cratas quer reabilitar a loucura: é o Regimento da Calotte, uma sociedade de ridentes, fundada em 1702, para exercer "o policiamento do ridículo" na alta sociedade. Inspirando-se na República de Babin - uma sociedade nobre polonesa, do século XVI, que criara a República jovial-, concedendo brevês, seus membros colocam-se sob o signo da loucura: a "calotte" em questão era o capacete de chumbo que colocavam na cabeça dos doentes mentais.

Essa alegre companhia queria recriar a função do bobo do rei, moderni­zando-a. Esse bobo exerceria um poder real sobre o Conselho, para "descar­tar, pela sátira, os maus ministros, os cortesãos vis e os conselheiros de baixo nível". A loucura no poder é o que reivindica, em 1732, uma quadra calotina:

Se um rei pudesse, em paz,

Reunir todos os loucos para o conselho, Ele poderia, com direito, proclamar-se O maior rei do universo.

 

CLXIX- RESTAURANDO O RISO REFINADO

O Regimento da Calotte testemunha uma reação ao mesmo tempo cultural, literária e social da aristocracia. Reabilitar o riso espiritual para fazer dele um instrumento de seleção moral: essa ética do riso se exerce pela atribuição de brevês burlescos, sarcásticos, que recrutam, de forma imaginária, os novos membros para a zombaria. Isso pressupõe uma escri­ta espirituosa e erudição, marcas de belos espíritos. Esses brevês cômicos são redigidos por um pequeno grupo de homens de letras, em sua maioria eclesiásticos, os "divinos abades", que se reúnem nos cafés próximos à Ópera Cômica

Esses artistas da derrisão têm por tarefa restaurar a tradição do riso moral diante das "importunas lições de uma sabedoria austera duramente aprendida", mas também diante da "indecência dos chistes", da "pas­quinada" da farsa, do riso grosseiro do teatro de feira - de Florent Dan­court a Lesage. Dancourt é particularmente odioso, ridicularizando, em suas comédias burlescas, uma nobreza militar cujos membros se revelam incapazes de lutar, vivem como fanfarrões, desperdiçam o dinheiro que não têm e casam-se com moças burguesas para voltar a dourar seus brasões. Esses "ataques grotescos" devem cessar; é preciso restaurar o riso refinado, distinto, espirituoso, depurado, sadio, decoroso, moral ­enfim, nobre.

Rejeitando o riso vulgar, popular, burguês, o Regimento da Calotte tem o culto do belo espírito, que é quase só espírito, transfigurado por um riso divino até no leito de morte. Riso salvador e reacionário ao mesmo tempo, que se opõe ao riso baixo dos novos-ricos e recém-enobrecidos

O alvo favorito do regimento são os nobres mais recentes, como o fi­nancista Samuel Bernard, que recebe um brevê de "inspetor das dançarinas do regimento":

O regimento pratica um verdadeiro racismo do riso.  "O riso tornou-se um privilégio a mais, oferecido à nobreza para indicar sua superioridade em relação às grosseiras gargalhadas da ralé" . Existe, portanto, uma maneira nobre de rir, transmi­tida com todo o patrimônio biológico. É um aspecto inesperado da reação aristocrática que visa preservar a cultura nobiliária das contaminações. Desde o início do século, o marquês de Argenson notava, com satisfação: "A arte da brincadeira tem feito grandes progressos. Os versos burlescos de Scarron, que divertiam nossos pais, hoje chocam nosso gosto mais depurado. A brin­cadeira era criança no século de Luís XIV; o nosso chegou à perfeição na insignificância. Quanto mais decaídos somos no gênero sublime, mais avan­çamos no frívolo".

 

CLXX - RELEMBRANDO O CHARIVARI

Às vezes, o Regimento retoma também a tradição popular do charivari, quan­do seus membros vão em cortejo ruidoso ler o brevê sob a janela de seus adversários. Nessas ocasiões, são acompanhados pela tropa de choque, os "dragões" do regimento, colocados sob os auspícios do "deus peido", com uma bandeira que representa uma criança soltando um flato. Entre as víti­mas dessas "sabarandas" figuram madame de Saint-Sulpice, uma pernósti­ca; Fagon, médico de Luís XIV; Amoine de Parisifontaine, tenente do corpo da guarda real, que desafia para uma corrida um jovem alferes da guarda, ou ainda o procurador Moriau, conhecido por seus dissabores conjugais.

As relações entre esses aristocratas ridentes e o poder político são muito movimentadas. São excelentes sob a Regência e no início do reino de Luís xv: ferozmente anti-absolutista, o regimento aprova de forma plena o retorno da nobreza ao poder, o afastamento dos novos-ricos de mérito e dos grandes encarregados burgueses. A aristocracia deve imitar a monar­quia, à qual fornece seus conselheiros naturais. É bom que estes sejam ao mesmo tempo cômicos, porque "saber rir é reinar" e "reinar é saber rir", escreve o chanceler Maurepas, membro do regimento.

Durante esse tempo, o poder serve-se efetivamente da força de derri­são representada pelo regimento para ridicularizar, logo eliminar, os opo­nentes. O poder pelo riso e o riso no poder: fato excepcional, mas muito real

 

CLXXI - O REI RETOMA SUA SEREDADE E PODER

Mas o absolutismo retoma rápido seus direitos. Esse regime que não possui mais loucos não tem mais nada a fazer com os ridentes. Sob Luís XIV, as relações são tensas, porque o regimento insiste em sua liberdade. Torsac, eleito generalíssimo em 1712, coloca-o sob a égide da lua e, em um projeto de dicionário cômico, proíbe os neologismos relacionados com o sol. Al­guns ministros são "brevetados", como o duque de Bourbon, o príncipe de Conti, o marquês de Argenson, mas também o arquiduque de Sens e os tenentes de polícia Ravot d'Ombreval e René Hérault, qualificados de "caça de sátira" e de "aliboron dos desopiladores de fígado".

Quando o próprio Torsac se transforma num "déspota absoluto" no interior do regimento - ele envia "intendentes gerais" para a província -, seus conselheiros decidem reunir os "estados gerais da Calotte" no Campo de Marte: esses estados recebem as queixas e, sob 333 chefes de acusação, eles suspendem o generalíssimo e o enviam como embaixador ao país dos déspotas, no Império Otomano. Esse episódio, relatado pelos anais do regi­mento, é imaginário e simbólico; ele quer mostrar que o riso é a "liberdade jovial inerente ao caráter francês". Liberdade para a aristocracia, ao menos.

O poder político, qualquer que seja, leva-se muito a sério para tolerar por longo tempo o contra-poder do riso. Membros do regimento são presos. Roy é exilado em 1717; bem mais tarde, ele será espancado até a morte. Plantavit de La Pause é retido durante quatro anos na ilha de If, de 1743 a 1747. O regimento pode contar com protetores - como o marechal de Vil­lars, o conde de Charolais, o marquês de Livry; Maurepas, a guarda dos Sceaux Fleuriau d'Armenonville -, mas nada pode salvá-lo quando ele ataca um grande "peixe", a marquesa de Pompadour, plebéia enobrecida e amiga dos tragediógrafos. Maurepas, por ter composto e distribuído As peixadas, é exi­lado em Bourges, e Pont de Veyle, suspeito de ser co-autor, é encarcerado.

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CLXXII - A ZOMBARIA DE SALÃO

Em 1752, depois de meio século de existência, o regimento se auto-dis­solve com uma última festa burlesca, o Descarrilamento geral da Calotte, espé­cie de ópera cômica focalizando a loucura, que não encontra mais ninguém digno de entrar para o regimento. O cortejo final é o enterro dos calotinos, vítimas do "riso desnaturado", da farsa e dos" suspiros" da tragédia. A aliança das lágrimas e do riso viria com o fim do riso distinto.

Contudo, a tradição de ter um bufão em certos regimentos perpetua-se até o fim do século XVIII. OS regimentos suíços, servindo na França, têm, até 1792, seu Lustig (do qual vem o francês "loustic", que significa farsista, cho­carreiro), um bobo que distrai os soldados, como lembra Paul-Louis Cou­rier: "Ele os diverte, impede-os, às vezes, de se enforcar quando não conse­guem desertar, consola-os no momento da schlague (pão negro e ferros) e da insolência dos oficiais nobres".

O Regimento da Calotte é apenas um episódio isolado, exemplo do espí­rito profundamente zombador do século. Na boa sociedade, torna-se indispensável distinguir-se pelas tiradas de espírito, pelos comentários ferinos. Fazer rir para existir, de preferência fazer rir à custa dos outros. Os manuais de civilidade tentam fixar regras de boa conduta. Como, pois, fazer rir em sociedade, de forma inteligente, espirituosa e sem maldade? Em 1695, Mor­van de Bellegarde proíbe o recurso a trivialidades, "que não são boas para o povo", e também os trocadilhos e outros jogos de palavras, "puerilidades" que precisam ser abandonadas, deixadas para os italianos, com seus ditos picantes e com seus equívocos. Ê preciso ser reservado: elas não são toleradas nem "entre as pessoas de bem, mesmo que seja brincando em conversas par­ticulares". Esse autor nota a recrudescência das zombarias grosseiras nas conversas: recente o fato de pessoas de qualidade, de certa idade, tomarem liberdade entre si, com modos que não se perdoariam nem em seus lacaios".  

 

CLXXIII - DA ARTE DE ZOMBAR

Ser um zombador hábil não consiste somente em saber espicaçar o outro, mas também em saber esquivar-se, aparar os golpes, responder com elegância, sem dar nenhuma chance ao ridículo, do qual não é possível se livrar mais: "Depois que se cai no ridículo, não se volta mais, porque não se suporta mais .... Estamos num século maldoso em que cada um procura zombar do próximo e ridicularizá-lo.

Antes de tudo, não se expor inutilmente, pois "pode-se cair no ridículo pelas próprias coisas em que se é bom. Um homem que canta ou que dança, que fala ou que escreve polidamente, que tem qualquer talento raro, se aplau­de seu mérito, se o louva, se quer que todo mundo o admire, expõe-se à risada de todos".  Outra regra: não provocar desrespeitosamente o adversá­rio; toda a dificuldade consiste em atacar sem ferir e em receber golpes sem acusá-los: preciso ser muito esperto para zombar dos outros por seus defeitos ou por sua conduta; isso significa dar-lhes uma espécie de direito de caçoar de nós, por sua vez .... A zombaria é de difícil uso, e até perigosa se não for acompanhada de circunstâncias que lhe retirem o amargor. Ela deve divertir os indiferentes sem magoar os interessados; esse passo é arriscado: a finalidade da zombaria fina é animar a conversação; se revelais a estupidez ou as fraquezas do outro, vós o ofendeis .... As pessoas de espírito que escutam caçoadas põem-se do lado dos ridentes e apostam naquele que fala. Um homem sem preparo demonstra desgosto pelo que é dito, e o despeito que ele aparenta reanima a brincadeira, que se esgotaria por si mesma".  

 

CLXXIV - MANUAIS DE ZOMBARIA

O ridente fino tem estratégias e táticas. A conversação em sociedade é um verdadeiro combate. O salão é um campo fechado onde cada um, para esgrimir, se faz zombador e onde o interlocutor é um adversário em poten­cial. A arma é o riso; o golpe mortal é o ridículo. Para aperfeiçoar-se na arte de zombar sem esforço, ele pode consultar numerosas obras: Boas palavras e bons contos, da zombaria dos antigos e dos zombadores de nosso tempo, de François de Callieres; História das coisas mais cômicas ocorridas na Europa, de Pierre Co­lins; Os autores de bom humor, de Gabriel Guéret... Podem-se também encon­trar anedotas para reciclar em Pesquisas históricas sobre os bobos dos reis da Fran­ça, de Menestrier, ou em Memória para servir na festa dos bobos, de Du Tilliot.

Há também todas as coleções de boas tiradas e de blagues que Saint­Simon não negligencia, mas que convém utilizar com moderação. Um manual holandês de 1735, o Groot ceremonie-boeck der beschaafde zeeden, toma o exem­plo de um homem do mundo "que tem sempre com ele um dicionário de boas tiradas, que o estuda diariamente, que nunca se encontra em socieda­de sem ter decorado 25 delas e que agarra a menor ocasião para lançar uma delas". Esse comentário demonstra que a obsessão de parecer espirituoso é um fenômeno europeu, mas revela também como estão em moda essas pequenas obras in-oitavo que muitos têm o cuidado de deslizar para o bol­so, manuais do pequeno zombador em sociedade ou do teach yourself a zom­baria. O livro em questão aconselha a citar as palavras espirituosas como se fossem espontâneas e originais - o que deixa a entender que esse está longe de ser o caso.

 

 

CLXXV _ O RISO ESPIRITUAL DO SÉCULO XVIII TENTA INFILTRAR-SE NO MUNDO DA RELIGIÃO.

Não contra ela, mas por ela: como aliado, como salvador. As religiões, atro­peladas pelo riso dos livres-pensadores, defendem-se muito mal: com in­fólios em latim, com argumentos de outra época. No período do humor e do espírito, da zombaria e da troça, elas parecem fazer tudo para tornar-se ridículas; às graçolas de seus adversários, oferecem, de um lado, os rostos austeros, fechados, exaltados, fanáticos do metodismo, do puritanismo, do jansenismo, do calvinismo exacerbado, e, de outro, as faces empoadas e efeminadas dos abades da Corte debochados e de certos bispos incrédulos ou entregues a torpezas, tais como o grande e gordo cardeal de Bernis, êmuulo de Casanova. A zombaria tem a parte mais fácil contra as Igrejas do sécu­lo XVIII, que decidiram, com a Contra-Reforma, rejeitar o riso. Depois que caem os últimos estampidos cômicos do humanismo devoto, na metade do século XVII, a religião hasteia uma seriedade imperturbável; só admite lágri­mas, e, para os mais exaltados de seus membros, a histeria fanática . No século da razão e da ironia, isso não é sensato nem divertido.

 

CLXXVI - O HUMOR CONTRA O FANATISMO

Justamente no país do humor, aparece uma corrente, no fim do século XVII, que desejaria reintroduzir a alegria na fé. Os platônicos de Cambridge, como Benjamin Whichcote, e as teorias latitudinárias, segundo os quais a natureza e a razão não estão totalmente corrompidas, querem fazer do bom humor e da brincadeira sorridente as bases da vida religiosa, em lugar do receio e do medo. É o que reivindica o arcebispo de Canterbury, Tillotson, distinguindo entre o wit mau, que leva à zombaria, e essa alegria indefinível que começa a ser chamada de humor e que nos aproxima de Deus.

Inserir o riso, ao menos um certo riso, no coração da religião: esse é o objetivo perseguido por Anthony Ashley Cooper, conde de Shaftesbury (1671-1713), personalidade notável que, segundo Paul Hazard, "tinha mui­tas razões para ser otimista e uma única, decisiva, para maldizer a vida". Rico, culto e tuberculoso. Shaftesbury acredita que o bom humor está na raiz da fé, e esta, se for autêntica, deve manifestar-se no riso. Ele tem consciência da dificuldade: há risos e risos. Não são os maus e os vulgares que mais riem, mais alto, mais alegremente, mais abertamente, sem desconfiança? o humor da soldadesca, quando ela está no ápice da crueldade e no próprio ato da vila­nia, como o saque de uma cidade, pilhagem, violência, morte e torturas. Quem é mais alegre? Onde a farsa, a bufonaria, a brincadeira são mais per­feitas, mais acabadas? Onde se ri mais francamente? Quem conhece melhor o riso e prefere mergulhar nele? Os tolos e os simples, esses pobres, como são tratados? O que vale o riso numa conversa? De que natu­reza? O descanso ordinário dos príncipes e de seus semelhantes: o bufão da corte, o anão, o macaco humano! ... E, no entanto, o que é mais considerado que essas zombarias? Esse é um riso melhor? Observe a maldade da coisa e imagine, em conseqüência, outro riso. Como seria bom poder transformar esse riso vulgar, sórdido, ordiná­rio, exorbitante, assustador, num gênero mais contido, mais dócil, que me­reça ser chamado de riso ou, ao menos, seja de outra espécie!"

Depois de ter refletido muito sobre a questão, Shaftesbury redige uma longa Carta concernindo ao entusiasmo, o último termo tomado no sentido religioso de exaltação produzida por um forte sentimento de participação no divino. Em 1708, com as desordens provocadas, em Londres, por grupos calvinistas cevenols, aparece a oportunidade de publicar a Carta. Esse grupo de histéricos "inspirados", convulsivos e profetas das desgraças, perturba a ordem pública e espalha ruídos alarmantes. É o caso de reprimi-l os? Abso­lutamente não, escreve Shaftesbury: "A repressão, que se baseia no temor, é o pior dos remédios: seu uso, com certeza, só serve para agravar a melanco­lia do caso e recrudescer a causa das desordens. Proibir aos homens os temores naturais e tentar substituí-los por outros temores só pode ser um método contra a natureza". Em caso de repressão, esses entusiastas se apresentariam como mártires e se levariam muito mais a sério. É preciso tratá-los com humor e ironia.

 

CLXXVII - POR QUE O RISO GLOBAL NÃO DEGENERA EM GRANDE RISO ANTI-RELIGIOSO.

Ele se auto-regulará porque, em sua dimensão crítica, participa da razão. Longe de se opor a ela, ele é seu agente, ridicularizando o que é insensa­to. "Que ridículo pode manter-se contra a razão? Ou como um homem com pouca capacidade de refletir pode suportar um ridículo mal coloca­do? Nada é mais ridículo que isso, de fato. O vulgar, com certeza, pode devorar a zombaria sórdida, uma simples farsa ou bufonaria, mas só o espírito mais fino e mais verdadeiro pode levá-lo até os homens de sen­sibilidade e educação."

Shaftesbury defende "a liberdade de zombar, a liberdade de questionar tudo, em uma linguagem decente, e a permissão de esclare­cer e refutar qualquer argumento, sem ofender o interlocutor: essas são as condições que tornam agradáveis os colóquios intelectuais". Sem a liber­dade de rir, de caçoar e fazer humor, não há progresso da razão. Shaftesbury enuncia aí, em 1711, o que seria o espírito das Luzes.

 

CLXXVIII - O RISO POPULAR VISTO PELOS PINTORES: ÁLIBI DA BURGUESIA?

Como era o riso popular no século XVIII? Apesar das pressões exercidas pelas autoridades, o povo continua a rir. Como diria, na Restauração, o ad­vogado Dupin: "O rei reina, o ministro governa e aumenta impostos, os franceses se submetem mas riem". É um dos raros prazeres que não são taxados.

Atribuem-se ao riso várias virtudes. Um astrólogo italiano, conheci­do como abade Damasceno, vangloria-se, em 1662, numa brochura que vende em Orléans, de poder descrever os temperamentos pela maneira de rir: os melancólicos fazem "hi, hi, hi", os biliosos, "hê, hê, hê", os fleumá­ticos, "há, há, há" e os sanguíneos, "hô, hô, hô". É o que consta no Dicio­nário de Trévoux, em seu artigo "Rir", em que se trata de outra espécie de hilaridade: o "riso de Saint-Médard", riso forçado, com a ponta dos lá­bios, em alusão ao fato de que o santo, de acordo com Gregório de Tours, tinha o dom de curar dor de dente e era representado mostrando os den­tes, o que lhe dava um ar risonho.

 

CLXXIX - O RISO E A MORAL MAIS UMA VEZ

Na Holanda, também há diversão, e o riso holandês se fixa em cente­nas de quadros que são testemunho das várias facetas da alegria popular. Ao contrário dos artistas franceses e italianos, que se dedicam aos assun­tos nobres e artificiais da beleza clássica, os flamengos, na tradição de Brue­gel, descem às tavernas, assistem às festas populares, às quermesses e pe­netram nos interiores burgueses.

Em primeiro lugar, representar comportamentos sociais que as novas normas de polidez reprovam pode ser um meio de condená-Ios: vejam como esses beberrões, esses fumantes são repugnantes, ridículos! Edificar pelo contra-exemplo: esse é o princípio dos autores cômicos que, nos anos 1670, defendem a prática do realismo cômico diante da sociedade Nil Volentibus Arduum, que, em Amsterdã, faz campanha pela moralização do teatro em um espírito calvinista. Sexualidade, escatologia, adultério, roubo, tabagis­mo, alcoolismo: tratar esses flagelos sociais com o riso, ressaltando o ridí­culo por meio de uma exposição pública, é tão eficaz quanto uma argumen­tação séria. Dirck Pers ilustra isso em Bacchus wonder-wercken, justapondo um elogio cômico do álcool e uma condenação séria e fundamentada. Mos­trar para ridicularizar: a receita ainda será empregada sob o Terceiro Reich com a exposição da "arte degenerada".

CLXXX- O RISO ALIVIANDO TENSÕES MAIS UMA VEZ

A mesma explicação se pode dar para o Carnaval: exibir o avesso para melhor justificar o direito, estampar na tela as desordens provocadas pelos comportamentos que se quer eliminar. O primeiro biógrafo de Jan Steen, A. Houbraken, no início do século XVIII, afirma que a "pintura espiritual" de seu herói visa mostrar que uma vida desregrada conduz à selvageria. A licença da pintura flamenga preencheria, portanto, uma função moral: refor­çar os valores burgueses fazendo rir dos contra valores.

A segunda motivação é mais perturbadora: "Rir das baixezas dos bu­fões, dos prazeres que não nos podemos cónsentir permite que nos deleite­mos com o espetáculo sem incorrer na censura moral".  O processo de civilização, de refinamento e a exigência de dignidade, de decência, de res­peitabilidade, que marcam a afirmação de um modo de vida urbano, poli­ciado, do qual a burguesia se vangloria, são, evidentemente, acompanhados por numerosas frustrações. As proibições e os tabus multiplicam-se. O gran­de desrecalque freudiano começa; a enorme lixeira do inconsciente enche-­se de desejos recalcados, ao passo que o superego dopado pela Reforma religiosa bloqueia as saídas. Ter em casa um quadro grosseiro, ver quadros maliciosos ou cenas de bebedeira é como um sonho; uma satisfação simbó­lica, ou sublimada, de desejos proibidos. Há dois bons álibis para assegurar a moral: a arte e o riso. Regalar-se com a visão e fantasiar diante das cenas de prazeres desabridos dos camponeses, pensando que eles devem aprovei­tar a oportunidade: dessa maneira, o riso da pintura holandesa pode tam­bém ser uma proteção hipócrita dos valores burgueses. Esse riso é, ao mes­mo tempo, refúgio, camuflagem e liberação. Em parte, já é o caso de Rabelais, cujo riso, não é verdadeira­mente popular: Rabelais serve-se do popular para divertir uma elite cultiva­da e aburguesada, que entra em sua ficção para descarregar as tensões pelo riso. A pintura cômica holandesa prolonga esse papel que o cinema e o desenho animado cômicos retomarão.

 

CLXXXI - A TRADIÇÃO DA FARSA, DA BLAGUE

É preciso redobrar a prudência nas brincadeiras de ação, porque é muito delicado enganar qualquer um sem vexá-lo, humilhá-lo, fazer dele um inimi­go, mostrar-se mau e cruel. Por precaução, Bernardo conta uma anedota na qual ele foi vítima: no Carnaval de Roma, o cardeal de San Pietro, sabendo que ele gostava de fazer blagues com os monges, disfarçou um de seus servidores de frei mendicante; Bernardo, mascarado, faz crer ao falso monge que ele é procurado pela polícia e, para salvá-lo, constrange-o a montar na garupa de seu cavalo. "Imaginai, portanto, que espetáculo era ver um monge na garupa atrás de uma máscara, sua roupa voando ao vento, a cabeça sacudida para a frente e para trás, como se fosse cair! Vendo isso, os nobres começaram a jogar-nos ovos", segundo o costume. Protegido por seu disfarce, Bernardo alegra-se com a derrota do pseudomonge, até o momento em que este último, para quem os comparsas passaram os ovos, "parecendo agarrar-me para não cair, esmaga alguns ovos sobre meu peito, outros sobre a cabeça e vários no rosto, até que eu ficasse todo pingando". E o cardeal e seus amigos torciam-se de rir, na janela. O episódio é quase tão engraçado quanto as batalhas de tortas com creme do cinema mudo. Os ouvintes de Bernardo riem com toda a alma ...

Sabendo que se trata de brincadeiras aristocráticas, o espanto com as obscenidades rabelaisianas é menor. Esse tipo de brincadeira é, de fato, uma tradição italiana que conhece seu apogeu entre 1450 e 1550: a tradição da farsa, a blague, a trapalhada. Os exemplos fervilham na literatu­ra, desde Decameron, em que se enumeram oitenta referências, até Novelas, de Matteo Bandello, passando pelas histórias de Sacchetti, Masuccio Saler­nitano, Sabadino degli Arienti e Antonfrancesco Grazzini.62 Na vida, a prática  é onipresente, da taberna e do Carnaval à corte dos duques de Milão e de Ferrara. Os arquivos judiciários estão repletos dessas blagues equivocadas que geravam demandas. O gosto da brincadeira é uma das características da aristocracia italiana do século XVI, que manda instalar, em seus jardins, armadilhas para pregar peças nos visitantes, como essas fontes que, de repente, põem-se a andar.

As principescas cortes italianas da Renascença são extremamente afi­cionadas a farsas de todos os gêneros. O bufão do papa Leão x é um padre, frei Mariano; o do duque de Mântua, Matello, disfarça-se de monge e paro­dia os ofícios. Em 1492, na corte de Milão, a princesa Beatriz d'Este manda colocar animais selvagens no jardim do embaixador de Ferrara, e todos os seus frangos são mortos. P Os bobos de corte italianos são renomados entre os melhores da Europa

 

CLXXXII - O RISO NA POLÍTICA DA RENASCENÇA

Na corte da França, as brincadeiras também são muito apreciadas, sal­vo raríssimas exceções, como a rainha Ana de Bretanha. Seu marido, Luís XII, gosta de rir e, às vezes, aventura-se a pregar peças na soberana. Cont-se  que os embaixadores tinham o costume de ir vê-Ia depois da visita ao rei. Eles eram introduzidos pelo príncipe de Chalais, M. de Grignaux, seu primeiro chanceler, que era poliglota. A rainha lhe pede que a ensine a dizer algumas palavras amáveis na língua dos embaixadores para poder cumpri­mentá-Ios. Chalais, que era farsista, ensina-lhe um punhado de grosserias e ri com o rei. Ana, avisada a tempo dessa pequena "canalhice é tomada de espantosa cólera:

"Um dia, tendo a rainha lhe pedido algumas palavras em espanhol para dizê-Ias ao embaixador da Espanha, e sendo-lhe dita uma pequena canal­hice rindo, ela logo a aprende; no dia seguinte, esperando o embaixador, M. de Grignaux conta o fato ao rei, que o achou bom, conhecendo seu humor alegre e agradável; no entanto, ele foi ao encontro da rainha e contou-lhe tudo, com a advertência de evitar pronunciar aquelas palavras. Ela foi toma­da de tão grande cólera que queria expulsar M. de Grignaux, apesar da risa­da do rei, a quem ela ficou sem ver por vários dias, mas M. de Grignaux pediu-lhe humildes desculpas, dizendo que o fizera para divertir o rei e fazê-lo distrair-se e que ele não agira tão mal, já que o rei a advertira quando o embaixador chegou; e assim, pelos rogos do rei, ela se acalmou".

Zombar do soberano é apanágio do bufão do rei. Mas o tempo das guerras de religião vê desenvolver-se a sátira política. Reis e rainhas tor­nam-se alvo de zombarias cada vez mais virulentas, especialmente Catarina de Médici, "mulher machona", e Henrique !lI, "rei mulher ou homem rai­nha". Sob Henrique IV, os panfletos satíricos multiplicam-se, como A sátira menipéia da virtude do católico de Espanha. No século XVI, o riso diversifica-se, portanto, e explode por toda parte sem comedimento. É símbolo de vita­lidade, sem dúvida, mas não vai demorar para provocar reação, quando as crescentes exigências de civilidade e decoro se unem às dos reformadores religiosos. Erasmo já ressalta em seu Manual de civilidade que a explosão de riso, esse riso imoderado que sacode todo o corpo e que os gregos chama­vam de "sacudidelas", não tem decoro em nenhuma idade. É possível ima­ginar a Gioconda rindo às gargalhadas?

 

CLXXXIII - DE RABELAIS A SHAKESPEARE

A gargalhada ensurdecedora da Renascença termina com Shakespeare, que nos deu a imagem mais completa da variedade e ambigüidade do riso. Em suas comédias, certamente há o riso franco, jovial, recreativo. Mas o riso autêntico, profundo está na tragédia e no drama. A vida é fundamental­mente uma tragédia, não uma comédia, e o "verdadeiro" riso é aquele que vem pontuar esse tecido trágico. O riso é uma reflexão sobre a tragédia; é uma forma de interpretá-Ia, de ver-lhe o sentido, ou a falta dele. E todos os grandes, de Shakespeare a Hugo, viram isto: o homem é grotesco, a condição humana é grotesca. Todo ser, todo ato, sublime ou horrível, possui seu lado debochado.

O reencontro do riso e da morte está no centro do teatro elisabetano e jacobino, pelo viés do estudo do suicídio em particular. A maior parte das comédias ressalta o lado grotesco desse ato. Grandiloqüentes ou parodís­ticos, os suicidas são ridículos, a menos que o suicídio seja para eles um estratagema, como em O mendigo cego de Alexandria, de Chapman. O suicí­dio é desmistificado e, expondo suas verdadeiras motivações, os autores põem à luz seu aspecto debochado. Confirma-se assim que, para o espírito da Renascença, pode-se rir de todos os assuntos, tudo é redutível ao deboche

Tudo se reduz a uma bufonaria. O infeliz Hamlet não passa de um boneco, perseguido pela ilusória questão de ser. Esse príncipe incoerente faz-se pas­sar por louco: é na bufonaria que encontra consistência, é por ela que ele espera encontrar a verdade. O riso esconde e revela, ao mesmo tempo.

Um dos ápices do grotesco é a encenação do pseudo-suicídio de Glou­cester, em Rei Lear. Lá se concentra todo o ridículo da existência humana, de nossa existência, que nos conduz à velhice e à morte. Que imagem surpreen­dente da humanidade! O duque de Gloucester, velho e cego, confinado em seus sonhos e em suas desgraças, quer terminar com a vida. Ele pede a Tom que o leve à beira da falésia, para que salte. Tom é o bobo de Bedlam. Esse bobo benévolo engana o velho, conduzindo-o a uma ponta de poucos cen­tímetros, e o salto fatal é um salto de pulga. Assim, nesta vida, "os tolos conduzem os cegos", a loucura salva a sabedoria, que é só ilusão e nos transporta ao ridículo; mesmo o fim é fracassado. Entramos na vida da for­ma mais trivial, saímos dela da maneira mais lamentável, e entre os dois gesticulamos a meio caminho entre a loucura e a cegueira. Não é risível? Os que querem levar essa comédia a sério são, sem dúvida, os mais risíveis.

 

CLXXXIV - O FIM DO RISO NA RENASCENÇA

O grande homem do teatro shakespeariano não é nem Hamlet nem Macbeth nem Henrique v, mas Falstaff, Sir John Falstaff, que ri, faz rir e de quem se ri. Ele é odioso, medroso, fanfarrão e mentiroso; sua divisa é "Come, bebe e div:erte-te, porque amanhã estarás morto". Ele é o riso rabelaisiano por excelência. Só comete um erro, fatal: confia num político, crê na palavra de um poderoso, no caso o príncipe Henrique, que o rejeita de forma odiosa assim que se torna o respeitável Henrique v:

"Eu não te conheço, velho! Vai rezar. Os cabelos brancos caem mal num bobo e num bufão. Há muito tempo vi, em sonhos, um homem dessa espécie, também estufado de orgia, também velho, também profano. Mas, ao acordar, desprezei meu sonho. Trata agora de ter menos ventre e mais virtudes; renuncia à gula; saiba que teu túmulo tem de ser três vezes mais largo que o dos outros homens. Não me retruques com uma resposta de bufão. Não imagines que sou o que era. Porque, Deus sabe e o mundo saberá, eu expulsei de mim o antigo homem e rejeitarei assim aqueles que foram meus companheiros". 69

Falstaff morre por isso. O príncipe Henrique, tornado rei, rejeita e mata o riso. Essa cena é um pouco a ilustração da reviravolta cultural européia do fim do século XVI: depois de terem flertado com o riso na época da Renas cença, as autoridades morais e políticas o rejeitam como diabólico e im­põem um ideal clássico de grandeza e de nobreza. O ridículo grandiloqüente mata o ridículo trivial. Luís XIV, que não leu Montaigne, esquece-se de que, vestido com todas as suas bugigangas, está sentado sobre seu traseiro, como todo mundo. Fim do riso: a partir de agora se abre a grande ofensiva políti­co-religiosa do sério.

 

LXXXV - ACABOU-SE  O RISO – A grande ofensiva politico-religiosa do sério (sécs. XVI –XVIII)

Desde a metade do século XVI, ocorre uma poderosa reação contra a gargalhada da Renascença. Essa reação visa, em primeiro lugar, às manifes­tações sociais do riso popular: Carnavais e várias festas são o alvo de repeti­das interdições por parte das Igrejas e do poder civil. Depois, rapidamente, essa ofensiva aumenta para o conjunto das atividades culturais. O riso tor­na-se suspeito

Esse movimento contra o riso é apenas uma das conseqüências da evo­lução global da civilização ocidental. Sejamos sérios, retomemo-nos! Essa é a palavra de ordem de uma Europa consciente da necessidade de restaurar a ordem ameaçada pelas fortes sacudidas das descobertas e das Reformas. Ora, o riso é a desordem, o caos, a contestação. Não é rindo que se fundam as bases de um mundo estável e regenerado. O recreio terminou.

Para começar, que cessem todas as bufonarias populares que colocam o mundo do avesso! Cada um no seu lugar, cada um no seu posto, a serviço de Deus e do rei! A aliança de uma Igreja triunfante e de uma monarquia abso­luta não poderia tolerar as turbulências sediciosas do Carnaval e da festa dos bobos. Mesmo o bobo do rei não tem mais lugar ao lado de um sobera­no do direito divino, diretamente esclarecido pelo Espírito Santo.

Certamente, moralistas, teólogos, agentes do Estado sabem que eles não podem abolir por completo o riso. Ao menos, que o riso se discipline; que ele se faça polido, discreto, elegante, distinto, se possível silencioso, e que só apareça por motivos válidos: ridicularizar os defeitos, os pecados, os vícios, reagir a inocentes brincadeiras com finalidade recreativa. Para as elites do mundo clássico e barroco, as Igrejas Protestante e Católica, o riso pode, a rigor, ser um ornamento da vida social e cultural, conformando-se a regras muito precisas; de modo algum ele poderá compor o tecido da exis­tência, que é profundamente trágico, portanto, sério. A simples idéia de que o trágico possa ser cômico constitui uma monstruosidade em relação a esse pensamento do unilateral e do exclusivo.

 

LXXXVI - PROTESTO CONTRA O CARNAVAL

É preciso terminar com o riso obsceno e subversivo do Carnaval e de outras festas populares. Desde 1540, o Parlamento interdita a mascarada noturna organizada pela abadia dos Connards em Rouen, que tinha feitio rabelaisiano. O abade dos Connards, com um presunto em uma mão e um báculo em outra, seguido dos confrades, em hábito de Momo, em meio a mil facécias, solicitava ao Parlamento o direito de celebrar os dias gordos. Na procissão, notavam-se um papa, um rei, um imperador e um bobo, que se lançavam num mundo muito redondo para zombar dele. O abade concedia o direito de usar máscaras, e aqueles que lhe desobedeciam deviam beijar-lhe o traseiro e receber um peido no rosto. Pulsões e fantasias tinham livre curso; durante a refeição, um pseudo monge lia passagens de Pantagruel.

Aí reside o problema. É que entre o riso desbragado e a violência a fronteira é frágil, fluida e facilmente ultrapassável, sobretudo na atmosfera de conflitos religiosos que então prevalecem.. Em 1521, o Carnaval de Wittemberg adquire ares de manifestação antipapista. Nas cidades luteranas, em 1523, Nicolas Manuel organiza um Carnaval contra o papa e contra o clero e difunde, pela imprensa, explicações sobre cenas alegóricas: a derrisão torna-se propagan­da político-religiosa.

Em 1538, Francisco I interdita as abadias da juventude, suspeitas de propagar as idéias da Re­forma. Nas cidades flamengas, o imperador interdita a festa do Rei dos Bobos. Seu zelo anticarnavalesco também tem uma motivação social: "Como essas representações eram fei­tas por profissionais, mais capazes de excitar o riso que a piedade - como exigiria uma mascarada espiritual -, é por isso que os senhores magistra­dos, quando muitos camponeses já estavam infectados pela heresia de Cal­vino e para não lhes dar ocasião de atribuir à Igreja um abuso introduzido por esse tipo de gente, ordenaram suprimi-los"

Os Carnavais não só atentam contra a religião católica como também ameaçam a ordem pública, degenerando, às vezes, em conflitos armados. O caso mais célebre é o Carnaval de Romans, durante a Delfinada, em 1580, que se encerra com uma dezena de mortos. Confronto de confrarias, tendo como pano de fundo lutas sociais e religiosas. Brigas entre católicos e protestantes. Papistas e antipapistas.

Outros elementos concorrem para tornar o Carnaval suspeito. Nos países protestantes, o puritanismo reinante não pode tolerar a extrema li­cenciosidade que acompanha essas festas. As cidades calvinistas serão ain­da mais zelosas que as católicas em interditá-las. Além disso, o mundo carnavalesco e suas inversões, assim como o charivari, questionam institui­ções religiosas fundamentais, como o casamento. Assim, em Rouen, os Connards não são bem tratados, nem pelos protestantes nem pelos papis­tas. Em 1562, quando os protestantes se tornam senhores da cidade, eles proí­bem suas manifestações:

O século XVI é também o momento em que a cultura popular e a cultura das elites afastam-se uma da outra, de forma decisiva, A cultura das elites, livresca e esclarecida, já racio­nal, visa ao controle de si, O cômico fora substituído pelo didatismo." A cultura popular é a natureza mal compreendida, ou, dito de outra forma, a magia, a superstição ou a feitiçaria que se entrevê por trás de todos esses enormes risos camponeses. A religião esc1arecida e as elites sociais têm a vontade comum de suprimir o riso carnavalesco.

 

CLXXXVII - OS LOUCOS PARA O ASILO

É tempo de colocar o mundo nos eixos e de eliminar dele a loucura. A grande desvalorização da loucura também começa no século XVI, e com ela é rejeitada a visão cômica e carnavalesca do mundo invertido. A demonização do Carnaval e da loucura está lançada.  Em 1589, em Asilo dos loucos incuráveis, o cônego italiano Tomaso Gar­zoni fala "dos loucos endiabrados e desesperados", que são "uma infinidade de inimigos de Deus que vimos, em nosso tempo, cometer toda espécie de rapinas, violências, sacrilégios, homicídios e rebeliões que se possa imagi­nar .... Eles merecem mil forcas"; ele assimila a loucura à morte das danças macabras, que "não se preocupam nem com reis nem com imperadores". A obra, reeditada onze vezes, traduzida para o alemão, para o inglês e para o francês, expressa um sentimento muito difundido nessa época: o mundo é louco, tudo está do avesso e as pessoas riem desse universo carnavalesco que só pode ser obra do diabo. Os quadros de Bosch e Bruegel já o sugerem; figuras do início do século XVII o confirmam, multiplicando cenas incon­gruentes, com comentários explícitos: "O mundo está revirado, eu não com­preendo", pode-se ler num deles, de 1616.

É possível ver a transição da farsa e dos charivaris para o discurso culpabilizador. Mesmo nas festas, a loucura e o mundo às avessas podiam constituir uma maneira de endireitar situações de desordem .... Mas a cul­tura humanista e clerical ultrapassou esse nível de regulação banal das con­dutas. Extrapolou e dramatizou a situação de loucura e inversão: ela desco­briu ali o pecado".

Acontece, cada vez mais, de festas degenerarem em badernas sérias. O jesuíta Mariana pensa, aliás, que essa violência faz parte do plano divino para fazer do indivíduo um ser social. Por exemplo, em 1636, o Carnaval de Bourges transforma-se em motim contra os oficiais de Justiça, enquanto em Cler­mont um comissário é assassinado: "Os habitantes de Clermont, conta uma testemunha, mascarados, na época do Carnaval, foram até a casa, forçaram as portas e, estando o dito comissário com saúde, o perseguiram e o joga­ram do teto para o piso da rua".

Tudo começa com o riso, e é exatamente isso que torna o Carnaval suspeito aos olhos das autoridades. Assim, em 1705 ainda, em Guéret, os meirinhos são cercados por habitantes vestidos de mulher e dirigidos por um açougueiro, Tixerat: "Depois de terem bebido, estando tomados pelo vinho, alguns jovens foram até ele para pegar o tambor e passear pela cida­de; ele seguiu-os, como era de costume nos Carnavais, ainda mais sendo o tambor-mor da cidade, e os jovens lhe colocaram uma peruca de mulher e assim ele desfilou pelas ruas dançando com esses jovens".

Não há nada de espantoso, portanto, no fato de as autoridades terem visto, no riso carnavalesco, uma manifestação diabólica: "Os diabos, duran­te o Carnaval, reviram como podem a natureza do homem; depois, apode­rando-se dele, enviam-no para o inferno", escreve, em 1580, um padre che­co, Vavrinec Rvacocsky.

 Não podemos nos esquecer de que estamos em plena psicose de feitiçaria. Depois de queimar os feiticeiros, encerram-se os loucos. Em 1632, Vicente de Paula reforma Saint-Lazare para acolher os alienados; em 1656, foi criado o Hospital Geral de Paris e, em 1676, o rei prescreve a criação de um estabelecimento semelhante em cada cidade. As autoridades religiosas colaboram com as autoridades civis nessa obra do "grande encerramento". Exigência de ordem pública, de moral e de salubri­dade. "Se a loucura, no século XVII", escreve Miche1 Foucault, "é quase des­sacralizada, é, em primeiro lugar, porque a miséria sofreu aquele tipo de decadência que a faz ser percebida, agora, apenas no horizonte da moral. .,. Surge uma nova sensibilidade: não mais religiosa, mas social. Se o louco aparecia normalmente na paisagem humana da Idade Média, era rindo de outro mundo. Agora, ele vai se destacar como um 'caso de polícia' concer­nindo à ordem dos indivíduos na cidade."

A festa popular é uma espécie de loucura coletiva, e o olhar das autorida­des sobre ela torna-se suspeitoso. Ela ameaça a ordem pública. Assim, o riso carnavalesco, demonizado pela religião e acusado de subversão pelo Estado, é combatido por todas as autoridades. Acusado de paganismo, depois de imoralidade e, por fim, de perturbar o descanso público, o Carnaval resiste, adapta-se, morre e renasce na profusão de seus símbolos e imagens",  escre­ve M. Grinberg. Durante mais de dois séculos, autoridades religiosas e civis esforçam-se por ampliar - ou, ao menos, disciplinar - o riso do Carnaval, das festas comunitárias e de confraternização, das festas dos bobos. Obra de lon­go fôlego, que encontra fortes resistências e cujos resultados são irregulares.

 

CLXXXVIII - QUE A FESTA TERMINE!

Na Alemanha, a famosa Schembart de Nuremberg, onde se queima, em efígie, um pastor hostil às diversões populares, aconteceu, pela última vez, em 1539; no ano seguinte, a falta de dinheiro é pretexto para não organizar a festa. Na Inglaterra, pode-se seguir a cronologia do término das festas em Coventry: as de São Jorge, da Ascensão, de Pentecostes, de Corpus Christi cessam entre 1535 e 1547; as de São Pedro e São João, em 1549; a de Hock Tuesday, celebran­do uma vitória sobre os piratas normandos, em 1579; os jogos de bola, em 1595. Os pregadores puritanos atribuem essas diversões a desvios papistas. A partir de 1550, as eleições do Mock Mayor (Prefeito do Riso), do Bishop of Unreason (Bispo da Derrisão) ou ainda do Master of Merry Disports (Mestre dos Prazeres) desaparecem, pouco a pouco, nas grandes cidades. As festas renas­cem um pouco sob a Restauração, mas a onda metodista põe fim a elas a partir dos anos 1730. Em Piemonte, os sínodos diocesanos interditam, a partir de 1592, a prática do Rei da Juventude e de seu alegre cortejo, que entravam nas igrejas, em Mondovi, Saluces, Turim, Ivrée, Verceil; a última menção data de 1749. Na França, o movimento é geral. Editos de 1539 e 1561 proíbem as máscaras. Em 1538, há um decreto contra as abadias da juventude.

No norte, o poder empreende a luta contra as festas de dedicação das igrejas, festas denominadas ducasses ou kermesses, que, segundo o jesuíta An­toine de Balinghem, em 1615, causam mais de 130 assassinatos por ano. Desde 1531, Carlos v tenta limitar a duração delas; em 1588, Filipe II ordena que todas as dedicações de Artois sejam celebradas ao mesmo tempo, em 7 de julho ou no domingo seguinte; em 1601, os "jogos de moralidade, farsas, sonetos, ditados, refrãos, baladas" são proibidos nos Países Baixos. Em Lil­le, todos os aspectos de diversões populares são alvo de repetidas condena­ções: a festa dos Inocentes, o costume de zombar de príncipes (1514 e 1544), de fazer desfiles de juventude (1520), de plantar milho - costume que pro­porcionava ocasião de o Principado da Diversão organizar bufonarias e ceri­mônias burlescas em todas as cidades do norte, sob a direção de um Prebos­te dos Patifes, de um Capitão da Alegre Inteligência ou de um Guardião da Dama Ociosa. Em 1560, um decreto de Filipe II proíbe "cantar, jogar, divul­gar ou brincar publicamente, com companhia ou em segredo, algumas far­sas, baladas, canções, comédias, refrãos ou outros escritos semelhantes de qualquer matéria ou em qualquer língua que seja, tanto velhos como novos, nos quais sejam misturados questões, proposições ou fatos referentes a nossa religião ou a pessoas eclesiásticas". Igualmente proibidos são "os jogos mu­dos, denominados encenação ou representação por personagens". A aplica­ção é estrita: em 1563, sete homens são presos e condenados à retratação, em camisa, por ter representado, sem autorização, o Jogo do veado de ouro.

 

CLXXXIX - A PERSEGUIÇÃO CONTINUA

No leste do reino, as famosas companhias da Mãe Louca, das quais participam inclusive grandes personagens, também são objeto de repres­são. Em Châlons, onde até o príncipe de Condé era um confrade da Mãe Louca, o conselho da cidade proíbe, em 1626, as atividades dessa socieda­de, decisão confirmada pelo Parlamento de Paris. Em Dijon, uma ordem real, de 1630, aboliu as manifestações da Mãe Louca, em razão de "desor­dens e deboches produzidos contra os bons costumes, contra o repouso e a tranqüilidade da cidade". As últimas veleidades cessam em 1650. Em Guyen­ne, o Parlamento interdita máscaras e assembléias de Carnaval, em 1636.

O restabelecimento da autoridade traduz-se por uma nova onda de in­terdições, reforçada pelo espírito jansenista e, no século XVIII, pelo das Lu­zes. As correntes mais contraditórias da elite cultural parecem unir-se con­tra as manifestações do riso popular. "A festa popular, que tivera uma função ritual, que permitira criticar a sociedade, que assegura, às vezes, o equilí­brio entre trabalho e diversão, perdia todo o sentido.

À exigência política de ordem acrescentam-se as normas de decoro so­cial, que reforçam os interditos teológicos; é de bom-tom, para o "homem honesto", não rir, ou, ao menos, deve fazê-Io discretamente. Dominique Ber­trand, em seu belo estudo A história do riso na idade clássica, demonstrou que os tratados de civilidade estão de acordo com o ideal religioso de austeridade: mostrar os dentes e a língua ao rir é inconveniente.  Nesse ponto, há unani­midade entre católicos e protestantes; nos Países Baixos, o Carnaval é com­batido dos dois lados. No século XVII, o catecismo protestante explica que "esse maldito dia de Baco" é uma superstição romana contrária à palavra de Deus. O pastor calvinista Peter Brod escreve, em 1761: "no dia da Terça-Feira Gorda, os cristãos têm condutas extravagantes e condenáveis. Alguns usam roupas do outro sexo e, com isso, são levados a entregar-se à luxúria. Outros encobrem sua vida e disfarçam-se de almas vindas do inferno. É por isso que concordamos em chamar esse dia de festa dos diabos"  O católico espanhol Rodrigo Caro, no século XVII, estabelece a mesma ligação entre o paganismo e o demônio: "Como Janus era o companheiro de Saturno, os meses de dezembro e janeiro foram consagrados aos dois, ao mesmo tempo; é por isso que durante as festas de Janus havia tais excessos, personagens monstruosos e demoníacos, homens vestidos de mulher e com o rosto pintado" .Onde prelados jansenistas exercem seu rigor, a luta contra o Carnaval testemunha uma rigidez particular. Em Châlons, o bispo Vialar, de 1640 a 1680, manda vigiar a cidade e os lugares afastados, aos domingos, feriados e no período da Terça-Feira Gorda, para descobrir eventuais foliões. Jean­Georges de Souillac, bispo de Lodeve, de 1733 a 1750, faz o mesmo; seu sucessor, Jean-Félix de FumeI, muito mais tolerante, é acolhido com fogos de alegria. tempo de nos desfazermos dessas memórias que nos tornam ridículos perante os povos do norte", escreve, em 1774, um eclesiástico simpatizante do jansenismo. Como nunca é possível suprimir bem o que é substituído, os eclesiásticos reformadores tentam divulgar novas práticas destinadas a preencher os dias livres pela interdição do Carnaval. Desde 1625, o jesuíta Balinghem faz Doze propostas para passar agradável e honestamente os dias da pequena Quaresma. Para ele, o Carnaval é "um erro que há muito tempo, e a título de herança de pai para filho, tomou posse do espírito do ser humano, ... uma doença inveterada, ... o maldito costume de abandonar, nessa estação, o temor e o respeito a Deus". Ofícios religiosos, exposição do Santo Sacramento, preces de quarenta horas: eis o que certa­mente substitui os risos diabólicos do Carnaval.

 

CXC - AS RESISTÊNCIAS

É difícil avaliar a eficácia das medidas. As resistências fazem-se sentir um pouco por toda parte, e em breve as autoridades precisam aceitar um compromisso. Em 1560, o vigia do bispo de Fréjus foi expulso da catedral por homens mascarados, furiosos com a interdição da festa dos Inocentes. Em 1662, o bispo manda prender os tocadores de oboé e de tambor; em 1663, os foliões, protegidos por uma escolta fornecida pelo tenente do castelo, vêm zombar do bispo sob suas janelas, na noite de São João; o prelado replica expondo o Santo Sacra­mento; Em 1740, em Montpeyroux (diocese de Lodeve) um boneco representando o bispo, sobre um asno, é queimado no lugar do Rei Carnaval.

Na segunda metade do século XVIII, os Parlamentos multiplicam as proi­bições, com uma capacidade que parece limitada. Um pouco por toda parte, formas espontâneas de mascarada subsistem, a despeito das repetidas condenações. Às vezes, uma manifestação desaparece, como o concurso de jato de urina entre rapazes e moças em Grasse, 1706, que perturbava o bispo.

 

CXCI - QUEM DISSE QUE NOSSAS BALADAS SÃO LOUCAS? VEJAM ESTAS.

Ou a festa se mantém ou então se chega a uma solução de compro­misso.Os costumes locais oriundos do direito feudal, que eram motivo de riso, bufonarias e zombarias, até que resistem bem, mesmo que os mais ricos possam dispensá-los. Assim, entre muitos ou­tros, ocorreu com o direito de "merdouladou", em Tulle: no domingo antes do Carnaval, os recém-casados do ano deviam jogar uma pedra em um barril cheio de sujeira, na presença de oficiais de justiça do condado e sob pena de uma pequena multa para os que fugiam dos respingos. Da multa saíam-se bem os mais abonados.

Na maior parte das localidades, as festas populares se mantêm até o fim do século XVIII: a festa do Traseiro, na Picardie, na qual os jovens escol­tam uma pessoa montada ao contrário em um asno, recolhendo uma "mul­ta" dos mais abastados; festas de loucura, um pouco por toda parte; festas da juventude, charivaris. Enquanto uma desaparece - como a dos padeiros e a dos moleiros, em Viena (Dauphiné), com seu cortejo burlesco de homens nus e untados de fuligem, os "escurecidos", dos quais não se ouve mais falar depois do início do século XVII -, muitas outras se transformam e, sobretudo, tornam-se seculares, com o clero desligando-se, progressivamen­te, dessas manifestações pouco conformes à nova dignidade. Muitas vezes também o bobo se torna profissional: um saltimbanco oferece seus serviços e é pago para garantir o espetáculo.

 

CXCII - ORDEM OU CARNAVAL

Em muitas localidades, os representantes da ordem preferiam ficar a distância, durante o Carnaval, por saber que sua intervenção correria o risco de desencadear um motim. Riscos e violências de toda espécie benefi­ciam-se de relativa impunidade, e o Carnaval constitui o que chamamos, hoje, de "lugar sem lei"; o direito de rir substitui o direito real e, se ele não é menos impiedoso, é ainda mais injusto.

Entretanto, essa prática cessa em 1680. A guerra entre os poderes e as manifestações do  riso popular coletivo prosseguem durante todo o século XVIII. Lentamente, o Rei Carnaval cede terreno ao rei absoluto. Ele recua, não tanto diante do clero quanto diante da potência acrescida dos parla­mentos, duvidosas máquinas anti-riso, que por toda parte se dedicam a conter os transbordamentos da alegria popular e a limitá-Ia estritamente no tempo: em 1782, por exemplo, o Parlamento de Paris proíbe os habitan­tes de Aux de invadir a Quaresma com o Carnaval. A luta é dura até as vésperas da Revolução. Juízes, procuradores, membros do marechalato têm de se esforçar muito, porque os ridentes não brincam: um cavaleiro é mor­to em 1754, quando os guardas tentam interromper um jogo; em 1767 e 1778, juízes e procuradores fiscais são postos a correr pelos foliões.

Nesse combate bem real entre o Carnaval e a Quaresma, entre o desa­brido riso popular e a séria administração, é conveniente evitar juízos apres­sados e parciais que nossa época tem tendência a formular. Cuidado om os extremos ao pensarmos naquela época, pois o riso car­navalesco está sempre prestes a matar: ele é agressivo, intolerante, violen­to; humilha, degrada, despreza, vexa; riso da coesão estreita de pequenos grupos, é excludente; não admite oposição, impõe sua lei, persegue os re­calcitrantes, elimina aqueles que não querem se divertir; tirânico, não tole­ra os que não gostam da festa.

A juventude diverte-se e não admite que se fixem limites a seu riso. A partir do momento em que é dito "diversão", tudo é permitido. Os arquivos judiciários estão repletos dos excessos das companhias de juventude. Eis um exemplo entre milhares de outros: na noite de 1" a 2 de novembro de 1701, em Arras, os jovens, fantasiados de arlequins, boticários ou avôs, festejaram o dia de Todos os Santos de maneira burlesca, antes de agredir os guardas urbanos, ferindo um cabo e um sargento. Certamente, eles se di­vertiam. Em fevereiro de 1783, as "máscaras armadas" de Vivarais re­voltam-se contra os magistrados e os funcionários da lei. Escárnio e agitação são, mais que nunca, parentes.

 CXCIII – O DESAPARECIMENTO DA FESTA DOS BOBOS

A festa dos bobos desaparece no século XVll. Já muito desacreditada no fim da Idade Média, é objeto de repressão sistemática.Em janeiro de 1552, ela já é uma prática moribunda - apesar de ainda se ter arrastado durante um século, como escreve, em 1645, com reprovação Mathurin de Neuré a seu amigo Gassendi:  "nunca os pagãos celebraram com tanta extravagân­cia suas festas  como ocorre na festa dos Inocentes, segundo o costume dos franciscanos de Antibes. Nem os padres religiosos nem o guardião vão ao coro nesse dia. Os frades laicos, os frades hortelões , os pedintes, os que trabalham na cozinha e no refeitório, os jardineiros ocupam o lugar deles na igreja e dizem que fazem o que é conveniente a essa festa, pois representam os loucos furiosos, que de fato são. Eles se vestem com os ornamentos sacerdotais, mas esfarrapados e no avesso; simulam ler com óculos que não têm lentes e nos quais amarram casca de laranja, o que os torna disformes e tão assustadores que é preciso ver para acreditar, sobretudo depois que acendem os turíbulos que têm nas mãos e se agitam zombeteiramente, soprando cinza no rosto e na cabeça uns dos outros. Com esse equipamento, eles não cantam nem hinos nem salmos nem as missas de costume, mas balbuciam palavras confusas e gritos tão loucos, tão desagradáveis, tão dissonantes quanto os de um bando de porcos que grunhem; de sorte que bestas-feras não fariam melhor que eles o ofício desse dia. De fato, seria melhor levar certas feras às igrejas para louvar o Criador a sua maneira, e isso seria uma prática mais santa que suportar esse tipo de pessoa que zomba de Deus querendo cantar seus louvores, eles são mais insensatos e mais loucos que os mais insensatos e mais loucos animais'?!

 

CXCIV  - PINTANDO E  BORDANDO DENTRO DAS IGREJAS

A cada vez, invocam-se as mesmas razões: essas práticas advêm do pa­ganismo e são indecentes. O riso é expulso das igrejas por ser pagão e imoral. É o que afirmam os provinciais de Sens, em 1528, de Cologne, em 1536, de Cambrai, em 1565: "Em certos dias de festa, os eclesiásticos têm o costume, sob pretexto de recreação honesta, de fazer coisas que, pelo desregramento que cresce de um dia para o outro, muito escandalizam os fiéis por causa das bufonarias que se praticam em certos lugares e em certas igrejas e que têm relação mais com o paganismo que com a modéstia cristã". 22 O concílio pro­vincial de Toledo, em 1566, lembra que as igrejas existem "para que os cris­tãos encontrem nelas um culto tranqüilo e digno de sua piedade", e que o riso fica, portanto, proibido. Pelos estatutos de Lyon, de 1566 e 1577, "não se deve tolerar, nas igrejas, jogos, tragédias, farsas e exibir espetáculos ridículos com máscaras, armas e tamborins e outras coisas indecentes que acontecem nelas, sob pena de excomunhão". O Concílio de Reims, em 1583, proíbe as "brincadeiras ridículas", e o de Aix, em 1585, todos os "divertimentos". Os estatutos sinodais de Chartres, em 1550, publicam "que nem os estudantes nem os clérigos nem as crianças do coro nem os padres façam nada de tolo ou ridículo na igreja, e que ninguém o faça nas festas de São Nicolau, Santa Catarina, dos Inocentes nem em nenhum outro jogo, sob pretexto de diver­são. Enfim, que sejam banidas das igrejas as roupas de bobos, que são perso­nagens de teatro". Essas interdições são renovadas em 1575.

As procissões também não devem mais ser ocasião de folganças - o que são freqüentemente, como parece descobrir o Concílio de Tours em 1583: "Sou­bemos, de forma fidedigna, que na maior parte das procissões desta província foi introduzido o mau costume de apresentar espetáculos ridículos nas procis­sões públicas que os pais da Igreja instituíram para glorificar Deus". Esses risos "são, antes, capazes de atrair a cólera de Deus". São, portanto, proibidos, sob pena de excomunhão. Em 1642, o bispo de Angers constata que os jovens, "ao escarnecer da Santa Igreja", desviam o sentido da procissão do Santíssimo Sacramento: eles cantam canções de amor a suas amantes, "que são expostas em público, para esse efeito"; e que ces­sem os risos nos cemitérios, parem de "fazer aí zombarias e facécias que eles chamam de moralidades".

CXCV - A COISA FICA FEIA

Em Gerona, onde se podem seguir as peripécias desse com­bate, transcorrem 150 anos entre a primeira medida de interdição, em 1475, e o desaparecimento efetivo do costume, em 1621: um século e meio para abafar uma gargalhada!.

Não se deve jamais troçar de alguém em uma igreja, porque isso é fazer dela "covil de ladrões que se entretêm com coisas agradáveis e divertidas"; por mais forte que seja a razão, um pregador nunca deve escarnecer no púlpito.

Além disso, há assuntos tabus. Não zombar de Deus nem da religião:

"Isso é coisa de ímpios que levam sua boca suja ao céu". Nunca caçoar dos santos, de seu culto, das relíquias, das cerimônias da Igreja: "Só os heréti­cos, os Lutero, os Calvino, os Rabelais, os Henri Estienne, os Boccacio e os Marot, os ministros Du Moulin e seus colegas tratam assim as coisas da religião". Jamais zombar das Escrituras nem das preces da Igreja. Não es­carnecer dos amigos nem dos infelizes nem dos grandes, porque isso faz que "prejudiquemos a nós mesmos e que atraiamos maus negócios". Nunca caçoar das pessoas de bem nem de seus parentes nem dos soberanos. Estes últimos devem também abster-se de qualquer zombaria, já que isso pode prejudicá-Ios. E não se pode ironizar durante a Quaresma, sobretudo diante da aproximação da morte, assunto que deve ser abordado com temor e tremor: nem pensar em fazer uma boa tirada de espírito para aliviar o medo.

Deixemos igualmente de lado todas essas coleções de histórias engra­çadas: "Não se deve dar importância às coleções de ditos espirituosos nem a livros de histórias, novelas, contos, aventuras, fábulas feitos para agradar e divertir", porque "o que mais aparece neles é o espírito de libertinagem e de impiedade". O cristão deve, assim, abster-se de assistir a comédias, que são absolutamente proibidas aos eclesiásticos. Aliás, não se deve estranhar que as farsas, as bufonarias, as marionetes e todos os divertimentos dessa nature­za sejam proibidos aos verdadeiros fiéis que professam a religião católica Todos os saltimbancos e bufões foram condenados pelos Concílios de Sens (1524), Narbonne (1551), Bourges (1584) etc.

As mascaradas são intoleráveis. São restos pagãos das saturnais, e o uso de disfarces é contrário tanto à lei civil quanto à lei religiosa. As ordens de Francisco 1(1539), Carlos IX (1561), Henrique III (1579) e uma sentença da corte de Rouen, em 1508, proíbem "todas as pessoas de usar, vender ou comprar rostos falsos, máscaras, narizes ou barbas falsas e outras coisas que servem para disfarçar". Isso, de fato, facilita os atos criminosos, mas também permite que os indivíduos se entreguem a diversões proibidas. Disfarçar-se é um ato contrário à natureza, sobretudo se se travestir em pessoa do sexo oposto, porque "a natureza revestiu cada sexo de vestimen­tas que lhe são próprias". Disfarçar-se de animal é ainda mais infame: é rejeitar a imagem de Deus para ficar no nível da besta, como faziam os pagãos. Em uma palavra, isso é diabólico. Paradoxalmente, vestir­-se de religioso é ainda pior.

CXCVI - RIR PARA CONTINUAR SOFRENDO, SIM

Trata-se de preparar a Qua­resma, estação de choro, medo e tremores; ora, não é com o riso que se preparam as lágrimas! Contudo, o homem sente necessidade de se divertir, afirma Jean­Baptiste Thiers, mas "ele não tem necessidade de jogos nem de divertimen­tos, se se conservar no bem-aventurado estado de inocência em que Deus o criou. Porque, mesmo que tivesse de trabalhar no paraíso terrestre, seu trabalho lhe seria agradável".  Notemos que a punição do pecado original não é o trabalho, como se diz sempre, mas o divertimento. O ideal seria poder trabalhar de forma contínua, permanecendo sempre sério, sem ter necessidade de descansar nem de rir. Mas, infelizmente, "a fraqueza do ho­mem é tão grande depois do pecado original que, não podendo se ocupar, sem cessar, das coisas sérias, ele é obrigado, de vez em quando, a se diver­tir". O riso só é útil, portanto, "para nos tornamos capazes de ocupações sérias". Sempre evitando diversões bufas e abstendo-nos totalmente, nos domingos e dias santos, de "momices, farsas, fábulas ou pretensas histó­rias". Portanto, é permitido rir - discretamente - fora dos dias de trabalho, dos domingos, dos dias feriados.

 

CXCVII - AUTORES ESPIRITUAIS E PREGADORES CONTRA O RISO

 Com raras exceções, a imensa maioria dos pensadores cristãos, de 1550 a 1800, de todas as tendências, condena o riso, essa tara da humanidade degenerada, esse desafio diabólico ao Deus vingador, terrível e sério. Entre os grandes nomes da Contra­ Reforma, Carlos Borromée, em um concílio provincial de 1565, denuncia as peças encenadas na Páscoa porque elas provocam o riso e fica indignado contra a maneira cômica com que representam a vida de Cristo. Da mesma forma, Roberto Belarmino pronuncia-se, em sua carta de 1608, pela eliminação de qualquer tipo de derrisão (deboche)  nos escritos da vida de santos: rir de São José, cornea­do pelo Espírito Santo, por exemplo, é uma verdadeira blasfêmia. São João da Cruz condena, em A subida do Carmelo, "a vã alegria que se tem com as criaturas".. Grig­non de Monfort condena as "zombarias malignas" e faz as moças cantarem:

Beber, comer, dormir, rir,

Para nós deve ser grande martírio,

Para Guillaume Briçonnet, o domingo é feito "não para rir e folgar, mas para chorar". A  opinião do jesuíta Martin deI Rio: "Satã gosta de provocar o riso nos homens, para que, alegres e plenos de contentamento, eles se entre­guem à impiedade" 

 

CXCVIII - COMÉDIA NÃO !

As decisões contra a comédia multiplicam-se: desde 1641, há a declaração real que visa eliminar da comédia os elementos trivi­ais e lascivos; depois, a resolução da Sorbonne, em 1694, que vê na derrisão (deboche) uma "infâmia"; e ainda a interdição dos comediantes italianos, por Luís XIV, em 1697. O rei, que no início do reinado gargalhava forte diante das panta­lonadas ( de Pantaleão, ou Pantalon), torna-se sério com a idade e cede, pouco a pouco, às pressões do partido devoto e de madame de Maintenon: "A velha enrugada do grande homem", escreve a princesa Palatina, "exigia a supressão da comédia". Luís XIV abandona a comédia italiana a partir de 1689, e Bossuet, o bispo corte­são, que sabe escolher seu momento, martela o prego no caixão de Arle­quim com suas Máximas e reflexões sobre a comédia, em 1694; agora que o rei não ri mais, persegue o riso.

Por toda parte, os oradores sacros vociferam contra a diabólica hilari­dade. Outro membro da Companhia de Jesus, o padre La Colombiere, anatematiza os que riem: "Infeliz daquele que ri, duplamente infeliz sois vós que rides agora, que rides nestes dias desgraçados, quando o inferno está escancara­do, quando o príncipe deste mundo parece ter recuperado seu antigo impé­rio, quando os pecados se multiplicam até o infinito, quando não se distin­guem mais os fiéis dos idólatras". O signo do verdadeiro cristão é verter lágrimas: preciso chorar sem parar, ouvintes cristãos, para apaziguar Deus; mas, depois de ter enfraquecido sua cólera por nossas lágrimas, é necessá­rio ainda chorar para satisfazer sua justiça. Para destruir o pecado é preciso detestar a alegria criminosa que se experimenta no uso ilícito dos bens criados; porém, para expiar esse pecado, deve-se ainda renunciar à alegria inocente que esses mesmos objetos nos propiciam".

De fato, como é possível não ficar morto de medo? "Eu me espanto de ver-vos pensar nos prazeres e não vos ver morrer de medo."

 

CXCIX - CARNAVAL NÃO !!!

O Carnaval é alvo de uma coorte de pregadores. Um dos mais virulentos é Jean Richard, cognominado Advogado, morto em 1719. Na realidade, Ri­chard é um leigo, casado, que compõe dezenas de sermões. Para ele, o Carna­val, "ilusão perigosa do demônio", é uma celebração satânica que põe o mundo do avesso; o homem rebaixa-se ao nível das bestas; vêem-se os pobres, que tanto se queixam da miséria, desperdiçar, empanzinar-se; "eles consomem, em três ou quatro dias, o trabalho de várias semanas". 

Em seu sermão "Sobre as zombarias", Richard, o Advogado, parte dos exemplos bíblicos e evangélicos. São sempre os maus que zombam; eles riram de Jesus, de Paulo, e esse riso vem do orgulho: "Ele os torna bufões críticos, exigentes, chocantes como uns Demócritos". "O zombador é um apóstata, um homem inútil para o mundo, tem uma língua perigosa e põe os irmãos aos seus pés por desprezo" .

Que os zombadores fiquem pre­venidos, porque Deus zombará deles enviando-os para o inferno: "Morre-­se rindo e zombando como se viveu; e é com esse terrível castigo que Deus se vinga do homem. Vós zombastes de Vosso Pai: agora sereis zombados".

O tom nunca muda nos sermões do século XVIII. Em Pequenas homilias ou instruções familiares especialmente para as pessoas do campo, em 1761, Gi­rard, vigário de Saint-Loup, avisou os humildes: contam-se histórias en­graçadas, às vezes obscenas, "brinca-se, gargalha-se; ninguém se digna a confessá-lo; aplaude-se; louvam-se e admiram-se aqueles que as proferem com mais espírito e graça; eles são procurados como pessoas de conversa­ção agradável. Porém, que estranha surpresa na hora da morte e no dia do temível julgamento de Deus, quando se encontrará, a propósito desse as­sunto, um grande número de crimes; quando se verá que esses discursos envenenados e encantadores terão causado a danação de várias pessoas e farão com que muitas outras pereçam no futuro". 50 O inferno está repleto daqueles que riem.

CC - O PADRE GARASSE E A BATALHA DO RISO

Precisamente em 1624 estoura o caso Garasse, uma gargalhada seguida de uma voz de trovão que fizeram grande ruído na igreja e na pretoria. Motivo da agitação: a grave questão de saber se é legítimo e desejável utilizar o riso contra os inimigos da fé. O padre François Garasse, jesuíta formado em Tou­louse, espírito fervente, truculento, intrigante e audacioso, publicou em agosto de 1623 uma volumosa obra de mais de mil páginas, A doutrina curiosa dos belos espíritos desta época. O sangue de Garasse lhe sobe à cabeça: Ele descreve os libertinos como um bando de bufões deslocados que se reúnem nos cabarés ou na capela de Isle-du-Pont-de-Bois, em Paris, e se entregam a violentas paródias anti-religiosas, sacrílegas, misturando obs­cenidades e blasfêmias. Escarnecendo de todas as práticas de piedade, eles não hesitam em ir em bandos para rir dos sermões nas igrejas e ridicularizar a austeridade dos huguenotes. Fazem troça dos absurdos que a Bíblia contém e só têm dificuldade ao escolher entre a baleia de Jonas, os 967 anos de Matu­salém, as histórias escabrosas de Lot, que engravida suas filhas com a bênção divina, o asno de Balaão e a serpente falante do paraíso terrestre, sobre a qual os libertinos perguntam: "Como ela andaria, saltitante, sobre a ponta da cau­da, voaria ou se arremessaria como uma flecha animada?"

Garasse propunha que os sacerdotes e a Igreja usasse o riso contra os atues e apóstatas. Sua tese foi violentamente rechaçada pela Igreja da sua época. Afinal o riso , mesmo que venha da Igreja , pertence ao demônio! A Igreja detém a verdade, e a verdade é séria.  O caso Garasse é mais importante do que parece à primeira aborda­gem. Perdendo a batalha do riso, os pensadores, oradores e escritores cató­licos privam-se de um instrumento essencial que lhes fará muita falta nos grandes combates do século XVIII. Desprezando essa arma como grosseira e indigna, eles deixam seu monopólio para os adversários, que vão utilizá-Ia amplamente, aperfeiçoá-Ia, refiná-Ia, adaptá-Ia. Voltaire não está longe dis­so. Assim, no momento em que a Igreja se torna ridícula por romper com a ciência moderna - o caso Galileu data de 1633 -, ela amputa todo um setor cultural, o da ironia, da brincadeira, do riso. Optando pelo pomposo, pelo pesado, pelo tedioso, pelo sério, ela se afasta um pouco mais da cultura moderna civil. A Igreja abandona o riso ao diabo, que nem pedira tanto. O erro é colossal.

Como vimos, os nomes que aparecem com mais freqüência na luta contra o riso são nomes de jesuítas, o que surpreende um pouco, vindo da parte de uma ordem considerada leve, aberta, apta para o compromisso. Essa falta de gosto lhe será fatal, como judiciosamente comentou Marc Fu­maroli: "Os jesuítas não conseguirão mais recuperar o terreno perdido: ... a arte de atacar sem se tornar odioso escapará, muitas vezes, aos discípulos de Loyola. Especialistas na arte do elogio e da celebração, eles se mostrarão regularmente desajeitados na arte do panfleto. Souberam fazer-se admirar e, às vezes, temer: nunca souberam conquistar o riso das 'pessoas de bem', o que Paris, como um todo, não perdoa. Na guerra de panfletos em meio à qual eles viveram até sua expulsão, no século XVIII, não souberam encontrar o tom justo.

 

 

CCI - UM RISO JANSENISTA?

(O Jansenismo foi uma teologia cristã que surgiu na França e Bélgica, no século XVII e se desenvolveu no século XVIII.Tem esse nome porque tem origem nas idéias do bispo de Yprès, Cornelius Jansen. O Jansenismo era uma versão modificada do calvinismo, que por sua vez se baseia na teologia de Agostinho de Hipona.)

 

Para o  jansenista Pierre Nicole, o cristão deve imitar seu modelo, Jesus, que nunca riu: "Ele sempre teve sua cruz diante dos olhos.  Por aí se vê que satisfação ele podia ter no mundo ..  Assim, é preciso ter em mente que ele nunca riu. Nada nunca se igualou à seriedade de sua vida: e é claro que o prazer, a diversão e tudo o que pode distrair o espírito não têm lugar neste mundo. A vida de Jesus é toda volta­da a Deus, toda ocupada por Ele e pela miséria dos homens, sem que tenha dado à natureza o que não poderia recusar sem destruí-ia". 

Esse velho lugar-comum sobre Cristo nunca ter rido conhece uma nova saga no século XVII.   Já que Jesus nunca riu, ninguém deve rir. É preci­so, pois, perseguir aqueles que suscitam essa vergonhosa atitude, a co­meçar pelos comediantes: "Se o cristão se considera pecador, ele deve reconhecer que não há nada mais contrário a esse estado que o obriga à penitência, às lágrimas e à fuga dos prazeres inúteis que a busca de uma distração tão vã e tão perigosa como a comédia".

Em Port-Royal( onde se formou a corrente jansenista), onde as constituições proíbem a zombaria e o riso imo­desto, os solitários levam uma vida totalmente desprovida de brincadeiras.

Eles acarretam o ridículo, ou o cômico involuntário, até afirmar, como Arnauld d' Andilly, que se pode ceder às paixões para enganar o demônio, fazendo-o crer que ele ganhou! A astúcia é cômoda e não tão rara em certos místicos de espírito frágil. Veja-se Louise de Bellere du Tronchay, uma obcecada com a danação, que assegura ser seguida por um bando de demônios em forma de gatos e que se inflige mortificações extravagantes. Atacada por um ciúme doentio de Maria Madalena, que passa seu tempo  abraçada aos pés de Cristo na cruz, ela arranca a imagem da santa, dizendo: "Dai-me vosso lugar, há mui­to tempo que estais aí" e põe-se a acariciar "seu" Jesus. As cartas que ela envia a seu confessor revelam, segundo Bremond, uma neurose erótica. Essa louca foi internada no asilo de Salpêtriere, em 1677, mas dizia que se fazia passar por louca para se humilhar. Caso extremo, certamente, mas já vimos, com os pais do deserto, que o excesso ascético desemboca no absurdo cômico.

CCII - A IRONIA JANSENISTA

Mas o domínio privilegiado do riso jansenista é a ironia polêmica. Si­tuando-se eles próprios fora deste mundo corrompido, os senhores estão certos ao torná-lo derrisório, ao ressaltar o cômico, o ridículo, o burlesco, o grotesco, o absurdo das convenções mundanas. É uma posição confortável e eficaz: paradoxalmente, foram os tristes espíritos jansenistas que melhor iluminaram o cômico irrisório da comédia humana. Num nível mais eleva­do, isso faz nascer a ironia devastadora de Pascal.

Um jansenista anônimo, em Carta de uma pessoa de posição, afirma que o riso não é cristão, pois nem os anjos nem Cristo riram; baseando-se nessa revelação, ele opõe o sorriso ao riso. Na harmonia, can­ta-se, sorri-se, o rosto se ilumina, há lágrimas de amor. Por mais animado que se queira imaginar um céu cristão, não é possível conceber que lá exista riso; é preciso deixá-lo para os deuses de Homero em seu Olimpo, onde é inextinguível, como suas desordens e seus adultérios." Contudo, o Grand Arnauld tomou o partido das Iluminuras, mostrando que a Bíblia muitas ve­zes utiliza a zombaria. A ironia é a arma dos pessimistas, porque sua caus­ticidade pode corroer as falsas certezas dos otimistas de encomenda. É por isso que Pascal ri, como o veremos.

 

CCIII - A MORTE DO RISO

(Jacques-Benigne Bossuet (Dijon, 27 de Setembro de 1627 —e morreu em Paris, 12 de Abril de 1704) foi um bispo e teólogo francês. Bossuet foi um dos primeiros a defender a teoria do absolutismo político; ele criou o argumento que governo era divino e que os reis recebiam seu poder de Deus.)

Bossuet nunca ri. Nenhuma forma de hilaridade tem graça aos olhos desse agelasta patológico, encarnação quase caricatural da expressão "le­var-se a sério". Cartas, sermões, tratados são, nesse ponto, de total coerên­cia, e suas Máximas e reflexões sobre a comédia permanecem um dos pilares da luta contra o riso.

Na base desses pilares, há uma convicção inabalável. Jesus nunca riu, e isso não por acidente, porque não existissem trocistas entre os doze, mas deliberada e sistematicamente porque a condição humana corrompida exi­ge lágrimas, e a careta do riso é uma máscara indecente que deforma a imagem de Deus. "Jesus ... assumiu nossas lágrimas, nossas tristezas, nos­sas dores e até nossas fraquezas, mas não assumiu nossas alegrias nem nossos risos e não quis que seus lábios, onde a graça residia, fossem dilata­dos uma única vez por um movimento que lhe parecia acompanhado de uma indecência indigna de um Deus feito homem." Nossa natureza é a dor; o riso é a decepção e o erro; um belo rosto é um rosto em lágrimas; a fealdade é uma fácies deformada pelo riso.

 

CCIV - MAIS UMA VEZ O PAPO DE QUE JESUS NÃO RIU

Contraprova: não apenas Jesus não riu como riram dele durante sua vida e sobretudo por ocasião da Paixão. preciso que o insulto da zomba­ria o persiga até sobre a cruz e mesmo na proximidade da morte; e, enfim, que se invente na Paixão uma nova espécie de comédia, em que todas as brincadeiras sejam, por assim dizer, tingidas de sangue, em que a catástrofe seja totalmente trágica."

A zombaria é, portanto, em si, uma atitude odiosa, um pecado, uma tara social que corrói as relações humanas.

São os inimigos da fé, os libertinos que utilizam  o deboche para "envenenar os espíritos com suas zombarias sacrílegas". Isso põe Bossuet fora de si, e sua audácia fica à altura de sua vulnerabilidade diante do riso. A zombaria o confun­de totalmente, porque ele não pode compreender que se aborde, com o riso, uma questão tão séria quanto a fé. "Se quereis discutir a religião, que o seja com a gravidade e o peso que a matéria demanda. Não façais brincadeiras despropo­sitadas com coisas tão sérias e tão veneráveis. Essas importantes questões não se decidem com meias palavras e assentimentos de cabeça, com essas sutis zombarias das quais vos vangloriais e com esses desdenhosos sorrisos."

Ê, portanto, dever do soberano reprimir a derrisão, a zombaria, o riso.

O rei, imagem de Deus, não ri e, acima de tudo, não caçoa de ninguém:

O riso em si mesmo, em sua essência e sob todas as formas, é mau.

Malditas sejam "as gargalhadas de riso que fazem esquecer a presença de Deus e a conta que é preciso prestar-Lhe das mínimas ações e das mínimas  palavras; e, enfim, todo o sério da vida cristã

É desonesto ser divertido: Bossuet consiste nisso. Os temperamentos joviais são suspeitos.

Bossuet põe sua erudição seletiva a serviço de sua obsessão. Jesus dis­se: "Infeliz daquele que ri"; é claro, e isso deveria ser suficiente para pôr fim à questão. Mas, para acabar de convencer os espíritos joviais, nosso bispo releu a Bíblia e seu olhar de águia não encontrou a mínima justificativa para o riso: certo que não se vê nos Santos Livros nenhuma aprovação nem nenhum exemplo autorizado desses discursos que fazem rir". 

Quanto às autoridades humanas, todos os pais da Igreja condenaram o riso, afirma o prelado: "Eu não conheço nenhum dos antigos que, longe de classificar as brincadeiras como qualquer ato de virtude, não as tenha olha­do como viciosas". 

 

CCV - O BISPO BOSSUET COMEMORA  A MORTE D E MOLIÉRE

O caso amplia-se: um cristão nunca pode rir. O riso inocente não existe.

Na melhor das hipóteses, é uma marca de leviandade culpável; na pior, uma atitude profundamente diabólica. O Carnaval "é uma invenção do demônio para contrariar os desígnios da Igreja", declara o Catecismo de Meaux, redigido por Bossuet. Esses foliões mascarados lembram "os judeus e os soldados que despojaram Nosso Senhor, que lhe vedaram os olhos e lhe fizeram mil ultrajes durante a noite da Paixão".  O único remédio, nesse tempo de abominação, é refugiar-se nas igrejas para as preces de quarenta horas. Carnaval, "licença desenfreada", "infâmia de excessos debochados", "alegria dissoluta", dias de infelicidade em que os homens levam "uma vida mais brutal que as bestas­feras", "ó dias verdadeiramente infames e que merecem ser apagados do calendário! Dias que nunca seriam suficientemente expiados por penitências da vida inteira, muito menos por quarenta dias de jejum mal observados" .

Bossuet fulmina também aqueles que colocam seu talento a serviço do riso. Maldito seja Moliêre, a vergonha do século, a abominação das letras francesas, a encarnação do diabo, que, graças a Deus, acaba de morrer "por assim dizer diante de nossos olhos", "representando seu Doente imaginário ou seu Médico à força ... e passou das brincadeiras do teatro, no meio das quais quase deu o último suspiro, para o tribunal do céu, que diz: 'Infelizes os que riem, porque chorarão"'.  Justa recompensa para o histrião, para o bufão "que ainda enche as salas de teatro de equívocos grosseiros que nun­ca deveriam infectar os ouvidos dos cristãos". Digna oração fúnebre.

Essa ausência de senso de humor faz de Bossuet um caso excepcional.

Mas uma coisa é certa: se Bossuet conseguiu ocupar tanto espaço na cultura, na política e na Igreja do século XVII, é porque estava de acordo com seu tempo. Ele exprime o espíri­to dessa época sem inteligência, mas com eloqüência e um toque de carica­tura. Freqüentemente, essa é a chave do sucesso e o caminho para a celebri­dade. Que semelhante adversário do riso tenha tal autoridade é revelador da aversão dos responsáveis morais da época, pela hilaridade.

Puxa !!! Esse bispo era o cão chupando manga !!!

 

CCVI - O DESAPARECIMENTO  DOS BOBOS DO REI

 

Uma época que se diz séria, racional, cartesiana e que encerra os loucos não poderia, evidentemente, tolerar a presença desses loucos  saídos de uma idade bárbara, os bobos do rei, cuja lista oficial termina no século XVII, tanto na Inglaterra como na França.

Elisabeth gosta muito de seus bobos, mas controla-os de perto. Sob os dois primeiros Stuart, as insolências do bufão Archie Amstrong acabam por cansar, e ele é devolvido, em 1637, por causa de suas impertinências contra o arcebispo Laud, que, como Bossuet, não aprecia brincadeiras

O último bobo notório da monarquia britânica é Thomas Killigrew (1612­1683), que inicia sua carreira como companheiro  de farra de Carlos lI, duran­te seu exílio na França. De volta à Inglaterra com o rei, na Restauração, em 1660, ele usufrui grande liberdade na corte, liberdade várias vezes ressaltada por Samuel Pepys em seu Diário: é "um alegre malandro, mas fidalgo, a quem o rei muito estima" (24 de maio de 1660); ele descompõe o soberano por causa de sua preguiça, exceto para o deboche (8 de dezembro de 1666); ele "recebe uma gratificação para o guarda-roupa, para seus capuzes e guizos, com o título de bobo do rei, ou bufão, e é privilégio de sua função zombar e escarnecer de quem quer que seja, sem ofensa" (13 de fevereiro de 1668); Lord Rochester não pode, contudo, deixar de dar-lhe um soco, em fevereiro de 1669; enquanto diretor do teatro real, ele mantém uma prostituta por vinte shillings por semana, para as necessidades dos atores (24 de janeiro de 1669). Killigrew também é autor de comédias obscenas, dentre elas O casa­mento do pastor, publicada em 1664. Seu filho Henri, personagem ainda mais audacioso, duas vezes banido da corte por seus excessos, parece, todavia, ter sido o bobo de Guilherme III, em 1694; o holandês parece não gostar de brin­cadeira, e a menção ao bobo do rei desapareceu definitivamente nessa data.

 

CCVIII - O FIM DO BOBO NA FRANÇA

Na França, a função cai em desuso alguns anos antes. Desde o reino de Luís XIII, ela perde seu profundo sentido de contra-poder do riso, de monar­quia invertida do cômico. O absolutismo de direito divino pretende repre­sentar a autoridade de Deus sobre a terra e não poderia tolerar nenhum contra-poder. A monarquia absoluta é o poder político que se leva a sério, que erige como dogma o mito do direito divino e que exclui, com isso, qualquer crítica cômica da autoridade. O bobo do rei, se  subsiste, não é mais que uma diversão privada, um palhaço doméstico, do qual Maurice Lever resume assim a evolução no século XVII: medida que se avança no século, observa-se uma degenerescência do riso. Privado, pouco a pouco, desse universalismo que lhe permitia, na Idade Média e na Renascença, exprimir a verdade primordial sobre o mundo e sobre o homem, ele perde ao mesmo tempo seu poder regenerador e liberador. Nesse contexto, o ter­ritório do bobo reduz-se às dimensões da boa palavra, da tirada engenhosa, da alusão irônica, do epigrama cuidadosamente mosqueado. Mas, sobretu­do, o bobo 'clássico' perdeu de forma definitiva seu caráter de oposição. Se ele ainda conserva sua faculdade crítica, só a exerce no caso de defeitos individuais. Sua presença ao lado do rei não mais questiona a ordem do mundo; ele não é mais seu duplo derrisório, sua caricatura viva, sua pode­rosa imagem negativa. O monarca absoluto pode agora reinar sem entraves: o grande perturbador está bem morto". O bufão de Luís XIII, Marais, é uma boa ilustração disso. Esse dançarino, que tem talento para a imitação, faz toda a corte rir imitando o velho duque de Épernon. Em cena, pode ser muito engraçado, como o escreve Malherbe em 28 de fevereiro de 1613, por ocasião de um baile no Louvre: ele dança, fantasiado de pastor, "com bufo­narias tão agradáveis que acho que nunca vi ninguém rir como riu a rai­nha". Ele também faz o rei rir muito, conforme Tallemant des Réaux: dois músicos tinham sido privados da metade de seu salário. "Marais, bufão do rei, deu-lhes uma idéia para recuperá-lo. Foram com ele ao pequeno quarto dançar uma mascarada semi-vestidos: o que tinha gibão não tinha calções e vice-versa. 'o que quer dizer isso?', pergunta o rei. 'Senhor', responderam, 'é que pessoas que só têm metade de seus proventos só podem vestir-se pela metade.' O rei riu e devolveu-lhes a graça." Certas tiradas dos bobos atestam a persistência de um verdor medieval na corte: "Marais diz ao rei: 'Há duas coisas em vossa função que eu não poderia suportar'. 'o quê?' 'Comer sozinho e peidar acompanhado.''' Esse tipo de humor que Luís XIII parece apreciar não agrada a Richelieu, que obtém a demissão de Marais por falta de respeito à dignidade do lugar-tenente de Deus na terra.

O irmão do rei, o duque de Orléans, também tem seu bobo, Sauvage, um gozador que parodia a Gazeta de Renaudot na Gazeta burlesca e que "to­dos os dias, para se divertir, fazia alguma impostura". Uma vez, ele fez acre­ditar que uma mulher ficou grávida por força da imaginação. "Nas escolas de Medicina, estudou-se a questão, isto é, se a força da imaginação seria suficiente para conceber." Suas brincadeiras são do mesmo nível das de Marais: "Ele apostou que diria a Sua Majestade:  "Vá se foder" sem que ele se zangasse. E eis como aconteceu: quando Monsenhor o viu, disse: 'Olá, Sauvage, nada de novo?' 'De fato', responde ele, 'contaram-me de uma mulher que solta peidos por onde sabeis e, em vez de 'Deus te abençoe', dizem-lhe: 'Vá se foder' . Monsenhor pôs-se a rir. 'Por minha fé', exclamou o bobo, 'eu ganhei"

O último bobo do rei na França, Angély, é um cavalariço espirituoso, transferido para o serviço de Luís XN  por volta de 1660. Insolente, zomba­dor, cáustico, ele fica atrás da poltrona do rei, durante as refeições, e atira zombarias contra os cortesãos presentes. Seu fim tam­bém é exemplar: esse risonho perverso é vítima de um complô de cortesãos que temem ser alvo de seus pérfidos comentários, o que os desgraçaria perante o rei. Ele é despedido e não é substituídoLuís XIV não terá ninguém para zombar dele. Cercado de ministros servidores, cortesãos obsequiosos, pre­lados adoradores, ele esquece  seus limites. Não há nenhum riso para lembrá-lo da realidade.  O despotismo começa.

 

CCVIII - A era da desvalorização cômica (primeira metade do século XVII)

o grande assalto contra o riso nos séculos XVII e XVIII fracassou.

O riso não apenas não morreu como nem sequer recuou.

Sem falar do riso individual cotidiano, tão natural no homem como a respiração, o riso coletivo - o riso social- continua a ressoar a despeito dos anátemas. Mas ele se transforma, não tanto pelas críticas mas em razão da evolução cultural global.

As novas exi­gências de refinamento dos costumes e a promoção de valores sérios, da pastoral do medo, da decência, da ordem e do equilíbrio, provocam uma reflexão sobre o riso e, portanto, uma tomada de consciência sobre sua natu­reza e seus usos. A ironia substitui a blague, o humor, a brincadeira grosseira. Na corte de Luís XIII, realizam-se torneios obscenos, ri-se às gargalhadas e mata-se em duelos; na de Luís XV, zomba-se  refinadamente e assassina-se por uma tirada de espírito. O riso torna-se, antes de tudo, um instrumento de crítica social, política e religiosa.

Na época de Scarron, o mundo é burlesco e grotesco, isto é, irremedia­velmente absurdo, e só se pode rir dele. Na época de Voltaire, o mundo é trágico e sério, e o riso deve servir para transformá-lo, destruindo com a ironia os erros, os prejuízos e as injustiças. A sátira substitui a bufonaria.

Cada vez mais, o homem utiliza o riso de maneira consciente, com uma finalidade precisa que é, freqüentemente, agressiva e destruidora. Do­minando essa faculdade, faz dele um instrumento, uma arma. Transforman­do-se em ironia e humor, o riso bruto perde a naturalidade, civiliza-se, inte­lectualiza-se e refina-se. Ele também é domesticado: suas manifestações coletivas são, cada vez mais, organizadas, enquadradas, normalizadas. Quan­do não é instrumento, é espetáculo: a festa está sob vigilância.

É o que se começa a compreender no século XVII: o homem deve controlar o riso.

 

CCIX - O BURLESCO NA CORTE

No início, nos anos 1600-1650, predomina a atmosfera burlesca. Para vivenciá-Ia, nada melhor que uma leitura das Historiettes, de Tallemant des Réaux. Ora, esses "pequenos fatos verdadeiros" são quase sempre cômicos, como se a corte e os grandes vivessem em riso perpétuo e passassem seu tempo pregando partidas de mau gosto e contando piadas obscenas. Esses ministros, esses prelados, esses abades, esses cortesãos, esses financistas são garotos cresci­dos, perpétuos adolescentes que, de tempo em tempo, posam para a poste­ridade e para os livros de História, mas que entre cada episódio da alta política só pensam em divertir-se. Eles evoluem no burlesco e assemelham­se, por sua truculência, a personagens de Scarron.

A começar pelo rei, que não tem medo do triste Senhor de seus retra­tos oficiais.  Luís XIII é alegre, como se diz, e não muito intelectual. Segundo Tallemant, suas questões metafísicas situam-se, antes, no nível da braguilha. "No início, o rei era muito gay e se divertia bastante com M. de Bassompierre. Uma vez ele lhe perguntou por que o vit [velho termo francês para pênis] se voltava sempre para a esquerda. 'Porque, Senhor', respondeu Bassompierre, 'vós o manipu­lais em vossa calça sempre com a mão direita.' Ele, às vezes, dizia coisas muito engraçadas." Esse bom rei Luís XIII sabia divertir-se com miudezas e ver o lado pândego das coisas: "Ele se divertiu muito tempo imitando care­tas de moribundos.

Sobre a rainha circulam boas histórias, como aquela da "planta da cida­de". Uma dama da Casa Real, recém-casada, recebe uma carta do marido, que está em La Rochel1e, dizendo-lhe quanto a deseja. Para certificar-se de que será compreendido, ele lhe faz um desenho de um pênis em ereção. A rainha, que abria todas as cartas endereça­das a suas damas de companhia, deu uma olhada rápida e distraída. "Tendo percebido aquele desenho, disse: 'Certamente, é o mapa da cidade. Oh, que bom marido, com todo esse cuidado com sua mulher!' Depois disso, aquilo passou a chamar-se mapa da cidade. " Que Ana da Áustria pudesse confundir a planta de La Rochel1e com um sexo em ereção podia até ser desculpável: sabe-se que raramente via seu marido.

 

CCX - O PADRE DO DUPLO SENTIDO

Na galeria de retratos que Tallemant nos oferece, proliferam persona­gens truculentos, entre os quais vários eclesiásticos. É o caso de André Boulanger (1582-1657), um padre agostiniano, com temperamento de bu­mo, que não consegue impedir-se de contar pilhérias e ditos licenciosos:

"Ele sempre pregava como um saltimbanco, não que pretendesse fazer rir, mas acontecia naturalmente. Não pre­cisava se esforçar para isso, tanto que, quando dizia graçolas, ele próprio se castigava, porém nascera para aquilo, não podia se controlar".  Seus ser­mões com freqüência tinham duplo sentido obsceno, que era apreendido com malícia: "Ele dizia às damas: 'Vós vos queixais do jejum; ele vos faz emagrecer, dizeis. Reparem', dizia ele, mostrando um braço gordo, 'eu je­juo todos os dias, e eis aqui o menor dos meus membros'" - o membro viril incluído, certamente. Ei-Io agora pregando em um convento de religiosas, fazendo alusões à virgindade: "Uma noviça", diz ele, "é como um pedaço de tecido grosso ou de seda, que começa a desfiar com as primeiras agulha­das; mas, por mais bem-feito que seja o novelo, sempre resta um pequeno buraco que não se consegue tampar" .... Ele dizia que o paraíso era uma grande cidade: "Há a avenida dos mártires, a grande rua dos confessores; contudo, não há a grande rua das virgens; é como um beco bem estreito, bem estreito". 

Evidentemente, o padre Boulanger não vive em odor de santidade. Uma vez, quando ele pregava sobre o advento no faubourg Saint-Germain, for­mou-se uma "cabala de monges por causa do escândalo que suas bufonarias causavam", e o bispo de Paris mandou prendê-lo.

Esse padre burlesco está no antípoda da imagem que os promotores da Contra-Reforma gostariam de dar à Igreja. Contudo, ele está longe de ser uma exceção. Os retratos de Tallemant des Réaux só representam, brilhan­temente, centenas de outros casos, cujos traços o historiador pode encon­trar nos espessos volumes manuscritos das oficialidades diocesanas. Real­mente, nem todos os padres do século XVII tinham a seriedade com que queriam revesti-los .

 

CCXI - HAVIA PADRE MAIS MALUCO

François Le Métel, senhor de Boisrobert (1589-1662).

Esse antigo protestante, convertido ao catolicismo em 1612 e eleito cônego de Rouen, faz da Bíblia um espetáculo de comédia musicada, zomba do capítulo eclesiástico, parodia Le Cid para o cardeal Richelieu: "Para diver­tir o cardeal e aplacar, ao mesmo tempo, a inveja que ele tinha de Le Cid, ele o faz representar, de forma ridícula, por lacaios e cozinheiros. Entre outras coisas, no trecho em que Don Diego diz a seu filho: 'Rodrigo, tens cora­ção?', Rodrigo responde: 'Pai, só tenho lombo'. Ninguém sabia representar uma história como ele; não havia melhor comediante no mundo".

Ateu, homossexual e pedófilo, o abade de Boisrobert tem direito a vin­te páginas nas Historiettes. Alguns extratos:

"Ele chamava Ninon de sua divina. Um dia, foi à casa dela acompanhado de um belo rapaz. 'Mas', ela lhe disse, 'esse malandro vem sempre encon­trá-lo.' 'Sim', respondeu ele, 'quero torná-lo um mestre, por isso ele vem sempre.' 'Ê', retrucou ela, 'porque ninguém lhe faz o que lhe fazeis.''' 

"Coudray-Géniers era o relator de um processo que ele perdeu. Ele pôs-­se a praguejar contra ele. 'o ingrato se esqueceu do prazer que tinha, outro­ra, quando eu o fodia.' Isso era no tempo em que ele era um belo rapaz."

"Ele dizia outro dia, a,jovens que mal conhecia, que estava muito can­sado porque fizera sexo duas vezes, uma com uma garota e outra com o irmão da garota. 'Ela era donzela', afirmava ele, 'e me custou vinte pistolas. O irmão só custou dois escudos. Entretanto, tive muito mais prazer com o irmão do que com a irmã.'''

"Scarron conta que Boisrobert lhe disse um dia: 'Estou me sentindo mal porque cometi um pequeno excesso'. 'Ê?! O quê?' 'Usei a pica duas vezes esta manhã.' Ah! Senhor abade, estais errado, deveríeis usá-la, mode­radamente, mais uma vez.'''

"Ele se vangloriava, para si mesmo e para os outros, de algo ainda mais ridículo: 'Não imaginais', disse, 'a glória que tive com minha idade. O lacaio de madame de Piémont [é uma parente da governanta das moças], um dos mais belos rapazes que já vi, fodeu-me duas vezes', mas ele não devia vangloriar-se, porque depois, em Vitória, teve necessidade de um clister. O boticário teve dificuldade de introduzir o que era preciso no reto, tão estropiado estava."

"Em 1661, no tempo da morte do cardeal Mazarin, um homem de Nan­cy dirigiu-se ao Palácio, aos boateiros, e lhes disse: 'Eu vos suplico, senho­res, dizei-me se é verdade o que nos contaram em Nancy, que Boisrobert se tornou turco e que o grão-vizir lhe deu grandes rendas e vários belos rapa­zes para se divertir e que, de lá, ele escreveu aos libertinos da corte: 'Vós, senhores, vos divertis renegando Deus cem vezes por dia; eu sou mais es­perto que vós: reneguei-o só uma vez e me dei bem'.

 

CCXII - O RISO COMO DESEJO DE LIBERTAÇÃO

Ê bom acrescentar que, nessa época, "brincar de abade" era uma distra­ção apreciada em certos meios e consistia em fazer tudo aquilo que orde­nasse aquele que era designado como abade.

Terminemos com uma palavra sobre o duque de Orléans, irmão do rei da França. Ele também gostava de uma brincadeira: "Um dia, ao ver um dos seus dormindo de boca aberta, soltou-lhe um peido lá dentro.

Não nos cansamos de ler. Mas paremos por aqui o exame das Historiettes.

Essa breve revisão é suficiente para delinear a atmosfera rabelaisiana na qual evoluem as classes abastadas da primeira metade do século XVII. O riso está no coração da vida, no coração das funções elementares - a excreção, a sexua­lidade. Tanto o homem da corte como o burguês vivem no burlesco escatoló­gico e obsceno. Essa trivialidade vivenciada se encontra igualmente como expressão de um desejo de libertação das exigências morais e religiosas.

 

CCXIII - A ZOMBARIA BLASFEMATÓRIA DOS LIBERTINOS

A ousadia, na escatologia e na pornografia, não tem mais o caráter ingênuo e natural que podia ter em Rabelais. Acabamos de ver isso, por exemplo, com Boisrobert: trata-se de chocar e provocar, o que gera um riso agressivo. É o caso, especialmente, dos libertinos mais audaciosos. Contu­do, é surpreendente constatar que as brincadeiras mais blasfematórias con­tinuam a beneficiar-se de grande indulgência da opinião pública e das auto­ridades civis: até metade do século XVII, o riso encobre todas as espertezas e serve de pretexto para as mais ousadas ações. Com a condição, é claro, de que a origem social dos atores seja suficientemente elevada ... .

Primeiro exemplo. Em 1646, o cavaleiro de Roquelaure, qualificado por Tallemant des Réaux de "espécie de louco que, com isso, era o maior blasfema­dor do reino ... tendo encontrado, em Toulouse, pessoas tão loucas quanto ele, celebrou a missa num jogo de péla ( o futebol da época), comungou as partes vergonhosas de uma mulher, batizou e casou cães e fez todas as impiedades imagináveis". Isso lhe custou uma primeira prisão, em 17 de fevereiro de 1646. Solto, ele retoma sua vida escandalosa. Vicente de Paula e os devotos pedem sua cabeça à rainha, e a Assembléia do clero envia uma delegação à corte para exigir san­ções. Roquelaure é encerrado na Bastilha, em 15 de abril de 1646, mas elevam­-se vozes : não se pode "prender um homem de condição por bagatelas como essas"! Prevenido de que, em seu processo, teria Deus contra ele, Roquelaure retruca: "Deus não possui tantos amigos como eu tenho ,no Parlamento".  Atraindo os ridentes para seu lado, o blasfemador "de condi­ção" pode esperar sair de lá, embora Roquelaure avalie que é mais seguro fugir.

 

CCXIV - SEGUNDO EXEMPLO DE LIBERTINO

Segundo exemplo: na Inglaterra, no início da Restauração, um pequeno grupo de aristocratas libertinos, conduzidos por Sir Charles Sedley, entrega­-se a um divertimento muito ousado. Em junho de 1663, o mencionado Sedley aparece inteiramente nu no balcão do cabaré do Coq, em Londres, e diante de uma multidão hilária começa "a imitar todas as posturas lúbricas e sodômicas imagináveis; in­sultou as Escrituras e pregou uma espécie de sermão charlatão, anunciando que tinha para vender um pó milagroso que faria correr em seu encalço todos os que, na cidade, tivessem uma cona, e grande número de pessoas ficava sob o balcão para vê-lo e ouvi-lo. Quando ele terminou, pegou um copo de vinho, lavou a boca, depois bebeu-o; em seguida, pegou outro e bebeu à saúde do rei".Ora, Sedley escapa disso com uma severa reprimenda e a promessa de não recomeçar. "Diz-se que o fizeram prometer bom comportamento, sob pena de pagar quinhentas libras, porque não havia lei contra o que ele come­teu." Promessa, aliás, não cumprida, pois, em 23 de outubro de 1668, o mes­mo Sedley se entrega, com o lorde Charles Buckhurst, futuro conde de Midle­sex, a uma das primeiras seções de stripping registradas nos anais: eles correm pelas ruas de Londres completamente nus e lutam a socos com os guardas que foram prendê-los. Dessa vez, o próprio rei intervém ...  para repreender os soldados. Desgostoso, Pepys conclui que vive em um mundo de loucos.

 

CCXV – O MUNDO É UMA FARSA

Esse riso libertino não é, aliás, muito alegre. É desanimador rir da bestialidade humana quando se percebe que ela é incurável. Conscientes de formar uma elite secreta, despre­zando as crenças, superstições e preconceitos da massa, praticando um con­formismo de fachada, os desabusados não demonstram nenhum proselitis­mo. Não procuram mudar o mundo, de uma indescritível bestialidade. Seu riso não é de crítica positiva; é o riso petulante do espectador que lamenta o nível do espetáculo, uma espécie de sub-riso, como aquele determinado por um cômico tão miserável que não há outra solução. De fato, quando o come­diante cai abaixo de certo nível, não se ri mais dele, ri-se de si mesmo, da própria idiotice: como é possível ser tão besta a ponto de perder tempo vendo tal estupidez? O riso do libertino erudito, dos anos 1620-1650, é um pouco isso, com o sentimento de que o mundo todo é uma "asneira" digna do pior cômico, como o resume La Mothe Le Vayer: "Toda a nossa vida é, na verdade, uma fábula; nosso conhecimento, uma asneira; nossas certezas, uma ilusão; resumindo, todo esse mundo é apenas uma farsa,

 

 

CCXVI - AS FRAUDES E O RIDÍCULO

O século XIX é rico em mistificações. Isso começa com a fabricação de coisas falsas: falsos autógrafos de grandes ho­mens, falsos diplomas, falsos incunábulos, fraudes de toda espécie. Na série de falsos históricos, Courtois e Letellier conseguem enganar centenas de burgueses, sob a Monarquia de Julho, fabricando pesquisas do século XII que provam que seus ancestrais participaram das cruzadas. Letellier tem um ateliê bem equipado, de onde saem, a pedidos, cartas de Lutero, Calvino, Francisco I, Henrique lI, Diane de Poitiers, Henrique III, Racine, La Fontai­ne ... O campeão indiscutível nesse domínio é um ex-empregado de Letel­lier, Vrain-Lucas, que explora a incrível credulidade do matemático Michel Chasles, membro do Instituto e grande amante de peças históricas: em nove anos e por 140 mil francos-ouro, ele lhe vende 27 mil documentos, desde cartas de Maria Madalena e de Lázaro ressuscitado até uma correspondência entre Sócrates e Euclides, passando por documentos de Júlio César, Dago­berto, Carlos Magno ... Ele chega a fornecer a Chasles uma carta de Blaise Pascal provando que este último descobriu a gravitação universal, e Chasles faz disso o objeto de uma conferência retumbante na Academia de Ciências!

Outro grande mistificador, Paul Masson (1849-1899), especializa-se na História contemporânea, com a publicação das memórias íntimas de Bou­langer e de Bismarck. No domínio artístico, um dos casos mais célebres é aquele montado em 1910 por Roland Dorgeles, que expõe, no Salão da Independência, uma tela atribuída a um pintor italiano, J. R. Boronalli, O sol se põe sobre o Adriático. Críticos, admiradores e difamadores lhe consagram artigos inflamados. Trinta e sete anos mais tarde, em Bouquet de Bohême, Dorgeles revela que a tela fora pintada pelos movimentos do rabo de um asno .

 

CCXVII - AS VARIEDADES DA SÁTIRA SOCIAL EUROPÉIA

Constata-se a mesma evolução no restante da Europa - da Suíça, onde Rodolfhe Toepffer (1799-1846) cria gags ridículas, "sempre animadas pela pressa e constantemente à procura de alguma coisa", à Itália, onde é ilustrado o Fiscietto (1848). Na Alemanha desenvolve-se, de início, a caricatura românti­ca, fantástica, espiritual, cheia de diabos. Ela cria temas próximos das diabruras de Le Poitevin (1806-1870), Grandville (que morre louco em 1847), Gustave Doré - cujo gênio ridículo dá origem a um mundo mágico, pleno de reminiscências medievais e de angústias diante de uma na­tureza repleta de espíritos aterradores - e Robert Seymour, caricaturista de Dickens, que se suicida em 1836. Do outro lado do Reno, a sátira política começa verdadeiramente com os Fliegende Blatter, fundados em 1845 e inspira­dos em Le Charivari, depois com a Leuchtkugeln, criada em 1848 em Munique, e com o Berliner Charivari. Mas ela só se difundirá em 1896, com o aparecimento do Simplicissimus, de Albert Langen, em Munique: cáustico e cortante, o jornal prende-se a todos os dogmatismos e obscurantismos, assim como ao milita­rismo de Guilherme lI. Seu riso é muito amargo e seu universo, negro e inquie­tante. Em 1902, o caricaturista ülafGulbranson começa a trabalhar nele.

Ao longo do século XIX, acontece na Alemanha uma reflexão sobre a função do riso, do escárnio e do humor na sociedade e na política. Desde o início do século, a alta sociedade berlinense reveste-se de um senso inato de humor, e o berliner Witz, o espírito berlinense, até então atribuído às classes populares, torna-se ingrediente obrigatório nas conversas de salão. Em 1840, um viajante inglês comenta, com certo enfado, esse torneio de espírito dos berlinenses, essa certeza de possuir um senso de humor superior: "Eles têm muita maldade e graça insidiosa; um ar cáustico; querem ter a última pala­vra e estão empenhados em conquistar o apoio dos ridentes contra seus antagonistas, de classe superior ou inferior, cultos ou sem educação". 

 

 

CCXVIII - BERLIM DISCUTE O RISO NO SÉCULO XIX

Berlim, "pátria do espírito", como o proclamam os guias, vê desenvol­ver-se, nos anos 1840, uma polêmica sobre o riso. Para muitos, ele é uma válvula de escape que permite ao povo expressar seu descontentamento de forma pacífica. Válvula benéfica para uns, porque garante a manutenção da ordem, e nefasta para outros, porque reduz a tensão revolucionária. O pri­meiro ponto de vista é o de Gustav Kühne, que, em “Meu Carnaval em Berlim” 1843, pede às autoridades que deixem o povo expressar seu espírito satíri­co, que é como um um "sopro de ar", permitindo-lhe exteriorizar seu desgaste e suas frustrações. Aos olhos do comunista Ernst Dronke, em compensação, a sátira política é desprezível, porque os berlinenses acredi­tam que basta rir de uma injustiça para fazê-Ia desaparecer. Theodor Mundt coloca os dois de acordo, afirmando que o espírito satírico berlinen­se tanto pode levar à revolta quanto acalmar os excitados. Para outros, o riso também pode ser um elemento de coesão social, pelo fato de partilhar a mesma cultura. Em uma população berlinense que, em 1840, segundo o censo, já conta com 85% de alfabetizados, entre os adultos, o impacto de uma literatura satírica corre o risco de ser muito sensível. As leis de 1819 impõem, aliás, uma censura rigorosa a essas publicações.

 

 

CCXIX - A CENSURA DE NOVO, NA ALEMANHA

Como sob o Antigo Regime, na França, essas leis tiveram o efeito de estimular a verve humorística, que camufla a crítica sob a aparência de di­versão anódina, nos almanaques, nos cartazes, nos livros de adivinhas e de ditos espirituosos. A atitude da polícia quanto a isso reflete o dilema expos­to há pouco: tolerância plena demais para permitir um exutório, interdição estrita demais para evitar uma contaminação profunda. Um personagem cômico surge constantemente nessa literatura ilustrada, satírica e suspeita:

Eckensteher Nante. Eckensteher, literalmente "aquele que fica no canto", é o sobrenome dado ao trabalhador operário, que espera todos os dias a contra­tação, caricaturado com os traços de um trabalhador forte, de pálpebras pesadas, lábios espessos, impudente e indolente, boné na cabeça, uma es­pécie de buldogue malicioso, de espírito vivo e linguagem chula. Nante, diminutivo de Ferdinand, é prenome comum nos meios populares. Eckens­teher Nante, com seu grande bom senso, é conhecido em toda a Europa central. Ele aparece em 1832. Criação literária de satiristas profissionais, dirige-se à classe média ascendente, que se identifica com ele. "Rir com Nante tornava possível aos alemães ostentar uma robusta cultura política fora do alcance da repressão. Mas rir de Nante permitia prever os limites da revolta na Alemanha pré-revolucionária .... Logo ele se torna um símbolo de todo o povo alemão, personificando as esperanças, os temores e os fan­tasmas da classe média que não quer ser povinho. "

 

CCXX- DE COMO UM CÔMICO PODE EXPRESSAR UM POVO

No início, a popularidade de Nante deve muito ao talento cômico do ator Friedrich Beckmann, que desempenha o papel numa comédia, em Ber­lim. Rapidamente, ele se torna o centro de numerosas anedotas e historie­tas ilustradas, algumas das quais são pretextos para jogos de palavras e brincadeiras sem pretensão. Em Nante ais Fremdenführer, de 1840, ele com­põe um tratado de viei-o-saufische (filosofia), literalmente "muito a beber", que lhe vale o título de "doutor em sabedoria humana". Em outra história, desafiado por uma moça, ele retruca: "Ei, senhorita, sois muito avançada. Por acaso não sois filha do líder parisiense George Sand, para ignorar assim vosso sexo?"44 Mas a brincadeira, às vezes, vai mais longe. Em 1847, ano de crise profunda, de intrigas e miséria entre o povo, Albert Hopf estigmatiza o paternalismo filantrópico dos patrões liberais alemães e as estéreis dis­cussões dos políticos: um grupo de ricos proprietários funda um clube para discutir a miséria dos pobres: as seções parecem banquetes prussianos. Como ajudar os pobres? Eles só podem ter dois filhos, diz um; ao contrário, diz outro, isso vai diminuir a renda proveniente dos batismos e certificados de nascimento; se lhes pagamos muito, eles se tornam arrogantes e então é preciso aumentar as multas, diz um terceiro, que se vangloria de pagar um salário ridículo aos funcionários. Então chegam Nante e seu amigo para "representar o pauperismo". Escândalo: "Eles são proletários; não pode­mos admitir esse tipo de gente num clube como o nosso".45

Em outra história, de 1843, o autor utiliza o subterfúgio do sonho. Nante sonha que um comissário de polícia sonhou que ele era suspeito de um crime. Diante dos protestos de Nante, ele teria respondido: "O sonho de um comissário de polícia é motivo suficiente para estabelecer uma suspeita". A polícia, segundo relatos que subsistem, entendeu a intenção satírica, mas decidiu não reagir porque a brincadeira não chegaria, realmente, ao povo.

 

CCXXI - DA INGLATERRA SURGE O HUMOR ASSÉPTICO

Curiosamente, é na Inglaterra, pátria do humor, que o humor perde, no século XIX, seu caráter de sátira político-social mordaz. Os descendentes de Swift evoluem ou para um conformismo espiritual ou para um dandismo provocador, que tem mais profundidade do que aparenta. A primeira cor­rente é bem ilustrada pela célebre revista satírica Punch, fundada em 1841. Seu projeto é ambíguo, pois pretende inspirar-se na satírica agressividade francesa (o que sugere seu subtítulo de London Charivari) e na commedia deU' arte (com seu título de Polichinelo), rejeitando o cômico popular, inconveniente e, para dizer tudo, chocante. Mark Lemon, que é seu diretor de 1841 a 1870, declara que seu periódico será "sem grosseria, sem sectarismo, sem blasfê­mia, sem inconveniência nem maldade" e sem "esses desagradáveis assun­tos que constituem o fundo da loja dos humoristas franceses". O que signi­fica que se tratará de um humor asséptico, conformista, adaptado aos salões vitorianos e ao ambiente decadente da biblioteca dos lordes. Não se pode contar com ele para atacar o governo de Sua Majestade. Seus alvos favoritos são a arrogância dos domésticos, as reivindicações femininas, os novos ­ricos, os pobres, os trabalhadores, os estrangeiros - em particular o papa e Bismarck -, assim como o infeliz príncipe consorte, Albert. A alta socieda­de, burguesa e aristocrática, é aí lisonjeada em seus preconceitos, em seus gostos e em sua hipocrisia e se encontra nos desenhos de Leech e Doyle. A paródia literária ocupa bastante espaço. Punch é o riso dos bem pensantes e a sátira de luxo, que não tem mais nada a ver com Swift nem Hogarth. É também uma verdadeira instituição, o humor superior do establishment made in England, o Rolls-Royce da ironia à inglesa, que, quando completa 150 anos, celebrados em Londres com uma grande exposição, em 1991, pode ainda se orgulhar de vender uma tiragem de 33 mil exemplares.

 

CCXXII - OS RISOS DE CADA CLASSE

Essas variedades do humor inglês, das quais é difícil apreender os elementos comuns, levam a propor a questão dos humores nacionais ­debate marcado pelo grande confronto ideológico do século XIX: internacio­nalismo contra nacionalismo. A segunda metade do século vê a afirmação dos blocos nacionais, cultivando sua diferença, elogiando a superioridade de seus respectivos valores culturais, desprezando os dos vizinhos. Para os meios patrióticos, a maneira de rir reflete a qualidade da cultura autócto­ne. Cada nação tem seus próprios demônios, e estes inspiram um riso específico que ilustra o suposto temperamento do povo em questão. Cada nação fabrica seu riso e o opõe ao riso vulgar das outras nações. Há o riso gaulês e impertinente do francês, o riso pesado e barulhento do alemão, o riso fino e superior do inglês: tantos clichês e mitos voluntariamente man­tidos para testemunhar o gênio nacional. No lado oposto, desenvolvem-se risos mais específicos das categorias sociais, dessa vez sem fronteiras: o riso da classe operária, centrado no jargão da gíria, do cockney londrino, do titi parisiense; o riso dos salões da pequena burguesia provinciana, com blagues pesadas e alusões ousadas, de bom grado anticlerical; o riso da grande burguesia, que se quer refinada, discreta, sutil, culta; o riso dos militares; o riso dos aristocratas; o riso clerical... Risos nacionais (ou na­cionalistas) de um lado, risos de classe do outro? Risos da direita, risos da esquerda. Risos étnicos ou internacional do riso?  Como se pode ver cada classe social tem seu humor.Mas há identidades em todos os países e classes: risos agressivos, ridículos, amigáveis, amargos, alegres, desdenhosos etc.

 

CCXXIII - O RISO FRANCÊS BÊBADO

O riso ocupa lugar importante nessa mitologia nacional que se cria.

Uma variante de baixo nível é a categoria do "humor borracho", ao qual Elisabeth Pillet consagrou um estudo. França, país do vinho e dos bêba­dos: tudo o que pode servir de signo de reconhecimento vem enriquecer o costume nacional. Em um país onde o número de dívidas com bebida aumenta 34%, entre 1879 e 1904, e cuja vinha é um dos pilares da econo­mia, o "borracho", o "bebum", encarrega-se de uma demão de tinta patrió­tica, simpática, que se traduz por uma floração de canções de ébrios, ilus­trando um tipo de cômico muito particular, com base na escatologia, na trivialidade, na vulgaridade, na derrisão provocadora. O compositor-in­térprete Paul Bourges, apelidado "rei dos borrachos", é o autor de nume­rosos sucessos, entre 1880 e 1900, como A melhor mamadeira, classificada no gênero pouco literário de "balada enófila". Entre os grandes "suces­sos" da época, contam-se A bebedeira, Viva o bêbado - aliança pitoresca do cômico ébrio com o cômico militar -, Ela amava os copos, Eu sou bebum, A greve dos borrachos ...

O bêbado dobra-se ao meio, vomita, cospe, urina, peida. Seu humor malcheiroso une-se à voga muito popular do "peidorreiro", que diverte o café-concerto, onde os clientes lêem o Jornal dos Emerdeados. Essa ec1osão de escatologia de baixo nível desconcerta o leitor atual. Tratar-se-ia de um de­sejo de provocação diante da sufocante moral burguesa da época? Do pro­longamento da atitude carnavalesca do mundo do avesso, em um tempo em que o Carnaval já perdeu sua função tradicional? De uma reação contra as campanhas antialcoólicas que se desenvolvem na época? De uma busca de libertação do burguês que se acanalha no café-concerto misturando-se ao povo? Sem dúvida, é um pouco de tudo isso ao mesmo tempo.

Para Elisabeth Pillet, esse comportamento se inscreve na tradição carnavalesca: "Comportamentos aberrantes, escatologia, rejeição das res­ponsabilidades, derrisão de todos os valores, mundo do avesso, discurso parodístico, hipérbole, jogos de palavras: todas essas características rea­tam a canção do bêbado com o cômico carnavalesco.

 

CCXXIV - A REPRESSÃO AO CÔMICO “BÊBADO”

A ascensão de uma corrente antialcoólica fez o cômico do bêbado re­cuar a partir de 1900. A opinião pública, sensibilizada pelos estudos médi­cos, pelos manuais escolares, pelos romances realistas, pelos dramas rela­tados pela imprensa cotidiana, pelo temor da degeneração do povo francês, começa a achar os alcoólatras bem menos cômicos. O álcool adquire a di­mensão de flagelo público. Se continua a fazer rir, não é o mesmo riso de outrora. O que ainda faz rir não são mais as palavras e as canções inspiradas pelo álcool, mas o aspecto exterior do bêbado, transformado num pobre­diabo derrisório. Não se ri mais do fundo, porém da forma, e então desapa- . rece a diferença entre o bêbado francês e o bêbado estrangeiro.

 

CCXXV - HUMORES NACIONAIS OU INTERNACIONAL DO RISO? OSCAR WILDE E MARK TWAIN: A MESMA LUTA

Quando se fala de um riso francês, gaulês e "mamado", há tendência de atribuir ao inglês uma cultura de excentricidade e do nonsense, que correspon­deria a sua forma de humor. Na realidade, há na Inglaterra, como já vimos, grande variedade de humor, e essa qualidade é conscientemente cultivada, com uma manifesta deriva para o nonsense, já perceptível com o Book of snobs, publi­cado em 1848 por Thackeray. A história acrescenta seu próprio toque de ironia, já que, no mesmo ano, Marx publica o Manifesto comunista. O choque entre o esnobe e o proletário sugere que o humor inglês se afasta das realidades sociais para se tornar um jogo de espírito, uma fantasia intelectual um pouco auto­suficiente e vã. Com o Book of nonsense, de Edward Lear, em 1846, avança-se para uma exploração racional do absurdo, e a combinação dos dois desemboca no dandismo do qual Oscar Wilde (1856-1900) é o mais brilhante exemplo.

Tudo é paradoxal nesse personagem, que está no mundo todo sem es­tar em mundo algum. Admirado e requisitado nos salões da aristocracia vitoriana, ele é rejeitado por ela e lançado na prisão por homossexualismo. Ele vê o mundo com um realismo impiedoso: "No universo dos fatos, os maus não são punidos nem os bons recompensados. O sucesso é reservado aos fortes, o fracasso, aos fracos". Esse mundo parece, então, um mau ras­cunho: "Às vezes acho que Deus, ao criar o homem, superestimou um pou­co sua capacidade". Ele se situa, portanto, além do bem e do mal, num cinismo absoluto, que não poupa nem as pessoas nem os princípios: "Prefi­ro as pessoas aos princípios e coloco acima de tudo as pessoas sem princí­pios". Além disso, ele define o cinismo como o fato de "saber o preço de todas as coisas e não conhecer o valor de nenhuma".

 

CCXXVI -O CINISMO DE OSCAR WILDE

Seu espírito brilhante cultiva o paradoxo, que ele põe a serviço dessa visão contundente da sociedade, da moral, da religião, dos sentimentos, em suas fórmulas assassinas que são outras tantas facas afiadas para a boa cons­ciência. Fazer uma seleção nessa mina de citações seria sempre frustrante. Dela aflora um quadro sombrio de natureza humana, e o sorriso cínico desse Nietzsche de salão vai mais longe que o grande riso de seu contemporâneo alemão: se ambos desprezam a moral, Zaratustra coloca sua esperança no super-homem; para Oscar Wilde, não há super-homem. Há uma súcia de in­divíduos que conseguem viver juntos, bem ou mal, temperando seu egoísmo com uma hipocrisia que é a moral. O humor de Wilde é tão feroz quanto o de Swift - mas um Swift desprovido de sentimentos. Não há nada de indignação, mas uma simples constatação, como espectador, de um relativismo absoluto:

"Uma verdade deixa de ser verdade quando ninguém mais acredita nela". Nenhum valor é poupado: "'O que pensais da arte?', pergunta alguém. uma doença.' 'O amor?' 'Uma ilusão.' A religião?' 'O sucedâneo da fé.' 'Vós sois um cético', observa outro. 'Jamais, o ceticismo é o começo da fé.'''. O amor? A única diferença entre um capricho e uma paixão eterna é que o capricho dura mais tempo." Engajamento político? "Não tenho o menor desejo de mudar algo na Inglaterra, a não ser o clima." Aliás, "as classes trabalhadoras deveri­am empenhar-se para nos dar bom exemplo. Aonde iríamos parar se essas pessoas também perdessem o senso moral?" E o respeito às pessoas idosas? A juventude atual é absolutamente monstruosa. Ela não tem nenhum respei­to pelos cabelos tingidos." E a compaixão? As  tragédias dos outros são sem­pre extremamente mesquinhas." Fidelidade conjugal? "O único encanto do casamento é dar a mentira indispensável às duas partes interessadas." E a morte? '''Passemos agora a detalhes de menos importância. Vossos pais estão vivos?' 'Eu perdi os dois.' 'Os dois? Mas é muito estouvamento.'''

. A gentry britânica, que rejeitou Oscar Wilde em seu tempo, procurará, mais tarde, apropriar-se dele. Mas Wilde é um fenômeno de classe e de mentali­dade universal, típico de uma época, mais que de um país.

 

CCXXVII -NOS EEUU MARK TWAIN E SEU HUMOR

Essa impressão é reforçada pelo exame da evolução do cômico nos Es­tados Unidos durante o século xx. Esse melting pat do riso oferece um resu­mo surpreendente da história do sentido cômico. O nascimento do riso ame­ricano está intimamente ligado à epopéia nacional da conquista do Oeste. E eis que, entre esses alegres loucos do faroeste, surge Mark Twain (1835-1910), de quem se quis fazer a encarnação do humor americano. Na verdade, esse homem do povo que fez de tudo um pouco em várias profis­sões, inclusive a de piloto sobre o Mississippi, o que lhe valeu o apelido de "duas braças exatamente" (Mark Twain), e que jogou com toda a gama do riso, graças a um notável talento natural, encontra-se com Nietzsche e com Wilde em um riso fim-de-século internacional, proveniente de uma consta­tação de nansense pessimista.

Para ele, o humor é a via privilegiada de compreensão do mundo: "O humor", escreve ele, "não deve se propor a ensinar ou a pregar, mas tem de fazer os dois, se quiser viver eternamente. Quando digo eternamente, que­ro dizer por trinta anos .... Eu sempre preguei, também existo há trinta anos. Se o humor chegasse a mim por si mesmo, sem que eu o convidasse, eu o aceitaria em meu sermão, mas não escrevo sermão para fazer humor".

 

CCXXVIII - QUEM NÃO TEM CORAGEM PARA A TRAGÉDIA, PARTE PARA A COMÉDIA

Esse humor, que é uma filosofia, é cada vez mais sombrio; e, quanto mais sombrio, mais ele tem necessidade de humor para superar o desespe­ro. É por isso que os mais pessimistas são, muitas vezes, os mais humoris­tas. Uma pessoa feliz não tem necessidade de fazer humor: seu riso é natu­ral. A pessoa triste deve fazer do humor sua razão de viver, se não tem coragem de se suicidar: o humor é, freqüentemente, a tábua de salvação dos desesperados. Esse parece ser o caso de Mark Twain, cujas últimas refle­xões, longe de trair sua obra passada, são uma explicação dela, já sugerida por What is a man?, em 1906, e que se torna clara com a publicação póstuma, em 1916, de The mysterious stranger.

A obra é um conto humorístico. Um desconhecido chega a uma pe­quena cidade austríaca no século XVI. Ele tem poderes milagrosos e de­monstra completa insensibilidade moral. É o sobrinho de Satã. Ele age segundo uma certa lógica: mata uma criança porque sabe que ela logo ficará enferma; torna um homem louco, porque sabe que isso evitará que tenha consciência do destino atroz que o espera. Esses gestos já destacam o absurdo da condição humana, mesmo naquilo que ela parece ter de mais respeitável: livrar alguém de uma doença não é permitir que essa pessoa morra mais tarde de uma doença pior? Esse absurdo seria insu­portável se Deus existisse. Felizmente, Deus nos deu uma grande prova de humor enviando-nos o sobrinho de Satã para anunciar-nos que ele não existe: "Não há Deus nem universo nem raça humana nem vida terrestre nem paraíso nem inferno. É tudo um sonho, um sonho grotesco e louco. Só você existe. E você é apenas um pensamento, um pensamento errante, um pensamento inútil, um pensamento órfão que erra, desesperado, atra­vés das eternidades vazias".  Eis-nos seguros: nossa odiosa condição não procede de uma vontade consciente, o que seria o cúmulo da perversão. Então, já que nosso medo absurdo resulta do acaso, só podemos rir dele. É o que concluirá, um pouco mais tarde, outro americano, Alvin Toffler. "Temos de nos inclinar até a evidência: somos parte integrante de uma fantástica cânula cósmica, e isso não nos impede de usufruir sua glória, apreciar o ridículo da situação, rir e rir de nós mesmos." A revelação de um mundo absurdo, sem causa, libera o riso.

CCXXIX - O HUMOR É UNIVERSAL

Humor americano? Não. Humor filosófico, fim-de-século, humor de uma inteligência que, depois de examinar bem, retoma a seu ponto de partida e constata que girou em falso: o mundo é incompreensível. Esse humor do absurdo é internacional. Ele aproxima os desiludidos da religião e os desiludidos da ciência. Não há humor americano, inglês, alemão, francês, belga ou judeu. Há tipos de humor correspondendo a diferentes psicolo­gias, sentidos por experiências diferentes e encontrados em todos os paí­ses. Mesmo que utilizem línguas e elementos de sua cultura nacional, isso não produz nenhuma diferença de forma. Mark Twain, Oscar Wilde, Frédé­ric Nietzsche e André Breton são universais.

 

CCXXX- A IGREJA DO SÉCULO XIX CONTRA O RISO

As relações entre a religião e o riso não melhoram no século XIX. Na Igreja Católica em particular, os rostos nunca estiveram tão franzidos. Os retratos e as fotografias dos bispos e padres são eloqüentes: é difícil saber quem apresenta o rosto mais severo, o olhar mais duro sobre o mundo que o cerca. A Igreja, encenada, criticada, confrontada com a ascensão das ciên­cias e do ateísmo, encolhe-se, crispa-se sobre seus valores e responde ao mundo moderno com o anátema. Mais que nunca, o riso é diabólico.

Enraizado no mal, o riso enfeia o rosto: "O riso nunca dá à fisionomia uma expressão de simpatia e bem-estar; ao contrário, congestiona o rosto mais harmonioso, apaga a beleza. É uma das imagens do mal, não que o exprima diretamente, mas indica sua morada".  Eis por que é improvável que Cristo tenha rido. "Quem poderia imaginar Cristo rindo? O riso mesmo só começa a despontar numa elevação mais baixa, uma vez que se liga, em sua origem, ao sentimento de individualidade." O máximo que se pode acei­tar é um ligeiro sorriso de Maria para seu filho, concessão à fraqueza humana.

O riso é a desforra do diabo. Por toda parte onde ele ressoa, há o peca­do. Isso também porque, se é preciso realmente que existam peças de tea­tro, a comédia é inferior à tragédia: a primeira nos mostra a baixeza do homem, a segunda, seus sentimentos nobres. Particularmente odiosa é a comédia grega: "Pródiga em sarcasmo, em zombaria, em derrisão amarga, ela não poupa nem respeita nada". Maldito seja Aristófanes!

CCXXXI - O CURA DE ARS

Mas vamos pegar um dos exemplos da luta contra o riso:  Jean-Marie Vianney, o "cura de Ars". Um dos sinais de sua santidade, segundo o processo de canonização, é o fato de ter recebido "o dom das lágrimas", e há numerosos testemunhos que o mos­tram chorando por qualquer coisa. Não é bom divertir-se em sua paró­quia: a corda com que o demônio lança o maior número de almas para o inferno", diz ele. Ao ver o anúncio de um charivari, sai do presbitério e dispersa todo mundo. Bailes e festas profanas são proscritos, e o bom cura faz reinar um verdadeiro terrorismo moral em sua paróquia: "Eu o ouvi uma tarde", diz o abade Pelletier no processo de canonização, "levantar-se com veemência contra a feira de Villefranche, onde a multidão tinha o cos­tume de entregar-se à tentação dos divertimentos profanos. O auditório ficou apavorado".  Os banquetes de casamento são proibidos; quanto às tentativas de tocar instrumentos, ouvir música e rir depois dos trabalhos agrícolas, são execradas no púlpito. Jean-Marie Vianney esforça-se para co­locar culpa em seu mundo. Na Sexta-Feira Santa, em 1830, alguns dançarinos e músicos se apresentam; ninguém ousa sair. "Na prece da tarde, o senhor cura fez sua homilia habitual. Ele chorou. Choramos com ele. E vários de nossos jovens desmiolados compreenderam sua idiotice ao ver sua mãe e irmãs chegar com os olhos vermelhos de tanto chorar." 

O cura de Ars controla, igualmente, o vestuário das pessoas. Ele impõe às moças uma horrível touca que esconde melhor seus cabelos. "Nós tínha­mos a aparência de pequenas velhas", revela uma delas. Ele não poupa ironias impiedosas ao mais inocente sinal de coquetismo.

Durante quarenta anos, o cura tiraniza sua paróquia. Além disso, ele é obcecado pelo diabo, que acredita ver em todos os cantos da rua e até em sua cama. O riso é banido. Contudo, é atribuída a ele uma "malícia delicada". Mas em sua boca, diz o abade Trochu, a própria zombaria é santificada: "Es­sas tiradas não ferem ninguém [!], porque a malícia branca que elas encerram é temperada pelo tom cheio de regozijo e pela expressão graciosa do rosto". 

 

CCXXXII - MILHARES DE REPRESSORES DO RISO

Há milhares de curas de Ars, no século XIX, para quem rir é um crime ou, ao menos, uma presunção de culpa. Eis um caso revelador: em 1833, em Taulé, o reitor Kervennic solicita a troca de seu vigário, o abade Bramoullé. Motivo: ele ri, é alegre, tem sempre um ar de contentamento. Trata-se de uma conduta eminentemente suspeita para um jovem padre de trinta anos a quem foi ensinado, no seminário, ter sempre um ar triste. Ele sorri até dando a comunhão! O reitor comunica ao bispo seu espanto e suas suspei­tas, em uma carta que revela muito sobre a mentalidade paroquial da época:

"Percebo que, quanto mais exijo dele (como me substituir perante os doen­tes, dar uma instrução ou um sermão), quanto mais os fiéis, em grande número, o retêm no confessionário, mais ele fica alegre e contente: nada parece capaz de diminuir seu zelo nem desanimá-1o. ... Ele está sempre contente por pregar, deseja mesmo fazer mais do que lhe é pedido; isso não seria vaidade, presunção, vontade desmedida de aparecer? Ele está sempre feliz por assistir meus doen­tes .... Isso o faria crer que todo mundo o admira. Daí vem, parece-nos, essa grande necessidade de se produzir ... suas maneiras sempre joviais e muito familiares com os fiéis e as muitas palavras indiscretas que diz. Já cansei de dizer que gostaria que ele fosse mais tímido, mais reservado e mais prudente".

O reitor tenta reconduzir seu vigário para o reto caminho da tristeza.

Adverte-o de que alguns paroquianos estão reclamando. "Eles me disseram que vossas maneiras são escandalosas, tão escandalosas que vós sorris até dando a comunhão; mas acho que deveis ter feito isso sem perceber."

Abre-se então um dossiê, que é encaminhado ao bispo de Quimper. Re­quisitado pelo bispo, o jovem vigário se explica em uma carta de 2 de julho, em que pede perdão a seus confrades: "Se alguma vez tive a infelicidade de entristecê-Ios [com minha alegria], isso só pode ser atribuído ao meu caráter, que, como sabeis, é muito alegre". Essa confissão é fatal. Daí por diante, o riso de Bramoullé permanece como um riso de vigário: qualquer promoção lhe é proibida. Não se deve confiar a responsabilidade de uma paróquia a alguém que sorri ao dar a comunhão! Transferido para Plouarzel, depois para Clohars­Carnoet, Bramoullé é interditado em 1839 e morre em 1840, aos 37 anos.

 

CCXXXIII - VAMOS CHORAR, E MUITO !!!

Lágrimas, torrentes de lágrimas: eis o que a Igreja promete a seus fiéis no século XIX, desde a infância, como o testemunha este discurso de volta à escola, dirigido a colegiais por Monseigneur Baunard, em 1896: "Meus caros filhos, vós chorareis. Bem que gostaria que fosse o contrário e eu pudesse desejar-vos dias sem nuvens, mas tenho certeza de que chorareis. Chorareis, sofrereis, porque é condição de nossa natureza decaída e, conseqüentemente, de nossa natureza punida. Natureza resgatada, mas resgatada pela cruz. Cho­rareis porque essa é a determinação do Espírito Santo em cada página dos livros sagrados, porque é a promessa de Jesus Cristo a todos os seus discípu­los do futuro".  Mas também há recreação no colégio: pode-se rir, mas é para trabalhar melhor depois. "Quando vos vejo voltar do recreio, o rosto animado e colorido, depois de ter jogado, corrido, saltado e rido, espero que vida nova tenha sido insuflada em vossas veias e alegro-me ao pensar que, em seguida, ireis despejá-la no trabalho, como uma libação, para o serviço de Deus."

 

CCXXXIV - A CRUZ: SÍMBOLO DE DERROTA E SOFRIMENTO

Em 1840, P. Scudo esboça uma teologia do riso como manifestação do antagonismo entre os pólos opostos do bem e do mal que Deus coloca em nós. O riso testemunha nossa imperfeição; traduz a desordem, a tomada de consciência de um comportamento que não está em conformidade com a regra, um "desvio da norma comum". Os títulos dos capítulos são eloqüen­tes: "O riso nunca é inocente"; "O riso não significa felicidade". Ele é uma alegria maligna que manifesta nosso sentimento de superioridade diante dos defeitos de nossos semelhantes.

Feuerbach situa essa hostilidade fundamental do cristianismo em rela­ção ao riso na própria essência dessa religião - religião de sofrimento, de dor, centrada num Cristo crucificado que cada um deve imitar, "carregando sua cruz". O sofrimento nos aproxima de Deus, o riso nos desvia para os problemas do mundo. Sofrer é ter coração; rir é ser insensível. Sofrer é sentir sua dependência; rir é experimentar a plenitude, a auto-suficiência. O riso é, portanto, um rival direto de Deus, como tudo aquilo que pode nos fazer encontrar em nós mesmos a satisfação. ''A religião cristã", escreve Feuerbach, "é a religião do sofrimento. As imagens do crucificado, que ain­da hoje nos oferecem em todas as igrejas, não nos apresentam o salvador, mas o crucificado, o sofredor. As próprias auto crucificações entre os cris­tãos são a conseqüência - cujo fundamento psicológico é profundo - de sua intuição religiosa. Como é possível que uma pessoa que tem constante­mente em seu espírito a imagem de um crucificado não tenha prazer em sacrificar a si mesmo ou a outrem? ... Os cristãos mais profundos, mais autênticos, dizem que a felicidade terrestre desvia o homem de Deus, enquanto a infelicidade, o sofrimento e as doenças o aproximam d'Ele e são os únicos que convêm aos cristãos. Por quê? Porque na infelicidade o homem está à disposição, prática ou subjetivamente; na dor, ele só se importa com o que é necessário; na dor, o homem sente Deus como uma necessidade. O prazer, a alegria são motivo de expansão para o homem; a infelicidade, a dor fazem-no contrair-se  . Na dor, o homem nega a verdade do mundo."

 

C   CCXXV - "VAMOS MATÁ-LOS PELO RISO": A DERRISÁO ANTICLERICAL E ANTI-RELIGIOSA

Se os cristãos amam a tristeza e se comprazem na autoflagelação, o século XIX fornece-lhes munição para alimentar sua tristeza. Anticlericais e livres-pensadores não lhes poupam sarcasmos. Eles encontram o terreno ideal para isso: o riso, mais eficaz que os argumentos filosóficos. "Vamos matá-los pelo riso" é o slogan de Léo Taxil, um dos líderes do livre-pensa­mento. Eugene Pelletan luta para constituir o "grande partido dos riden­tes", para dessacralizar os dogmas, a Escritura e as crenças.

O riso anticlerical e anti-religioso visa liberar o espírito não somente na forma, mas também no conteúdo. Por isso, deve estar carregado de agres­sividade, é um riso guerreiro: "Fazei rir, porque o riso mata. Em seguida, podemos pensar", diz o jornal A Razão, de 25 de maio de 1902. E não se pode matar sem fazer malO riso é, pois, uma boa tática de guerra na ofensiva anti-religiosa. Al­vos não faltam: os padres, os relatos bíblicos, os mistérios da fé, o culto e até o próprio Deus, "o velho lá no alto", "o velho prefeito das nuvens", crivado de gargalhadas. É verdade que a Igreja do século XIX, por recusar qualquer compromisso com o mundo moderno, fornece munição a seus adversários. A manutenção da crença na verdade literal da Bíblia, de Adão e Eva à Arca de Noé, de Matusalém à baleia de Jonas; o apego supersticioso a detalhes ridículos, gravemente discutidos como pontos essenciais da fé pela congregação dos ritos; a atitude covarde diante da menor inovação técnica; a persistência de crenças populares nos milagres, nas aparições e nas relíquias; as excentricidades de certos eclesiásticos sujeitos a obses­sões, como o cura de Ars e seus diabos; o refinamento da casuística, da moral, do ensinamento sobre o inferno e de certas crenças gratuitas, tais como indulgências, tarifadas como contas de boticário; e outros tantos te­mas de derrisão generosamente oferecidos aos anticlericais e aos anti-reli­giosos, que não se privam de explorá-Ios.

 

CCXXXVI - OS PADRES DÃO MOTIVOS

Numerosos documentos, sermões, discursos, tratados teológicos e mo­rais dessa época contêm, aliás, seu próprio cômico, involuntário, que não necessita de nenhum comentário sarcástico para desencadear a hilaridade.

“Aceito com alegria o medalhão com os fragmentos da coluna da Flage­lação, do berço, da gruta, da agonia, do sepulcro de N.S.J.C. e da mesa da Ceia. Isso nos convém ainda mais porque, como o sabeis, nossa Igreja é dedicada ao Salvador. Não nos faltaria nada agora, para completar essa pre­ciosa coleção, se tivéssemos alguns pedaços da lança, da coroa de espinhos, do sudário, uma vez que já temos a verdadeira cruz. Também fico encantado com as relíquias dos apóstolos e com santa Margarida, que é muito venera­da neste país. Ficaria feliz ainda de ter santa Bárbara, mas não quero fazer-­vos faltar a vosso compromisso. Receberia com prazer relíquias de santa Mônica, a quem tenho particular devoção. Teria também muita satisfação de ter as de Santo Agostinho, se fosse possível encontrá-lo, mas temo que todas tenham sido enviadas à África. Santo Ambrósio é um dos meus prefe­ridos, assim como são Corentino, são Guenolé e são Paulo Aureliano .... Apreciaria poder colocar as relíquias de Santo Antônio no oco da imagem que é levada em procissão, mas não creio que isso seja possível. ... De resto, já temos são Sebastião e são Roque, que levamos em procissão e cujas relí­quias transportamos separadamente. Também gostaria de encontrar relí­quias de santo Eutrópio, bispo de Santos, mártir que levamos em procissão e ao qual tenho grande veneração".  Não estamos no século XII, mas em 1857, e o autor é um padre que estudou Teologia e Filosofia.

 

CCXXXVII- NÃO TOMOU BANHO,  VIROU SANTO!

Os diversos componentes do movimento anticlerical têm, portanto, uma parte fácil para ridicularizar a Igreja e a fé, em geral. Jornais satíricos como La Calotte ou Os Corvos, comédias como A sotaina ou Um calo tino emba­raçado ridicularizam o clero. Os dogmas cristãos são reduzidos à derrisão, em particular a encarnação, a trindade, a transubstanciação, a imaculada concepção. A Bíblia é uma fonte inesgotável de brincadeiras, o que dá lugar à redação de numerosos livrinhos cômicos, como a Bíblia brincalhona e a Bíblia divertida para crianças grandes e pequenas. O culto e a prática são objeto de zombaria sem fim. A vida dos santos e, sobretudo, das santas é pretexto para brincadeiras pornográficas. Quando Bento Labre (1748-1783), o asce­ta do século XVIII que viveu em completa pobreza e total sujeira, é canoniza do, em 1881, desencadeia-se uma imensa gargalhada em toda a imprensa de livre-pensamento, a propósito do "piolho canonizado", do "venerável imundo", do "porcalhão lazarento", do "novo Daniel caído no fosso das pulgas", do "mendigo coberto de vermes", da "bola de sebo", da "mesa de pus", do "miasma voluntário", do "excremento fedido". Compõem-se pre­ces de invocação, tal como esta: "Senhor, que permitistes a vosso servo Bento José Labre a graça insigne de viver como um porco, fazei com que possamos sempre entreter em nossos corpos uma numerosa sociedade de bichinhos nojentos que nos conduzirão à vida eterna!"

 

CCXXXVIII - O CLERO CONTRA ATACA

Às vezes, o clero contra-ataca. Como já o haviam demonstrado Pascal e outros, o uso da ironia é lícito contra os pecados e contra os inimigos da fé. As campanhas de caricatura contra Darwin, acompanhadas de sarcasmo e enviadas para o endereço do homem-macaco, trazem um vigor cômico qua­druplicado pela indignação. Muitos dos sermões e tratados apologéticos estão cheios de invectivas zombeteiras, nunca compassivas. Nesse clima de confronto, conferências contraditórias são organizadas entre os dois cam­peões, um defendendo a religião, o outro, o livre-pensamento

O verdadeiro vencedor é o riso, que reúne clericais e anticlericais numa sã alegria, que ultrapassa as apostas do início. Dessas lutas humorísticas, viris e um tanto ridículas, nasce uma espécie de cumplicidade entre orado­res e espectadores. O debate transforma-se em um tipo de jogo, de comé­dia, uma prefiguração dos duelos entre dom Camilo e Peppone. Rir mutua­mente do outro é ainda criar um vínculo com ele.

Mas essas reuniões são malvistas pela hierarquia católica, que se es­candaliza com tal mistura de risos. O riso destruidor de ídolos é filosófico, metódico. Mas não é o único.

Nunca, até então, os filósofos estiveram tão interessados nesse fenômeno. Quando Bergson publica, em 1899, na Revista de Paris, três artigos que reú­ne, em seguida, em um volume intitulado O riso, ele se situa numa corrente que, desde Hegel, consagrou, ao longo do século, dezenas de volumes a essa questão. No século XIX, o riso se transforma num poder que ataca os ídolos. Ele adquire também uma dimensão filosófica, tornando-se um obje­to de estudo muito sério para os filósofos.

 

CCXXXIX - FILOSOFIA DO RISO E RISO E RISO FILOSÓFICO NO SÉCULO XIX

Os debates sobre o riso. Do Grotesco ao absurdo.

O século XIX não é uma época particularmente feliz. Para a massa de proletários submetida a um tratamento exaustivo degradante, desti­nados a uma morte prematura; para os burgueses enraizados em seus preconceitos austeros e obcecados por seus negócios; para a classe média, com a vida ainda difícil; para um campesinato sempre confrontado com a concorrência de produtos americanos; por povos assolados pela febre re­volucionária e pelos demônios do nacionalismo. De fato, a hora não é de hilaridade.

Contudo, o riso existe, sobretudo sob a forma satírica, o riso de com­bate, como já vimos. O riso seduz, intriga, desestrutura, provoca a cólera ou a admiração. Para uns, ele se torna regra de vida, medida e sentido da existência, quando o sentimento do absurdo o eleva acima de todas as ilu­sões. Para outros, é objeto de estudo, irritante ou sedutor, de acordo com o caso, que cada um integra em seu sistema de conhecimento e em sua visão de mundo. Não há filósofo importante que não tenha abordado esse pro­blema no século XIX, sinal de ascensão do riso à categoria dos comporta­mentos fundamentais.

 

CCXL - HEGEL, A SERIEDADE DIALÉTICA

Hegel abre o século com uma nota francamente negativa. É em Curso de estética que ele melhor expressou desconfiança em relação ao riso. Tendo ainda na mente a troça onipresente do século XVIII, ele quer restabelecer a seriedade, isto é, a crença no caráter essencial das coisas. A ironia lhe é insuportável, porque ele se prende a tudo o que é nobre, divino e sério; ela arruína a essencialidade e torna impossível qualquer construção intelec­tual. Segundo ele, o ironista instala-se no lugar de Deus, do Espírito e "lan­ça olhares condescendentes sobre o resto da humanidade, que ele decreta ser limitada e vulgar porque insiste em ver, no direito, na preocupação com boas maneiras etc., alguma coisa de consistente, obrigatório e essencial".

O ironista nega a existência de um "em-si" e afirma a "frivolidade de tudo o que é positivo, ético e substancial em si, a nulidade de tudo o que é objetivo e de tudo o que vale em si e por si. Tudo lhe parece vão e nulo, e por essa razão ele é uma espécie de caixa vazia". Além do mais, inteiramente centrado em sua harmonia interior, o ironista recusa a ação, o que "engendra a forma doentia da alma e seu langor nostálgico". O irônico rebaixa tudo, destrói tudo e não tem caráter: "O irônico, como individualidade genial, con­siste no auto-aniquilamento de tudo o que é soberano, grande e nobre .... Isso implica, aliás, que não somente o que é direito, conforme aos bons costumes e verídico não deve ser levado a sério, mas que toda superioridade, toda exce­lência, se reduz a nada quando se manifesta em indivíduos, caracteres, ações; ela se contradiz e se aniquila, restando apenas a ironia em si mesma".

 

CCXLI- KIERKEGAARD, O RISO DO DESESPERO

O espírito satírico não seduz Hegel nem um pouco. Em uma breve revisão da literatura romana, que levou essa faculdade a seu apogeu, ele lamenta que até mesmo Horácio "se contente em tornar ridículo o que é mau". Quanto a Luciano, que trata os deuses com "alegre desenvoltura", ele o julga "tedioso" e constata que, "apesar das zombarias", a beleza dos deuses gregos sobreviveu. A seus olhos, a sátira é um gênero esgotado, uma vez que não tem princípios firmes, e, quando não se crê em nada, a ironia não tem mais razão de ser.

Soren Kierkegaard não é mais reputado por sua jovialidade. Contudo, tem uma opinião muito positiva da ironia e do humor. A ironia é compreen­dida por ele no sentido socrático, como um meio não de destruir valores, mas de experimentá-l os. Ela "reforça o que é inútil na vaidade" e permite resgatar o que é essencial. É uma espécie de fogo purificador, um teste, uma prova. A santa ironia deveria ser um privilégio do místico, daquele que se fixa numa realidade superior à do homem, e só ele deveria ter direito de zombar das opiniões humanas.

A ironia permite passar para o estado ético. Em seguida, o humor ad­quire relevo e admite ascender ao estado religioso: "A ironia é uma cultura específica do espírito e segue a imediatidade. Primeiro vem o homem ético, depois o humorista e, finalmente, o homem religioso". De fato, o estado ético permanece imperfeito, já que tenta basear a existência humana apenas nos recursos humanos. O humorista ultrapassa esse estágio porque tem cons­ciência do caráter problemático do mundo; ele sente que há uma realidade superior, uma transcendência que ele não compreende e que o leva a distan­ciar-se do real. Ele não é nem angustiado nem desesperado, mas permanece suspenso, incerto, em estado provisório, reduzido a "constatar o absurdo". Só o homem religioso, que atinge o conhecimento do divino, ultrapassa esse estágio. O humor é, assim, via de acesso à seriedade absoluta, Deus.

 

CCXLII- SCHOPENHAUER

É a Arthur Schopenhauer, outro alegre companheiro da filosofia, que devemos uma análise mais aprofundada do riso. Aquele que Éric Blondel apelidou de "o mais sinistro dos filósofos ridentes'', o homem que escre­veu que "somos alguma coisa que não deveria existir", interessou-se muito pelo riso. O pessimismo não é inimigo do riso, ao contrário. Quanto mais o mundo parece uma realidade absurda e deslocada, mais se deve rir dele. Schopenhauer afirma: "Nessa existência em que não sabemos se devemos rir ou chorar, é bom reservar espaço para a brincadeira", e, de fato, não lhe falta humor, considerando ainda que "a vida é um negócio em que o benefí­cio está longe de cobrir os custos".

Aprofundando sua teoria do riso como descoberta súbita de uma in­congruência, ele explica essa sensação agradável pelo fato de o riso residir numa confrontação entre a intuição e o pensamento abstrato, que se resol­ve pela vitória da intuição; ora, "a intuição é o conhecimento primitivo, inseparável da natureza animal; nela é representado tudo o que dá satisfa­ção imediata ao desejo; ela é o centro do presente, do regozijo e da alegria, e nunca permite um esforço penoso" .

Se o riso é próprio do homem, é porque faltam ao animal a razão e os conceitos gerais. O que não impede que o cão exprima sua alegria por uma "excitação tão expressiva, tão benevolente, tão visceralmente honesta. Como essa saudação, que a natureza lhe inspira, forma um feliz contraste com as reverências e as caretas polidas dos homens!" Reencontramos aqui a cauda do cão de Tobias, que tanto desgostava o padre Garasse ... Para Schopenhauer, agitar a cauda é um sinal de alegria bem mais natural que o esgar do sorriso.

 

CCXLIII - SÓ AS PESSOAS SÉRIAS SABEM RIR?

Ele prossegue com um comentário judicioso, ou seja, que só as pessoas sérias sabem rir: "Quanto mais um homem for capaz de uma inteira gravi­dade, mais franco será seu riso. Os homens cujo riso é sempre forçado e afetado têm um fundo moral e intelectual medíocre". Para rir bem, é preciso ser um homem de convicção, acreditar firmemente em alguma coisa e constatar, de repente, que se estava enganado. Com certeza, esse riso é amargo: "O que chama­mos de gargalhada zombeteira parece mostrar triunfalmente ao adversário vencido quanto os conceitos que ele acalentara estavam em contradição com a realidade que agora se revela a ele. O riso amargo que nos escapa, sem querer, quando descobrimos uma realidade que destrói nossas esperanças mais profundas é a expressão viva do desacordo que percebemos, nesse momento, entre os pensamentos que nos inspiraram uma tola confiança nos homens e na fortuna e a realidade que agora está diante de nós".  Aquele que não leva nada a sério, que não crê em nada e que ri de tudo é um patife vulgar, cujo riso não tem sentido. De qualquer forma, só há dois tipos de riso: o tolo e o triste. Schopenhauer escolheu o segundo e censura seus contemporâneos por terem optado pelo primeiro: "Palavras nobres, sentido vil", esse é o lema da admirável época em que vivemos; "aquele que hoje chamamos de humorista, em outros tempos chamaríamos de polichinelo" .

 

CCXLIV-OPOSIÇÃO ENTRE HUMOR E IRONIA

Schopenhauer acusa sua época de desonrar o termo "humor": "A pala­vra "humor" foi emprestada pelos ingleses para distinguir e designar uma espécie muito particular de risível, que se aproxima do sublime e que, de início, observamos neles. Mas esse termo não estava destinado a qualificar nenhum tipo de brincadeira nem farsa, como os letrados e os sábios o fazem hoje, geralmente, na Alemanha". Para ele, o humor é o inverso da ironia. Enquanto esta última é a brincadeira que se esconde atrás do sério e visa alguém, o humor é o sério que se esconde atrás do humor e visa o próprio humorista. Schopenhauer tem consciência de viver em úm mundo que já é "humorístico", isto é, onde todos riem de qualquer coisa e cuja hilaridade é expressão de idiotice. O riso autêntico é aquele do filósofo que constata o nonsense da vida confrontado à vontade de viver, "o insuportável conflito do querer-viver e da falta de justificativa para a existência humana"

 

CCXLV - NIETZSCHE E O RISO DO SUPER HOMEM

Se o riso de Nietzsche não é o riso desesperado de Schopenhauer, pro­vém, contudo, da mesma constatação: o homem descobre sua solidão em um universo que não tem um sentido preestabelecido. Enquanto acredita­mos, durante séculos, que havia um piloto no comando que nos guiava para um destino conhecido, Nietzsche nos ensina que "Deus está morto", ou antes, que ele nunca existiu e que estamos a bordo de um barco à deriva que não vai a lugar nenhum. É, de fato, para morrer de rir!

Aliás, é o que "Zaratustra, o Ridente", espera: morrer de rir à força de ver os homens apegados a suas velhas crenças. Os próprios deuses morrem de rir:

"Foi o que aconteceu quando um deus pronunciou a palavra mais ímpia: 'Só há um Deus! Tu não terás outros deuses diante da minha face!' Uma velha barba de deus, um deus colérico e ciumento foi assim esquecido. Então todos os deuses começaram a rir e a gritar, agitando-se em seus tronos: 'Não é precisamente aí que reside a divindade, quer haja vários deuses, quer não haja deus algum?"'

O riso de Zaratustra percorre o mundo, transtornando os ídolos: "Eu lhes ordenei que rissem de seus grandes mestres da virtude, de seus santos, de seus poetas e de seus salvadores do mundo. Ordenei-lhes que rissem de seus sábios austeros .... A pequenez do que eles têm de melhor, a pequenez do que eles têm de pior, era disso que eu ria. Meu sábio desejo brotava de mim com gritos e risos" . Esses risos ressoam "o crepúsculo dos ídolos", e "ri melhor quem ri por último".

 

CCXLVI -O RISO MATA E DESTRÓI

O grande sopro da gargalhada niilista atravessa a obra de Nietzsche.

Esse riso destrói: "Não é pela cólera, é pelo riso que se mata". Esse riso aniquilador talvez seja o futuro do mundo, depois do grande Carnaval uni­versal, depois do apocalipse de hilaridade: "Nós estamos prontos, como nunca, para um Carnaval em grande estilo, para as gargalhadas e para a louca alegria de uma Terça-Feira Gorda do espírito; para os crimes transcen­dentais da suprema idiotice e da zombaria aristofanesca que bafeja o uni­verso. Talvez descubramos então, precisamente, o domínio de nossa inven­ção, aquele em que ainda podemos ser originais, por exemplo, como parodistas da história universal e como polichinelos de Deus; talvez, se nada mais tem futuro hoje, nosso riso, justamente ele, o tenha! "

O riso é "um remédio contra a vida": é isso que lhe dá grandeza, segun­do Nietzsche. Enquanto o "mestre da moral" "não quer de forma alguma que riamos da existência nem de nós mesmos nem dele", o super-homem proclama: 'aprendei a rir de vós mesmos, como é preciso" e "toda verdade que não contém ao menos uma hilaridade nos parece falsa" ... "porque no riso tudo o que é mau se encontra ao mesmo tempo santificado e fran­queado por sua própria beatitude" e "rir é regozijar-se com um prejuízo, mas com elevada consciência".  O riso está além do bem e do mal; ele purifica aquilo que toca. vós, homens superiores, aprendei a rir! "

 

CCXLVII - RIR PARA NÃO CHORAR

Esse "belo humor" (Heiterkeit) pregado por Nietzsche se enraíza em nosso sofrimento: "O homem sofre tão profundamente que precisou inven­tar o riso. O animal mais infeliz e mais melancólico é,  o mais alegre". Estamos diante de nosso próprio absurdo. "Como o homem pode sentir prazer com o absurdo? Isso é tão remoto, na verdade, quanto há o riso no mundo, eis a questão. " O riso e o pessimismo caminham juntos, entretêm-se mutuamente. É porque tomamos consciência de nossa condi­ção desesperada que podemos rir seriamente, e esse riso nos permite su­portar essa condição. É por isso que "é preciso aprender a rir, meus caros amigos, se quereis permanecer absolutamente pessimistas; talvez então, sabendo rir, um dia mandareis para o diabo todas as consolações metafísi­cas, a começar pela própria metafísica".

Evidentemente, esse riso de qualidade não tem nada de vulgar: "Quando o homem ri a bandeiras despregadas, ele ultrapassa todos os animais em vulgaridade", mas, "quanto mais o espírito se torna leve e seguro de si mes­mo, mais o homem desaprende o riso barulhento; em compensação, ele é tomado por um sorriso mais intelectual, símbolo de seu espanto diante dos numerosos encantos escondidos nesta maravilhosa existência" . Maravilho­sa existência? Pensamos que fosse o contrário. É que, segundo Nietzsche, "há mais cômico do que trágico no mundo; rimos mais do que nos comovemos".

 

CCXLVIII - O HOMEM RI

A esperança, se é que existe, reside na aliança do riso e da sabedoria, que constituirá o "alegre saber": "Talvez ainda haja futuro para o riso! Isso acontecerá quando a máxima 'a espécie é tudo, o indivíduo é nada' for in­corporada à humanidade e cada um puder, a cada momento, atingir esse último alívio, essa última irresponsabilidade. Talvez, então, o riso se alie à sabedoria, talvez só reste o 'alegre saber'''.

O riso pessimista de Nietzsche desemboca, portanto, em um grande "sim conferido à existência", porque "a vontade pessimista não teme negar-se a si mesma, uma vez que se nega com alegria". O riso e o silêncio, isso é a vida:

É belo calar-se junto, Mais belo é rir junto, ...

Se eu fizer bem, calaremos, Se eu fizer mal, riremos.2

É também a lição de Humano, muito humano, apreendida por Pirro: o ancião: 'Ai de mim, meu amigo! Calar e rir. É essa, agora, toda a tua filoso­fia?" Pirro: "Ela não seria a pior".

A obra de Nietzsche é permeada de aforismos sobre o riso. Leves em todos os sentidos, são extravagantes e parecem, às vezes, contradizer-se. Dão uma impressão geral de nostalgia e uma vontade de rir de tudo e contra tudo, porque o riso é a única tábua de salvação, é a redenção: "Eu canonizei meu riso. Não encontrei, em nossos dias, outra pessoa tão forte para fazer isso". O homem, atormentado por séculos de medo, opressão moral e so­cial, aspira ao riso libertador: "O ser encarquilhado, tremendo de medo, pára e desabrocha lentamente - o homem ri".

 

CCLXIX - BERGSON E A MECANICA SOCIAL DO RISO

Hegel não quer rir, Schopenhauer não pode impedir-se de rir, Nietz­sche quer rir, mas nenhum dos três, na realidade, é alegre. Bergson, por sua vez, vê os outros rirem e se interessa pelo fenômeno como técnico. Procura desmontar o mecanismo sacudindo o homem que ri: como isso funciona? Ele se debruça muito cedo sobre a questão, pois, jovem professor de Filoso­fia aos 25 anos, faz, em 18 de fevereiro de 1884, em Clermont-Fenand, uma conferência intitulada "O riso. Do que rimos? Por que rimos?". Formado na Escola Superior ao mesmo tempo que Durkheim, ele também é marcado pela dimensão social dos comportamentos humanos. Em 1897, Durkheim publica O suicídio, mostrando que esse gesto é conseqüência do rompimen­to do feixe das solidariedades sociais. Três anos mais tarde, Bergson publica O riso, no qual, de certa forma, este é a contrapartida do suicídio: é uma reação inconsciente que visa manter a homogenia do tecido social sancio­nando os desvios de comportamento.

O pequeno livro de Bergson surge no seio de uma polêmica sobre o riso.

 

CCL-O ASSASSINO VIAJA JUNTO RSRSRSRS

O "humorista", como ele o chama, "brinca de bom grado com assuntos que consideramos graves e disserta gravemente sobre coisas que parecem levianas. Porque, para ele, tudo na vida - até a própria vida - é, ao mesmo tempo, divertido e grave, leve e sério. O humorista ... zomba da barca da existência que se movimenta ao acaso, mas sua brincadeira não tem nada de insultuoso para os passageiros: ele está a bordo como eles".

Esse comportamento é, em primeiro lugar, a rigidez dos gestos, que traduz uma mecanização da atitude. A vida em sociedade exige de nós uma atenção sempre alerta e leveza de espírito e de corpo para nos adaptarmos às neces­sidades do momento. "Toda rigidez de caráter, de espírito e mesmo de cor­po é suspeita para a sociedade, porque é sinal de uma atividade adormecida e também de uma atividade que se isola, que tende a separar-se do centro comum em torno do qual a sociedade gravita, enfim, de uma excentricida­de. Entretanto, a sociedade não pode intervir nesse caso com repressão material, porque não tem alcance material. Ela está diante de qualquer coi­sa que a ameace, quando muito um gesto. É, portanto, com um simples gesto que ela responde. O riso deve ser algo parecido com isso, uma espécie de gesto social. Pelo medo que inspira, ele reprime excentricidades, man­tém em vigília e em contato recíproco certas atividades secundárias que correriam o risco de adormecer ou isolar-se. Enfim, o riso torna leve tudo o que possa restar de rigidez mecânica na superfície do corpo social."

 

CCLI- DA BABAQUICE NASCE O RISO

Daí a famosa fórmula: o cômico é "o mecânico colado sobre o vivo". Ela se aplica tanto ao comportamento humano quanto aos fenômenos naturais que poderiam ser reduzidos ao mecânico. Bergson ilustra isso com a história de uma senhora a quem Cassini convida para observar um eclipse. Como chega atrasada, ela declara candidamente: "Senhor Cassini, poderia recomeçá-Io para mim?". O automatismo do comportamento é fonte do cômico, desde que se preste atenção nele ou numa regulamentação automática da sociedade, como vemos neste comentário a propósito de um crime cometido num trem: "O as­sassino, depois de ter acabado com a vítima, desceu do trem na contramão, violando regulamentos administrativos". O disfarce faz parte da transformação que rebaixa um ser humano ao estado de máquina, simplificando sua aparência, reduzindo-a a alguns traços que levam ao extremo a lógica de um caráter. Tudo o que, no aspecto exterior, contribui para desumanizar ou para evocar um dis­farce é, portanto, cômico. O exemplo dado por Bergson demonstra a que ponto ele é tributário de sua época: "Por que rimos de um negro? Parece uma pergunta embaraçosa, pois psicólogos como Hecker, Kraepelin, Lipps responderam-na de maneira diferente. Não sei, no entanto, se algum dia ela não foi respondida diante de mim, na rua, por um simples cocheiro que chamava de 'mal lavado' o cliente negro sentado em seu veículo. Mal lavado! Um rosto negro seria, pois, em nossa imaginação, um rosto salpicado de tinta ou sujeira" "Rimos toda vez que uma pessoa nos dá a impressão de alguma coisa":

Sancho Pança lançado no ar como um balão, Münchhausen transformado em bala de canhão. "Uma situação é sempre cômica quando pertence, ao mesmo tempo, a duas séries de acontecimentos absolutamente indepen­dentes e pode ser interpretada de duas formas totalmente diferentes": é o qüiproquó.

 

CCLII - O TROTE SOCIAL

Contudo, "o riso é verdadeiramente uma espécie de trote social". Nunca é um prazer puramente estético. Ele comporta "a intenção inconfessada de humilhar e, dessa forma, é verdade, de corrigir". Sanciona mais a insociabili­dade do que a imoralidade. O riso, que é uma sanção, não é nem sentimental nem emocional. "O riso é, antes de tudo, uma correção. Feito para humilhar, ele deve dar à pessoa que o motivou uma impressão penosa. A sociedade se vinga, por meio dele, das liberdades que tomam com ela. Ele não atingiria sua finalidade se tivesse a marca da simpatia e da bondade."

 

CCLIII - O RISO E´COMO O DESEJO: NÃO SE EXPLICA

Sancionando tudo o que se afasta da norma social, o riso é instrumento de conformismo, e o cômico evolui, necessariamente, com a cultura am­biente.

Bergson também estuda as diversas formas do cômico verbal, do troca­dilho à paródia. É preciso reter, especialmente, suas definições de ironia e de humor, que ele concebe como termos opostos: a ironia consiste em falar do que deveria ser, fingindo crer que é o que é, e o humor trata o que é como se fosse o que deveria ser. De onde se desliza, aliás facilmente, para o cinismo ...

Bérgson diz : "Não há fato mais banal e mais estudado que o riso, não há nada que mais tenha excitado a curiosidade vulgar e a dos filósofos e sobre o que se tenha recolhido mais comentários e construído mais teorias; com isso, não há nada que permaneça mais inexplicável. Seremos tentados a dizer, como os céticos, que é preciso ficar feliz em rir e não procurar saber por que rimos, sobretudo porque a reflexão mata o riso, e seria contraditório descobrir-lhe as causas".

 

CCLIV - FREUD: O RISO COMO ECONOMIA DE ENERGIA E O HUMOR COMO DESAFIO

Se as causas do riso permanecem tão misteriosas, não seria porque elas se situam no nível do inconsciente? O próprio Bergson, afirmando que "o cômico é inconsciente" e que o riso é incontrolável, nos convida a inquirir nessa direção. Sigmund Freud interessa-se pela questão e, já em 1905, publica, em Viena, A palavra espirituosa e suas relações com o inconsciente.42 O conteúdo da obra ultrapassa em muito os limites estreitos do título. Freud testemunha, de início, a importância adquirida pelo sentido do cômico na vida contemporânea e, mais particularmente, pela palavra espirituosa. "Po­der-se-ia fazer valer o encantamento particular e o fascínio exercidos pelo espírito em nossa sociedade. Uma palavra espirituosa original tem quase o efeito de um acontecimento de ordem geral; ela é divulgada de boca em boca, como a mensagem da mais recente vitória."

Um exemplo disto é quem 1972 durante a Ditadura o governo criou o slogan fascista: “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Ziraldo, replicou com  a frase:”O último a sair apaga a luz do aeroporto.” E Destruiu toda a propaganda do governo.

 

CCLV - NEM  TODO MUNDO TEM TALENTO PARA CRIAR  RISO E  HUMOR

Ora, em razão da "es­treita solidariedade das diversas manifestações psíquicas", o estudo da palavra espirituosa permite esclarecer outros domínios da personalidade. Nem todo mundo tem espírito; isso requer aptidões particulares, ligadas à ne­cessidade de comunicar. Aliás, a palavra espirituosa exige cumplicidade do outro; trata-se de um gesto social, do qual uma das qualidades essenciais é a concisão. Sua forma superior é o humor, que obtém o máximo resultado com a maior economia de meios. Porque o principal obstáculo a um efeito cômi­co é a existência de um afeto penoso: dor ou qualquer mal, psíquico ou moral. "Ora, o humor nos permite atingir o prazer, apesar das dores e das dificuldades que deveriam perturbá-lo; ele suplanta a evolução de seus afetos, coloca-se no lugar deles".  Freud sempre retoma ao condenado à morte que é levado à forca na segunda-feira de manhã e que declara: "Eis uma semana que começa bem!" Ele circunscreve, de alguma forma, seu abatimento, sua dor psíquica, seu medo: "O prazer do humor nasce, então, não saberíamos dizê-lo de outra forma, à custa do desencadear de desespe­ro que não se produziu; ele resulta da economia de um desgaste afetivo". Por outro lado, o humor não tem necessidade de um parceiro: o humorista pode usufruir sozinho seu humor.

 

 

CCLVI - O HUMOR NOS POUPA A CÓLERA

Freud cita muitos exemplos de "humor de colete", dentre os quais mui­tos já se encontram em Montaigne: é o que ele chama de "humor em grande estilo". Uma das variedades mais eficazes de humor é, no entanto, o "hu­mor de piedade poupada", do qual ele cita exemplos de Mark Twain, que conta anedotas sobre seu irmão: empregado em um canteiro de obras pú­blicas, este é lançado longe pela explosão antecipada de uma mina ... e lhe descontam meio dia de salário porque ele "estava longe de seu canteiro de obras". Nosso humor cotidiano, na maior parte das vezes, é desse tipo: ele nos economiza a cólera.

O humor é, assim, um processo de defesa que impede a eclosão do desprazer. Ao contrário do processo de recalque, ele não procura subtrair da consciência o elemento penoso, mas transforma em prazer a energia já acumulada para enfrentar a dor. Cômico, palavra de espírito, humor; essas três fontes de riso repousam sobre o desejo de poupar, sobre a satisfação de fazer uma economia. A pessoa que ri se poupa, de alguma forma, e ela ri por isso, ao passo que o homem triste se enfraquece. Essas conclusões coincidem, em parte, com recentes estudos psicofisiológicos sobre o cará­ter benéfico do riso sobre a saúde.

 

CCLVII - NÃO TEMA:O MUNDO É UMA BRINCADEIRA.

Dentre o arsenal de defesas psíquicas contra a dor, Freud enumera a neurose, a loucura, o êxtase, a embriaguez, o voltar-se sobre si mesmo. O humor é a arma mais sublime porque, ao contrário das outras, mantém a saúde psíquica e o equilíbrio e é fonte de prazer. Pelo humor, eu triunfo, eu sou invulnerável: "O humor não se resigna, ele desafia, implicando não apenas o triunfo do eu mas também o princípio do prazer, que assim encon­tra o meio de se afirmar apesar de realidades exteriores desfavoráveis".  Ele completa essa explanação colocando o acento psíquico no superego, o qual lhe permite controlar o eu, que ele trata como criança para lhe dar segurança: "O humor parece dizer: "Olha! Eis o mundo que te parece tão perigoso! Uma brincadeira de criança! O melhor é, pois, brincar!"

 

CCLVIII - RIR PARA DEMOLIR

Ora, com exceção do caso particular do humor, o ridente dificilmente é aquele que faz rir - a não ser que ria das próprias blagues. Aquele que procura fazer rir utiliza conscientemente meios visando a um fim, e muitas vezes esse fim não é o riso; o riso é apenas uma transição. Quando zombo de alguém, meu objetivo é humilhar, e por isso faço com que riam dele. Todos os tipos de ironia e de zombaria visam a um objetivo que se situa além do riso. Essa finalidade é mais reveladora das mentalidades do que o riso em si mesmo.

 

CCLIX - O RISO, CAVALO DE TROIA DO INFERNO, E A DESFORRA DO DIABO

O demônio está no centro do grotesco romântico. Eis de novo, por­tanto, Satã, Belzebu, mais vivo e mais gozador do que nunca. Depois de cada falsa saída, ele ressurge, salta de sua caixa para assustar e para fazer rir.  As vigílias de Bonaventura explicam que o riso é a grande desforra do diabo, seu cavalo de Tróia. O narrador conta o seguinte mito: Satã envia o riso à terra, disfarçado de alegria, e os homens, evidentemente, acolhem-­no de braços abertos; é então que ele retira a máscara e revela sua verda­deira face, que é a zombaria, a chalaça, a sátira - essa maneira depreciati­va de ver o mundo e os outros, isto é, de desprezar a criação. E, com essa zombaria, o espírito diabólico tem sua desforra sobre Deus: "Não há meio mais poderoso que o riso para opor-se a todos os insultos do mundo e da morte! O inimigo mais poderoso fica horrorizado diante dessa máscara satírica, e a infelicidade recua diante de mim se eu ouso ridicularizar! E o que mais além do diabo, da zombaria, esta terra, com seu sentimental satélite, a Lua, merece?!"

 

CCLX- VINGANDO O MUNDO

O riso irônico é um meio de se vingar do mundo. Tem sua função libertadora. Libertadora porque, ago­ra, o mundo provoca medo, e só o humor irônico pode livrar-nos do medo. O mundo grotesco romântico é assustador, monstruoso. Percebê-lo por meio do riso faz com que fique suportável. O próprio diabo, o diabo romântico, é grotesco, já que é, ao mesmo tempo, terrível e bufão, amedrontando e fa­zendo rir. É, por exemplo, o diabo de Victor Hugo, que é uma força destrutiva, mesmo que, em Prefácio de Cromwell, ele seja associado à bufonaria e que, em O fim de Satã, ele seja "recuperável". "Entre as numerosas encarnações do diabo na obra de Victor Hugo, ele não é alguém que provoca o riso", escreve Max Milner. Contudo, ele está presente em Os miseráveis, com" esse lúgubre riso do forçado, que é como um eco do riso do demônio". Max Milner comenta, em um artigo intitulado "O diabo como bufão": As afini­dades entre o diabo e o bufão vêm de muito longe, mais do que o nascimento do diabo cristão, pode-se dizer". Os românticos cultivam esse aspecto: em Segundo Fausto, Mefisto aparece como bufão. Mas, sobretudo, o diabo representa o papel de guia, de comentador, de espectador irônico da comé­dia do mundo. Ele mostra ao homem a patética agitação da humanidade.. Em 1831, Balzac, em A comédia do diabo, faz o diabo dizer: "A história é uma brincadeira permanente cujo sen­tido nos escapa" .

CCLXI - OS HOMENS SÃO PIORES QUE OS DIABOS

Para melhor sublinhar o aspecto derrisório da existência, os diabos de­sempenham, eles próprios, a comédia humana, no inferno, para distrair os condenados provando-Ihes que eles não perderam grande coisa. É o que ocorre em Gallerie der Teufel, de Cranz, e em Panhypocrisiade, de Nipomucene Lemercier, em 1819: vemos aí os demônios representando uma comédia sobre a vida de Charles Quint e mostrando que os homens são melhores que os diabos em matéria de perversidade.

 

CCLXII - O RISO É SATÃNICO, LOGO, HUMANO

"O riso é satânico; logo, é profundamente humano", escreve Baudelai­re em seu tratado Da essência do riso, que é quase um estudo psicanalítico do fenômeno. Diabólico e humano, o riso não é, de forma alguma, divino. A prova: Jesus nunca riu.                 .

Ficamos surpresos ao ver Baudelaire retomar a argumentação e os pró­prios termos de Bossuet. Mas ele lhes dá logo um tom muito pessoal. O riso é de certa forma a semente da famosa maçã do jardim do Éden, o fruto diabólico pelo qual Satã se vinga ao mesmo tempo de Deus e dos homens. O riso torna-se um instrumento de sua vingança, pois exprime a vaidade humana, o orgulho da criatura: "O que seria suficiente para demonstrar que o cômico é um dos claros sinais satânicos do homem e uma das inú­meras sementes contidas na maçã simbólica, é um acordo unânime dos fisiologistas do riso sobre a principal razão desse monstruoso fenômeno . ... O riso, dizem eles, vem da superioridade. Idéia satânica não o foi jamais. Orgulho e aberração! ... Notai que o riso é uma das expressões mais fre­qüentes e mais numerosas da loucura".

 

CCLXIII - NEM RISOS NEM LÁGRIMAS NO PARAISO TERRESTRE

Nem riso nem lágrimas existiriam no paraíso terrestre, visto que os dois exprimem a dor; mas, se o "homem morde com o riso, '" ele seduz com as lágrimas". O riso exprime o mal e a agressão; ele deforma o rosto dos maus quando se transforma em ricto. A escola romântica, ou, melhor di­zendo, uma das subdivisões da escola romântica, a escola satânica, com­preendeu bem essa lei primordial do riso. '" Todos os descrentes dos melo­dramas malditos, danados, marcados por um ricto que vai de orelha a orelha, estão na ortodoxia pura do riso. De resto, são, quase todos, netos legítimos ou ilegítimos do célebre viajante Melmoth, a grande criação satânica do reverendo Maturin." Quanto ao riso vulgar: "Qual é o sinal mais marcante de debilidade do que uma convulsão nervosa, um espasmo involuntário comparável ao espirro e provocado pela visão da infelicidade do outro?"

De qualquer forma, o sábio não ri, e "os livros sagrados, sejam de que nação forem, não riem jamais". O riso, o riso diabólico, nos vem com a inteligência, que redobra nosso sentimento de superioridade, e é por isso que os motivos do cômico aumentam conforme o grau de civilização. Quan­to mais o homem é civilizado, mais ele tem razões de se crer superior e mais toma consciência do abismo entre sua grandeza e sua miséria; ora, "é o choque perpétuo entre esses dois infinitos que se desprende do riso".

 

CCLXIV- FORTE É QUEM RI

A força do riso está em quem ri e não no objeto do riso." Nada é cômi­co em si mesmo. É a intenção maldosa do ri dente que vê o cômico; aquele que ri não é o homem que cai, a não ser que este tenha adquirido "a força de se desdobrar rapidamente e assistir como espectador desinteressado aos fenômenos de seu eu. Mas isso é raro". Não há risos inocentes? O riso da criança? Para isso seria preciso provar que as crianças são seres inocentes. Olhai-as: são "projetos de homens, isto é, satãs em embrião". Por outro lado, não se deve confundir alegria com riso.

Como se vê, é difícil contentar Baudelaire. Ele conta que se torceu de rir diante das palhaçadas de um palhaço inglês. Era "uma embriaguez de riso". Para ele, esse espetáculo atinge, de fato, o "cômico absoluto", que emana de artistas superiores e que reside no grotesco: as criações fabu­losas, os seres cuja razão e cuja legitimação não podem ser retiradas do código comum provocam uma hilaridade louca, excessiva, que se traduz por dilaceramentos e desmaios intermináveis". O grotesco engendra o riso - ao menos o de Baudelaire - porque ele atinge a essência das coisas, desvela a natureza profunda do ser. O grotesco é um mergulho violento no mundo das aparências, um buraco no cenário que revela, de modo fulgurante, a derrisória e satânica realidade. Ele se abre para "qualquer coisa de profundo, de axiomático e de primitivo que se aproxima muito mais da vida inocente e da alegria absoluta que o riso provocado pelo cômico de costumes".

 

CCLXV - O POETA BAUDELAIRE E OS POBRES

Baudelaire não é apenas teórico do riso. Atrás de seu rosto atormenta­do, há um espírito capaz de fazer humor, e ele prova isso na política. En­quanto muitos poetas românticos se engajam seriamente nos problemas de sua época, ele se recusa a tomar posição e se refugia atrás de uma cortina de fumaça humorística, apagando as pistas e assumindo várias linguagens. De maneira desconcertante, critica e louva todo mundo: socialistas, republica­nos, bonapartistas ... Ele reprova Proudhon por não ser um dândi: "Com a pena na mão, era um bugre", escreve a Sainte-Beuve; "mas ele não era, não seria jamais um dândi, mesmo no papel! É isso que nunca perdoarei nele". Como não ver nisso uma declaração de humor?

As relações de Baudelaire com as classes populares e a burguesia são marcadas por esse espírito cáustico, esse grito provocador: "Importunemos os pobres!", ao qual responde, como um eco, um século mais tarde, a após­trofe de Jean Gabin em A travessia de Paris: "Uns porcalhões, os pobres!" Expressões de rude ternura que, pelo desafio, queriam incitar o povo a to­mar nas mãos seu destino. Como o dândi Baudelaire podia dirigir-se ao povo de outra maneira? O humor, aqui, serve para quebrar a incomunicabilidade.

CCLXVI -E VIVA A BURGUESIA !

Com a burguesia, a provocação é inversa; ela utiliza a via irônica da bajulação: "Vós sois a maioria - número e inteligência -, logo, sois a força­ que é a justiça. '" Sois os amigos naturais das artes, porque uns são ricos, outros sábios .... Portanto, é a vós, burgueses, que este livro é naturalmente dedicado, pois todo livro que não se dirige à maioria - número e inteligência - é uma obra tola

CCLXVII - O RISO ANTI BURGUÊS

O pobre burguês é o bode expiatório de todos os humoristas românticos e socialistas. Entre Baudelaire, Musset, Flaubert, Villiers de Usle-Adam, Dau­mier e Proudhon, ele é visto em todas as cores. Enquanto os outros riem, ele enche os bolsos. O riso trocista encontra outro alvo, que se acrescenta à política e à imoralidade: a mediocridade unida à hipocrisia, à auto-satisfação e ao conformismo bem pensante. Que presa fácil para o jovem dândi, para o poeta boêmio, descabelado e drogado, para o intelectual imbuído de seu sa­ber e de seu espírito! O riso irônico do século XIX adquire ares de contestação social. , O burguês é o prato preferido do espírito satírico, que tende a se identi­ficar com a juventude, com a generosidade e com o idealismo. A burguesia não tem defensores nesse terreno. Seus valores são expostos nos sermões e nas pregações, de forma séria; o burguês, mesmo o voltairiano, faz uma ali­ança tática com Deus: dá-Lhe seriamente as honras devidas a sua categoria divina e, em troca, Ele se ocupa da ordem social. Diante disso, só resta aliar­-se ao diabo, mestre da subversão graças a sua arma secreta, o riso.

 

CCLXVIII - DUAS LITERATURAS

Os românticos reabilitam Rabelais, como era de esperar: que figura de proa para espicaçar o burguês! Victor Hugo saúda nele o "Homero do riso", o "Ho­mero bufão", "o príncipe da zombaria épica". O problema para essa intelli­gentsia é conservar a respeitabilidade sem se comprometer com o riso vulgar. Todos distinguem entre o riso besta e o riso fino, espiritualmente irônico e profundo - o seu. Victor Hugo exprime poeticamente esse contraste: "O trocadilho é o estrume do espírito que voa .. Os ditos picantes caem em qual­quer lugar, e o espírito, depois de cometer uma besteira, perde-se no azul. Uma mancha esbranquiçada sobre o rochedo não impede o condor de voar".

Sainte-Beuve opõe a literatura oficial, séria, às conversas privadas, mais livres, nas quais se pode rir, zombar, pilheriar com as obras sérias: "Há duas literaturas: ... uma oficial, escrita, convencional, professada, ciceroniana, admirativa; outra oral, que ocorre em conversas ao pé do fogo, anedótica, zombeteira, irreverente, corrigindo e distorcendo a primeira, morrendo, qua­se sempre, com seus contemporâneos". Logo, é preciso divertir-se entre si e preservar a seriedade em público e nos escritos. Afinal, são os burgueses que os compram, e é preciso viver. Baudelaire expressa isso cinicamente:

 

 

CCLXVIII - MANDA QUEM PAGA

"O burguês é muito respeitável; porque é preciso agradar àquele à custa de quem se quer viver". Assim fazem os jornalistas, comenta Balzac: esses mentirosos profissionais, autores de pomposos artigos que defendem, com seriedade, opiniões para o público, mantêm, entre si, alegres conciliábulos. Não são admiráveis "todos esses paradoxos insensatos, mas espiritualmen­te revelados, por meio dos quais os jornalistas se divertem entre si, quando não há ninguém para mistificar"? Baudelaire sente falta das alegres reuniões literárias da época dos libertinos do século XVI!. Agora, cada um foi para seu lado, e o poeta, "às vezes, fica muito cansado com seu ofício". Então, bebe e fuma. Um déficit de riso, compensado pelo álcool e pela droga.

 

CCLXIX - MAIS UMA VEZ A IRONIA COMO LIBERTAÇÃO

O riso em liberdade é o riso libertador, e os românticos o praticaram largamente. Para Novalis, a ironia é uma forma de dominar a matéria: "A ironia consiste na gravidade mais profunda unida ao gosto da brincadeira e da verdadeira alegria. Ela não é só zombaria nem desprezo nem chalaça nem vaia, nada do que se costuma designar, habitualmente, por esse nome, 'ironia'. Longe de ser uma virtude negativa, é essencialmente positiva. Re­presenta a faculdade do poeta de dominar a matéria". Théophile Gautier sonha com um riso delirante que seria totalmente livre, o simples prazer de dizer bobagens e usufruí-Ias: "Tudo se ata e se desata com uma negligência admirável: os efeitos não têm causa, e as causas não têm efeito; o persona­gem mais espiritual é aquele que diz mais besteiras, e o mais tolo diz as coisas mais espirituais" .

O que não significa que se possa rir de tudo. O próprio Gautier escreve, em 1841, depois de ver o espetáculo burlesco Os amores de Psyqué: "Em geral, não gostamos de ver nenhuma mitologia ser tratada de forma irreverente". Para ele, os deuses mitológicos correspondem a verdades profundas que não devem ser ridicularizadas: "Esses símbolos não podem ser totalmente abolidos; eles têm seu lugar em nossos costumes, em nossa poesia, em nossa pintura, em nossa estatuária".

 

CCLXX -O RISO ROMÂNTICO

Os risos românticos são variados, às vezes tristes, sempre irônicos, por­que a ironia, para essa geração, é a maneira essencial pela qual o homem se relaciona com o mundo, é o reconhecimento do abismo intransponível que existe entre o sujeito e o universo. A ironia não poderia existir se o homem se ajustasse ao mundo.

O riso romântico é o consolo do homem prisioneiro de um mundo que ele ama, apesar de tudo. O mundo é miséria, sofrimento, caos do qual não se pode escapar. Então, o riso protege contra a angústia, ao mesmo tempo que a expressa. Ele é alegria e protesto. O grande mistério é o da morte que nos espreita zombando, com suas órbitas vazias e um sorriso de desafio. O que fazer? Rir ou perder a face. Para Chateaubriand, os dentes da morte, nesse sorriso agressivo, parecem convidar-nos a rir da vida. "De que eles zombam? Do nada ou da vida, '" que é apenas uma solene palhaçada?"

 

CCLXXI - VICTOR HUGO E “O HOMEM QUE RI

Depois, há o grande Victor Hugo e suas visões fulgurantes que ele fixa em fórmulas imortais, como clichês instantâneos roubados da inti­midade do ser. Mais que as análises dos filósofos, suas intuições geniais voltam-se para a natureza do riso. O poeta lhe atribui um papel demiúrgico: ele vê "na criação uma imensa gargalhada". Esse riso é divino ou diabólico? Isso permanece um mistério. "Eu rio com esse velho maquinista, o desti­no", e toda a sua obra ilustra a ambigüidade do riso, que está no centro da vida. A bem dizer, o riso hugoano quase sempre tem um eco sinistro e avermelhado, como no inferno. Ele testemunha o riso lúbrico, que rebaixa ao nível do animal, fazendo com que o velho fauno ria; testemunha os risos de desprezo que acabrunham a feiúra, como esses deuses do Parnaso que zombam do sátiro peludo, cornudo e manco em A legenda dos séculos: Assim os deuses zombam do pobre camponês. No espetáculo da miséria do mun­do, o que sempre se ouve? Uma longa gargalhada".

 

CCLXXII - O RISO TEM SEMPRE UM ASPECTO IMPIEDOSO: ELE REJEITA, EXCLUI, AGRIDE.

"O homem que ri" é uma parábola sobre a ambigüidade satânica do riso. O pequeno lorde Gwynplayne, raptado de sua família, foi desfigurado: as bochechas foram cortadas, prolongando a boca, e seu rosto passou a ostentar um riso imóvel, monstruoso, assustador. Assim, o riso é uma de­formação odiosa do rosto, e somente seu caráter efêmero o torna suportá­vel; em um clarão aparece a face do diabo, que desaparece assim que é percebida. O riso congelado é a fealdade, a máscara da morte e de Satã, "a sombria máscara morta da comédia antiga fixada num homem vivo ... a cabeça de uma hilaridade infernal", escreve Hugo. Desfigurado pelo riso, o pobre lorde é exposto ao riso impiedoso dos outros, tanto do populacho como dos lordes. Depois de muitas peripécias, ele recupera sua categoria, mas o amor lhe é proibido. Ele se vinga da sociedade suicidando-se. O riso conduz à destruição e à morte. Se a criação é "uma imensa gargalhada", e é divina, isso significa que Deus zomba de nós? A não ser, como o crêem os maniqueístas, que este mundo seja uma gargalhada demoníaca.

 

 

CCLXXIII - O MUNDO MODERNO CRIA O GROTESCO E O BUFÃO

Seja como for, o mundo é grotesco, mistura íntima de beleza e feiúra, de alegria e sofrimento, de esperança e medo. O riso que nasce da tomada de consciência desse grotesco não poderia ser puro. Ele advém do senti­mento profundo da cisão do ser, e é por isso que a arte, que reproduz a vida, encontra a mais perfeita expressão no grotesco. É essa a teoria de Hugo em Prefácio de Cromwell. Para ele, o sentido do grotesco nasceu quan­do a unidade original do mundo grego foi quebrada. Então apareceu o espírito moderno, baseado na separação entre corpo e alma, espírito e matéria, cômico e trágico: "No pensamento dos modernos, o grotesco tem um papel imenso. Está por toda parte; de um lado, ele cria o disforme e o horrível; de outro, o cômico e o bufão".

 

CCLXXIV - COMER, RIR E MORRER

De passagem, Hugo rende homenagem a Rabelais, que "fez esse gran­de achado: o ventre ... Há uma voragem no comilão. Comei, pois, senho­res, e bebei e terminai. Viver é uma canção da qual a morte é o refrão". Foi Shakespeare quem criou o drama moderno, misturando o "terrível e o bufão" , "ora lançando o riso, ora o horror na tragédia", tal como Hugo, para aproxi­mar os contrários, Quasímodo e Esmeralda. Lembrando a frase de Napo­leão "Do sublime ao ridículo só há um passo", ele ilustra, com numerosos exemplos, a pequenez e a grandeza de homens ilustres. Não faltam fórmu­las que resumam a grandeza e a miséria da condição humana, desde a pala­vra do juiz em História de um crime - morte, e vamos jantar" - até a expressão da angústia moderna em um humor de escrevinhador: "De onde viemos? Para onde vamos? A que hora vamos comer?"

 

CCLXXV - OS QUE RIEM SÃO TRISTES

O grotesco da existência gera, segundo Hugo, uma dialética do riso e da tristeza. No próprio seio da tragédia, o riso tem sempre lugar: "Como conceber um acontecimento, por mais terrível e limitado que seja, em que não somente os principais atores não tenham um sorriso nos lábios, de sarcasmo ou de ironia, mas também em que não haja ninguém, do príncipe ao confidente, que tenha um acesso de riso e de natureza humana? " Inver­samente, os que passam a vida a rir do mundo são profundamente tristes:

 

CCLXXVI - O MUNDO DO NONSENSE

Mas o diabo, por sua vez, envelheceu. O espírito positivista e cientista também não cessa de progredir. Destruidor de mitos, ele extermina tanto as crenças diabólicas como as divinas, e o destino desses dois super-ho­mens está ligado: quando "Deus está morto", o diabo não demora muito para morrer. É claro que seus fantasmas vão pairar por muito tempo, vei­culados por palavras cada vez mais vazias de sentido. A morte do diabo não é a morte do riso, mas anuncia a era do nonsense, do absurdo, do niilis­mo. Se o mundo não é nem divino nem diabólico, se o "por quê?" não tem mais sentido, que pilhéria! Na segunda metade do século XIX, emerge o riso do nonsense absoluto. O mundo não é mais grotesco, é insensato.

Se ainda se ri, é um pouco o riso do condenado à morte, que, aliás, fascina Dostoievski. É um riso de desintegração. Agora, cada nova descober­ta revela ao homem como ele é pequeno, como ele é nada. Darwin o reduz a um descendente de macacos. Einstein e Planck expulsam a bela mecânica cosmológica e física, Freud desvaloriza seus desejos abrindo a lixeira do inconsciente: "Que gargalhada deve ter dado Édipo quando descobriu que matou papai e dormiu com mamãe!", escreve Jean Duvignaud. Até onde desceremos? Whitehead constata, no início do século xx: "Os maiores pro­gressos da civilização são processos que, de repente, destroem as socieda­des no seio das quais eles se produzem". Se o mundo é apenas uma garga­lhada divina, não é possível que ela morra numa explosão de riso apocalíptico?

CCLXXVII - RISOS FIM-DE-SÉCULO: OS ZUTISTAS, OS FUMISTAS E OS j'MENFOUTISTES

Cômicos do absurdo, niilistas do burlesco, os fumistas, os zutistas, os incoerentes e outros grupos fazem do fim do século XIX uma apoteose do riso insensato. Fim de século é o título de um hebdomadário criado em 1891 cujo objetivo é zombar de tudo. Ele se diz "j'menfoutiste" (sarrista), e entre seus colaboradores figuram Alphonse Allais, lules Renard, Georges Cour­teline, Tristan Bernard. Logo se juntam a ele A Bandalha, O Sorriso, A Vida Engraçada, A Brincadeira, A Vida para Rir, Paris Cômica, A Crônica Divertida. O século termina com o riso e a derrisão. Em outubro de 1878, Émile Gou­deau funda, com alguns estudantes do Quartier Latin, o Clube dos Hidro­patas, que publica uma revista de mesmo nome. Eis-nos em plena mistifi­cação! Os hidropatas criam para o nome uma etimologia fantasiosa - animal de patas de cristal -, ao passo que o termo designa a pessoa que trata de doenças por meio da água. O clube só dura dois anos, mas é possível encon­trar parte de seus membros em associações como Hirsutos e J'menfoutistes. Em 1882, um deles, lules Lévy, organiza um salão artístico dos incoerentes, enquanto Charles Cros funda os zutistas.

Os incoerentes exploram a crônica durante uma dezena de anos, culti­vando a mistificação e a paródia. Na exposição de 1884, por exemplo, figura um quadro intitulado O porco traçado por Van Dyck: nele, vê-se o pintor de cos­tas, que traça um porco, de forma, afirma o catálogo, "que não se pode dizer se o retrato do porco releva a arte ou o animal".

 

CCLXXVIII -JORNAIS DE HUMOR              

O desenvolvimento da imprensa diária, cujas tiragens atingem Índi­ces inigualáveis até então e alcançam a classe média - em plena expansão e possuindo um mínimo de cultura clássica e livresca graças ao ensino gratuito -, contribui muito para popularizar o uso de palavras espirituo­sas, máximas cômicas, histórias engraçadas, fábulas curtas, paródias de versos clássicos.

O Album Zutique faz disso sua alegria. Assim, na paródia de Tristão   Isolda, Tristão declama versos monos silábicos:

Isto é a

tua bunda?

A morte dos amantes, de Baudelaire, torna-se A morte dos leitões, na pena de Léon Valade e Paul Verlaine. A estrofe seguinte do poema:

Teremos leitos plenos de odores sutis, Divâs profundos como as tumbas

E estranhas flores nas prateleiras, Desabrochadas sob os céus mais belos.

Nós fungaremos nos chiqueiros, Grunhiremos longe dos lavabos

E mamaremos as águas servidas Com o risco de ter processos verbais.

Muito semelhante ao Agamenon , do Globo,de hoje. Nada se cria, tudo se copia.

 

CCLXXIX - O CASSETA CONTINUA

O Soneto dos seios, de Albert Mérat, desce alguns pontos na anatomia para tornar-se o Soneto do buraco do eu, de Verlaine e Rimbaud. A ininteli­gibilidade do mundo é expressa em fórmulas breves que descem o marte­lo do nonsense em falsas evidências e desarticulam a lógica, desde a cons­tatação de Erik Satie - "O mar está cheio de água. Não há nada a compreender" - até a de ]oseph Prudhomme: "Não gosto de espinafre. Felizmente! Porque, se gostasse, o comeria; ora, eu o detesto". A dialéti­ca morde a própria cauda. Os zutistas e seus semelhantes retiram de cir­culação tudo o que é lógico, evidente, nobre, transcendente. Fazem bura­cos no tecido das falsas evidências que nos cercam, e esses buracos terminam em enigmas. As modernas fórmulas jornalísticas evidenciam esses mitos; o desfile rápido e heteróclito das "novidades" ressalta o non­sense da comédia humana, a incoerência desse formigueiro derrisório. A mistura de gêneros desintegra a lógica, desqualifica a noção de importân­cia. Félix Fénéon, jornalista do Manhã a partir de 1906, é mestre no gêne­ro: "Ele soube introduzir o noticiário sobre crimes no território das be­las-letras e, ao mesmo tempo, na era da suspeita".

 

CCLXXX- O CÔMICO SACANEIA COM TUDO

Os casos aparentemente mais dramáticos não escapam à desvaloriza­ção cômica. O caso Dreyfus, por exemplo, transforma-se, na pena de Al­phonse Allais, em O caso Blaireau, história de um caçador que é preso injus­tamente. O relato, ridículo, não toma posição sobre a essência do caso. Para Daniel Grojnowski, "a questão dos direitos humanos não se coloca para ele, porque os imperativos éticos são substituídos pelo princípio de uma equi­valência criadora de equívocos .... Alphonse Allais, fiel a seu anarquismo mistificador, apaga as pistas e alinhava uma história de erro judiciário razoa­velmente inepta e inflada, cujo herói, ao final de sua desgraça, pensa em abrir, diante do tribunal, um pequeno café que denominará 'Encontro dos inocentes' .... O nada, em suas diversas opiniões, se amplia com outras tantas baboseiras ... Será que isso quer dizer que nada vale a pena, que é preciso construir uma indiferença de princípios em relação a tudo o que acontece, por causa de um 'para quê?' reivindicado, no fim do século, pelo grupo efêmero dos j'menfoutistes?"87

Há um século, muitos responderiam afirmativamente. Assim como os colaboradores do Grand Guignol, criado em 1897 por Oscar Meténier, espe­cializado em peças de horror, misturando o assustador à farsa, não recuan­do diante do mau gosto nem diante do desvio nem da histeria e praticando a derrisão universal. Entre eles, Georges Courteline, o homem que gostava de passear com um chapéu que ostentava os seguintes dizeres: "Não acredi­to em uma palavra dessas histórias" e que explicava isso assim: "Que histó­rias? Todas essas histórias! Os homens, as mulheres, os amigos, a sabedo­ria, as virtudes, a experiência, os juízes, os padres, os médicos, o bem, o mal, o falso, o verdadeiro, as coisas sobre as quais nos dizem: 'Praticai-as', aquelas sobre as quais nos dizem: 'Não as pratiqueis' et coetera et coetera. Eu paro por aqui, porque tenho a preocupação - sou tão idiota a ponto de fazer isso - de não me fazer notar por pessoas que não conheço".